
Sidney Sheldon
e
Tilly Bagshawe
continuam a saga da famlia Blackwell
de O reverso da medalha



A senhora do Jogo







SIDNEY SHELDOM
e TILLY BAGSHAWE
18 edio

Traduo de
  MICHELE GERHARDT MACCULLOCH
  EDITORA RECORD
  RIO DE JANEIRO o SO PAULO
  2010

  CIP-BRASIL. CATALOGAO-NA-FONTE
  SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

  Sheldon, Sidney, 1917-2007
    S548s        A senhora do jogo / Sidney Sheldon, Tilly Bagshawe; traduo Michele 18 ed. Gerhardt. - 18 ed. - Rio de Janeiro: Record, 2010.
  Traduo de: Mistress of the game Sequncia de: O reverso da medalha
  ISBN 978-85-01-08851-2

  
1. Romance americano. Bagshawe, Tilly. II. Gerhardt, Michele. III. Ttulo.
2. 
CDD: 09-50303813
  CDU: 09-5303        CDU: 821.111(73)-3

  
Para Alexandra Sheldon, com amor e gratido
  Ttulo original em ingls:
  SIDNEY SHELDON'S - THE MISTRESS OF THE GAME
  Copyright (c) 2009 by Sidney Sheldon Family Limited Partnership
  Texto revisado segundo o novo Acordo Ortogrfico da Lngua Portuguesa.
  Todos os direitos reservados. Proibida a reproduo, no todo ou em parte, atravs de quaisquer meios.
  Direitos exclusivos de publicao em lngua portuguesa somente para o Brasil adquiridos pela EDITORA RECORD LTDA.
  Rua Argentina 171 - Rio de Janeiro, RJ - 20921-380 - Tel.: 2585-2000 que se reserva a propriedade literria desta traduo
  Impresso no Brasil ISBN 971-8501-08851-2
ISBN 978-85-01-08851-2        EDITORA AFILIADA
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  PRLOGO
  AS MOS DE LEXI TEMPLETON tremiam enquanto lia a carta.
  Sentada na cama, vestida de noiva, no que um dia fora o quarto da sua bisav, sua gil mente estava a mil.
  Pense. Voc no tem muito tempo.
  O que Kate Blackwell teria feito?
  Aos 41 anos, Lexi Templeton ainda era uma mulher bonita. O sedoso cabelo louro no tinha nenhum fio branco, e o corpo esbelto e pequeno no mostrava nenhum sinal 
da recente gravidez. Prometera a si mesma que recuperaria o corpo monumental antes do casamento. Queria fazer justia ao vestido vintage de Monique Lhullier, um 
modelo coluna apertado da melhor renda marfim, quase branca.
  E fizera.
  Mais cedo, por volta de cem convidados reunidos em Cedar Hill House, a lendria propriedade da famlia Blackwell no Maine, prenderam a respirao quando Lexi Templeton 
apareceu no gramado de brao dado com seu pai. A bela e a fera. Peter Templeton, pai de Lexi, que j fora um renomado psiquiatra e um dos solteires mais cobiados 
de Nova York, agora era um homem velho. Frgil, arqueado por causa da idade e do sofrimento, Peter Templeton conduziu sua linda filha ao altar coberto de rosas.
  Ele pensou: agora eu posso ir. Agora posso ir me juntar  minha querida Alexandra. Nossa menininha finalmente est feliz.
  Ele estava certo. Lexi Templeton estava feliz. Sabia que estava deslumbrante. Estava se casando com o homem que amava, cercada pela famlia e pelos amigos. S 
estava faltando uma pessoa. Essa pessoa nunca mais testemunharia nenhuma conquista de Lexi. Ele nunca mais se alegraria com outro de seus fracassos. A vida dele 
e a de Lexi estavam entrecruzadas desde que nasceram, como razes de uma enorme rvore. Mas agora ele se fora, para nunca mais voltar. Apesar de tudo que tinha acontecido, 
Lexi sentia saudades dele.
  Voc est me vendo, Max querido? Est assistindo? Agora, sente pena de mim?
  Por um momento, Lexi Templeton sentiu uma pontada de tristeza por causa da perda. Ento, olhou para seu futuro marido, e todos os desgostos evaporaram. Hoje seria 
perfeito. O clich. O conto de fadas. O dia mais feliz de sua vida.
  O presidente dos Estados Unidos no pde comparecer ao casamento. Havia um pequeno conflito no Oriente Mdio. Mas enviou um telegrama parabenizando-a, lido em 
voz alta pelo irmo de Lexi, Robbie, quando os recm-casados cortaram o bolo. E todo o resto do mundo estava l. Presidentes de indstrias, primeiros-ministros, 
reis, astros e estrelas do cinema. Como presidente da poderosa Kruger-Brent Ltda., Lexi Templeton era uma celebridade norte-americana. Parecia uma rainha porque 
era uma rainha. Tinha tudo: indiscutvel beleza, imensa fortuna e poder que se estendia aos quatro cantos do mundo. Agora, graas a seu novo marido, tambm tinha 
amor.
  Mas tambm tinha inimigos. Inimigos poderosos. Um dos quais estava determinado a destru-la, mesmo do tmulo.
  Lexi leu a carta de novo.
  "Eu sei o que voc fez. Eu sei de tudo."
  A teia estava se fechando. Lexi sentiu o medo revirar em seu estmago como leite estragado. Tem de haver um jeito de sair dessa. Sempre existe um jeito. Eu no 
vou para a priso. No vou perder a Kruger-Brent. No vou perder a minha famlia. Pense!
  Algumas horas antes, na recepo, o governador do Maine tinha feito um discurso sobre Lexi.
  "... uma mulher notvel, de uma famlia notvel. Todos conhecemos a coragem e a integridade de Lexi Templeton. Sua fora, sua determinao, seu tino para os negcios, 
sua honestidade..."
 Honestidade? Se eles soubessem!
  "... essas so as caractersticas da Lexi Templeton pblica. Mas hoje estamos aqui para outra celebrao. Uma alegria particular. Um amor particular. E um amor 
que aqueles de ns que conhecem Lexi sabem que ela muito merece?"
  Lexi pensou: nenhum de vocs me conhece. Nem mesmo meu marido. Eu no "mereo" o amor dele. Mas batalhei por ele e o conquistei, e no vou deixar ningum tir-lo 
de mim. Muito menos voc.
  Agora, a maioria dos convidados tinha ido embora. Robbie e seu acompanhante ainda estavam no andar debaixo. Assim como a filhinha de Lexi, Maxine, e a bab. A 
qualquer momento seu marido viria procur-la. Estava na hora de partir para a lua de mel. Estava na hora...
  Lexi Templeton foi at a janela. Alm dos perfeitos grafados de Cedar Hill House, podia ver os vrios telhados brancos de Dark Harbor e, atrs deles, o mar escuro 
e sombrio. Nesta noite, as rebeldes guas pareciam ainda mais ameaadoras.
  Esto esperando. Um dia, elas vo engolir toda a ilha. Uma grande onda vir e levar tudo. Como se nada disso jamais tivesse existido.
  Dois homens de terno saram do carro e se aproximaram da guarita. Mesmo antes de eles mostrarem seus distintivos, Lexi sabia quem eram. Era exatamente como a carta 
dizia: "A polcia est a caminho. Voc no tem como fugir, Alexandra. No desta vez."
  Lgrimas encheram os olhos de Lexi. Podia ouvir a voz de sua tia Eve como se ainda estivesse viva, provocando-a, carregada de dio. Ela estava certa? Era realmente 
isso? O final do jogo? Depois de todos os esforos de Lexi? Lembrou-se de um poema de Dylan Thomas que aprendera na escola: "No entre to depressa nessa noite escura. 
Ira, ira de encontro ao fenecer da alvura."
  Soltarei minha ira, com certeza. No permitirei que aquela bruxa velha me vena sem lutar.
  Os policiais estavam atravessando o porto agora. Estavam quase na porta.
  Lexi Templeton respirou fundo e desceu para receb-los.

  Dark Harbor, Maine. 1984

  Captulo  1
  ATRAVS DOS GALHOS, Danny Corretti olhou para as agitadas pessoas embaixo e sentiu uma onda de vertigem.
  - Que diabos estamos fazendo aqui?
  Fechando os olhos, ele segurou com mais fora o galho da antiga rvore garantindo que ele e sua cmera continuassem escondidos na densa folhagem verde.
  - Ganhando dinheiro - sussurrou seu colega, excitado. - Olhe, ela est ali!
  - Onde?
  Seguindo a linha de viso de seu amigo, Danny Corretti ajustou o zoom em uma figura no meio da multido de luto. Vestida de preto da cabea aos ps, co um manto 
de renda que caa at o cho cobrindo o seu terninho Dior de corte impecvel, era impossvel ver seu rosto. Poderia ser qualquer pessoa. Mas ela no era qualquer 
pessoa.
  - Est brincando comigo? - Danny Corretti franziu a testa. Abaixo dele, o cemitrio parecia balanar ameaadoramente, os antigos tmulos subindo e descendo. Cavalos 
em um carrossel desagradvel. - No consigo ver nada. Tem certeza de que  ela? Poderia ser Johnny Carson embaixo de toda aquela renda.
  Seu colega sorriu.
  - No com aquela bunda. Tenho certeza de que  ela.
  Da rvore  sua esquerda, Danny Corretti escutou os diques da cmera de seu rival. Focalizou mais uma vez o zoom e comeou a fotografar.
  Vamos, doura. D um sorrisinho para o papai.
  Uma boa foto do rosto de Eve Blackwell poderia valer uns cem mil para o fotgrafo que a conseguisse primeiro. Qualquer um que fosse capaz de capturar a barriga 
proeminente poderia esperar ganhar o dobro disso.
  Duzentas mil pratas!
  Talvez no fosse muito dinheiro para os Blackwell, herdeiros da multibilionria Kruger-Brent Ltda.- o imprio de diamantes que se transformara em um conglomerado 
tornara a famlia a mais rica dos Estados Unidos; mas era uma fortuna para Danny Corretti. Foram os Blackwell que trouxeram Danny e outros paparazzi ao cemitrio 
de St. Stephen nesta manh gelada de fevereiro. Eles vieram enterrar a matriarca da famlia, Kate Blackwell, que morrera na avanada idade de 92 anos.
  Olhe para eles. Parecem moscas-varejeiras voando em volta do corpo da velha senhora. Repugnante.
  Danny Corretti sentiu-se nauseado de novo, mas tentou no dar ateno a isso - nem  intensa dor nas costas depois de passar seis horas em cima de uma rvore. 
Sua vontade era se esticar, mas no ousava mexer um msculo sequer, para no arriscar ser visto pelos seguranas da Kruger-Brent. Observando as silhuetas taciturnas 
dos ex-fuzileiros navais vestidos de preto que andavam por todo o permetro do cemitrio, com suas armas grudadas ao peito como objetos de estimao, Danny Corretti 
sentiu uma pontada de medo. Duvidava que Kate Blackwell tivesse contratado algum deles por causa do senso de humor.
  Voc vai ficar bem. S precisa conseguir a foto e dar o fora daqui. Vamos Eve, doura. Olhe o passarinho.
  Danny Corretti realmente no fora feito para esse tipo de trabalho. Um homem alto e magro, com pernas sobrenaturalmente compridas e cabelos muito louros, quase 
brancos, por cima de sua pele italiana azeitonada, no havia muitos lugares no cemitrio de Maine capazes de esconder seu corpo e 1,90 m. A velha rvore fora a melhor 
opo, mas ele tivera de chegar absurdamente cedo para superar seus rivais e conseguir m lugar estratgico e to cobiado. Agarrado aos galhos mais altos agora, 
cada tendo de seu corpo parecia em chamas, apesar do dia extremamente frio. Rangeu os dentes, amaldioando suas longas pernas.
  Pense no dinheiro.
  Ironicamente, se no fosse por causa de suas pernas compridas, Danny nem estaria nesta procisso maluca.
  Se no fossem suas pernas compridas, o marido de sua amante nunca teria visto seus ps tamanho 44 sob a cama de casal.
  Ah, cara. Deus, ela era linda!
  Aqueles seios, to macios e suculentos quanto dois pssegos maduros. Nenhum homem conseguia resistir a ela. Se aquele bruta montes com quem ela se casou no tivesse 
sado mais cedo do trabalho...
  Foram as pernas compridas de Danny que fizeram que levasse uma surra de quebrar ossos e fosse parar no hospital pblico (sem plano de sade). Graas s suas pernas 
compridas, sua esposa Loretta descobrira o caso, se divorciara dele e ficara com a casa. Agora, graas s suas pernas compridas, o advogado com cara de rato de Loretta 
estava exigindo que Danny pagasse uma penso de mil dlares por ms.
  Mil dlares? Quem eles pensavam que ele era, o maldito Donald Trump?
  Sim, toda a culpa por sua difcil situao atual era de suas pernas compridas. Por que outro motivo passaria uma manh de domingo apertado e congelando em cima 
de uma rvore de 400 anos em um cemitrio, arriscando o pescoo por uma msera foto da mulher que os tablides apelidaram de "A Fera dos Blackwell"?
  As pernas compridas de Danny Corretti tinham muito pelo que responder.
  Ele ia conseguir a foto de Eve Blackwell mesmo que isso acabasse com ele.

  A VOZ DO PADRE ECOAVA pelo ar gelado de fevereiro, intensa, forte e poderosa.
  - Deus misericordioso, o Senhor conhece o tormento dos pesarosos...
  Por trs do grosso vu, Eve Blackwell riu com desdm. Pesaroso? Ver aquela bruxa velha morta e enterrada? Por favor. Se eu fosse dez anos mais nova, estaria dando 
pulos de alegria.
  Hoje, Eve estava enterrando uma de suas inimigas. Mas no descansaria at enterrar todos eles.
  Uma j tinha ido, faltavam trs.
  - O Senhor escuta as oraes dos humildes...
  Eve Blackwell olhou em volta para o pequeno grupo de familiares e amigos que tinham vindo se despedir de sua av Kate, e se perguntou se algum deles poderia ser 
descrito como humilde.
  Sua irm gmea idntica, Alexandra, estava ali. Aos 34 anos, ela ainda era linda, com as mas do rosto salientes, cabelo louro e os deslumbrantes olhos cinza 
que herdara do bisav, fundador da Kruger-Brent, Jamie McGregor.
  Eve estreitou os olhos com dio. O mesmo dio que sentia pela irm desde o dia em que nasceram.
  - Mas        Como ousa! Como minha irm ousa ainda ser linda!
  Alexandra chorava copiosamente, segurando com fora a mo de seu filho, Robert. O menino louro, delicado e doce de 10 anos era uma cpia de sua me. Um pianista 
talentoso, ele era o preferido de Kate Blackwell e herdeiro da Kruger-Brent.
  No por muito tempo, pensou Eve. Vamos ver quanto tempo o garoto vai durar sem Kate por perto para proteg-lo.
  Eve Blackwell sentiu um aperto no peito. Como odiava os dois, me e filho, e suas lgrimas de crocodilo! Se ao menos fosse o corpo de Alexandra a ser colocado 
naquele buraco de terra gelada. Ento, a felicidade de Eve seria realmente completa.
  Ao lado de Alexandra, estava seu marido, o famoso psiquiatra Peter Templeton. Alto, moreno, bonito, com olhos azuis, Peter Templeton parecia mais um atleta do 
que um psiquiatra. Ele e Alexandra formavam um lindo casal. Peter j fora arrogante o suficiente para achar que compreendia Eve. Acreditava que podia ver atravs 
dela, at o mago do dio que borbulhava dentro dela. Alexandra, com toda a sua bondade, nunca conseguira ver o quanto sua irm gmea a odiava. Mas seu marido via.
  Eve sorriu.
  Tolo e intil. Ele acha que me conhece, mas no consegue vislumbrar mais que a superfcie.
  No, Peter Templeton no era humilde.
  E seu prprio marido, o famoso cirurgio plstico Keith Webster? Muitas pessoas o viam como uma pessoa humilde. Eve podia ouvir os gratos pacientes dele: "O querido 
Dr. Webster, cirurgio talentoso, mas to tmido e modesto em relao ao seu dom." Eve sentiu um arrepio quando Keith envolveu seus ombro com um brao marital e 
protetor.
  Protetor? Ele no  protetor.  possessivo. E psictico. Me chantageou para casar, depois deliberadamente destruiu meu rosto, mutilando minhas lindas feies e 
me transformando neste monstro. Tudo para que eu no o deixasse.
  Um dia vou fazer o desgraado pagar pelo que fez.
  Eve Blackwell era muitas coisas, mas no era burra. Sabia que as rvores e moitas em volta da igreja St. Stephen estavam cheias de fotgrafos, e sabia o porqu: 
todos queriam uma foto de seu espantoso rosto desfigurado.
  Bem, podiam ir todos para o inferno. Por trs, ainda era possvel ver o corpo perfeito e feminino de Eve. Mas a parte da frente estava escondida. Nenhuma lente 
no mundo conseguiria penetrar o espesso vu de renda tecida a mo. Eve se certificou disso.
  Um dia famosa por sua beleza, nos ltimos anos Eve Blackwell se transformara em uma prisioneira em sua cobertura em Manhattan, com medo de mostrar ao mundo seu 
rosto coberto por cicatrizes monstruosas. Na verdade, no era vista em pblico havia dois anos. A ltima vez fora na festa de aniversrio de 90 anos da av em Cedar 
Hill House, a Camelot particular da famlia, a poucos metros de onde a velha mulher estava sendo enterrada para o repouso eterno.
  Kate Blackwell tinha sorte. Fora se juntar aos seus amados fantasmas: Jamie, Margaret, Banda, David, e os espritos do passado africano longo e violento da Kruger-Brent. 
Mas Eve no teria tal descanso. Com os boatos j circulando sobre sua gravidez ambas, Eve e Alexandra Blackwell, estavam grvidas, embora a famlia se recusasse 
a confirmar para a imprensa-, Eve tinha plena conscincia de que o preo de sua cabea tinha dobrado. No havia um editor de tablide dos Estados Unidos que no 
venderia a alma por uma foto mais ou menos decente da Fera dos Blackwell carregando um filho.
  E pensar que eles me chamam de monstro...
  - Senhor, escute o Seu povo, que implora em necessidade...
  Eve observou silenciosamente o caixo de Kate Blackwell, baixar no tmulo recm-aberto. Brad Rogers, o nmero dois de Kate na Kruger-Brent por trs dcadas, abafou 
um soluo. Ele mesmo, um homem bastante velho agora, com cabelos to brancos e finos quanto a neve embaixo de seus ps, estavam completamente arrasados com a morte 
de Kate. Ele a amara em segredo durante anos. Mas fora um amor que nunca conseguiu retribuir.
  Como ela est pequena!, pensou Eve, e quando a pattica caixa de madeira desaparecia nas profundezas da terra. Kate Blackwell, que fora gigante quando viva, respeitada 
por presidentes e reis, parecia insignificante no final.
  No vai ser um bom banquete para os vermes de sua amada Dark Harbor, vai, vov?
  Durante anos, Kate Blackwell fora nmeses de Eve. Fizera tudo ao seu alcance para evitar que sua neta malvada lhe atingisse seu objetivo na vida: assumir o controle 
da empresa da famlia, a poderosa Kruger-Brent.
  Mas agora Kate Blackwell se fora.
  - Garanta seu descanso eterno, oh, pai, e que sua luz perptua brilhe sobre ela.
   J vai tarde, sua bruxa velha e vingativa. Espero que apodrea no inferno.
  - Que ela descanse em paz.

  Danny Corretti olhou infeliz os negativos na sua frente. Suas costas ainda o estavam matando depois dessa manh, e agora ele sentia uma enxaqueca se aproximando.
  - Conseguiu alguma coisa?
  Seu amigo tentou parecer esperanoso. Mas j sabia a resposta.
  Nenhum deles conseguira a foto de duzentos mil dlares.
  Eve Blackwell fora mais esperta que todos.

  Captulo 2

   NA MATERNIDADE DO Mount Sinai Medical Center em Nova York, a enfermeira Gaynor Matthews observou o bonito pai de meia-idade pegar pela primeira vez a filha recm-nascida 
nos braos.
  Ele fitava a beb, indiferente a tudo mais ao redor. A enfermeira Matthews pensou: Ele est maravilhado com sua beleza. 
   Matthews era uma agradvel enfermeira gorducha, com o rosto redondo e simptico e um sorriso pronto que acentuava as linhas ao redor de seus olhos. Parteira h 
mais de uma dcada, j vira esse momento se repetir milhares de vezes - centenas delas neste mesmo quarto -, mas nunca se cansava. Pais maravilhados,  os olhos embevecidos 
de amor, do tipo mais puro que algum pode sentir. Momentos como este faziam seu trabalho como parteira valer a pena. Valer as exaustivas horas. Valer o salrio 
baixo.  Valer os obstetras arrogantes que se viam como deuses, porque tinham um diploma de mdico e um pnis.
  Valer a pena os raros momentos de tragdia.
  O pai acariciou com gentileza o rosto do beb. Era um homem bonito, observou a enfermeira Matthews. Alto, moreno, ombros largos, um atleta clssico. Exatamente 
como ela gostava.
   Corou. O que estava fazendo? No tinha o direito de pensar nessas coisas. No em uma hora como esta.
   O pai pensou: Jesus Cristo. Ela  to parecida com a me.
  Era verdade. A pele da menininha tinha a mesma delicadeza, a mesma transparncia da pele da garota por quem se apaixonara tantos anos atrs. Seus grandes olhos 
inquisitivos tinham o mesmo tom cinza-claro, como a nvoa da manh vindo do oceano. At seu queixo com covinha era uma miniatura do da me. Por uma frao de segundo, 
o corao do pai acelerou ao ver a filha, um sorriso involuntrio brincando em seus lbios.
   Sua filha. A filha deles. To pequena. To perfeita. Ento, viu sangue em suas mos.
   E gritou.

   ALEX ESTIVERA TO animada naquela manh quando Peter a levou para o hospital.
  - Consegue acreditar que daqui a poucas horas ela estar aqui?
  Ela estava de pijama, o longo cabelo louro descabelado depois de uma noite de sono interrompida, mas, para Peter, ela nunca estivera mais radiante. Havia um sorriso 
maior do que o Lincoln Tunnel em seu rosto, e se estava nervosa, no demonstrava.
    -        Finalmente, vamos conhec-la!
    - Ou conhec-lo. - Ele esticou o brao e apertou a mo da esposa.
    - De forma alguma.  uma menina. Eu sei.
  Ela acordara s 6 horas com contraes fracas, e insistiu em esperar mais duas horas antes de permitir que ele a levasse para o Mount Sinai. Duas horas em que 
Peter Templeton subira e descera as escadas da casa deles em West Village 16 vezes, preparara quatro xcaras de caf rejeitadas, queimara trs torradas e gritara 
com o filho Robert por no estar pronto para a estada a tempo, antes de a empregada lembrar-lhe que estavam no meio de julho e que o garoto estava de frias havia 
cinco semanas.
   At no hospital, Peter andou em vo de um lado para o outro como uma galinha.
   - Quer alguma coisa? Uma toalha quente?
   - Estou bem.
    - gua?
   - No, obrigada.
  - Raspas de gelo?
  - Peter...
  - E aquela msica de meditao que voc sempre escuta?  relaxante, no ? Posso ir at o carro correndo e pegar a fita?
  Alex riu. Surpreendentemente calma.
    - Acho que voc precisa mais do que eu. Srio, querido, precisa relaxar. Vou ter um nenm. Mulheres tm bebs todos os dias. Ficarei bem.
  Ficarei bem.
  Os primeiros problemas comearam uma hora depois. A parteira franziu a testa quando olhou para um dos monitores. A linha verde comeara a subir de repente, dando 
pulos.
   - Afaste-se, por favor, Dr. Templeton.
  Peter observou o rosto da enfermeira em busca de pistas, como um passageiro fitando os comissrios durante uma turbulncia... Se ela ainda estivesse sorrindo e 
distribuindo brindes, ningum ia morrer, certo? Mas a enfermeira Matthews teria sido uma jogadora de pquer de primeira. Movendo-se de forma confiante e segura pelo 
quarto, um sorriso profissional e tranquilizador para Alex, uma ordem brusca - encontrem o Dr. Farrar imediatamente -; suas feies redondas no revelavam nada.
   - O que ? Qual  o problema?
  Peter se esforava para afastar o pnico de sua voz, por Alex. A me dela morrera ao dar  luz Alex e Eve, um pedao da histria da famlia Blackwell que sempre 
o aterrorizara. Amava tanto Alexandra. Se alguma coisa acontecesse com ela...
   - A presso sangunea da sua esposa subiu um pouco, Dr. Templeton. Ainda no h motivo para se preocupar. J pedi para o Dr. Farrar vir avaliar a situao.
  Pela primeira vez, o rosto de Alexandra mostrou sinais de ansiedade.
  - E a beb? Ela est bem? Est sofrendo?
  Era tpico de Alex. Nunca pensava em si, apenas no beb. Fora exatamente a mesma coisa com Robert. Desde o dia em que o filho deles nasceu, dez anos atrs, ele 
passara a ser o centro do universo da me. Se Peter Templeton fosse um tipo de homem diferente, um homem menor, poderia ter ficado com cime. Mas a ligao entre 
me e filho o enchia de alegria, um prazer to intenso que s vezes mal conseguia conter.
  Era impossvel imaginar uma me mais dedicada, abnegada e carinhosa do que Alexandra. Peter nunca se esqueceria da vez em que Robert pegou catapora, um caso bem 
severo. Ele tinha 5 anos, e Alex ficara sentada  sua cabeceira durante 48 horas, to concentrada nas necessidades do filho que se esquecera at de beber gua. Quando 
Peter voltou para casa do trabalho, encontrou-a desmaiada no cho. Estava to desidratada que precisou ser hospitalizada e ficar no soro.
  A voz da parteira o assustou, trazendo-o para o presente.
   - O beb est bem, Sra. Templeton. Na pior das hipteses, precisaremos acelerar o processo e fazer uma cesariana.
  Alex ficou branca.
  - Uma cesariana?
   - Tente no se preocupar. Provavelmente, no precisaremos chegar a isso. Neste momento, os batimentos cardacos esto excelentes. Seu beb  forte como um touro.
   A enfermeira Matthews at arriscou um sorriso.
   Peter se lembraria desse sorriso enquanto vivesse. Seria a ltima imagem da sua antiga e feliz vida.
  Depois do sorriso, realidade e pesadelo comearam a se misturar. O tempo perdeu todo o significado. O obstetra estava l, Dr. Farrar, um homem alto, severo, de 
uns 60 anos, com rosto enrugado e culos que pareciam nunca sair dali, o risco iminente de carem de seu nariz longo como o de uma bruxa. A linha verde no monitor 
tomou vida, alguma mo invisvel puxando-a cada vez mais para cima, at que parecesse um esboo fluorescente na face norte da montanha Eiger. Peter nunca tinha visto 
nada to feio. Ento comearam os bipes. Primeiro em uma mquina, depois em duas, trs, cada vez mais alto, berrando e gritando com ele, e os gritos se transformaram 
na voz de Alex: Peter! Peter! e ele pegou a mo dela, e era o dia do casamento deles, e suas mos tremiam.
  Voc aceita esta mulher?
   Aceito.
   Aceito! Estou aqui, Alex! Estou aqui, minha querida.
  Ento, veio a voz do mdico:
  - Pelo amor de Deus, algum pode tir-lo daqui?
  Empurraram Peter, ele empurrou de volta, e alguma coisa caiu no cho fazendo um estrondo. Ento, de repente, os sons sumiram, e tudo ficou colorido. Primeiro branco: 
jalecos brancos, luzes brancas, to fortes que quase cegaram Peter. Depois, vermelho, vermelho do sangue de Alex, vermelho por todos os lados, rios e rios de sangue 
to vivo e brilhante que parecia de mentira, como em uma cena de filme. E finalmente preto, conforme o filme se apagava em sua mente, e Peter caa em um poo bem 
fundo, na escurido, e imagens de sua querida Alex fulguravam na sua frente como fantasmas enquanto ele caa:
  Flash!
  O dia em que se conheceram, no consultrio de psiquiatria de Peter, quando Alexandra ainda era casada com aquele psicopata George Mellis.
  Flash!
  O sorriso dela, que vinha de dentro, ao caminhar pela nave para se casar com ele, um anjo de branco.
  Flash!
  O primeiro aniversrio de Robert Alex radiante, com o rosto todo sujo de chocolate.
  Flash!
  Esta manh no carro.
  Ns finalmente vamos conhec-la!
  Dr. Templeton? Dr. Templeton, est me escutando? Estamos perdendo-o. Est desmaiando.
  Rpido! Peguem-no!
  Mais nenhum flash. Apenas silncio e escurido. 
  Os fantasmas foram embora.

  A REALIDADE NO VOLTOU at que escutasse seu beb chorar.
  Estava acordado h quase meia hora, escutando o mdico e sua equipe, e assinando documentos. Mas nada daquilo era real.
   - O senhor deve entender, aquele nvel de hemorragia, Dr. Templeton...
  - A velocidade da perda de sangue...
  - Altamente raro... talvez algum histrico da famlia? - Depois de um certo ponto, no  possvel evitar a parada cardaca.
  - Sentimos muito pela sua perda.
  E Peter assentira, sim, sim, ele entendia, claro, tinham feito tudo o que podiam. Viu quando eles levaram a maca de Alex embora, seu rosto cinzento coberto por 
um lenol do hospital sujo de sangue. Ficou parado ali, inspirando e expirando. Mas, (o estrago no era real. Como podia ser? Sua Alex no estava morta. A coisa 
toda era um absurdo. Mulheres no morriam mais ao dar  luz, pelo amor de Deus, no hoje em dia. Estamos em 1984. Na cidade de Nova York.
  O choro agudo e triste veio do nada. Mesmo em seu profundo estado de choque, algum instinto primrio no permitiu que Peter ignorasse. De repente, algum estava 
lhe entregando uma pequena trouxa embrulhada, e no momento seguinte Peter estava fitando os olhos de sua filha. Em um instante, todos os tijolos do muro de proteo 
que tentara construir em volta do corao desmoronaram. Por um momento de felicidade, seu corao foi invadido pelo mais puro amor.
  Ento acabou.

  Arrancando a beb dos braos dele, a enfermeira Mathews entregou-a a um auxiliar de planto.
  - Leve-a para o berrio. E chame um psiquiatra imediatamente. Ele est alterado.
  A enfermeira Matthews era boa em momentos de crise. Mas por dentro, estava se corroendo de culpa. Nunca poderia ter permitido que ele segurasse a criana. Em que 
estava pensando depois de tudo que o homem passara? Ele poderia t-la matado.
  Em sua defesa, porm, Peter parecera to estvel. Quinze minutos antes, ele estava assinando documentos e conversando  com o Dr. Farrar e...
  Os gritos de Peter ficaram cada vez mais altos Do lado de fora do corredor, os visitantes trocavam olhares preocupados e esticavam seus pescoos para ver melhor 
pela janela da sala de parto.
  Havia mos nele de novo. Peter sentiu a picada de uma agulha em seu brao. Conforme perdia a conscincia, sabia que nunca mais veria a escurido tranquila do poo.
  Isso no era um pesadelo. Era real.
  Sua amada Alex se fora.

  PARA A IMPRENSA foi um prato cheio. 
  ALEXANDRA BLACKWELL MORRE NO PARTO!
  Para o pblico, ela sempre seria Alexandra Blackwell, assim como Eve sempre foi conhecida por seu nome de solteira. "Templeton" e "Webster" simplesmente no tinham 
o mesmo impacto.
  HERDEIRA DA KRUGER-BRENT MORRE AOS 34.
  FAMLIA MAIS RICA DOS EUA SE ESFORA PARA LIDAR COM A PERDA.
  O fascnio nacional pelos Blackwell estava na sua quinta dcada, mas os jornais no tinham um assunto to suculento desde o "acidente" cirrgico de Eve Blackwell. 
Havia inmeros boatos.
  No havia beb algum: Alexandra morrera de Aids.
  Seu lindo marido, Peter Templeton, estava tendo um caso amoroso e, de alguma forma, planejara o fim da vida de sua esposa.
  Era uma conspirao do governo, planejada para derrubar o preo das aes da Kruger-Brent e limitar o enorme poder que a empresa tinha no panorama mundial.
  Assim como Peter Templeton, ningum podia acreditar que uma jovem saudvel e rica pudesse dar entrada na melhor maternidade de Nova York no vero de 1984 e acabar, 
24 horas depois, no necrotrio.
  O silncio da famlia e da Kruger-Brent s davam mais combustvel para a imprensa. Brad Rogers, presidente da empresa, desde a morte de Kate Blackwell, aparecera 
uma nica vez diante das cmeras. Parecendo ainda mais velho do que seus 88 anos, uma apario de cabelos brancos, suas mos finas como papel, tremiam enquanto lia 
a breve declarao:
  - A trgica morte de Alexandra Templeton  um assunto totalmente particular. A Sra. Templeton no desempenhava nenhum papel oficial na Kruger-Brent, e seu falecimento 
no , de forma alguma, relevante para a administrao nem para o futuro dessa grande empresa. Solicitamos que os pedidos de privacidade da famlia sejam respeitados 
neste momento difcil. Obrigado.
  Recusando-se a responder perguntas, voltou apressado para a sede da Kruger-Brent, como um pssaro perdido procurando uma segurana do ninho. No se teve mais notcias 
dele desde ento.
  A falta de informao oficial no fez os tablides recuarem; pelo contrrio, at os encorajou, deixando-os livres para inventar o que bem entendessem. Logo, a 
indstria de boatos se tornara to forte que j tinha vida prpria. Mas, a esta altura, era tarde demais para a famlia ou qualquer outra pessoa pedir.
  - Precisamos fazer alguma coisa em relao a essas matrias.
  Peter Templeton estava no seu escritrio em casa. Com seus gastos tapetes persas, um antigo piano vertical vitoriano, paredes de imbuia e estantes repletas de 
primeiras edies, esse era o cmodo favorito de Alex, um lugar para onde escapar  fim de um dia estressante. Agora, Peter andava furiosamente de um lado para o 
outro como um tigre enjaulado, sacudindo o jornal que tinha em mos.
  - Pelo amor de Deus, isto aqui  The New York Times, no um jornaleco. - O desdm em sua voz era palpvel ao ler em voz alta: - "Acredita-se que Alexandra Blackwell 
j vinha sofrendo de complicaes em seu sistema imunolgico h algum tempo." Quem acredita? De onde eles tiraram esse absurdo?
  Dr. Barnabus Hunt, um homem gordo, estilo Papai Noel, com uma coroa de cabelo branco em volta da careca e com bochechas permanentemente coradas, tragou pensativo 
seu cachimbo. Colega psiquiatra e amigo de longa data de Peter Templeton, ele se tornara frequentador assduo da casa desde a morte de Alex.
  - Importa de onde eles tiraram isso? Voc j sabe qual  o meu conselho, Peter. No leia essas imundcies. Seja superior a isso.
  - Est bem, Barney. Mas e Robbie? Ele est escutando esse tipo de veneno dia e noite, coitadinho.
  Era a primeira vez em semanas que Peter expressava preocupao pelos sentimentos do filho. Barney Hunt pensou: isso  um bom sinal.
  - Como se a me dele fosse algum tipo de prostituta -continuava Peter, enfurecido, - ou homossexual ou... drogada! No existe ningum com menos chance de ter Aids 
do que Alexandra...
  Sob outras circunstncias, Barney Hunt teria gentilmente desafiado as suposies do amigo. Como mdico, Peter devia ser superior e no dar crdito a essa ideia 
perniciosa de que a Aids era algum tipo de castigo moral para os pecadores. Esta era outra coisa pela qual a imprensa devia ser responsabilizada: causar no pas 
inteiro um frenesi de terror sobre o HIV, fazendo com que homossexuais fossem atacados nas ruas, no conseguissem emprego nem abrigo. Como se a terrvel doena pudesse 
se espalhar pelo toque. 1984 no era um bom ano para ser homossexual em Nova York - coisa que Barney Hunt entendia muito melhor do que seu amigo Peter Templeton 
poderia imaginar.
  Mas esta no era a hora de levantar tais assuntos. Seis semanas depois da morte de Alex, a ferida de Peter ainda estava aberta. Seu escritrio na sede da Kruger-Brent 
continuava vazio. No que ele fizesse muita coisa l. Quando Peter se casou com Alexandra, insistiu com Kate Blackwell que nunca entraria nos negcios da famlia.
  - Vou continuar clinicando como psiquiatra, Sra. Blackwell, se no for um problema para a senhora. Sou mdico, no executivo.
  Mas os anos que se seguiram, a velha senhora conseguiu derrub-lo. Kate Blackwell esperava que os homens da famlia contribussem com "a empresa", como ela dizia. 
E se Kate Blackwell queria, Kate Blackwell sempre conseguia no final.
  Mas agora Kate, assim como Alexandra, se fora. No havia ningum para impedir que Peter passasse dias inteiros trancado no escritrio, com o telefone desligado, 
olhando distraidamente pela janela.
  A verdadeira tragdia resultante da morte de Alexandra no foi a fuga de Peter da vida. Foi a lacuna que deixou entre Peter e seu filho, Robert.
  Robbie Templeton era afilhado de Barney Hunt. Conhecendo o menino desde seu nascimento, Barney presenciara o crescimento e o elo entre Robbie e Alexandra. Como 
psiquiatra, Barney sabia melhor do que a maioria das pessoas como podia ser devastador para um menino de dez anos perder a me. Se o assunto no fosse tratado de 
forma correta, era o tipo de evento que podia fatalmente alterar a personalidade de uma pessoa. Mes mortas e pais distantes: dois ingredientes chave para o comportamento 
psicopata. Era disso serial killers, que estupradores e homens-bombas era feitos; Mas Peter se recusava a enxergar isso.
  - Ele est bem, Barney. Deixe-o em paz.
  A teoria de Barney era que, como o menino internalizara o sofrimento (Robbie no chorara nenhuma vez desde a morte de Alex, um sinal imensamente preocupante), 
Peter se convencera de que seu filho estava bem. Claro que o psiquiatra que existia nele no concordava. Mas o Peter Templeton psiquiatra parecia ter-se desligado 
por enquanto, foi sobreposto pelo sofrimento e por Peter Templeton homem.
  Por outro lado, Barney Hunt ainda era o psiquiatra o bastante para ver a verdade com muita clareza. Robbie estava gritando pelo pai. Gritando por ajuda, por amor, 
pelo conforto.
  Infelizmente, seus gritos eram silenciosos.
  Enquanto Peter e Robbie andavam pela casa arrastados como dois fantasmas arruinados, um membro da famlia Templeton oferecia a minscula chama de esperana. Chamada 
Alexandra, em homenagem  me, apelidada de Lexi desde o comeo, o beb, que Alex perdera a vida para dar  luz, j era um total encanto.
  Ningum disse a Alex que ela deveria sofrer pela perda da me. E ento, ela gritava, gorgolejava, sofria e balanava as pequenas mozinhas em um feliz encanto, 
na feliz ignorncia quanto aos trgicos eventos que envolveram sua chegada ao mundo. Barney Hunt nunca fora um grande f de bebs - solteiro convicto, homossexual 
enrustido, a psiquiatria era a sua vida -, mas abriu uma exceo para Alexi. Ela era a criatura mais encantadora que ele j vira. Com cabelos louros e lindos traos 
mesmo com apenas 6 semanas, os olhos cinzas indagadores da me, ela "sorria para todos que se aproximassem", como a Minha ltima duquesa de Robert Browning, muito 
feliz no colo de um estranho quanto de sua dedicada enfermeira.
  Ela aguardava, porm, os maiores sorrisos para o irmo. Robbie ficou hipnotizado pela irm desde o momento em que ela chegou do hospital, correndo para v-la assim 
que chegava da escola, irritando a enfermeira por correr direto para o bero sempre que ela chorava, mesmo no meio a noite.
  - No precisa entrar em pnico, Sr. Robert.
  A enfermeira tentava ser paciente. Afinal de contas, o menino acabara de perder a me.
  - Bebs choram. Isso no quer dizer que tenha alguma coisa de errado com ela.
  Robbie fazia cara feia para a mulher, cheio de desdm.
  -  mesmo? Como voc sabe?
  Arrastando os macios cobertores de caxemira, ele pegou a irm no colo, mimando-a at que seu choro parasse. Eram duas horas, e do lado de fora uma lua cheia iluminando 
o cu de Manhattan.
  Voc est a, me? Est me vendo? Est vendo como cuido bem dela?
  Todo mundo, incluindo Barney, preocupara-se com a possibilidade de Robbie ter sentimentos conflitantes em relao a beb. Poderia at se tornar violento com ela, 
"culpando" Lexi, de uma forma simples, infantil, pela morte da me. Mas Robbie deixara todos perplexos com uma efuso de amor fraternal que era tanto inesperado 
quanto claramente verdadeiro.
  Lexi era a terapia de Robbie - Lexi e o adorado piano. Sempre se sentiu assim, gelado e liso debaixo de seus dedos, Robbie era transportado para outra poca e 
outro lugar. Todos os demais sentidos se fechavam, e ele e o piano se tornavam nicos instrumento, corpo e alma. Nesse momento, sua me estava com ele. Ele simplesmente 
sabia.
  - Robert, querido, no precisa se esconder. Entre.
  A alegria forada da voz de Peter fez Barney Hunt recuar. Virou-se e viu seu jovem afilhado rondando a porta.
  - O seu tio Barney est aqui. Vinha dizer "oi".
  Robbie abriu um sorriso nervoso.
  - Oi, tio Barney.
  Ele no costumava ficar nervoso, pensou Barney. De quem ele est com medo?
  Levantando-se, bateu nas costas de Robbie.
  - Ei, amigo. Como est?
  - Bem.
  Mentiroso.
  - Eu e seu pai estvamos falando de voc. Estvamos nos perguntando como vo as coisas na escola.
  Robbie pareceu surpreso.
  - Na escola?
  - , voc sabe. As outras crianas tm implicado com voc por causa dessas besteiras dos jornais?
  - No, de forma alguma. A escola  tima. Eu adoro.
  Ele gosta da escola porque  uma fuga deste lugar. Uma fuga do sofrimento.
  - Voc quer me perguntar alguma coisa, Robert?
  O tom de voz de Peter era tenso, sua fala, contgua. Continuara sentado atrs da mesa desde que o filho entrou, com as costas rgidas, seu corpo inteiro retesado, 
como um prisioneiro a caminho do peloto de fuzilamento. Desejava que Robbie fosse embora.
  Peter Templeton amava o filho. Tinha conscincia de que estava fracassando com ele. Mas toda vez que olhava para o menino, era inundado por uma onda de raiva to 
forte que mal conseguia respirar. De repente, a ligao que Robbie e Alexandra tiveram em vida, o amor entre me e filho que um dia encantara Peter, agora fazia 
com que o cime o consumisse por dentro. Era como se Robbie tivesse roubado aquelas horas dele, aqueles incontveis momentos de amor com Alex. Agora ela se fora, 
para sempre. E Peter queria esse momento de volta.
  Sabia que era loucura. Nada disso era culpa de Robbie. Mesmo assim, a fria corroia seu peito como um cido. E ironicamente, Peter s sentia amor por Lexi, a criana 
que "causara" a morte de Alex. Em sua mente confusa, pelo sofrimento, Lexi era uma vtima, como ele prprio. Ela nem conhecera a prpria me, coitadinha. Mas Robert? 
Robert era o ladro. Roubara Alexandra de Peter. Peter no podia perdo-lo por isso.
  At agora, Peter s vezes escutava o menino conversando com ela.
  Mame, voc est a? Me, sou eu.
  Robbie se sentava ao piano, um sorriso extasiado no rosto, e Peter sabia que Alex estava com ele, confortando-o, amando-o, abraando-o. Mas quando Peter acordava 
 noite, gritando o nome de Alex, no havia nada. Nada alm da escurido e do silncio do tmulo.
  - No, pai. - A voz de Robert mal constitua um sussurro. - No queria perguntar nada. Eu... queria tocar piano. Mas posso voltar em outra hora.
  Com a meno da palavra "piano", um nervo no maxilar de Peter comeou a tremer. Ele batia vagarosamente o lpis na mesa. Nesse momento, agarrou-o com tanta fora 
que o quebrou.
  Barney Hunt franziu a testa.
  - Voc est bem?
  - Estou.
  Mas Peter no estava bem. Sua mo estava sangrando. Uma a uma, lentas e pesadas gotas de sangue foram se espalhando pela madeira polida da mesa.
  Barney sorriu de forma tranqilizadora para seu afilhado.
  - No vamos demorar. Em cinco minutos, vou procur-lo. Podemos treinar uns arremessos, que tal?
  - Est bem.
  Mais um sorriso tmido e Robbie saiu, to silenciosamente quanto entrara.
  Barney respirou fundo.
  - Sabe, Peter, o menino precisa de voc. Ele tambm est sofrendo. Ele...
  Peter levantou a mo.
  - J conversamos sobre isso, Barney. Robert est bem. Se quer ficar sem preocupar com alguma coisa, pense nesse malditos reprteres. Eles so um maldito problema, 
OK?
  Barney Hunt balanou a cabea.
  Sentia pena de Robert, sentia mesmo. Mas no havia mais nada que pudesse fazer.

  Eve Blackwell fechou os olhos e tentou fantasiar alguma coisa que pudesse lev-la ao orgasmo.
  - Est bom, doura: Gosta disso?
  Keith Webster, seu marido, estava encharcado de suor, bombardeando-a por trs como um terrier excitado. Ele insistiu em "fazerem amor", como dizia, com regularidade 
durante toda a gravidez de Eve. Agora que a hora se aproximava com rapidez, sua barriga estava to grande que essa era a nica posio. Uma pequena felicidade para 
Eve, que no era mais forada olha para Keith, cujo rosto fraco ficara maliciosamente distorcido em uma mscara de xtase sensual toda vez que fazia amores com ela.
  Se  que isso podia ser chamado de fazer amor. O pau de Keith era to pequeno, que ele salvava apenas uma leve irritao. Como uma criana mal-criada sentada atrs 
de voc em um cinema que no para de chutar a poltrona.
  Eve fingiu um gemido.
  - Est maravilhoso, querido. Estou quase gozando!
  E de repente, gozou, sua mente perdida em uma sempre deliciosa apresentao de slides e de imagens do passado:
  Ela, aos treze anos, seduzindo seu professor de ingls casado, Sr. Parkson. Quando o acusou de estupro, acabou com a vida do pattico homem. Mas ele merecera. 
Todos mereceram.
  Usara o sexo para abrir seu caminho para a academia militar que ficava prxima  escola particular onde Eve e Alexandra estudavam na Sua. Como o sexo era embriagante 
naquela poca, quando os homens se julgavam aos seus ps.
  Esfaquear o corao de George Mellis e jogar seu corpo em Dark Harbor. S de pensar na expresso de surpresa no rosto de George enquanto a lmina rasgava sua carne, 
Eve s vezes chegava ao clmax.
  O mundo conhecia George Mellis como o primeiro marido de Alexandra Blackwell - uma nota de rodap na ilustre histria da famlia Blackwell. Na verdade, ele Ra 
um playboy sdico e mentiroso compulsivo, que estuprou e sodomizou Eve, um crime pelo qual acabou pagando com a vida.
   claro que Alex no soube a verdade sobre George Mellis. Nunca soube que ele estava mancomunado com sua irm gmea m; nunca soube que Eve e George continuaram 
sendo amantes durante o curto casamento deles; nunca soube que os dois tinham a inteno de mat-la e roubar sua herana; nem que Eve fora forada a matar George 
quando seus planos seguiram o caminho errado.
  Alex nunca soube da verdade. Mas Eve sabia. Eve sabia de tudo.
  No que tivesse se importado em matar George. De fato, fora um prazer.
  Keith Webster aumentou o ritmo de seus golpes, tremendo de prazer enquanto as delicadas mos do cirurgio apalpavam os enormes seios da esposa grvida.
  - Oh, Deus, Eve, eu amo voc! Vou gozar, vou gozar!
  Ele soltou um rudo que parecia um uivo misturado com gemido. Eve lembrou-se de George Mellis no momento da morte, ento, mentalmente, substituiu o rosto de Keith 
pelo dele. Atingiu o orgasmo na mesma hora.
  Keith deslizou pelas suas costas como um sapo desliza por uma pedra molhada. Deitou no travesseiro, os olhos fechados vestindo a satisfao ps coito.
  - Sou incrvel. Voc est bem, querida? O beb est bem?
  Eve acariciou a barriga cheia de amor.
  - O beb est bem, querido. No precisa se preocupar.
  Keith Webster estava neurtico com a gravidez da esposa desde o comeo, mas com a morte de Alexandra algumas semanas antes, sua ansiedade multiplicara-se por dez. 
Todo mundo sabia que a me de Eve e Alexandra, Marianne, morrera ao dar  luz. Agora, o mesmo destino cara sobre Alex. Era fcil imaginar que Eve poderia ser a 
prxima. Se algum misterioso defeito gentico estivesse esperando para arrancar sua amada dele.
  Keith Webster amava Eve Blackwell desde o momento em que a vira pela primeira vez. Era verdade que, pouco depois do casamento, deliberadamente mutilara o rosto 
dela. Brincando com a vaidade inata dela, ele a convencera a fazer uma pequena cirurgia para apagar as linhas de expresso ao redor dos olhos. Ento, uma vez que 
ela estava anestesiada e totalmente  sua merc, ele comeara a destruir cada um dos lindos traos dela.
  No incio, Eve ficara furiosa, claro. Ele j esperava isso. Mas agora ela via as coisas mais claramente. Ele "precisava"" fazer isso. No teve escolha. Enquanto 
Eve possusse essa beleza inebriante, ele sofria o risco de perd-la. Perd-la para outros homens menos dignos, homens que nunca conseguiriam am-la como ele. Homens 
como George Mellis, que uma vez batera tanto em Eve que ela quase morrera. Keith Webster restaurara a aparncia dela depois do ataque. Foi no dia em que se conheceram. 
Eve ficara to deliciosamente grata, que ela se apaixonou por ele na mesma hora.
  Mas o que Keith Webster dava, Keith Webster tambm podia tirar.
  Era uma lio que Eve precisava aprender.
  Os outros podiam achar que o rosto de sua esposa coberto por cicatrizes grotescas fosse repugnante, mas no Keith Webster. Aos seus olhos, Eve sempre seria linda. 
A criatura mais linda do mundo.
  Keith Webster no tinha iluses sobre a prpria aparncia. Quando se olhava no espelho, via um homem pequeno, mido, com alguns fios de cabelo castanho claro que 
ainda restavam em sua cabea quase careca, como algas grudadas em uma pedra. As mulheres nunca se interessaram por ele..., muito menos as loucamente atraentes como 
Eve Blackwell. Na poca, no sentira nenhum remorso em chantagear Eve para se casar com ele (Keith sabia que ela tinha matado George Mellis e ameaou contar  polcia 
se ela no se casasse com ele), e continuava no sentindo nenhuma culpa. Afinal, de que outra forma ele a possuiria? Para cobrir o destino dela e dele prprio?
  Mais uma vez, Eve no lhe dera alternativas.
  Com a mo carinhosa sobre a barriga dela, Keith se sentiu completamente feliz. Morrendo de medo de ser fotografada e ridicularizada como um monstro em um show 
de bizarrices, Eve se tornara praticamente uma prisioneira na cobertura em que morava desde que ele a "recriara", como ele gostava de pensar. No tendo mais nada 
para fazer com as longas e solitrias horas de sua existncia alm de realizar os caprichos dele, ela finalmente cedera e dera a ele o que mais desejava: um filho, 
filho deles, uma prova viva do amor deles.
  O que mais um homem podia querer?
  Ela teve uma gravidez difcil, com violentos acessos de enjo matinal ao longo e todos os meses. E embora Keith soubesse que nunca houve muito amor entre sua esposa 
e a irm gmea, tinha certeza de que a morte repentina de Alexandra tinha assustado Eve.
  Mas agora s faltavam algumas semanas.
  Abaixando a cabea com reverncia, ele beijou a barriga da esposa, murmurando palavras de carinho para o filho que ainda no tinha nascido.
  Logo o beb deles nasceria. E todos os problemas acabariam, a dor do passado seria esquecida.

  O trabalho de parto de Eve foi longo e agonizante. Enquanto a imprensa se amontoava como abutres embaixo da janela de seu quarto no hospital, Eve suportou dezesseis 
horas sentindo seu corpo sendo rasgado por dentro.
  - Tem certeza de que no quer tomar um analgsico, Sra. Webster? Uma injeo de petidina aliviaria as contraes.
  - Meu nome  Blackwell - Eve se virou entre os dentes. - E no.
  Eve estava inflexvel. Nada de drogas. Nada de alvio. Concebera sua criana para colocar em prtica sua vingana, para fazer seus inimigos sofrerem o que merecem, 
e para reclamar sua herana roubada: a Kruger-Brent. Era certo que ele viesse ao mundo pelo sofrimento. Que o primeiro som que escutasse fosse os gritos de sua me.
  Se no desprezasse tanto, Eve poderia at ter ficado com pena de Keith Webster. O pattico, incompetente e frouxo, com quem fora forada a se casar, realmente 
acreditava que ela estava feliz por dar  luz o filho dele! Rondando-a como uma empregada velha, morrendo de pena pelos enjos matinais dela... Exceto que no eram, 
de forma alguma, enjos matinais. Os violentos acessos de vmitos de Eve eram causados por averso. A simples ideia da semente de Keith crescendo dentro dela lhe 
provocava nsia.
  Verdade, ela permitira que ele a engravidasse.Esse beb fora planejado.
  Ele acha que eu o concebi com amor.
  Eve riu alto. A arrogncia da loucura de Keith no tinha limites.
  A verdade era que Eve Blackwell odiava seu marido. Odiava com uma paixo cruel to intensa que estava surpresa que as enfermeiras no captassem o cheiro misturado 
ao seu suor.
  Quando Keith tirara os curativos de Eve ele mostrara seu rosto destrudo, cinco longos anos atrs, ela gritara at desmaiar. Nas semanas que se seguiram, ela soluara 
e se enfurecera, suas emoes indo do choque  descrena e ao terror. No incio, ficara to desesperada que realmente se agarrara a Keith. Sim, ele tinha feito algo 
terrvel, mas era tudo que ela tinha. Sem a proteo dele, ela tinha medo de ser jogada para os lobos, despedaada como uma presa. Conforme os anos foram passando, 
porm, Eve deixou de se preocupar e ser abandonada por Keith. Percebeu, para seu horror, que o homem era to doente que ainda a considerava atraente. Keith Webster 
transformara Eve Blackwell em um monstro: a fera dos Blackwell. Mas ela era um monstro dele. Para Keith, era s o que importava.
  - O beb est coroando, Sra. Web... Sra. Blackwell. Estou vendo a cabea!
  Eve desejava que as enfermeiras parassem de sorrir. No percebiam a agonia pela qual estava passando? Era como se usam tropa de colegiais idiotas estivesse cuidando 
dela.
  Graas a Deus Keith concordara em ficar na sala de estar destinada aos pais.
  Eve implorara:
    - Quero que ainda me ache sexy, querido. Voc sabe que dizem sobre homens que assistem s esposas dando  luz: Dizem que destri, sabe, aquilo, para sempre.
  Keith insistiu e nada poderia diminuir a paixo que sentia por ela. Mas, para assombro de Eve, ele concordara em ficar na sala de espera.
  - Mais uma vez! Est quase conseguindo!
  A dor era to forte que Eve ficou surpresa de no desmaiar. Era como se algo pressionasse dentro dela at que no tivesse mais conscincia de nada a no ser das 
sensaes no interior do seu tero.
  Pensou em Alex, percebendo pela primeira vez que uma morte dela deve ter sido dolorosa e assustadora.
  Bom.
  Era irnico. Eve pensou em todo tempo em energia que dedicara para tentar matar sua irm gmea no decorrer dos anos: colocando fogo na camisola dela na festa de 
cinco anos; providenciando acidentes de cavalo, de barco e, finalmente, todo o complicado plano de assassinato com George Mellis. (Sabendo que George no tinha onde 
cair morto e era psictico, e que seu estilo de playboy rico era s uma fachada, Eve o encorajara a cortejar e desposar sua irm. O plano era George conquistar a 
confiana de Alex, convenc-la a fazer um testamento em que deixasse tudo para ele, incluindo sua participao majoritria na Kruger-Brent, depois de se livrar dela 
e dividir a herana com Eve.)
  Mas, de alguma forma, Alexandra sobrevivera a cada um dos elaborados esquemas de Eve. A vadia era como aquelas velas de aniversrio que ningum consegue apagar. 
E, ento, Rum! Do nada, um simples ato de Deus a apagou, como a mancha indesejada que era.
  Alexandra Blackwell, herdeira da Kruger-Brent e famosa por sua beleza. Morta ao dar  luz aos 34 anos.
  Era to perfeito. Quase bblico.
  Eve escutou um rudo alto, selvagem. Demorou um momento para o perceber que era sua prpria voz, gritando conforme a contrao final dilacerava seu corpo. Segundos 
depois, sentiu entre as pernas uma umidade quente e a agitao enrgica de minsculas pernas. Uma criatura ensangentada e pegajosa, coberta por uma espcie de cera 
branca deslizou para os braos da enfermeira que o esperavam.
   -  um menino!
   - Parabns, Sra. Blackwell!
  Uma das enfermeiras cortou o cordo. Outra limpou a placenta.
  Fraca por causa da exausto e da perda de sangue, Eve caiu sobre os lenis encharcados de suor. Observou enquanto as enfermeiras limpavam e examinavam o beb, 
marcando itens em um formulrio. De repente, sentiu uma onda de pnico.
  - O que tem de errado com ele? - Sentou-se ereta. - Por que ele no est chorando? Ele est morto?
  A parteira sorriu. Bem, essa era a reviravolta na histria. Eve Blackwell fora to objetiva e hostil durante o parto - francamente, toda a equipe de enfermagem 
a achava uma megera -, que tinham comeado a desconfiar que ela no queria o beb.
  - Ele est timo, Sra. Blackwell. Aqui, a senhora mesma pode ver.
  Eve pegou a trouxa branca. Algum limpara a criana. O sangue e a cera no estava mais ali. Quando abaixou o olhar, viu o pequeno rosto com pele azeitonada, a 
cabea com um lustroso cabelo azulado. O nariz e a boca eram tpicos de um beb, sem caractersticas marcantes. Mas os enormes olhos castanho-escuros firmes e atentos 
emoldurados por clios pretos, eram extraordinrios. O menino olhou para ela, analisando seu rosto em silncio. Para o resto do mundo, Eve era um monstro. Para seu 
filho, ela era o universo.
  Eve pensou: Ele  inteligente. Perspicaz, como um pequeno cigano.
  Ela sorriu e, embora soubesse que no era possvel, podia jurar que ele correspondeu ao sorriso.
  - J escolheu o nome?
  Eve nem levantou o olhar.
  - Max. O nome dele  Max.
  Era um nome simples, curto, mas para Eve sugeria fora. O menino ia precisar de fora para atingir seu propsito e vingar a me.
  Eve concebera o filho de Keith Webster por um nico motivo. Porque precisava de um cmplice. Algum que pudesse moldar  sua prpria imagem, aliment-lo, com seu 
dio e soltar no mundo para fazer todas as coisas que ela, uma prisioneira no prprio lar, no podia mais fazer.
  Max faria Keith Webster pagar pelo que fizera a ela.
  Max devolveria a Kruger-Brent para ela.
  Max a admiraria, adoraria e obedeceria como os homens a admiraram, adoraram e obedeceram antes de Keith roubar sua beleza.
  - Toc, toc.
  Keith apareceu na porta, carregando um enorme buqu de rosas. Entregando-o  enfermeira, ele deu um beijo indiferente na cabea dela, antes de pegar o filho no 
colo.
  - Ele ... ele  to lindo. - A voz dele estava engasgada. Quando levantou o olhar, Eve viu que havia lgrimas de alegria escorrendo pelo seu rosto. - Obrigado, 
Eve. Obrigado minha querida. Voc no faz idia do que isso... do que ele significa para mim.
  Eve sorriu sabiamente.
  - De nada, Keith.
  E ela caiu em um sono satisfeito e sem sonhos.

  Captulo 3

  Robbie Templeton sentiu uma agitao familiar no seu estmago ao atravessar a porta giratria do prdio da Kruger-Brent na Park Avenue.
  - Bom dia, Sr. Robert.
  -  um prazer v-lo de novo, Sr. Robert.
  - Seu pai o est aguardando?
  Todo mundo o conhecia. Os recepcionistas em seus uniformes de flanela cinza, os seguranas, at Jose, o zelador. Robert Templeton era bisneto de Kate Blackwell, 
tinha 15 anos e o mundo aos seus ps. Um dia, ele assumiria seu lugar como CEO e presidente da empresa.
  Era o que diziam.
  Robbie vinha a este prdio com a me desde que era bem pequeno. O magnfico trio com piso de mrmore, arranjos de flores de 1,80m de altura e paredes cobertas 
por inestimveis obras de arte moderna - quadros de Basquiat, Warhol e Lucien Freud - era o playground de Robbie. Brincava de pique-esconde nos elevadores e pelos 
longos corredores da empresa. Balanava as pernas e rodava na cadeira giratria de Kate Blackwell at que no conseguisse mais ficar em p de to tonto.
  Durante toda a vida, tentara amar este lugar. Tentava sentir a paixo e a nostalgia que todos achavam que tinham nascido com ele. Mas no adiantava. Atravessar 
a conhecida porta giratria causou-lhe a mesma sensao de sempre como se estivesse atravessando os portes do inferno.
  Sua mente voltou para seu aniversrio de 7 anos. Sua bisav, Kate, lhe prometera uma surpresa de aniversrio.
  - Uma coisa maravilhosa, Robert. S ns dois.
  Lembrava-se de ter ficado to ansioso que nem conseguiu dormir na noite anterior. Uma coisa maravilhosa. Uma visita particular a FAO Schwartz, famosa loja de brinquedos? 
Comer tudo o que quisesse no Chuck.E.Cheese? Disneylndia?
  Quando Kate o acompanhou pelas portas do maante prdio da empresa, ele achou que ela tivesse esquecido alguma coisa l. Um guarda-chuva talvez? Ou suas orelhas 
Mickey Mouse?
  - No, meu querido - dissera ela, com os olhos velhos e midos acesos com uma paixo que ele no conseguia compreender. - Esta  a sua surpresa. Voc sabe onde 
estamos?
  Robbie assentiu, infeliz. Estavam no escritrio do pai. Estivera aqui centenas de vezes com sua me, e sempre se sentia estranho. Era grande demais. E vazio. Quando 
gritava bem alto, as paredes produziam eco. Embora no soubesse explicar, sempre teve a impresso de que aquele escritrio tambm deixava seu pai triste. Nenhum 
deles pertencia a este lugar.
  Mas sua bisav via as coisas de uma forma diferente.
  - Este  o seu reino, Robert! Nosso palcio. Um dia, quando eu no estiver mais aqui e voc for adulto, tudo isso ser seu. Tudo.
  Ela apertou a mo dele. Robbie se perguntou aonde ela estava planejando chegar e quanto tempo levaria. Amava sua bisav, mesmo que ela de fato tivesse ideias malucas 
sobre um prdio velho e chato ser um palcio. Esperava que ela no demorasse muito.
  Era domingo, o prdio estava deserto. Acompanhando-o no elevador, Kate apertou o boto do vigsimo andar. Logo, estavam no escritrio dela. Depois de colocar Robbie 
na cadeira giratria de couro atrs da mesa, Kate sentou em uma poltrona no canto, a que era destinada aos visitantes ilustres: embaixadores, presidentes e reis.
  Robbie ainda podia ouvir a voz dela.
  - Feche os olhos, Robert. Vou lhe contar uma histria.
  Foi a primeira vez que escutou a histria da Kruger-Brent, a empresa que tornara a sua famlia rica, famosa e diferente da famlia de todas as outras pessoas. 
Mesmo aos 6 anos, Robbie Templeton sabia que era diferente das outras crianas. Mesmo aos 6 anos, desejava de todo o corao que no o fosse.
  Hoje, claro, Robbie Templeton conhecia a lenda da Kruger-Brent de cor. Fazia parte dele tanto quanto o sangue que corria em suas veias e o cabelo que cobria sua 
cabea. Sabia tudo sobre Jamie McGregor, pai de Kate. Sobre como ele fora da Esccia para a frica do Sul no final do sculo XIX, sem um centavo, mas com muita  
determinao, e fundara a empresa de minerao de diamante mais lucrativa do mundo. Jamie fora trado por um comerciante local, Salomon  Van Der Meerwe. Com a ajuda 
do corajoso empregado negro de Van Der Meerwe, Banda, Jamie se vingara; primeiro, roubando o perfeito diamante de  vinte quilates, sobre o qual o imprio Kruger-Brent 
foi fundado, e depois engravidando a filha de Van Der Meerwe, Margareth - me de Kate Blackwell.
  O nome da empresa foi um insulto a mais ao comerciante que no apenas o trara, mas tentara mat-lo. "Kruger" e "Brent" eram como se chamavam os dois guardas Afrikaaner 
que perseguiram Jamie e Banda enquanto tentavam escapar com vida, com os bolsos cheios de diamantes de Van Der Meerwe.
  Kate em si no lembrava do pai, que morreu quando ela era bem pequena. Mas o tom de voz calmo e cheio de reverncia que usava ao falar dele deixava claro que, 
aos seus olhos, Jamie McGregor era nada menos que um deus. Adorava contar a Robert como ele se parecia com o tatarav. E era verdade, se pudessem se basear no retrato 
de Jamie McGregor estava pendurado em Cedar Hill House, a semelhana era realmente incrvel.   
  Robbie sabia que sua bisav considerava isso como um elogio. Mas, mesmo assim, desejava que ela parasse de repeti-lo.
  Depois da morte de Jamie McGregor, a Kruger-Brent foi administrada durante duas dcadas por seu amigo e brao direito, outro escocs, chamado David Blackwell. 
Kate se apaixonou por ele. Apesar de David ser 20 anos mais velho que ela e, em determinada poca, noivo de outra mulher, acabaram se casando. Como aconteceu tantas 
vezes em sua vida, Kate vira alguma coisa que queria e no sossegou at que conseguisse.
  David Blackwell foi o segundo grande amor da vida de Kate.
  O primeiro era Kruger-Brent.
  Quando David morreu na exploso de uma mina logo depois da guerra, todo mundo achou que sua viva jovem e grvida fosse ficar de luto por um ano mais ou menos, 
e depois se casar de novo. Mas isso nunca aconteceu. Depois de perder um amor, Kate Blackwell dedicou o resto de sua longa vida ao outro. A Kruger-Brent se tornou 
o sol e a lua, o amante, a obsesso, o mundo dela. Sob o comando de Kate, a empresa cresceu e passou de uma empresa bem-sucedida de diamantes africanos a uma gigante 
mundial, com investimentos em cobre, ao, indstrias petroqumicas, plstico, telecomunicaes, aeroespacial, imveis e software. A Kruger-Brent estava em todos 
os setores, em todos os mercados, em todos os cantos do mundo. Mesmo assim, a ambio de Kate Blackwell por novas aquisies e expanso continuava insacivel. Entretanto, 
ainda mais forte era sua obsesso em encontrar um herdeiro. Algum dentro do cl Blackwell que pudesse continuar seu bom trabalho e levar a empresa a patamares ainda 
mais elevados de dominao global quando ela morresse.
  Quando seu filho, Tony York, sucumbiu  presso de sua herana e perdeu a sanidade, Kate transferiu suas ambies para as filhas gmeas dele: Alexandra, mo de 
Robbie, e Eve, assustadora tia do menino. A me de Eve e Alexandra morreu dando-as  luz. Com o pai preso em um sanatrio, Kate ficou com a responsabilidade de criar 
as meninas.
  Desde o incio, Kate Blackwell estava determinada a que uma de suas netas assumisse o comando da Kruger-Brent quando tivesse idade suficiente. Durante muitos anos, 
seria Eve. Ela sempre foi a gmea dominante, e sua sucesso parecia natural. Mas, ento, algo terrvel aconteceu. Algo to terrvel que convenceu a bisav de Robbie 
a deserdar Eve definitivamente.
  O que quer que fosse essa coisa terrvel, era o segredo que Kate levara consigo para o tmulo. Robbie teria perguntado pessoalmente  sua tia Eve o que acontecera 
tantos anos atrs, mas tinha muito medo. Com o rosto sempre coberto e a forma estranha e enigmtica de falar, tia Eve sempre lhe causara pesadelos. At seus pais 
pareciam ter um pouco de medo dela, o que o assustava ainda mais.
  Ainda assim, ele desejava saber o que tinha acontecido entre sua bisav e sua tia. Porque, independentemente do que fosse, era responsvel por sua posio desconfortvel. 
Como se o av Tony antes dele, Robbie sonhava com uma vida fora da Kruger-=Brent. Tudo que sempre quis foi tocar piano. Mas Kate Blackwell o nomeara seu herdeiro 
contra os desejos expressos de seus pais e o seu prprio. Nada detinha a fora de vontade dela, algo que geraes de sua famlia acabara aprendendo da forma mais 
dura.
  Robbie sorriu para Karies Brown, a chefe das recepcionistas., Uma morena de fala mansa com uns 40 e poucos anos, olhos castanhos felizes e sempre enfeitada, Karis 
tinha aquele tipo de rosto que irradia bondade. Embora muito menos bonita, ela fazia o que Robbie se lembrasse de sua me.
  - Papai no est esperando. Pelo menos, acho que no.
  Sempre existia a possibilidade de o Sr. Jacson, diretor da St. Bede's, renomado colgio particular em que Robbie estudava, tivesse telefonado antes.
  Karies Brown levantou a sobrancelha.
  - No est com nenhum problema, certo?
  Robbie deu de ombros, tmido.
  - Nada fora do normal.
  - Bem, neste caso, acho melhor deix-lo subir. Boa sorte.
  Ela entregou a ele um carto especialmente codificado para o elevador que daria acesso ao vigsimo andar. Os escritrios particulares de todos membros da famlia 
Blackwell ficavam nos dois ltimos andares do prdio, e a segurana era cerrada.
  - Obrigado.
  Karies Brown observou Robbie, com as mos enfiadas nos bolsos, seguir relutantemente at os elevadores, e imaginou que travessura ele fizera  desta vez; Como a 
maioria dos funcionrios da Kruger-Brent, Karies Brown tinha um fraco por Robbie. Como no am-lo, com aqueles expressivos olhos cinza, o cabelo longo e o jeito 
adorvel de corar sempre que algum o olhava em seus olhos? Todo mundo na empresa sabia que Robbie Templeton era um garoto rebelde. Desde que a me morrera, ele 
sara dos trilhos mais rpido do que um trem expresso deslizando no gelo, coitadinho. Nos ltimos cinco anos tinha sido expulso de mais escolas que Karies Brown 
podia contar. Mas olhando para ele, ningum dizia. Ele parecia ser uma alma gentil, doce, tmida.
  As portas do elevador se fecharam atrs dele. Karies Brown esperava que o pai no fosse muito duro com o rapaz.
  
  - Voc fez o qu?
  Peter Templeton estava tendo um dia ruim. Tinha acordado         com a pior das ressacas. Sabia que andava bebendo muito ultimamente, mas a culpa s aumentava 
ainda mais sua dor de cabea. As pessoas diziam que seu sofrimento diminuiria com o tempo, mas j fazia cinco anos que perdera Alex
estava pior do que nunca. As noites eram a pior parte. durante o dia, aprendera a se ocupar com o trabalho ou com Lexi.
 Aos 4 anos, Lexi era uma caixa de Pandora cheia de encantos. Todo dia, ela aparecia com alguma coisa nova ou engraada e derretia o corao do pai mais uma vez. 
Mas, por volta das 20 horas, a menininha j estava apagada de sono, por mais que Peter tentasse fazer com que ficasse acordada. Quando Lexi ia para a cama, era como 
se algum desligasse a mquina que o mantinha vivo. Por volta das 20h30, ele geralmente recorria ao usque. s 22 horas, na maioria dos dias, j estava desmaiado.
 Esta manh, com outra ressaca, ele chegara no escritrio para encontrar sua mesa com uma pilha de trabalho. Era a poca do bnus  Kruger-Brent, uma das pocas mais 
estressantes. Outros membros do conselho tomavam a maioria das decises importantes, mas desde que Brad Rogers se aposentara
Peter Templeton recebera o cargo de CEO. Isso significava que seu trabalho era premiar os funcionrios brilhantes da Kruger-Brent (uma tarefa impossvel; os bons 
sempre achavam que no estavam ganhando o suficiente), alm de repreender aqueles que ficavam aqum das expectativas.
  Que direito eu tenho de repreender algum? Todos sabem eu sou o maior peso morto desta empresa. Sou psiquiatra, no sou executivo. Se ao menos eu tivesse sido 
mais forte com Kate Blackwell h tantos anos atrs. A Kruger-Brent no  o meu lugar. Ningum sabe disso melhor do que eu.
  A nvoa em sua cabea comeara finalmente a clarear. Ento, Robert apareceu, com a maior cara de pau, e avisou que tinha sido expulso de St. Bede's.
  - J contei o que eu fiz, pai. Fumei um baseado. E da? Um s. Nada demais.
  As tmporas de Peter voltaram a latejar ainda mais forte.
  - Robert. Voc fumou um baseado na aula de matemtica. O que voc achou que ia acontecer? Achou que o professor ia deixar passar?
  Robbie estava olhando pela janela. Normalmente, do escritrio do pai, era possvel ter uma vista panormica de Manhattan, mas hoje estava to nublado, que tudo 
estava encoberto por um assustador arco-ris de tons de cinza.
  - Droga, Robert. No sei mais o que fazer. No posso ajud-lo se insistir em sabotar a prpria vida. Voc no se importa com o seu futuro?
  Meu futuro? Como podem esperar que me preocupe com meu futuro se no consigo nem compreender o meu presente? Nem sei quem eu sou.
  - Se voc acha que vai passar o resto do ano vagabundeando em casa, pode esquecer, meu chapa.
  Meu chapa? Ele fala como se fosse um personagem da dcada de 1950. No  de se espantar que no entenda.
  - Voc est de castigo. A partir de agora.
  - Achei que voc tivesse dito que no me queria vagabundeando pela casa.
  - No me responda! No ouse falar assim comigo! - Peter falou to alto que as secretrias do outro lado do corredor escutaram. - Voc no vai ver ningum. No 
vai falar com ningum. Quer desperdiar a sua vida, Robert? Quer acabar na priso? bem, talvez esteja na hora de voc ver como  viver em uma priso.
  Robbie riu. Sabia que era a pior coisa que podia fazer neste momento, mas no conseguiu se segurar.
 Voc quer me dar um gostinho de como  a vida na priso? Meu Deus, pai. A minha vida toda  uma priso. Sem condicional No consegue ver isso? Estou encurralado.
  - Voc acha engraado?- Peter estava tremendo de raiva. 
  Robbie virou-se para encar-lo.
  - No,eu no acho. Eu...
  Slap.
  O tapa veio do nada. Peter lanou sua mo sobre o rosto de Robbie com tanta fora que ele cambaleou para trs. Perdendo o equilbrio, ele bateu com a parte de 
trs da cabea no vidro da janela, ento caiu no cho, atordoado.
 Por alguns segundos, pai e filho ficaram congelados, em um silncio estupefato. Ento, Peter falou.
  - Desculpe, Robert. Eu no deveria ter feito isso.
  Robbie estreitou os olhos. O rosto de um vermelho vivo por causa do tapa.
  - No, no devia.
  Levantando com um pouco de dificuldade, Robbie pelo passou pai com a cabea baixa e foi cambaleando at o elevador. 
  - Robert! Para onde voc vai?
  Segundos depois, Robbie estava de volta ao saguo. Atravessou a porta giratria e saiu no ar gelado e fresco da rua. Lgrimas escorriam pelo seu rosto.
  Deus?
  Me?
  Algum?
  Por favor, me ajude! Por favor!
  Correndo pela Park Avenue sem ver nada  sua frente, Robbie Templeton comeou a soluar.

  A DEPRESSO SE INSTALARA realmente aos 12 anos, no prind. pio da puberdade.
  Antes disso, Robbie se lembrava de perodos de muita tristeza. pocas em que sentia tanta falta de sua me que experimentava uma dor fsica, como uma faringite 
muito fora causada pelo sofrimento. Mas eram apenas interldios temporrios. Tocando piano, saindo para caminhar na rua ou brincando com Lexi, conseguia se livrar 
da sensao.
  Entretanto, quando completou 12 anos, algum abalo ssmico aconteceu dentro dele. A escurido tomou conta de seu interior e, desta vez, a presena era constante. 
Robbie sentia como se estivesse atravessando um tnel sem fim e que algum fechara o buraco pelo qual entrara. No havia nada a fazer a no ser dar um passo de cada 
vez, sem esperana, eternamente. Vozes doces, instigando-o ao suicdio, seguiam-no a todos os lugares. Se no fosse por Lexi, j teria atendido a essas vozes anos 
atrs. E, dessa forma, pelo bem de sua irmzinha, se esforava por seguir adiante. Afundando cada vez mais em urna escurido sem fim.
  Uma vez, confidenciara ao seu tio Barney esses sentimentos. No dia seguinte, seu pai apareceu em seu quarto como uma fera, colocando Prozac na sua mo e forando-o 
a fazer terapia trs vezes por semana. Durante um ano, Robbie escutou educadamente o terapeuta e jogou Prozac na privada. No sabia mais de muita coisa, mas sabia 
que os "comprimidos de culpa" de seu pai no eram a resposta para o seu problema.
  Essa foi a ltima vez que Robbie Templeton procurou um adulto em busca de ajuda. Desde ento, estava sozinho.
  Como se a escurido no fosse suficiente, Robbie tinha a dolorosa conscincia de que tambm no era"normal" em outros aspectos. As garotas eram um problema. Os 
seus supostos amigos, o grupo de garotos que andavam com ele porque era rico e bonito e no sabiam nada sobre o menino torturado em seu interior, eram todos obcecados 
por garotas. Principalmente por seus seios, pernas e vaginas.
  - Voc viu os peitos de Rachel McPhee este semestre? Aquelas coisinhas lindas, tipo, triplicaram no vero.
  - Annie Mathis tem a xoxota mais gostosa do primeiro ano. Parece oTnel do Amor!
  - Se  Angela Brickley no chupar o meu pau at o final do ano juro por Deus que me mato.
 claro que falavam muita besteira. Contavam vantagem. Robbie sabia muito bem que a maioria dos garotos de sua turma era virgem, apesar de todo o papo sobre xoxotas 
e paus. Mas esta no era a questo, ou o problema. O problema  que eles tinham interesse em garotas. Todos eles.
  Robbie Templeton no tinha.
  Lembrava-se como seu corao parara algumas semanas atrs quando Lexi anunciou alegremente:
  - Eu sei porque voc no tem namorada.
  Pulando pela cozinha no seu vestido rosa de princesa favorito tomando refrigerante com um canudo espiralado, ela piscava para Robbie como Mae West.
  Quatro anos de idade, e ela j sabe flertar melhor do que eu. 
  - No Lexi.
  - Eu sei.
  Sabia? bvio?
  Robbie se esforava de verdade para no olhar para outros garotos em pblico tanto que seus olhos doam s vezes. Geralmente, nunca olhou na escola. No porque 
tivesse medo do que os outros poderiam dizer, mas porque sentia nojo dos prprios sentimentos, consumido por uma vergonha que no conseguia compreender nem expressar. 
No podia ser gay. Ele recusava a ser gay. Alm disso, se no fizesse nada em relao aos seus desejos, se no os atendesse, ento, tecnicamente, no seria gay. 
Apenas confuso. Certo?
  Lexi fitou-o com adorao.
  -  porque voc est esperando eu crescer para poder s casar comigo, certo?
O alvio foi to grande que Robbie caiu na gargalhada. Pegando a irm nos braos, girou-a at que ela soltasse gritinho de alegria.
  - Isso mesmo, meu amor.  exatamente isso.
  - Eu sou a sua princesa.
  - Isso, Lexi. Voc  a minha princesa.
  - Olhe por onde anda, seu idiota!
  Robbie levantou o olhar. Estava to envolvido nos prprios pensamentos que no estava vendo por onde andava. Deu ume trombada em um executivo indo almoar, fazendo 
com que perdesse o equilbrio.
  O homem falou ainda mais alto:
  - Voc  retardado ou alguma coisa? Maluco.
  - Desculpe, eu no vi o senhor.
  Robbie continuou andando, de cabea baixa. Dentro de suo mente, a fita continuou rolando:
  Ele est certo. Sou um maluco.
  No fazia ideia de onde estava indo. Acabaria tendo de voltar para casa, mas no podia encarar isso agora. Entrando na Grand Central Station, comprou uma passagem 
qualquer e entrou no primeiro trem que passou.

  Captulo 4

  A GAROTA TINHA CABELO ruivo. Seus seios eram to grandes que pareciam querer escapar da justa suter de l. Sua saia de couro preta era to curta que Robbie podia 
ver os desenhos de margarida em sua calcinha de algodo.
  O nome dela era Maureen Swanson. Ela era a capit das lderes de torcida, a garota mais popular da escola. Todos os garotos de St. Bede's queriam transar com ela.
  Quase todos.
  Maureen Swanson o encarou.
   - Eu conheo voc, no?
  Robbie olhou para os sapatos.
   - Ei Ran Man. Estou falando com voc. Al?
  Era muito azar. De todas as centenas, talvez milhares de trens que saam da Grand Central Station toda tarde, ele tinha pegar o mesmo que Maureen das Mamas Monstruosas. 
  - Voc  o garoto Blackwell, no ?
  Robbie olhou em volta procurando uma forma de escapar, mas no havia nenhuma. O vago estava lotado de passageiros. Ele estava confinado ali como em uma lata de 
sardinha.
  - Bobbie, certo? Primeiro ano?
  - Robbie.
  - Eu sabia! - Maureen ficou to triunfante que parecia que tinha acabado de resolver o teorema de Fermat ou de descobrir ou sentido da vida.
  - Robbie Blackwell.
  Ouvindo o nome Blackwell, outros passageiros se viraram para encarar Robbie. Alguns nem disfararam, na tentativa de ver melhor. O garoto realmente era um deles?
  - Na verdade, meu nome  Templeton. E voc no me conhece. Nunca fomos apresentados.
  Maureen se levantou, atraindo olhares admirados dos executivos mais introspectivos e assovios dos mais corajosos. Todas as mulheres do carro olharam furiosamente 
para ela.
  - Bem, Robbie Templeton. - Ela abriu um sorriso malicioso, acomodando-se no colo de Robbie. - Podemos resolver isso agora mesmo.
Robbie sentiu-se derretendo por dentro. No de desejo. Do medo. Por que no se jogou nos trilhos quando teve a chance? Qualquer coisa teria sido melhor do que a 
morte por sufocamento que estava prestes a encarar no vale Rift que existia no decote de Maureen Swanson.
  - Para onde voc vai?        
  Essa era uma boa pergunta. Para onde ele estava indo? Ainda no fazia a menor ideia. O trem comeara a diminuir a velocidade. Pelos alto-falantes, uma voz informou 
aos passageiros que estavam se aproximando de Bronxville.
  - Bronxville.  o meu ponto.
  Livrando-se dos braos de Maureen que envolviam seu pescoo, ele comeou a abrir seu caminho com o cotovelo para atravessar o muro de pessoas, e conseguiu,sair 
um pouco antes da porta do vago se fechar. Ficou parado na plataforma enquanto o trem se afastava.
  Graas a Deus. Ela foi embora.
  A voz de Maureen Swanson soou atrs dele.
  - Que coincidncia. Este tambm  o meu ponto.
  O desalento atingiu Robbie.
  Como ela conseguiu sair do trem sem que ele percebesse? Ela era o qu, Harriet Houdini?
  Maureen Swanson era dois anos mais velha do que Robbie Templeton. Ela tambm era uma deusa. O tipo de garota que poderia conseguir o cara que quisesse.  claro 
que os caras que ela queria eram os jogadores dos times das faculdades, com o de OJ Simpson. Robbie tinha mais a ver com Wallace Simpson. Sem dvida era bonito, 
mas, aos 15 anos, ainda era pequeno e magro, no parecendo ser nem um pouco mais velho do que era.
  Por outro lado, Robbie tambm era o herdeiro da fortuna da Kruger-Brent. Parecia que, por dez bilhes de dlares, Swanson estava disposta a abrir uma exceo no 
seu critrio para escolher namorados. Robbie Templeton podia no ter o corpo de um jogador de futebol, mas valia mais dinheiro do que a maioria dos profissionais.
  Maureen sorriu.
  - Conheo um cara que mora por aqui. Tem sempre uma festa rolando na casa dele. Quer ir dar uma olhada?
  Robbie avaliou suas opes. No queria ir dar uma olhada. No queria ir a uma festa, muito menos com Maureen Swanson. Queria ficar sozinho para que pudesse se 
matar em algum outro lugar, tranquilamente, sem que sua ltima lembrana fossem os seios de Dolly Parton ou a calcinha de margarida da JC Penney. Era pedir muito?
 Por outro lado... Uma festa significa outras pessoas. Barulho distraes para Maureen.
  Drogas.
  Robbie deu de ombros. Dane-se.
  - Claro. Por que no? No tenho nada melhor para fazer.

  QUANDO PETER TEMPLETON chegou em casa naquela noite, ele esperava encontrar o filho esperando por ele.
  - Robert!
  Deixou a porta da frente bater.
  - ROBERT!
  Peter Templeton no se sentia mais culpado pelo tapa que dera em Robert naquela tarde. Geralmente, ele era contra violncia fsica, ainda mais como forma de controle 
paternal. Mas, situaes desesperadas pediam medidas desesperadas. Robert estivera no seu escritrio, rindo dele. Rindo de verdade. depois de todos os problemas 
que tinha causado para a famlia as expulses, as passagens pela polcia, os furtos a lojas. Depois de todo o dinheiro e tempo que Peter gastara tentando ajud-lo 
- todos os terapeutas, viagens de frias e aulas de piano de cem dlares a hora -, Robert ainda via a situao com uma piada.
  Bem, a piada tinha chegado ao fim. Para Peter Templeton, bastava.
  Subindo as escadas, dois degraus de cada vez, na direo do quarto de Robbie, Peter passou pela empregada, Sra. Cartel Ela estava no corredor, como se pedisse 
desculpas.
  - Acredito que o Sr. Robert no esteja em casa, senhor. No o vimos desde que saiu para a escola hoje de manh. Alguma coisa errada?
Peter fechou a cara.
  - Tem muita coisa errada. Ele conseguiu ser expulso do St. Bede's. Duvido que ainda haja alguma escola no estado, de Nova York que o aceitaria agora. Francamente, 
nem pose dizer que a culpa seja deles.
  - Ah, meu Deus.
  A Sra. Carter apertou uma mo na outra, em desespero Adorava Robbie, mas parecia que ele estava se metendo em muitas encrencas ultimamente.    
  - Robbie?  voc?
  Lexi ouvira a porta da frente bater e saiu correndo de seu quarto, j de camisola, ansiosa para ver o irmo. Como sempre, o corao de Peter se alegrou ao v-la.
  Ela estava cada dia mais parecida com a me. Tinha os olhos, os lbios e o cabelo de Alex. O sorriso de Alex, meio tmido, meio sagaz, o lbio superior ligeiramente 
torcido. Ela at andava como a me. Mas o temperamento era diferente. Enquanto Alex fora gentil e flexvel, Lexi era impulsiva e ativa. A Sra. Carter se referia 
a ela carinhosamente como "nossa pequena doninha". At Peter, com sua viso paternal cronicamente pintada de rosa, podia ver que Lexi no era exatamente o modelo 
de uma jovem dama " de famlia". Ele usava a palavra "impetuosa" para defini-la. Observadores menos parciais preferiam "mimada". "Teimosa" tambm era muito comum. 
E alguns ainda diziam "totalmente sem controle".
  - A est a minha princesa. - Peter beijou o topo da cabea de Lexi. Ela cheirava a biscoitos frescos e talco. Ele sentiu sua raiva derreter.
  - O que voc est fazendo fora da cama a esta hora?
  Lexi franziu a testa, depois fez biquinho, os olhos cinza cheios de lgrimas.
  - Robbie! - chorou ela. - Eu quero Robbie! Onde est Robbie? Onde est ele?
  Peter sentiu a amargura sufocando-o. primeiro Alex, agora Lexi. Robert sugara o amor delas como um vampiro, no deixando nada para Peter. Precisou se esforar 
muito para no demonstrar nenhuma emoo na voz.
  - Robbie no est em casa agora, docinho. Quer que o papai a coloque na cama? Posso ler uma histria que voc goste. Aquela do esquilo Nutkin?
  - NO! - Isso foi um grito. - Papai! NO! Rooooooobiiiieeee!
  A Sra. Carter apareceu, levando Lexi de volta para o quarto bruscamente. Pobre Sr. Templeton. Parecia que tinham jogado cido em seu rosto. Ele precisava aprender 
a no levar as coisa to ao p da letra. A Sra. Carter tinha quatro filhos. Como todas mes, ela sabia que crianas podem ser maldosas e imprudentes, principalmente 
na idade de Lexi. No se podia levar tudo para o lado pessoal.
  Assim que Lexi estava acomodada na cama, a Sra. Carter desceu. Encontrou o patro no escritrio.
  - Ela dormiu?
  A voz de Peter soou estranha. Abafada e sombria. A Sra. Carter notou o copo de usque na mo dele, e a garrafa aberta em cima da mesa. Ficou arrepiada, com um 
mau pressentimento.
  - Sim, senhor. Est dormindo profundamente.
  Peter tomou um gole de seu drinque. Quando levantou os olhos, eles estavam vidrados.
  - Que bom. Obrigado. Pode ir.
  De repente, a Sra. Carter no achou que seria certo deixar Lexi sozinha em casa com o pai. E se o Sr. Templeton desmaiasse e alguma coisa acontecesse com Lexi? 
Nunca se perdoaria.
  - Tudo bem, senhor. Posso ficar mais um pouco. Pelo menos, at Master Robert chegar em casa em segurana.
  O Sr. Carter - Mike - devia estar em casa esperando pelo jantar. No ia gostar nem um pouco disso, mas no havia nada que pudesse fazer.
  - Posso preparar alguma coisa para o senhor jantar. Tem carne na geladeira. Posso preparar um estrogonofe.
  - No. Obrigado.
  Peter esvaziou o copo e, na mesma hora, encheu de novo.
  - V para casa, Sra. Carter. Ns nos vemos pela manh.
  As palavras foram educadas, mas o tom soava como ao lquido. A empregada hesitou.
  Pensou em Lexi e no pobre Sr. Robert. Deveria deix-los aqui, sozinhos, com o pai bbado? Provavelmente no. Mas se forasse a barra e dissesse que ficaria, poderia 
perder o emprego. O que aconteceria com os seus filhos, ento? Com Mike desempregado, o seu salrio era tudo com que contavam.
  Tomou uma deciso.
  - Tudo bem, senhor. Se tem certeza.
  As crianas ficariam bem. Claro que ficariam. Estava fazendo uma tempestade em um copo d'gua. O precioso jantar de Mike estaria pronto na hora, e tudo ficaria 
bem.
  Por que diabos aquele desgraado preguioso no aprendia a usar o micro-ondas?

  Robbie sentou-se na cama, tentando se concentrar.
  - Eu sei que voc quer. Voc me encarou a noite toda. O que est esperando?
  Maureen Swanson, nua da cintura para cima, engatinhou sobre a colcha at ele. Suas repulsivas e enormes tetas balanavam como gaitas de foles infladas. Quando 
ela tirou a calcinha e revelou sua moita ruiva muito bem aparada, um forte cheiro de peixe estragado atingiu as narinas dele. Ele sentiu a bile subir por sua garganta.
  O que eu estou esperando? Estou esperando Scotty consertar o teletransportador e me levar de volta  Enterprise,  isso que estou esperando.
  De repente, uma imagem de William Shatner com sua cala verde e justa apareceu na cabea de Robbie. Ele sorriu. Ento, Maureen chegou mais perto e o sorriso se 
apagou.
  - Tudo bem - sussurrou ela, rouca. -, todo mundo fica nervoso na primeira vez.  s relaxar e deixar a mame aqui cuidar de voc. Vai ser gostoso.
  Ah, Deus, no!
  Mesmo com a vista embaada por causa da cocana, Robbie viu a sujeira embaixo das unhas enquanto enfiava a mo dentro de sua cueca Calvin Klein.
  - Mas que diabo?
  Maureen fitou- o de forma acusadora. Na palma de sua mo, estava o pnis mole dele, como uma geleca intil.
  - Voc  veado ou alguma coisa assim? No est nem duro.
  - Claro que no sou veado. - Finalmente, Robbie conseguiu falar. - Eu... Eu s... Acho que tomei alguma coisa que no me fez bem, sabe. No estou me sentindo muito 
bem.
   Baita eufemismo. A noite toda fora um pesadelo um final adequado para um dos piores dias de sua vida. O "amigo" de Maureen era um traficante insignificante e 
metido a mafioso, chamado Gianni Sperotto, um garoto italiano com uma cara de rato cheia de espinhas, um nariz que escorria como uma torneira e bafo to podre que 
quase dava para ver. O "apartamento" de Gianni era no ltimo andar de um armazm condenado. Em um ou dois anos, sem dvida, algum figuro do mercado imobilirio 
reformaria o lugar, transformando-o em um loft com paredes cromadas, para solteiros, e o venderia a preos compatveis com os da Park Avenue. Nem mesmo um buraco 
como o Bronxville estava imune  febre de desenvolvimento que varrera os Estados Unidos na ltima dcada. Da noite para o dia, parece que uma gerao inteira ficou 
milionria simplesmente derrubando algumas paredes e rebatizando de relquias industriais como "coberturas no estilo loft".
  Mas no Gianni Sperotto. Ele estava ocupado demais limpando carreiras de coca com o nariz para descobrir a fortuna escondida embaixo do p. A "festa" dele consistia 
em um bando de prostitutas e drogados meio mortos deitados em colches ftidos espalhados pelo cho. A cama para onde Maureen arrastara Robbie era o dormitrio do 
prprio Gianni, separado do resto por uma tela de papelo, sobre a qual o anfitrio jogara cortinas aveludadas psicodlicas, o nico em um muquifo plido e lamentvel.
  No havia msica, dana, ou qualquer outro homem vagamente atraente para distrair Maureen de sua presa. Robbie percebeu que sua nica esperana era deix-la to 
alta que se esqueceria dele. Era um excelente plano, exceto por um pequeno detalhe. Para deixar Maureen alta, ele teria de ficar tambm. A mente de Robbie ficou 
nebulosa aps um baseado forte. J Maureen Swanson parecia resistente como um touro. No, uma boiada inteira. A garota tomava ecstasy como se fosse M&Ms e cheirava 
p como se fosse acar. As drogas no tiveram nenhum efeito sobre a excitao dela.
  - Alguma coisa no fez bem, ? Vamos ver. Deite-se e feche os olhos.
  Desorientado demais para resistir, Robbie. Depois, sentiu a lngua quente e molhada de Maureen entre as suas pernas. Aparentemente, ela encarava seu estado flcido 
como algum tipo de desafio.
  Se eu pelo menos conseguisse levant-lo.
  Quando abriram a cortina e os homens apareceram, a primeira sensao de Robbie foi puro alvio.
  O segundo, pnico.
  - Polcia! - Robbie sentiu uma spera mo masculina em seu brao. - A festa acabou, crianas. Levantem-se, encostem na parede e coloquem as mos na cabea. Agora!
  A cabea de Robbie estava a mil por hora. Anos de noites de domingo religiosamente dedicadas a assistir a Carro Comando no canal sete diziam a ele que isto devia 
ser uma batida policial em busca de drogas. Sua cala estava amontoada no p da cama, com trs comprimidos de ecstasy enfiados no bolso de trs: verso de Gianni 
Sperotto de lembrana de festa.
  Lado bom: sou menor. O pior que podem fazem comigo  me mandar para um centro de deteno para menores infratores.
  Lado no to bom: eles podem me mandar para um centro de deteno para menores infratores!
  Apesar de toda a ousadia no escritrio do pai, Robbie Templeton morria de medo da ideia de priso. Para ele, parecia pior do que suicdio. Morte significava paz. 
Significar ficar com a sua me. Mas priso, mesmo o centro de deteno para menores infratores, para um garoto bonito como ele? Iriam com-lo vivo. E isso seria 
antes de descobrirem que ele era um Blackwell e um dos garotos mais ricos do pas.
  Com as pernas afastadas, seminu, encostado na parede, ele tentou se concentrar. O que no era fcil com Maureen Swanson gritando e xingando ao lado dele como um 
demnio.
  - Seus idiotas, encostem um dedo em mim e juro por Deus que meu pai vai providenciar pessoalmente para que cortem as suas bolas.
  O capito de polcia riu.
  - Eu lhe aconselharia a no nos ameaar, doura.
  - Lindo traseiro - acrescentou o tenente. - Que tal abrir um pouco mais essas pernas?
  Robbie estava quebrando a cabea. Ser que tinha algum documento na sua cabea jeans? Algo que provasse quem ele era. Cara, era difcil pensar quando estava alto.
  Sem aviso, Maureen Swanson virou e deu um soco no rosto do tenente. A enorme pedra do anel que estava usando cortou o globo ocular dele como se fosse uma faca 
na manteiga.
  - Meus Deus, sua vadiazinha! Voc me cegou!
  No pandemnio que se seguiu, Robbie viu a sua chance. Correndo para a janela aberta, mergulhou de cabea.
  Sentiu um golpe de ar gelado na parte inferior do corpo. Lembrou-se que estava nu da cintura para baixo. Quando abriu os olhos, lembrou-se mais de uma coisa: o 
quarto de Gianni Sperotto ficava no sexto andar.
  
  A queda pareceu levar uma eternidade. O tempo se esticou em cmera lenta. Robbie sabia que ia morrer. A ideia o fez sorrir. Imaginara este momento inmeras vezes, 
perguntando-se se sentiria medo quando a hora chegasse. Mas agora que estava realmente acontecendo, sentiu-se tomado por uma intensa satisfao.
  O cho cresceu lentamente at encontr-lo, verde e cinza sob o luar.
  Ento, tudo ficou preto.

  - Cara?
  - Ei, cara? T me escutando?
  Robbie estava perto de um rio, deitado sobre a grama. Estava na frica do Sul, no deserto perto de Burgersdorp, a cidadezinha de Transvaal para onde sua me costumava 
lev-lo quando era pequeno. No passado, chamada de Klipdrift, este era o lugar onde Jamie McGregor comeara a fazer fortuna. A terra natal da Kruger-Brent, o lugar 
onde tudo comeou. O vento suave balanava os galhos das accias. Acima dele, via o rosto de sua me, a melhor viso do mundo. Os lbios dela se moviam. Estava tentando 
falar com ele. Mas sua voz estava estranha. Desconhecida.
  - Seu filho da puta sortudo. Voc podia ter morrido.
  Sua me estava desaparecendo.
  Me! Volte!
  Mas era tarde demais. Alex no estava mais ali, seu olhar carinhoso substitudo pelo escrutnio curioso de trs negros estranhos, garotos pouco mais velhos do 
que Robbie.
  Estava deitado de costas, estendido sob alguns arbustos. Os galhos devem ter aparado sua queda. Quando tentou se mexer, a dor na perna esquerda era forte demais. 
Com um pouco de ajuda, conseguiu levantar.
  - Voc deve estar muito alto, cara. - O mais velho balanou a cabea admirado. - O que achou, que era o Super-Homem ou alguma coisa parecida?
  Os amigos riram alto.
  - E j percebeu que est pelado? Ou talvez eu seja o Super-Homem? Talvez eu tenha a viso de raio x.
  Mais gargalhadas.
  - Por favor - gaguejou Robbie. - Os policiais... eles vo descer a qualquer segundo. Algum de vocs, me empreste uma cala.
  Os garotos se entreolharam.
  - O qu? Ningum vai te emprestar cala nenhuma.
  Robbie pensou por um instante, ento comeou a puxar o dedo mnimo de sua mo esquerda.
  - Aqui. Fique com isso. - Ele colocou um anel com sinete de ouro macio na mo do garoto mais velho. Tinha sido do seu tatarav, Jamie McGregor, e tinha o smbolo 
de dois carneiros lutando: a logomarca da Kruger-Brent. -  de ouro, vale pelo menos quinhentos dlares.
  O garoto olhou para o anel.
  - Jackson, d a sua cala para o Clark Kent aqui.
  Jackson pareceu furioso.
  - V se foder! No vou dar a minha cala.
  - Eu disse para tirar a cala! Agora! L vem a polcia, cara.
  Dois policiais uniformizados estavam saindo correndo do prdio de Gianni com lanternas acesas. Robbie pensou: eles esto procurando um corpo.
  O garoto negro tirou a cala jeans como se fosse uma cobra tirando a prpria pele.
  Robbie observou-o sumir nas sombras, o Carl Lewis Westchester Country. Vendo a silhueta de trs negros desaparecendo no meio das rvores, os policiais comearam 
uma perseguio. Isso deu a Robbie alguns valiosos segundos para agir.
  Puxou a cala. Era enorme. Apertou o cinto o mximo que pde s para no que ela no casse. Lentamente, comeou a andar. A dor na perna estava piorando. Esquecendo-se 
de tudo o mais, concentrou-se em Lexi e em sua me. No podia ir para a cadeia. Precisava fugir. Cantarolando baixinho a msica que tocava em sua mente - o concerto 
para piano em d menor de Grieg -, seguiu mancando pela escurido.

  Quando Robbie chegou em casa, j eram 6 horas.
  J tinha amanhecido em West Village. Nas portas, os sem-teto estavam comeando a despertar, sacos de ossos tentando curar os efeitos do sono e das bebidas e se 
mandar antes que os primeiros guardas aparecessem. Robbie os observou. No era a primeira vez que pensava em como era irnico que apenas alguns metros de tijolos 
separassem esses cascos humanos sem esperana de pessoas como ele: o mais rico dos ricos. Esses vagabundos deviam achar que ele tinha tudo. O que eles diriam se 
soubessem a freqncia com que passa noites acordados em sua confortvel cama, sonhando em estourar os prprios miolos?
  Estava sem chave. Tinha ficado na cala, com ecstasy. Desceu mancando at o poro, onde digitou seis nmeros no teclado da porta de servio, que gentilmente se 
abriu. Bem vindo ao lar.
  Imaginou o que estaria acontecendo em Bronxville. Ser que a polcia conseguiu pegar os trs camaradas negros? Pouco provvel. Mas isso no significava que ele 
estava fora de perigo. Maureen Swanson deve ter dado com a lngua nos dentes e dito para a polcia quem ele era e onde encontr-lo.
  Esquece. Se ela falou, no poderia fazer mais nada.
  Rastejando pelas escadas da cozinha, ficou aliviado ao ver que a casa estava em silncio e no escuro. J estava quase no topo da escadaria principal, quando uma 
voz soou atrs dele.
  - Estou no escritrio, Robert.
  Merda.
  O corao de Robbie quase parou, terror acumulando-se no fundo do estmago.
  Por favor, permita que ele no esteja bbado.

  Peter estava sentado no sof de brocado vermelho. Estava conversando com a esposa.
  Voc sabe como eles so difceis nessa idade, querida. No fui firme o suficiente no passado, esse  o problema. Mas nunca  tarde demais para mudar.
  Alex estava concordando com ele. De p perto da janela, usava o vestido verde Halston que ele lhe dera no dcimo aniversrio de casamento, ela assentiu, encorajando-o. 
Onde estaria sem ela? Seu amor e apoio eram tudo para ele. Davam-lhe a fora de que precisava.
  Se fossem s os problemas na escola, eu poderia perdo-lo. At as drogas. Mas temos de pensar na Lexi. Ele  uma pssima influncia sobre ela, Alex. Est tentando 
tir-la de mim. No posso permitir isso, posso?
  Alex balanou a cabea. Claro que no, querido. Mas no vamos desperdiar a noite toda falando de Robert. Gostou do meu vestido?
  Adorei. Voc sabe. Est linda.
  Para voc Peter. Estou linda para voc.
  - Pai?
  Peter levantou a cabea. Alex sumira. A sala balanava devagar, como um navio. Tudo estava tingido em um tom de spia. Era como estar dentro de uma fotografia 
antiga do Titanic. O desastre ainda no tinha acontecido, mas era iminente.
  Peter Templeton esperou os dois rostos do filho se formarem em um s antes de falar.
  - Onde voc passou a noite?
  Robbie mudava o peso do corpo de um p para o outro, em silncio.
  - Fiz uma pergunta.
  - Com uma garota.
  No era mentira. No tecnicamente.
  - Que garota? Onde?
  Havia tanta raiva na voz de Peter que Robbie percebeu que estava tremendo.
  - Em Bronxville. Pegamos um trem - disse Robbie, habilmente respondendo a segunda pergunta e se esquivando da primeira. Falar o nome de Maureen Swanson no ajudaria 
em nada. - Escute, pai, desculpe pelo que aconteceu na escola ontem. De verdade. Eu no sei por que fao essas coisas.  que s vezes eu...
  - s vezes voc o que?
  A raiva de Peter estava aumentando. No queria escutar desculpas nem explicaes. Queria que Robert admitisse a culpa. Aceitasse que merece ser castigado. Castigado 
por monopolizar o carinho de Alex. Castigado por jogar Lexi contra ele.
  - s vezes, eu simplesmente no consigo agentar. - Pela segundo vez naquele dia, Robbie comeou a chorar.
  No chore, pelo amor de Deus. Seja homem. Foi voc mesmo quem causou tudo isso.
  Por trs de uma almofada de brocado vermelho, fora de vista, Peter Templeton segurava uma arma.
  Quando tirara sua Glock do cofre algumas horas antes, estava fantasiando sobre se matar. Uma garrafa e meia de usque tinham lhe roubado toda a racionalidade e 
o deixado amargurado e arrasado. Fracassara. Como homem, como marido, como pai. A arma na mo lhe trazia conforto. Uma fuga. Mas, ento, Alex aparecera, a doce e 
querida Alex. Peter escondera a arma embaixo da almofada para no assust-la.
  Agora pegou-a de novo. O metal frio pressionando contra a palma de sua mo.
  Robert tinha vindo para casa.
  Robert precisava ser castigado.
  Peter s escutou metade do que o rapaz estava falando.
  - No sou como os outros garotos. St. Bede's no  o meu lugar. No me sinto bem em lugar nenhum. Talvez seja porque sinto tanta saudade da mame. Talvez...
  Robbie deixou a frase inacabada. Peter afastara almofada. Estava com uma arma na mo e a sacudia avidamente, como se fosse a batuta de um maestro.
  - Continue - disse ele. - Por favor. Isso  interessante.
  O medo tomou conta de Robbie. Prendeu a respirao.
  - Talvez quando terminar, possa me explicar por que a minha filha  no quer mais saber de mim? Por que voc achou que tinha direito de roubar Lexi de mim?
  Robbie tremia tanto que no sabia se conseguiria falar. J vira seu pai bbado mais de mil vezes, mas nunca o vira violento. Talvez o tapa que lhe dera mais cedo 
tivesse despertado algum monstro escondido? Como um tubaro que sente o gosto de sangue e, ento, mergulha em um frenesi faminto.
  Robbie escolheu com cuidado as palavras seguintes.
  - Lexi no tem nada a ver com isso.
  Foi exatamente a coisa errada para dizer. Quando Peter respondeu, sua voz era um uivo.
  - No me diga que Lexi no tem nada a ver com isso. No ouse! Ela tem tudo a ver com isso. Voc est roubando a minha filha de mim, assim como roubou a sua me.
  Ele deu um tiro para o teto sobre a cabea de Robbie. Cacos de gesso caram sobre os ombros do rapaz.
  Adrenalina pulsava na veia de Robbie como rock'n'roll.
  Ele no est s bbado. Perdeu a cabea. Ele vai atirar em mim.
  Matar-se era uma coisa. Ser morto, ainda mais pelo prprio pai, era outra bem diferente. Naquele momento, Robbie percebeu, com uma clareza ofuscante, que no queria 
morrer. Tinha 15 anos. Queria viver. Agora s precisava descobrir como. 
  A janela para a rua estava atrs dele. Se ele se virasse e corresse, seu pai atiraria nas suas costas. No havia como fugir. Sua nica esperana era tentar conversar 
com o pai.
  - Pai eu nunca roubei a mame de voc. Ela amava voc. Ela amava ns dois.
  - No venha me dizer o que a sua me sentia por mim! Voc no sabe de nada. - Peter apontou a arma diretamente para o peito de Robbie. - Eu e Alex vivamos muito 
bem at voc chegar.
  - Pai, por favor...
  O assovio na cabea de Peter estava ficando cada vez mais alto, como uma chaleira fervendo. Apertou as mos contra as tmporas. A sala estava balanando de novo.
  Estou bbado. Que diabos estou fazendo?
  Olhou pela janela, desejando que Alex estivesse ali. Precisava o conselho dela, nunca precisara tanto. Mas ela se fora.
  - Pai, pare com isso! Pare de gritar!
  Lexi apareceu na porta, segurando seu bicho de pelcia favorito, um coelho branco.
  O rudo na cabea de Peter era insuportvel.
  - Est tudo bem, querida - disse ele. - Venha aqui.
  Robbie observou sua irm dar um passo confiante na direo do sof. Sem pensar, Peter virou-se para encar-la. Agora, a arma estava apontada para ela.
  Robbie precisava salvar Lexi. O instinto o dominou. Soltou um grito primata, selvagem, correndo na direo do pai como um bfalo enlouquecido.
  Peter levantou o olhar. A expresso no rosto de Robbie estava curiosamente congelada, como um filme pausado. O medo tinha desaparecido. Alguma outra coisa o substitura. 
Determinao talvez? Ou dio? Peter no tinha certeza.
  Escutou a voz da empregada.
  - No!
  A Sra. Carter tivera uma noite pssima. No dormira nada, passando a noite acordada na cama, ao lado de seu marido, Mike, virando de um lado para o outro, se sentindo 
culpada. No devia ter deixado o Sr. Templeton sozinho com as crianas. Ele no estava em condies de cuidar delas.por volta das 5h, no agentou mais. Deixou Mike 
roncando na cama, vestiu as mesmas roupas da vspera sem mesmo tomar banho e correu para o trabalho. Quando enfiou a chave na fechadura da porta da frente, escutou 
o tiro. Com o corao acelerado, seguiu as vozes na direo do escritrio. Chegou a tempo de ver o seu patro com a arma apontada diretamente para a cabea de sua 
filha de 4 anos.
  Peter precisava pensar, mas no conseguia. O assovio na cabea era to alto que dava vontade de chorar. De repente, estava chorando. Abriu os olhos para o rosto 
Lexi.
  Ela  to parecida com a me.
  Um segundo tiro disparou.
  O assovio parou.

  Captulo 5

   Max Webster pegou o embrulho vermelho da mo da sua me e virou-o nas mos, empolgado.
  Era pesado. Alguma coisa slida. Decidiu que provavelmente no era um brinquedo, apesar do papel de presente infantil com um "Feliz Aniversrio" em dourado em 
cima.
  - O que ?
  Eve Blackwell sorriu para o filho, seus olhos iluminados antecipando o momento.
  - Abra e descubra.
  Era o aniversrio de 8 anos de Max. Uma criana impressionante, com nariz aquilino, predador, olhos muito pretos combinando com o cabelo e as mas do rosto que 
muitas modelos dariam tudo para ter. Havia algo de feminino e adulto nele. Max no tinha nada da inocncia de seus amigos. Max era inteligente. Era esguio. Era ousado. 
Se os outros meninos eram filhotes, Max Webster era um puma entre eles, to perigoso quanto bonito.
  Menos de uma hora atrs, a cobertura na Quinta Avenida em que Max morava com os pais estava cheia de fedelhos de 8 anos com bochechas gordas, todos ansiosos para 
se engraar com o colega famoso. A festa foi idia do pai de Max.
  Keith Webster dissera:
  - O menino precisa de amigos, Eve. Precisa se socializar. No  normal um menino na idade dele passar todas as horas livres com a me.
  Eve  no foi contra. Simplesmente se recolheu em seu quarto durante a festa, com a porta trancada. A festa foi adiante, e Max foi inundado por presentes: Transformers 
e Skalectrix, trens eltricos e vrios Action Men. Todo mundo comeu muito bolo e marshmallow e bebeu Coca-Cola at que sasse pelo nariz em correntes espumantes. 
Keith Webster.
  Depois da festa, perguntou ao filho:
  - E a, amigo, se divertiu? - Amor e orgulho iluminavam seu rosto.
  Max assentiu. Claro, pai. Foi timo.
  Max esperou Keith Webster sair. Todo domingo  noite Keith saa para jogar softball. Ele e outros cirurgies do hospital tinham um time para ajudar a aliviar a 
presso de trabalhar sempre no limiar entre a vida e a morte. Assim que Max escutou o clique da porta da frente, foi procurar a me.
  - Todos j foram?
  - J, mame.
  - Todos eles?
  - Todos. S estamos ns dois agora. Sinto muito ter demorado tanto.
  Eve destrancou a porta do quarto. Vestida com um robe, estilo quimono de seda cor de chocolate que revelava roupas ntimas de renda da mesma cor por baixo, ela 
puxou o filho para mais perto. Aos 8 anos, Max ainda era bem baixo. O topo de sua cabea coberta de cabelos negros superava apenas em pouco a altura do umbigo de 
Eve. Pressionando o rosto dele em sua barriga macia e magra, ela sentiu que ele inspirava seu cheiro, uma mistura do prprio odor animal e feroz de Eve com o perfume 
Chanel que usava desde menina.
  Max s respirava. Mas Eve podia sentir a adorao nesse corpo pequeno e compacto. Uma onda de poder familiar causou-lhe um arrepio.
  - Venha se sentar na cama da mame. Agora voc j pode ganhar seu presente especial.
  Max observou, encantado, enquanto a me pegava o embrulho na gaveta. Era por isto que estivera esperando. No uma festa estpida com um bando de crianas do colgio 
que s vieram porque queriam ver a sua me. Como se Max fosse deixar isso acontecer!
  Pensou mais uma vez em Keith Webster. Seu pai. Como o odiava.
  "E a, amigo, se divertiu?
  Se me diverti? Com voc?
  Max ansiava pelo dia em que Keith no estaria mais ali. Ento sua linda me seria toda sua. E finalmente ele poderia parar de fingir.
  Com as mos trmulas, ele rasgou o papel de presente. Dentro dele viu um brilho de metal preto. Um trem?
  - Voc gostou?
  A voz de Eve saiu rouca, quase um sussurro. Max fitou-a. Para o mundo exterior, sua me fazia de tudo para se esconder. Mas no com ele. Max era especial. Precisava 
ver a verdadeira Eve Blackwell, com cicatrizes e tudo o mais. Amava tanto a me que, s vezes, at chorava.
  - Me! - Ele estava pasmo. - ... de verdade?
  - Claro que  de verdade. E  muito antiga. Est na minha famlia h muito, muito tempo.
  Com adorao, Max acariciou o gatilho da arma, os dedos infantis roando, explorando. Tanto poder. E era toda dele.
  - Voc j  quase um homem, Max - disse Eve. - Est velho demais para brinquedos. Keith no entende isso, mas eu entendo.
  Na frente do filho, Eve Blackwell sempre se referia ao marido pelo nome de batismo, nunca como "pai" ou "papai". No incio, Keith reclamara.
  - Gostaria que voc parasse com essa histria de me chamar pelo primeiro nome.  horrvel. Max no chama voc de "Eve".
  Mas, algumas semanas, Keith acabou desistindo de seus esforos espordicos para introduzir a palavra que comea com "p" no vocabulrio do filho.
  - No sou, querido - insistia Eve -,  Max. Alm disso, no acho nada demais.  apenas uma mania dele. Quanto mais voc insistir, mais ele vai bater o p e continuar 
com isso. Voc sabe como so as crianas.
  - Keith sabe que voc me deu isso?
  Max ainda estava hipnotizado pela arma. Era perfeita. Como sua me.
  Eve sorriu.
  - No.  nosso segredo. Guardarei no cofre para voc, para no levantar suspeitas. Pode pegar sempre que quiser.  s me pedir que eu pego para voc.
  De repente, Max pensou uma coisa chocante.
  - No  a arma do tio Peter, ? Aquela... voc sabe. Quando eu era pequeno.
  Quatro anos antes, o tio de Max, o Dr. Peter Templeton, quase atirara nos filhos em um acesso de fria causado pela bebida. Ningum sabe se a inteno era se matar 
ou Lexi ou Robert. O prprio Peter estava bbado demais para se lembrar. As pessoas s ficaram sabendo que, em uma manh, a empregada chegara mais cedo na casa dos 
Templeton e escutara tiros; ento tentara arrancar a  das mos do tio Peter e, na briga, levara um tiro no brao.
  A mulher fora indenizada, claro. Max escutara Keith dizer que o cheque fora "de milhes", mas certamente o dinheiro fora muito bem gasto: a histria no chegou 
aos jornais. Daquele dia em diante, o tio Peter de Max no tomou mais nem uma gota de lcool. A arma que ele usou desaparecera misteriosamente.
  Eve balanou a cabea.
  - No, querido. No  a arma do tio Peter.  muito mais especial. Esta arma pertenceu ao meu av, David Blackwell. Seu bisav.
  Max encheu o peito de tanto orgulho. Adorava escutar a me contar as histrias da famlia dela. Famlia.
  As primeiras lembranas de Max eram da voz intensa e sensual da me, ninando-o com histrias de seu tatarav, Jamie McGregor, e do imprio que ele fundou. A primeira 
palavra de Max foi "mame", a segunda, "Kruger", e a terceira, "Brent". Enquanto os outros meninos sonhavam com dinossauros e o Super-Homem, os olhos de Max brilhavam 
quando ouvia sobre os diamantes roubados com os quais McGregor construra sua fortuna. Minha fortuna. Max Webster no precisava de contos de fadas, de princesas 
injustiadas, drages e castelos. Sua me era a princesa injustiada. O reino de Eve. A Kruger-Brent era o castelo deles. Quanto aos drages, eram muitos para se 
contar. Todos que Max conhecia eram inimigos, desde o desprezvel Keith, aos meninos da escola que riam de sua me, at seus primos Templeton, Robert e Lexi.
  Seus primos roubaram a sua herana, meu querido. Eles pegaram o que era seu e o expulsaram como uma serpente no deserto. Assim como me expulsaram.
  A me de Max fazia com que a luta deles soasse proftica. E era. Eve fora expulsa do Jardim do den. Max era o escolhido, o profeta, o messias. Seria Max que retomaria 
a terra prometida para Eve.
  S quando devolvesse a Kruger-Brent para sua me, Max ganharia o maior prmio de todos: o amor dela. Esse era o pacto deles, selado com o sangue do nascimento 
dele. Max pensava constantemente nisso.
 At esse dia glorioso em que completaria seu destino, ele precisava aprender a sobreviver com as migalhas de amor que Eve lhe dava. Geralmente, sua me era fria 
e distante. A constante presena fsica dela no apartamento era como uma deliciosa tortura. Max ansiava por seu abrao como um rio seco anseia pela chuva, mas isso 
lhe era negado uma vez atrs da outra. Keith Webster podia toc-la, com suas mos frias e doentes. Mas Max no podia. Em raras ocasies quando sua me lhe abraava 
forte, como hoje, o garotinho sentia que podia mover montanhas. Encostado nela, perdido no cheiro inebriante de sua pele, a alegria flua por seu corpo como herona.
  Eve se levantou. Fechando mais o robe de seda, ela foi at a janela.
  Max ficou sentado na cama sozinho. Como sempre, o afastamento de sua me era como uma dor fsica. Agarrou a arma, o presente dela, encostando-a carinhosamente 
em seu rosto.
  - Seu bisav nunca usou a arma. Nunca disparou um nico tiro.
  Eve estava olhando pela janela. Era como se estivesse falando consigo prpria, e no com ele.
  - Ele era um covarde.
  Max pegou a isca, um filhote inocente pulando para o abatedouro.
  - Eu no sou covarde, me. Eu no tenho medo de usar a arma.
  Eve virou-se.
  -  mesmo? E para que voc vai us-la, meu querido?
  Max no respondeu. No precisava.
  Ambos sabiam para que era o presente.
  Usarei para matar Keith Webster.
  Usarei para matar meu pai.

Captulo 6

  Lionel Neuman fitou o jovem sentado  sua frente e sua mente foi transportada para o passado.
  Estava em 1952, uma manh de junho muito parecida com esta. Kate Blackwell estava sentada na mesma cadeira deste jovem. Fazendo as contas, Lionel Neuman percebeu, 
com um choque, que Kate j devia ter 60 anos na poca. A imagem que sua mente guardara com cuidado era de uma mulher de meia-idade, mas ainda bonita; magra, vestida 
de maneira impecvel e com a cabea coberta por uma cabeleira brilhante preta com apenas algumas mechas grisalhas. Ela estava preocupada com o filho.
  Tony no est sendo ele mesmo, Lionel.  como se alguma coisa tivesse morrido dentro dele. Fiz tudo que podia para deix-lo feliz, mas no adiantou. Ele est determinado 
a no se casar.
  O problema de Kate Blackwell era que, embora s vezes pedisse conselho  Lionel Neuman, Brad Rogers e outros executivos da Kruger-Brent, nunca os seguia. Qualquer 
idiota podia ver o que estava errado com Tony Blackwell. O garoto queria ser artista, e Kate no permitia. O cruel menosprezo dela pelos sonhos de Tony acabou custando 
a sanidade dele. Mas Kate Blackwell no conseguia ver as coisas dessa forma. Ela foi para o tmulo acreditando que fizera o melhor para o filho. Que fora Tony quem 
a decepcionara.
  Claro, Tony Blackwell se casou. Durante alguns poucos meses, ele foi feliz, muito feliz, at que sua esposa Marianne morreu dando  luz as gmeas, Eve e Alexandra.
  Todos eles esto mortos agora. Kate, Tony, Marianne, Alexandra. Mas eu ainda estou aqui. O mesmo escritrio. A mesma famlia. Os mesmos problemas. Como a vida 
 curiosa.
  O jovem sentado  frente de Lionel Neuman era o bisneto de Kate Blackwell, Robert Templeton. Se Tony no tivesse casado, claro, o jovem Robert no estaria aqui. 
Nem aqui neste escritrio, nem neste mundo. Mas Kate Blackwell conseguia fazer as coisas do seu jeito, como sempre. Era difcil acreditar, mas o menino j estava 
com 19 anos, 1,80m e to louro e escultural quanto um dolo adolescente.
  Mas ele no  uma criana, ?  um homem. Esse  o problema.
  - No h nada que voc possa fazer para me impedir.
  O tom de voz de Robbie era grosseiro e agressivo. Ele se inclinou para a frente, os delicados dedos de pianista sobre o joelho, e fitou o homem idoso de forma 
desafiadora.
  - Agora eu sou legalmente um adulto. Esta deciso  s minha, ento me mostre onde tenho de assinar, que darei o fora daqui.
  - Acredito que no  to simples assim, Robert.
  Lionel Neuman passou a mo enrugada pelo cabelo grisalho. Robbie achou que ele lembrava um coelho velho. O nariz parecia ser mexer o tempo todo, como se pudesse 
obter nuance de linguagem legal apenas pelo cheiro. At seu escritrio tinha um ar de toca, com sua madeira escura, luz fraca de abajures Tiffany e grossos livros 
com capas de couro vermelho enfiados em todos os cantos.
  - Seu pai...
  - Meu pai no tem nada a ver com isso.
  Robbie deu um soco na mesa. As folhas de papel por cima da organizada pilha de documentos de Lionel Neuman pularam, consternadas, depois voltaram para o lugar. 
O velho permaneceu calmo.
  Vejo que tem o mesmo gnio de sua bisav. Mas voc no me assusta, garoto. J recebi mais broncas de Blackwell irritados do que voc pode contar.
  Uma pena. Robert fora uma criana adorvel. No era de se admirar que Kate o amasse tanto. Mas ele crescera e, no opinio de Lionel Neuman, se tornara um jovem 
mimado e bandido. Aos 19 anos, Robert Templeton j tinha ficha na polcia por roubo e uso de drogas. Roubo! O que o herdeiro da Kruger-Brent poderia precisar roubar?
  Lionel Neuman j tinha vivido o suficiente para saber que riqueza, na escala da famlia Blackwell, riqueza obscena, era mais uma maldio do que uma beno. Robbie 
Templeton mostrava todos os sinais de seguir pelo mesmo caminho da pobre Christina Onassis, perdida para as drogas, bebidas e depresso. Isso fez com que Lionel 
se lembrasse de Hamlet, de Shakespeare. O prncipe dinamarqus sofria "as pedradas e flechadas da escandalosa fortuna". A fortuna de Robert Templeton certamente 
era escandalosa. Pensando nisso, o valor de mercado da Kruger-Brent provavelmente era mais alto do que o PIB da Dinamarca. Quanto s "pedradas e flechadas", o jovem 
Robert atraiu para si.
  Lionel Neuman culpava o pai do menino. Desde o infeliz incidente com a arma, Peter Templeton parecia ter renunciado a todas as suas responsabilidades como pai. 
Tinha um sentimento de culpa to grande que no conseguia impor disciplina aos prprios filhos.
  Uma temporada no exrcito, era disso que Robert precisava.
  Nada como um pouco de guerra para colocar um delinqente como este no devido lugar.
  - Como CEO e membro vitalcio do conselho da Kruger-Brent, seu pai tem o direito de ser informado das decises que podem afetar materialmente a empresa.
  - Mas ele no pode me impedir de abrir mo da minha herana. Pode at gritar e xingar se achar que vai se sentir melhor. Mas no nada que ele possa fazer. No 
?
  Lionel Neuman balanou a cabea. Tanta raiva. Tanta arrogncia. A arrogncia da juventude.
  - De fato, Robert, voc est certo. A deciso cabe apenas a voc. Entretanto, como advogado da sua famlia h mais de quatro dcadas,  meu dever inform-lo...
  Robbie no estava escutando.
  Deixe para algum que queira, vov. No quero a Kruger-Brent. Nunca quis. E no ligo a mnima para a maldita famlia. Tirando Lexi, ningum vale nada.
  Tomara a deciso na noite anterior. Admitia que estava alto na hora, perdido em um nevoeiro de herona e tequila enquanto tocava o piano imundo e destrudo do 
Tommy's, um bar gay no Brooklyn. Uns caras mais velhos que se aproximaram dele disseram:
  - Sabe de uma coisa, garoto? Voc podia ganhar a vida com essa merda.
  Era apenas um comentrio. Mas para Robbie, era como se tivesse levado um tiro na cabea.
  Eu poderia ganhar a vida com isso. Poderia fugir. Fugir do papai, da Kruger-Brent, dos meus demnios. Mudar meu nome. Tocar piano em algum bar desconhecido por 
a. Descobrir quem eu realmente sou.
  Robbie Templeton no estava interessado nas preocupaes, nos conselhos e nos qiproqus do Velho Neuman. Queria ir embora.
  - Aqui. - Ele pegou uma folha de papel em cima da mesa de Lionel Neuman. Usando a caneta do advogado, ele rabiscou algumas linhas que mudariam a sua vida para 
sempre.
  Eu, Robert Templeton, por meio desta, renuncio a todos os bens, direitos e herana deixados para mim por minha bisav, Kate Blackwell, incluindo todos os direitos 
e aes da Kruger-Brent Limitada. Transfiro esses bens para minha irm Alexandra Templeton.
  - Est assinado e datado. E voc testemunhou.
  Entregando o papel ao preocupado advogado, Robbie se levantou e saiu. Mais uma vez, Lionel Neuman ficou impressionado com a extraordinria beleza garoto. Realmente 
um jovem dourado. Mas os sinais de abuso de drogas j estava comeando a aparecer. Olhos vermelhos e injetados, rosto fundo, acessos de tremedeira involuntria.
  Quanto tempo vai levar at ele acabar na rua, outro viciado perdido, impotente e sem rosto?
  Seis meses. No mximo.
  - Obrigado pela sua ajuda, Sr. Neuman. No precisa me levar at a porta.

  Captulo 7

  Lexi Templeton no era como asa outras meninas.
  Quando tinha 5 anos, o pai recebeu um telefonema em seu escritrio.
  - Infelizmente, o senhor ter de vir buscar Lexi imediatamente.
  Era a Sra. Thackeray, diretora do jardim de infncia de Lexi. Parecia aflita.
  - Aconteceu alguma coisa? Lexi est bem?
  - Sua filha est bem, Sr. Templeton. Estou preocupada com as outras crianas.
  Quando Peter chegou  escola primria Little Children Cherubs, uma Lexi choros se aninhou em seus braos.
  - Eu no fiz nada, papai! No foi culpa minha.
  A Sra. Thackeray puxou Peter para um lado.
  - Tive de mandar duas crianas esta manh para a enfermaria. Sua filha as atacou com a tesoura. Um menininho quase perdeu um olho.
  - Mas isso  ridculo - Peter olhou para Lexi. Agarrada s suas pernas com seu vestidinho amarelo e fitas combinando no cabelo, ela era a imagem da inocncia.
  - Por que ela faria algo assim?
  - No fao idia. Minha equipe me garantiu que ela os atacou sem que tivesse sido provocada. Infelizmente, Lexi no poder continuar freqentando nossa escola. 
O senhor precisa tomar providncias alternativas.
  Na limusine, Peter perguntou  filha o que tinha acontecido.
  - No foi nada. - Lexi balanava as pernas feliz, sem menor sinal de arrependimento. - No sei por que criaram tanto caso. Eu estava fazendo colagem. Era a Kruger-Brent. 
Voc sabe, a torre alta onde voc trabalha?
  Peter assentiu.
  - Estava muito linda, toda prateada. A Timmy Willard disse que minha colagem estava "muito idiota". E Malcolm Malloy riu de mim.
  - Isso foi uma maldade deles, meu doce. Ento o que voc fez?
  Lexi olhou para o pai compassivamente, como se quisesse dizer como assim?
  - Eu me defendi, como voc disse. Ataquei Timmy com uma tesoura bem na cabea. No se preocupe, pai - acrescentou ela, ao ver a expresso chocada do pai. - Ele 
no morreu. Podemos almoar no McDonald's?

  Todos os psiclogos infantis concordavam.
  Lexi era altamente inteligente e sensvel. Todos os seus problemas comportamentais eram devidos  perda da me.
  Peter perguntava:
  - Mas e essa caracterstica vingativa? A falta de limites morais?
  A resposta era sempre a mesma.
  Quando ela crescer, vai superar.
  
  - No quero escutar as suas desculpas! Voc envenenou a rainha. Sua cabea vai rolar imediatamente.
  Lexi lutava com sua Barbie Sereia edio especial.
  - Isso vai lhe ensinar, sua bandida com rabo de peixe. - Ela abriu um sorriso triunfante enquanto arrancava a cabea. - Agora voc est totalmente MORTA!
  - Lexi!
  A Sra. Grainger, a nova bab, entrou no quarto. Um mar de bonecas decapitadas espalhadas pelo cho. Ela suspirou.
  De novo? O que aconteceu com as brincadeiras de panelinhas e bonecas de antigamente?
  Meninas de 8 anos certamente tinham mudado muito desde a sua poca.
  Com 50 e poucos anos, viva, sem filhos, a Sra. Grainger fora contratada para substituir a infame Sra. Carter. (A ex-empregada dos Templeton aproveitar bem a indenizao 
que ganhara, separando-se do marido rabugento, Mike, e fugindo para o Hava. Da ltima vez em que foi vista, estava sendo massageada com leo de coco por um jovem 
de 20 anos seminu chamado Keanu. A Sra. Grainger nunca tinha se dado bem com leo de coco.)
  A Sra. Grainger gostava de Lexi, mas no era boba. Essas bonecas Barbie custavam dinheiro. J perdera a conta de quantas vezes repreendera Lexi por causa disso.
  - O que est havendo?
  Lexi escutou um sussurro na sua mente: a Sra. Grainger est furiosa. O que voc pode fazer para que ela no fique assim? O que ela quer escutar?
  - No se preocupe, Sra. G. Eu s estava brincando. Posso consert-las facilmente. Olhe.
  Pegando a cabea de Ariel que estava do outro lado do quarto, Lexi se esforou em vo para colocar a cabea de volta ao corpo. No era to fcil quanto parecia. 
O pedao do pescoo era grande demais para o buraco da cabea que parecia ter encolhido magicamente depois que a cabea foi arrancada. Fios de cabelo de nylon ficavam 
enrolados nos dedos de Lexi. Gotas de suor comearam a brotar em sua testa.
  - Verdade, eu sei fazer isso. J consegui antes.
  - Esta no  a questo, Lexi. Voc nem deveria ter tirado a cabea dela. Este tapete est parecendo A noite dos mortos vivos.
  - A culpa no  minha. Ariel estava tentando matar a rainha.
  Lexi apontou para umas poucas Barbies que ainda tinham seus corpos inteiros. Usando um vestido de veludo vermelho, com uma coroa feita de tirinhas de celofane 
na cabea, a boneca loura estava prostrada em cima do "Barbie's Four Poster" que Robbie comprara a um preo ridiculamente alto para a irm na semana anterior.
  Exatamente o que Lexi precisava. Mais brinquedos.
  - Ela foi envenenada. Est vendo?  por isso que est com esta cor engraada.
  Com um gemido a Sra. Grainger percebeu que o rosto da boneca tinha sido desfigurado pelo que s poderia descrever como um ataque frentico com uma canetinha verde. 
Rezou para que Lexi no tivesse rabiscado roupas e lenis tambm. Era muito difcil tirar essas manchas.
  Lexi disse solenemente:
  - Se voc envenenar algum, Sra. G., vo cortar a sua cabea. De verdade, aprendi na aula de histria.
  Sua expresso era to adoravelmente sria que era difcil no rir.
  - Sei. Bem, eu preferia que a histria no se repetisse mais vezes pelo cho do quarto.
  O tom de voz da bab foi firme. Mas Lexi sabia que ela tinha vencido. Era um tom de raiva fingida, e ela era esperta o suficiente para diferenci-lo de uma raiva 
legtima.
  Vozes alteradas de adulto vieram do andar de baixo. O rosto de Lexi ensombrou-se com preocupao.
  - Papai est gritando de novo. Acha que Robbie se meteu em encrenca de novo?
  - No fao idia. - A Sra. Grainger fechou a porta do quarto com firmeza. - Se ele se meteu, no  assunto para voc. Seu irmo  grande e feio o suficiente para 
se cuidar.
  Lexi ficou furiosa.
  - Robbie no  feio. Ele  o irmo mais lindo de todo o universo. Todo mundo diz isso.
  A Sra. Grainger suspirou. Gostaria que Lexi no levasse tudo to ao p da letra. Tambm gostaria que o Sr. Templeton aprendesse a falar mais baixo. No fazia idia 
de como sua filha era sensvel e esperta. Lexi era como um pequeno receptor, captando toda a tenso da casa e traduzindo para sua viso de mundo que estava ficando 
cada vez mais distorcida.
  Hoje ela estava decepando a cabea de suas bonecas.
  Mas e amanh?

  Pervertido! ... perseguindo crianas inocentes... Doentes como ele deviam ser castrados.
  Peter Templeton tentava se concentrar em sua respirao. Precisava se manter calmo. No podia perder a cabea com esta mulher terrvel que estava na sua sala de 
estar, berrando obscenidades como uma prostituta drogada.
  Eu e Ludo poderamos chamar a polcia, voc sabe.
  A mulher podia parecer uma prostituta drogada. Na verdade, seu nome era Angelica Dellal, esposa do eminente banqueiro da JP Morgan, Ludo Dellal, e me de Dominic 
Dellal, de 16 anos: astro do futebol americano, capito do time de Andover e (se Peter tinha interpretado bem os gritos dela) amante homossexual de seu filho Robert.
  Bicha! Aberrao!
  O abuso cobriu a mente de Peter como uma onda de esgoto.
  Com 40 e poucos anos, traos bonitos e aristocrticos e cabelo imaculadamente penteado que deixava evidente que ela era esposa de um homem rico, Angelica Dellal 
deve ter sido uma mulher muito bonita. Mas qualquer atrativo sexual tinha desaparecido por baixo de todas as tintas de cabelos, esmaltes e botoxes. Neste momento, 
ela era feia, a boca esticada, o rosto contorcido pela raiva, as mos cobertas de diamantes mexendo sem parar.
  - ... e a?
  Assustado, Peter percebeu que ela finalmente tinha cansado.
  - Desculpe. Qual foi a pergunta?
  Parecia que Angelica Dellal pegaria fogo espontaneamente de tanta indignao.
  - A pergunta foi o que o senhor vai fazer para garantir que o seu filho nojento e pervertido fique bem longe do meu filho.
  - Vou falar com Robert.
  - Falar? S isso? Meu marido pegou os dois no carro juntos, entendeu? O seu filho estava chupando o pau do meu filho. Est escutando? Estou sendo clara?
  Ela apontou uma unha muito bem-feita para Peter. Instintivamente, ele deu um passo atrs, segurando no sof para no perder o equilbrio. Robbie fez isso? Ele 
estremeceu. Era insuportvel pensar.
  - Talvez seu marido tenha se enganado.
  Sua voz era um sussurro. Peter sabia que Ludo no tinha se enganado. Mas no conseguia admitir isso, nem mesmo para si mesmo.
  Apesar de trs dcadas estudando e praticando psiquiatria, Peter Templeton no conseguia aceitar que seu filho era gay. Quantos homossexuais enrustidos atendera 
durante todos aqueles anos? Dezenas, provavelmente. Daqueles homens desesperados, estranhos sofredores, eras fcil sentir pena. Mas com seu prprio filho era diferente. 
Queria desesperadamente acreditar que o filho desta mulher horrvel tinha levado Robert para o mau caminho, e no o contrrio. Que era o filho de Peter que estava 
passando por uma fase. O filho dele cresceria e superaria, o filho dele seria um astro do futebol americano em Harvard e teria mulher e filhos, e olharia para trs 
e veria isso apenas como um deslize da adolescncia. Algo como dores do crescimento sexual.
  Agarrava-se  esperana como um alpinista sem equipamentos se agarra  pedra. Robbie no era nem remotamente afeminado. Garota ficavam  sua volta como moscas, 
implorando por um encontro. Talvez ele fosse apenas tmido? Demorou para amadurecer? Era possvel.
  O seu filho estava chupando o pau do meu filho.
  A Sra. Dellal estava saindo, arrastando seu casaco de pele e a bolsa Chanel como Cruella DeVil.
  - Estou falando srio. Se eu vir o seu filho veado a 15 quilmetros da nossa casa ou do colgio de Dom, vou chamar a polcia. E  melhor rezar para que a polcia 
encontre o seu filho antes que o meu marido o encontre.
  A porta da frente bateu.
  Silncio.
  - Papai?
  Lexi estava na porta, usando seu vestido branco de musselina com borboletas bordadas na manga e uma boina azul sobre o cabelo louro claro.
  Peter pensou: como ela  inocente.
  - O que  pervertido?
  Constrangido, Peter sentiu seu rosto corando.
  - Ah, meu doce,  uma... uma palavra feia.
  - Sei, mas o que significa?
  - No significa nada, meu doce.
  - Ah. Bem, ento, o que  veado?
  Pelo amor de Deus. Quanto ela escutara?
  - Por que voc no vai l para cima brincar, Lexi? Daqui a pouco eu subo para ficar com voc.
  - Estou cansada de brincar. - Lexi falou em um sussurrou conspiratrio. - Pervertido significa S-E-X-O?
  - V assistir The Jungle Book. Diga a Sra. Grainger que eu permito que veja televiso s por hoje.
  Lexi foi para seu quarto feliz da vida. Peter afundou no sof, esgotado. Ah, Alex. Por que no est aqui? Por que ainda  to difcil? Sabia que precisava conversar 
com Robbie sobre o garoto Dellal. Mas no sabia como comear.
  Acabou no precisando. O prprio Robbie puxou o assunto. Chegando em casa s 23 horas, muito bbado, ele encontrou o pai na cozinha.
  - Voc vai ficar feliz de saber que vou fugir - falou ele de forma ininteligvel. - Vou ser livre.
  - Voc est bbado, Robert. No estou entendendo nada.
  - Meu amigo. - A palavra escapou de sua lngua maliciosamente. - Eu e meu amigo Dom vamos fugir. Para Nova Orleans. Vou sumir da sua vida. Pode estourar o champanhe!
  Levantando a mo, como em um brinde, ele perdeu o equilbrio batendo com a cabea na mesa da cozinha enquanto caa.
  - Opa. - Lgrimas causadas pelas gargalhadas escorriam pelo seu rosto.
  - Sua bebedeira no  engraada, Robert.
  - No? Poxa, que estranho. As suas sempre foram hilariantes. - Desprezo brilhava nos olhos de Robbie. - Talvez eu deva apontar uma arma para voc? Assim as coisas 
ficam mais animadas. No seria engraado, pai?
  Peter teve vontade de chorar. Quando esta palavra se tornara um insulto?
  - A me do Dominic esteve aqui hoje  tarde. Fazendo ameaas. Ela disse que se voc chegar perto do filho dela de novo, vai denunciar voc  polcia por proselitismo.
  - Proje... proze-o-qu? Cara, essa  nova. A gente tem que experimentar isso alguma hora. Dom adora experimentar coisas novas.
  Peter estourou.
  - Voc  repugnante! Est achando que isso  um jogo? O garoto tem 16 anos.
  Robbie deu de ombros.
  - Ele sabe o que est fazendo. Sabe bem demais at.
  - Os pais dele vo entrar com um processo. Voc pode ser preso, Robert, no percebe isso?
  A cabea de Robbie estava pesada. Depois de sair do escritrio de Lionel Neuman naquela tarde, fora de bar em bar, bebendo at ficar entorpecido, em um estado 
de semiconscincia que se tornara comum para recentemente. Manter uma conversa era como tentar nadar em sopa grossa e quente.
  A verdade era que nem se importava muito com Dom Dellal. Eles no estavam apaixonados nem nada parecido. Mas a repulsa do pai fazia com que quisesse atacar. Fazia 
com que Robbie se lembrasse dos seus prprios sentimentos de culpa e autodepreciao.
  Sorte minha ser o primeiro gay homofbico do mundo.
  - Fui ver o velho Neuman hoje.
  - Mesmo?
  - . Eu me tirei do testamento. - Robbie se desfez em gargalhadas brias. - Eu disse para ele: "Pode fazer o que quiser com meu dinheiro. No quero a krugibrendimerda."
  Peter suspirou.
  - Voc no pode simplesmente sair do testamento, Robbie. Tem a questo do fundo fiducirio...  complicado.
  - No  mais. Dei tudo para Lexi.
  Robbie se levantou. A sala girava como uma mquina de secar roupa. Colocando a mo na testa, ele sentiu o sangue quente em seus dedos.
  Peter pensou: ser que ele realmente repudiou o testamento de Kate? Ele pode fazer isso?
  Em voz alta, disse:
  - Voc est bbado demais para raciocinar agora. Conversaremos pela manh.
  - No estarei aqui de manh.
  Robbie deu um passo desequilibrado para frente, colocando-se diante do pai. Seus olhos brilhavam com uma fria inconseqente, alcolica.
  Peter sentiu o estmago revirar. Robbie estava to perto que conseguia sentir o bafo de lcool. Estou com medo dele. Estou com medo do meu prprio filho.
  - Vou para Nova Orleans. Com Dom.
  - Se sair desta casa hoje, no precisa mais voltar.
  As palavras saram da boca de Peter antes mesmo que ele tomasse conscincia delas.
  - No se preocupe. No vou voltar. Adeus, pai.
  - Adeus, Robert.
  Peter observou o filho sair cambaleando da sala, sangue ainda escorrendo do corte em sua testa. Segundos depois, escutou a porta da frente bater.
  Esperou a culpa chegar. Esta  a hora em que devo correr atrs dele. Dizer que eu no estava falando srio. Segundos se passaram. Ento, minutos. Peter percebeu 
que o sentimento que ia tomando conta de seu peito no era culpa.
  Era alvio.
  Apagando as luzes do trreo, subiu as escadas e foi at o quarto de Lexi na pontinha dos ps.
  Seremos s ns dois agora, querida. No precisa do seu irmo. Papai vai cuidar de voc.
  No iria acord-la. Apenas ajoelharia ao seu lado da cama por um momento. Sentiria seu delicioso cheiro de criana. Buscaria conforto em seu inocente corpo adormecido.
  Abriu a porta devagar. O quarto estava escuro como breu. Dirigindo-se para a cama, cuidadosamente desviando das caixas de brinquedos e das roupas espalhadas pelo 
cho, Peter se ajoelhou ao lado da cama e estendeu seu brao carinhoso.
  Um golpe de vento no rosto o pegou de surpresa.
  Olhou para cima. A janela do quarto estava aberta.
  Sob a luz do luar, ele fitou a cama vazia.
  Lexi tinha desaparecido.

  Captulo 8

  A primeira coisa de que ela teve conscincia foi a escurido.Total escurido.
  No a escurido do seu quarto. Mas a escurido densa, fria e abafada de um tmulo.
  Tentou gritar, mas no conseguiu emitir nenhum som. Havia alguma coisa em sua boca, um gosto amargo de pano. No conseguia respirar.
  Onde estou?
  O pnico comeou a envolver seu corao como uma cobra. Estava sonhando? Sentou-se. Sua cabea bateu em alguma coisa slida e de metal.
  Um caixo? No! Ah, Deus, por favor, no!
  Papai!
  Gritou de novo. E, de novo, engasgou com o pano abafando o som em sua garganta. Lenta e conscientemente, ela comeou a respirar pelo nariz.
  Fique calma. Voc est viva. No entre em pnico.
  Encheu seus pulmes de ar. Relaxe.
  Histrias que escutava para dormir de seu tatarav, Jamie McGregor, invadiram sua mente. Jamie fora corajoso, esperto e engenhoso. Lutara com tubares e minas 
terrestres, escapou de um naufrgio e enfrentou assassinos. Nenhuma situao era perdida para ele a ponto de no encontrar uma forma de sair dela.
  Tentou pensar logicamente.
  O que aconteceu? Como cheguei aqui?
  Isso no era bom. No conseguia se lembrar. A Sra. Grainger colocou-a na cama, e ento... e ento... escurido. O medo voltou como uma enorme onda.
  Algum me ajude!
  Lexi estremeceu. De repente, percebeu que estava morrendo de frio. Ainda estava usando a fina camisola de algodo com que fora para a cama. Embaixo de suas costas, 
o cho de metal duro era como uma chapa de gelo.
  Bump.
  O que foi isso?
  O cho estava se mexendo. Vibrava constantemente, e a cada vinte segundos, mais ou menos, jogava seu corpo para cima, como se fosse uma panqueca. De repente, ela 
entendeu: um carro. Estou no bagageiro de um carro. Fui seqestrada, e eles esto me levando para algum lugar. Para o esconderijo deles.
  Se no estivesse acontecendo com ela, provavelmente seria emocionante. Seqestro era uma das brincadeiras favoritas de Lexi. Mas isso no era brincadeira. Era 
real.

  - Saia.
  O homem usava uma mscara. No daquele tipo que os assaltantes de bancos usam nos filmes. Mas uma mscara de borracha usada no dia das bruxas. Fazia com que ele 
se parecesse com um cadver.
  Consumida pelo medo e congelada, Lexi ficou imvel. Os olhos arregalados de terror.
  Outra voz.
  - No fique a parado, cara, pegue a menina. Leve-a para dentro antes que algum aparea.
  Um corpo estendeu as mos para dentro do bagageiro e agarrou os braos de Lexi. Movida pelo instinto, ela lutou com ele, chutando e arranhando como uma gata selvagem.
  - Merda! - O corpo segurou o antebrao. A unha afiada da menina tirara sangue. - Sua vadiazinha!
  Puxando o brao, ele deu um soco to forte no rosto dela que ela apagou.

  O tempo passou.
  Ela estava em um quarto sem janelas. Uma lmpada fraca iluminava o ambiente. Dias e noites eram a mesma coisa. No incio, a dor em seu rosto era insuportvel, 
onde o corpo a socara. Mas, lentamente, comeou a diminuir.
  Havia uma cama em um canto, um penico antigo de porcelana e uma caixa de papelo velha com alguns brinquedos e livros aleatrios. No havia nada nas paredes; o 
cho era liso, de linleo verde. Parecia mais um escritrio do que uma casa. Os brinquedos e livros eram para crianas bem mais novas.
  Os meus seqestradores no sabem nada sobre crianas.
  O medo deu lugar ao tdio. No havia nada para se fazer, nada para quebrar a monotonia das infinitas horas de solido. A intervalos regulares, um homem mascarado 
entrava, esvaziava o penico e o devolvia, e trazia alguma comida para Lexi. Eles nunca falavam com ela, nem respondiam suas perguntas, mas s vezes ela escutava 
suas vozes abafadas atravs das paredes.
  Eram trs homens. Um lder com uma voz gutural e um estranho sotaque estrangeiro, e mais dois: o corpo e um terceiro que usava mscaras de vrios bichos, s vezes 
de porco, de cachorro ou de cobra. Era o terceiro homem, o animal, que realmente a assustava.
  
  Ele estava perto da cama dela. Usava a mscara de porco.
  - Se fizer qualquer barulho, eu mato voc.
  No mata no. Se fosse matar, j teria feito isso. Voc precisa de mim viva.
  Lexi abriu a boca para gritar, mas era tarde demais. A mo enorme e quente tapou a sua boca. Ele estava na cama, empurrando-a para baixo. O peso dele fazendo com 
que Lexi no conseguisse respirar. Uma das mos ainda cobria sua boca, mas Lexi pde sentir a outra metendo-se embaixo de sua camisola. NO! Uma dor profunda entre 
suas pernas encheu seus olhos de lgrimas. Ela tentou se mexer, lutar, mas era intil. Estava presa como uma folha embaixo de uma pedra.
  Ele soltava rudos estranhos. Gemidos profundos e guturais que Lexi nunca escutara. O cabelo na nuca dela comeou a se arrepiar de terror. Ento, de repente, o 
peso levantou.
  Vozes.
  - O que voc est fazendo, cara?
  Era o lder.
  - A prxima refeio dela  s daqui a trs horas.
  Lexi no podia ver o rosto do porco, mas percebeu que ele estava com medo.
  Ele sibilou para ela.
  - Uma palavra e corto sua garganta. Entendeu?
  Ela assentiu.

O agente Andrew Edwards olhou para a pilha de fotografias em preto e branco em cima da mesa na sua frente. Era to grossa quanto a lista telefnica.
  - Esto todos aqui?
  - Esto sim. Todos os armazns, hangares e prdios industriais a um raio de 25 quilmetros de onde o carro foi abandonado.
  J se haviam passado 11 dias, 4 horas e 16 minutos desde que Peter Templeton dera queixa do desaparecimento de sua filha. O agente Edwards j escutara tantas vezes 
a gravao da voz desesperada de Peter quando ligou para a Emergncia que j sabia de cor. Em nove de dez desaparecimentos de crianas, os pais acabavam estando 
envolvidos. O que se podia fazer? Era um mundo doentio. Mas neste caso, o agente Edwards acreditava no pai. Alm de a angstia de Peter Templeton parecer genuna, 
o bilhete pedindo resgate que foi deixado embaixo do travesseiro da menina tinha todos os sinais de uma operao do crime organizado: nenhuma impresso digital, 
datilografado no papel ofcio mais comum, sucinto, impossvel de rastrear.
  A famlia Blackwell tinha duas semanas para transferir dez milhes de dlares para uma conta numerada nas ilhas Cayman. Se a polcia fosse envolvida, matariam 
a menina na mesma hora.
  O agente Edwards era escocs de nascimento, mas nova-iorquino de esprito. Tinha pele clara, olhos castanhos muito claros e cabelo de uma cor indefinida entre 
louro e o ruivo. Amava os Yankees, odiava as guangues de rua e os traficantes de drogas que infestavam a cidade, e descrevia suas frias anuais em Jersey como "viagem".
  Soltou um suspiro profundo.
  - Deve haver uns trezentos edifcios aqui.
  - Quatrocentos e vinte.
  - Tem alguma novidade para mim, agente Jones?
  - Para falar a verdade, senhor, tenho sim. Estes - o colega do agente Edwards entregou a ele uma pasta muito mais fina - so os abandonados.
  - Quantos?
  - Apenas 18. - O agente Jones sorriu. - Posso montar vigilncia para esta tarde se quiser.
  - No. Ainda no.
  - Mas, senhor, temos menos de 60 horas. O prazo...
  - Acha que eu no sei qual  o prazo?
  O agente Edwards estava irritado. Que tipo de idiotas o FBI vinha empregando atualmente? A ltima coisa que queria era espalhar agentes do FBI por todos os armazns 
de Nova Jersey. Se esses caras se assustassem, matariam a menina na mesma hora.
  A famlia Blackwell assumira um grande risco envolvendo as autoridades. Com o dinheiro e os contatos deles, poderiam facilmente pagar sem que ningum ficasse sabendo 
e acabar com isso. Ou contratar capangas para pegar os caras.
  Mas no fizeram isso. Procuraram o agente Edwards com um caso que poderia tanto impulsionar como acabar com a sua carreira. Fracassar no era uma opo. 
 Encontrar o carro dos seqestradores tinha sido uma conquista. O agente Edwards mandou fazer a comparao do DNA dos fios de cabelo encontrados no carro e os que 
estavam sobre o travesseiro de Lexi. Os dois telefonemas com distoro de voz para o escritrio de Peter Templeton provavelmente foram feitos de uma grande estrutura 
industrial. A equipe de tecnologia do FBI analisara o eco, se  que podia confiar nisso.
  Mas no foi o suficiente. O agente Edwards no queria 18 alvos. Queria um.
  - Mande um helicptero sobrevoar. No muito baixo. Deve parecer trnsito areo normal.
  - Sim, senhor. O que eles devem procurar exatamente?
  O agente Edwards fitou seu subordinado de forma ameaadora.
  - A Cidade Esmeralda de Oz. Deus! Marcas de pneus, seu estpido. Vo procurar marcas de pneus, cacete.
  
  Jamais quis se envolver.
  Estava em um bordel em Phuket quando recebeu a ligao, desfrutando a companhia de duas meninas gmeas de 11 anos. Xoxotas to apertadinhas que podiam quebras 
cascas de nozes, lnguas to ansiosas e habilidosas quanto de qualquer uma das prostitutas adultas que usava na sua terra. Quanto prazer.
  Amava as tailandesas. Um povo to esclarecido.
  - Dez milhes de dlares, dividido por trs. A casa tem segurana de terceiro mundo. Confie em mim, vai ser como tirar doce de criana. Entramos, pegamos a menina, 
pegamos o dinheiro e samos.
  - No preciso de dinheiro.
  Gargalhada.
  - Voc no tem de precisar. S tem de querer.
  - Agora eu sou um homem correto, viu? Procure outra pessoa.
  Fechou os olhos sentindo o prazer enquanto as meninas acariciavam seu corpo com seus dedos e lnguas. Na sua terra, pagava para prostitutas se vestirem de colegiais. 
Mas nada se comparava  coisa real: a pele macia, os seios firmes desabrochando, o paraso sem pelos entre as pernas...
  - Sabe, a garotinha  linda.
  A voz ao telefone no desistia.
  - Ela  a cara da me.  o que todo mundo diz.
  Ele hesitou. A imagem de uma jovem Alexandra Blackwell apareceu em sua mente. Lembrava-se bem dela. As pernas compridas e flexveis, com um bronze da cor exata 
de caramelo. A cascata de cabelos louros. Os lbios rosados e trmulos abrindo-se em um sorriso:
  Ol, Rory. Quanto tempo.
  - Quantos anos voc disse que ela tem?
  Uma das gmeas tailandesas passou a lngua em seu nus. A outra colocou suas bolas dentro da boca quente e molhada. Ele gemeu de prazer.
  - Ela tem 8.
  Oito anos.
  A cara da me.
   o que todo mundo diz.
  - Tudo bem. Estou dentro. Mas  a ltima vez...
  No conseguiu terminar. A linha ficou muda.

   - Vocs a encontraram?
  Peter Templeton apertou com tanta fora a mo do agente Edwards que prendeu sua circulao.
  O agente Edwards pensou: Coitado. Envelheceu dez anos em duas semanas.
  - Achamos que sim. Um prdio em Jersey, perto de...
  - Quando vo entrar?
  - Hoje  noite. Assim que escurecer.
  - No pode ser agora?
  -  noite  melhor.  a melhor forma, senhor. Confie em mim. Temos muita experincia com situaes com refns.
  Peter pensou: Rezo a Deus para que ele saiba o que est fazendo.
  O agente Edwards pensou: Rezo a Deus para que eu saiba o que estou fazendo.
  Ambos pensaram: E se eles a matarem entre agora e o anoitecer?
  - Tente descansar um pouco, senhor. Assim que souber de alguma coisa, aviso.
  
  O lder e o outro homem estavam furiosos com o porco. Lexi escutou-os brigando. S conseguia captar fragmentos.
  Ns concordamos... No consegue se controlar... e se ela o identificar?
  No vai... a mscara, cara.
  Maldito pedfilo...
  Logo.
  J se passaram duas semanas... se eles fossem pagar...
  Cale a boca, cara! Vai receber o seu dinheiro.
  Lexi pressionou o rosto na porta da minscula cela, esforando-se para captar cada palavra. No porque estava com medo. Mas porque estava determinada a juntar 
o mximo de informaes possvel sobre seus seqestradores. Especialmente sobre o porco, o homem que a machucara, que forara seu corpo para dentro dela.
  Minha famlia vir me buscar. Um dia, em breve, eles viro. Ento faro o porco sofrer pelo que fez comigo.
  O pior pesadelo para ela no era morrer, e sim seus seqestradores fugirem. No podia deixar isso acontecer. Tinham de ser punidos.

  - Jesus Cristo. Quanto ainda falta?
  O agente Edwards estava agachado atrs de um carro no identificado na escurido. Ao lado dele, seu parceiro, agente Jones. Atrs deles, Chuck Barclay, o comandante 
da unidade especial de fuzileiros que conduziria a operao de resgate.
  - Doze minutos. - O capito Barclay sorriu, os dentes brancos iluminando o rosto muito preto. Ele era pequeno, um homem sem nenhuma caracterstica marcante, de 
40 e poucos anos, com um corpo muito magro e rosto enrugado. Parecia mais um fox terrier do que o mastim que o agente Edwards esperava. Ainda mais preocupante, o 
"esquadro" de Barclay parecia consistir em apenas cinco jovens fuzileiros com culos de viso noturna e pistolas padro. No havia nenhuma automtica ou granada 
 vista.
  - Barclay  o melhor - garantira o chefe do agente Edwards.
   melhor que seja mesmo.
  Os 12 minutos pareceram horas. Era uma noite quente de vero, mas o agente Edwards sentia os pelos dos braos e da nuca arrepiados. Suor frio emanava de seus poros. 
A camisa estava encharcada. Percebeu que o agente Jones tambm estava tremendo. Quase no dava para ver a fbrica txtil em runas no escuro. Mesmo com o rudo do 
trfico da Route 206 a distncia, parecia o lugar mais desolado da Terra.
  Ento, de repente, um movimento. O capito Barclay assentiu para seus homens. Segundos depois, como por mgica, eles tinham dispersado pela paisagem plana, escondendo-se 
atrs de pequenos arbustos, como folhas silenciosas. Era impressionante.
  Os dois agentes do FBI estavam sozinhos.
  -  isso, senhor.
  O agente Jones tinha medo de seu chefe. Andrews era um desgraado mal-educado na melhor das hipteses, mas o seqestro da menina Templeton colocou a faca no pescoo 
de todos eles.
  - , Jones.  isso.
  - Vai dar tudo certo, senhor. Todo mundo diz que esses caras so os melhores.
  - Uhum.
  - De acordo com reconhecimento...
  - Shhh. - O agente Edwards colocou um dedo nos lbios. - Escutou isso?
  - O qu, senhor?
  - Um tiro.
  - No escutei um t...
  Um forte luz apareceu. Um barulho que parecia um rugido de leo, mas que era milhares de vezes mais alto, irrompeu em volta deles. Instintivamente, os dois tamparam 
os ouvidos e se jogaram no cho.
  - Que p...? - As orelhas do agente Jones estavam apitando. Podia sentir terra e grama e poeira na boca.
  - Bomba! Fique abaixado!
  Outro barulho. Ensurdecedor, como se estivessem sendo sugados por uma nuvem trovejante. Era possvel ver chamas em cima do prdio. A fbrica txtil se iluminou 
como em uma apresentao improvisada de fogos de artifcio. Era assustadoramente bonito.
  O agente Edwards apalpou a camisa encharcada em busca de sua arma.
  - Ligue pedindo reforos. Vou l.
  - No faa isso, senhor. No pode. No sabe o que est acontecendo, este prdio pode desabar a qualquer minuto.
  Assim como a minha carreira, se eu no tirar a menina Templeton viva da de dentro.
  - Faa o que eu mandei! - gritou o agente Edwards sobre os ombros. Uma terceira exploso engoliu suas palavras. O agente Jones mergulhou para se proteger de novo.
  Quando abriu os olhos, seu chefe no estava mais ali.

  Lexi tinha acabado de comer quando escutou o primeiro tiro. Soube na mesma hora o que era.
  Eles esto aqui! Vieram me resgatar! Eu sabia que viriam.
  Trinta segundos depois, a porta se abriu. Era o lder, o estrangeiro. No deve ter tido tempo de colocar a mscara. Um cachecol amarrado cobria apenas a parte 
de baixo de seu rosto.
  - Venha aqui. Agora!
  Cabelo castanho enrolado. Olhos castanhos. No tem rugas,  novo, mais novo que o porco. Anel no dedo mnimo. Pequena cicatriz sobre o olho esquerdo.
  - AGORA!
  Lexi ficou onde estava. Fingiu estar assustada demais para se mexer, mas por dentro estava exultante. Observou o lder hesitar. O terceiro homem, o corpo que deu 
um soco no rosto dela no dia em que a trouxeram para c, apareceu na porta atrs dele.
  - Deixe a menina a! J montei as armadilhas. Vamos dar o fora daqui!
  - Meu Deus, Bill, no podemos simplesmente deix-la aqui.        
  Lexi o viu fugir. Adeus, Bill.
  O lder hesitou por um momento, depois deu um passo na direo dela. Lexi recuou.
  Ele no me parece mais um lder agora. Posso ver o medo em seus olhos.
  - Tudo bem. Faa como quiser. Fique aqui e pegue fogo.
  Ele se virou e correu atrs do amigo.
  Lexi esperou at que no escutasse mais os passos deles. Ento, saiu do quarto.
  Era a primeira vez que se aventurava alm da porta de sua cela desde que a trouxeram para c, quando quer que isso tenha acontecido. Dias, semanas, meses atrs? 
Viu que estava em um corredor estreito que se abria uns trs metros depois em um espao amplo, como um hangar. Mas ela no estava curiosa com o lugar. No estava 
nem procurando os homens que vieram resgat-la.
  Estava procurando o porco.
  Onde ele estava? J tinha fugido? por favor, no deixe que ele escape.
  Mais uma rpida troca de tiros do outro lado do prdio chamou sua ateno. Lexi virou-se e congelou. Uma bola de fogo gigante estava vindo em sua direo.
  Como um cometa em uma pista de boliche. E eu sou o pino.
  Ficou to surpresa que se esqueceu de sentir medo. Depois disso, tudo era um borro.
  Chamas por todos os lados. Vidro, tijolo e madeira caindo do teto. Paredes se dobrando, derretendo com o calor. Ento um nico e ensurdecedor BUM, to alto que 
nem a terra conseguiu conter.
  Foi o ltimo som que Lexi Templeton escutou.

  Captulo 9

  Ele era o advogado de tribunal mais famoso de Londres.
  Descendo a Strand em direo ao Old Bailey, a respeitvel corte criminal da cidade, imaculado em seu terno feito em Savile Row e sapatos lustrosos feitos a mo, 
pessoas olhavam conforme ele passava.
  Vocs sabem quem , no sabem? Aquele  Gabriel McGregor. No perdeu nenhum caso em seis anos na ordem. Ele  um gnio.
  Um bonito homem louro com olhos cinzentos, Gabe McGregor tinha o corpo de um jogador de rugby, ombros e peitoral largos, e pernas compridas e fortes como carvalhos. 
Havia uma solidez nele, uma fora no corpo, no maxilar, no olhar direto e firme que fazia os jurados pensarem: acredito neste homem. Por baixo da fora fsica, estava 
um poderoso intelecto. Gabriel McGregor conseguia julgar as nuances de um caso em questo de minutos. Como por instinto, sabia quando pressionar uma testemunha, 
elogiar, seduzir, amedrontar, ajudar. Todos os juzes der Old Bailey o conheciam e respeitavam. Gabriel McGregor era uma classe  parte.
  Olhando no relgio, acelerou o passo. No seria bom chegar atrasado ao tribunal. Seus passos longos pareciam engolir a calada sem esforo, como uma baleia devorando 
cardumes inteiros. Era um colosso, um gigante no meio dos homens.
  - Gabe, graas a Deus. Que voc tivesse fugido.
  Michael Wilmott era advogado consultivo. Toda que Gabe o via, trs palavras surgiam em sua mente. Fraco. Pattico. Frustrado. Michael Wilmott estava acima do peso, 
trabalhava demais e estava sobrecarregado. Vestia um terno barato e brilhoso com manchas de suor embaixo do brao, e sua expresso era sempre atormentada. Se houvesse 
algo como uma equipe de advogados de classe A, Michael Wilmott no fazia parte, nunca tinha feito e nunca poderia fazer.
  - Eu no faria isso, Michael. - Gabe falou com seu sotaque escocs. - Eu disse que viria. Nunca quebro uma promessa.
  - No. S quebra a cabea de chefes de famlias inocentes em seis lugares diferentes.
  As palavras eram como um balde de gua fria sobre a cabea de Gabe. Com relutncia, afastou-se de seu sonho e voltou para a realidade.
  Aqui no era Old Bailey. Era o tribunal de pequenas causas Waltham Forrest.
  Ele no era advogado famoso. Era um viciado em herona de 19 anos, acusado de arrombamento, agresso e leso corporal grave com inteno de matar.
  Michael Wilmott era tudo que restava entre ele e uma pena de 25 anos na cadeia de Wormwood Scrubs.
  - Os juzes no querem escutar seus discursos hericos, nem eu. Mantenha a cabea baixa, deixe que eu fale e tente parecer arrependido. Certo?
  Gabe assentiu obedientemente.
 - Sim, senhor.
  
  Gabriel McGregor nasceu na Aberdeen Royal Infirmary, na Esccia, em 1973. Filho nico de Stuart McGregor, um homem pobre que trabalhava no cais, e Anne, seu amor 
de infncia. Gabe era um beb forte e bonito que se tornou um menino forte e bonito.
  Gabe no se lembrava da primeira vez que o escutar o nome de Jamie McGregor. S sabia que sempre escutava era pronunciado com veneno e dio. Escutava o nome com 
tanta freqncia que fazia parte de sua infncia, assim como o cheiro de combustvel de navio, a sensao desagradvel das roupas baratas de polister sobre sua 
pele e a batida ameaadora do oficial de justia na porta do apartamento barato da famlia.
  Jamie McGregor era a fonte de todos os seus problemas.
  Era culpa de Jamie McGregor o fato de viverem em uma pobreza deprimente, arrasadora.
  Jamie McGregor era o culpado por o pai de Gabe beber e bater em sua me.
  Jamie McGregor fazia sua me chorar ao tentar esconder os hematomas com maquiagem barata da Boots.
  Jamie McGregor...
  Foi s na adolescncia que Gabe descobriu a verdade. Jamie McGregor, o famoso empreendedor que fundara a Kruger-Brent e se tornara um dos homens mais ricos do 
mundo, era irmo de seu bisav. Jamie McGregor tinha dois irmos, Ian e Jed, e uma irm, Mary. Ian McGregor, o irmo mais velho, era o bisav de Gabe. O filho de 
Ian, Hamish, era av de Gabe. O filho Hamish, Stuart, era o pai de Gabe.
  A podrido comeara com Ian, irmo de Jamie, no incio do sculo XX. Ian McGregor nunca perdoou seu irmo mais novo por fugir para a frica do Sul e fazer fortuna.
  - Quem ele pensa que , para sumir para o outro lado do mundo e nos deixar tomando conta do papai, da mame e da fazenda? E no mandar nenhum dinheiro para aqueles 
que o criaram?
  De forma conveniente, Ian se esquecera de que rira na cara de Jamie quando este anunciou sua inteno de viajar para as minas de diamante na frica. Que enquanto 
cresciam, batia sem piedade no menino, freqentemente trapaceando e ficando, com sua j pequena poro de comida e dando a ele as tarefas mais rduas e duras na 
pequena e miservel fazenda da famlia ao norte de Aberdeen. Na poca em que Jamie fundou a Kruger-Brent e ganhou seus primeiros milhes, seus pais j tinham morrido, 
condenados  morte prematura por causa da pobreza implacvel de uma vida inteira trabalhando duro na terra. Jamie mandava dinheiro para Mary, a nica irm que amou 
e apoio. Mas quando ela tambm morreu, de tuberculose, com apenas 30 anos, os pagamentos pararam. Jamie no via nem falava com os irmos havia mais de uma dcada. 
No achava que devia coisa alguma a eles.
  Ia McGregor via as coisas de uma forma diferente. Se fora duro com Jamie, tinha sido para o seu prprio bem. Amara o menino como um pai, trabalhara duro para ajudar 
a sustent-lo, e o que ganhou em troca? Abandono. Traio. Privao.
  Ian comeou a beber muito. Conforme a fortuna e a reputao de Jamie cresciam, a amargura e a inveja de Ian aumentavam em igual proporo. Os anos se passaram, 
e Ian passou todo esse dio para o filho, Hamish, que, por sua vez, passou para Stuart, pai de Gabe, como algum tipo de terrvel doena gentica.
  Quando Gabe era criana, falar o nome Jamie McGregor era como invocar o demnio. Com o passar dos anos, acrescentaram-se outros nomes  lista de dio da famlia. 
Kate Blackwell. Tony Blackwell. Eve Blackwell. Robert Templeton. O av de Gabe, Hamish, dedicou seus anos de aposentadoria e cada centavo que tinha de suas escassas 
economias a um processo condenado ao fracasso contra a poderosa Kruger-Brent. Uma vez aps a outra, o caso era rejeitado pelas cortes, de Glasgow a Londres a Nova 
York. A cada vez, os juzes se tornavam mais severos.
  Frvolo.
  Ganancioso.
  Totalmente sem fundamento.
  Hamish McGregor morreu um homem amargurado e falido. Vinte anos depois, o mesmo destino decaiu sobre seu filho, o pai de Gabe. Gabe tinha 16 anos quando o pai 
morreu com a mente corroda pela bebida e pelo dio, o corpo quebrado por causa dos longos anos de trabalho pesado nas docas.
  Apesar de tudo, Gabe amava o pai. Tentava se lembrar dos bons momentos que viveram juntos. Brincando na praia em Elgin quando tinha 3 ou 4 anos. Assistindo ao 
jogo do Celtic em Parkhead, gritando feito loucos na arquibancada. Danando em volta da rvore de Natal na sala da casa deles, junto  me, antes de o pai comear 
a bater nela, antes de a amargura pesar demais.
  Duas semanas depois da morte do pai, Gabe saiu de casa.
  Sua me ficou preocupada.
  - Para onde voc vai, filho? No tem nenhuma qualificao. No vai encontrar trabalho em Aberdeen, no agora que os estaleiros fecharam.
  - No vou ficar na Esccia, me. No sul tem trabalho. Muito.
  - Voc quer dizer Londres?
  Anne McGregor no teria ficado mais horrorizado se Gabe tivesse dito que estava indo para Beirute.
  - Ligarei para a senhora assim que estiver acomodado. No se preocupe, me. Sei me cuidar.

  Captulo 13

  Peter Templeton estava sentado na sala de espera particular do Mount Sinai Medical Center, fitando a parede. Fora aqui que perdera a sua amada Alex. At o cheiro 
do lugar, uma mistura de desinfetante com velas baratas de baunilha, era odiosamente familiar.
  Ser que os deuses ainda planejavam mais tragdias para a sua vida?
  Quando acabaria?
  Sem pensar, pegou um exemplar gasto da revista New Woman.
  Eu no quero uma nova mulher. Quero a minha antiga mulher de volta.
  Algumas portas  frente no corredor, o agente Andrew Edwards ainda estava vivendo seu drama. Segundo seu parceiro, o homem fora um heri. Incrivelmente corajoso. 
Depois da segunda bomba, ele correra na direo do prdio em chamas, procurando Lexi. No desistiu.
  Eu deveria estar naquele prdio, no ele. Se ele sobreviver, vou recompens-lo por sua coragem. Darei o que ele quiser.
  Se ele sobreviver.
  
  Alguma coisa dera muito errado. O FBI acreditava estar lidando com um pequeno grupo de seqestradores armados. Esperavam um tiroteio. Mas, em vez disso, topara 
com uma srie de sofisticadas armadilhas explosivas, que ativavam bombas com poder suficiente para acabar com vilarejos inteiros. O capito Barclay e seus homens 
no tiveram a menor chance. A primeira exploso matou trs deles na mesma hora. Quando os reforos do FBI chegaram, todos os cinco j estavam mortos, cados no que 
logo seriam as runas carbonizadas de um incndio to catastrfico que podia ser visto a 80 quilmetros de distncia.
  Tudo indicava que os seqestradores tinham conseguido escapar. Na confuso e nas tentativas desesperadas de encontrar Lexi, perderam um tempo precioso. Se conseguiram 
sair, podiam estar em qualquer lugar agora, espalhados pelo vento.
  Se eles saram. O incndio foi to intenso que levaria semanas at que todos os restos humanos fossem identificados. E no ajudava em nada o fato de ningum saber 
exatamente quantos corpos estava procurando.
  Peter escutou o chefe do corpo de bombeiros conversando com um dos cirurgies.
  -  um milagre que algum tenha sado de l com vida. O agente Edwards  um cara de sorte.
  Queimaduras de segundo grau em oitenta por cento do corpo, ambas as pernas quebradas e grave hemorragia interna? Questionou-se Peter. Adoraria conhecer um cara 
com azar.
  - Dr. Templeton?
  Peter olhou. Uma bonita mdica estava falando com ele.
  - Pode vir agora. Sua filha est acordada.

  Lexi piscou, olhando  sua volta.
  Estava no hospital. Mesmo se a enfermeira no estivesse  cabeceira de sua cama, reconheceria na mesma hora por causa do cheiro. Lembrava-se de quando tirara suas 
amgdalas no ano anterior. Disso e do fato de a terem deixado tomar sorvete no caf da manh. Ser que vo deixar desta vez?
  O quarto fora projetado para crianas. Uma faixa colorida do Ursinho Pooh enfeitava as paredes brancas, e ursos de pelcia entulhavam a poltrona para visitantes. 
Era um quarto confortvel, alegre e agradvel. Mas tinha alguma coisa errada.
  A enfermeira estava sorrindo para ela. Lexi podia ver que movia os lbios.
  Que estranho? Por que ela no est falando alto?
  Vagamente, lembranas do seqestro e do resgate voltavam  sua mente. Nada coerente. Fragmentos de fragmentos. O som dos tiros. Porta se abrindo. Luz forte. Lembrou-se 
do rosto do homem que a pegou nos braos. Tinha pele clara e olhos bondosos. Os lbios dele se moviam tambm, como os da enfermeira.
  Onde ser que ele est agora?
  No momento seguinte, a porta se abriu e Peter entrou. O corao de Lexi deu um pulo de alegria. Ele correu para seu lado, abraando-a e cobrindo-a de beijos. Ela 
podia sentir o calor e a fora do corpo dele, o gosto salgado das lagrimas. Era maravilhoso, um sonho se tornando realidade. Mas ainda tinha alguma coisa errada. 
Sentia-se distante. Separada. Como se alguma parte dela no estivesse realmente ali. Mas qual parte?
  Ah, papai. Eu sabia que voc viria.
  Foi quando ela percebeu.
  O silncio.
  Sua boca formava palavras. Podia escutar o som delas em seu peito, sentir o ar empurrando-as para fora. Mas no conseguia escut-las. Sendo tomada aos poucos por 
um horror crescente, que no conseguia escutar nada.
  Pai.
  Ela tentou falar de novo.
  Papai!
  Comeou a entrar em pnico. Era a mesma sensao de horror que sentira ao acordar no carro dos seqestradores. Tontura, corao acelerado, nusea. Sua mente voltou 
para a fbrica. Estava na cama de sua cela. A porta se abriu. O porco. Ele estava vindo na sua direo.
  Uma palavra e corto sua garganta.
  Lexi jogou a cabea para trs e gritou.
  - O que est acontecendo? - Peter estava em pnico. O barulho que Lexi estava fazendo era ensurdecedor, horripilante, ele nunca escutara nada parecido em toda 
sua vida. Como um animal no abatedouro. - Pelo amor de Deus, algum ajude a minha filha!
  A mdica veio na direo deles, mas Lexi no deixou que chegasse nem perto, agarrando-se a Peter como um beb chimpanz se agarra a sua me. Seus gritos estavam 
cada vez mais altos. Suas unhas cravaram o ombro de Peter. Sangue manchava a camisa dele.
  - Algum faa alguma coisa!
  A mdica encheu uma seringa, mas era difcil. A menina estava se mexendo incontrolavelmente. Puxando o camisolo de Lexi, ela fez uma investida e enfiou a agulha 
na coxa da menina.
  Lexi arregalou os olhos, chocada. Ento, de repente, seu pequeno corpo relaxou. Era como uma boneca de pano nos braos de Peter.
  Peter deitou-a suavemente na cama. Ele estava tremendo.
  - Que diabos aconteceu aqui?
  - Pode ter sido muitas coisas - explicou a mdica. - Por favor, sente-se.
  Sem se importar, Peter jogou os ursos de pelcia no cho, e afundou-se na poltrona.
  - Precisamos fazer mais alguns exames. Sua filha... existem sinais de abuso.
  Peter ficou plido. Percebeu que a mdica tinha olhos castanhos, como o cabelo, e sardas espalhadas sobre o nariz.
  - Infelizmente, no existe uma forma fcil de dizer isso. Mas acreditamos que Lexi tenha sido violentada, Dr. Templeton. Alm dos traumas do seqestro, existem 
sinais...
  A voz da mdica sumiu. Talvez ela ainda estivesse falando, mas Peter no escutou nada alm de um assovio em seus ouvidos. O assovio foi ficando cada vez mais forte, 
como um trem ganhando velocidade trilho abaixo.
  Violncia sexual, violncia sexual, violncia sexual.
  Colocou as mos nos ouvidos.
  - Dr. Templeton? O senhor est bem?
  - Ela tem 8 anos.  um beb.
  Lgrimas escorriam pelo seu rosto.
  - Sei que  muita coisa para assimilar. - A mdica pegou as suas mos, com carinho e compaixo. - Tente se agarrar ao fato de que ela est viva. No teve nenhuma 
queimadura, nenhum ferimento grave, alm da audio, claro. O agente Edwards salvou a vida dela.
  - A audio?
  - Era isso que eu estava falando com o senhor, Dr. Templeton. Precisamos fazer mais alguns exames. Mas aconselho que se prepare para o pior. Existe uma grande 
chance de sua filha no voltar a escutar.

  Captulo 11

  Gabe McGregor dissera para a me que sabia se cuidar. Mas provou ser um pssimo profeta.
  Embora no fosse burro, Gabe era dislxico e se entediava com facilidade. Como resultado disso, deixara a escola aos 16 anos sem nenhuma qualificao, embora fosse 
naturalmente bom com os nmeros. Chegou em Londres sem nada, apenas sua boa aparncia, seu otimismo e cinqenta libras em dinheiro no bolso. No havia muito trabalho.
  - Sou trabalhador. Sei que terei que comear de baixo. Que tal a portaria?
  Estava sentado na frente da chefe do departamento de recursos humanos May & Lorriman, um banco de investimentos.
  - Sinto muito, filho, mas aqui no  um filme de Michael J. Fox. At os nossos porteiros tm o ensino mdio completo.
  A chefe dos recursos humanos ficou com pena de Gabe, mas no havia nada que pudesse fazer. Regras so regras. S concordara em receb-lo porque ele apareceu no 
escritrio todas as manhs da ltima semana, implorando por uma entrevista.
  Destemido, Gabe desceu a Moorgate, determinado a no sair da City, o famoso distrito financeiro de Londres, at que conseguisse algum emprego. Mas era a mesma 
histria em todo lugar.
  - Ter de enviar uma solicitao por escrito - disseram na Merrill Lynch.
  - Ensino mdio completo  o mnimo necessrio para trabalhar na nossa empresa - disseram na Goldman Sachs.
  - No contratamos trabalhadores temporrios - disseram no Deutsche Bank.
  Gabe estava desnorteado.
  Todos os bancos dizem que querem "empreendedores". Candidatos que consigam "sair do lugar-comum",  isso que seus panfletos dizem. Mas  s mostrar um pouco de 
esprito empreendedor que eles batem a porta na sua cara.
  Depois, ele tentou as imobilirias. Havia muito dinheiro investido em propriedades, e no fundo no passava de um trabalho de vendedor. Posso fazer isso. Foxtons, 
Douglas & Gordon, Kninght Frank, Allsops. Gabe tentou todas, batendo nas portas, errando pelas ruas de Londres, de Kensington a Kensal Rise at que seus ps doessem 
e sua cabea latejasse.
  No preciso de salrio. Aceito ganhar s comisso.
  S estou pedindo uma chance.
  Sinto muito, filho.
  Precisa de ensino mdio.
  Volte para a escola.
  Deprimido e derrotado, Gabe finalmente comeou a procurar trabalho manual, mas at isso era difcil. Os irlandeses dominavam a construo civil na capital e odiavam 
dividir o trabalho com um escocs que no tinha nenhuma recomendao.
  J trabalhou em uma construo antes, rapaz?
 
  No.
  Qual  o seu negcio, escocs? Eletricista?
  No.
  Bombeiro?
  No.
  Voc deve ter alguma habilidade, no?
  Gabe sentou-se na cama de solteiro da hospedaria suja em Walworth. Estava com fome, cansado, sozinho e falido.
  Voc deve ter alguma habilidade. Ele est certo. Tenho de ter. quais so as minhas habilidades? Em que diabos sou bom?
  Por vinte minutos, Gabe fitou a parede, a mente em branco. Ento pensou:
  Mulheres. Sou bom com mulheres.
  As mulheres amavam Gabe McGregor. Sempre fora assim. Na escola, Gabe costumava se livrar de encrencas jogando seu charme para as professoras, e conseguia que as 
melhores alunas da turma fizessem seu dever de casa. Com seu nariz quebrado e fsico de jogador de rugby, no tinha uma beleza clssica. Mas era s fitar seus olhos 
cinza alegres e espirituosos que as mulheres se ajoelhavam aos seus ps. Gabe era um sedutor nato, um menino mau que precisava de proteo. O sexo oposto considerava 
uma combinao fatalmente atraente.
  Como vou ganhar dinheiro com isso?
  Gabe tomou um banho e colocou calas e uma camisa de linho branca limpas. Pegando suas ltimas libras, desceu a Elephant and Castle e pegou um nibus para Knightsbridge.
  Trinta minutos depois, estava na Sloane Street. Eram 18 horas de uma tarde quente de julho, e as lojas e bares ainda estavam cheios.  sua volta, Gabe s via mulheres 
ricas e elegantes. Vestiam modelos Chanel e Ungaro, sobre seus saltos Gucci e diamantes, balanando as mechas muito bem pintadas enquanto passavam. Geralmente, andavam 
em grupos, conversando e rindo enquanto desfilavam com sacas de compras de Harrods, bebericando champanhe nos cafs espalhados pela calada. s vezes, estavam sozinhas. 
Nunca, ou quase nunca, estavam acompanhadas por um homem.
  Onde esto todos os maridos? Ainda nos escritrios no Goldman Sachs, com seus diplomas de Harvard, ganhando dinheiro para pagar todas essas roupas de estilistas.
  Como so tolos.
  Uma mulher chamou a ateno de Gabe. Morena, atraente, com uns 30 e muitos ou 40 e poucos anos, estava parada na frente de Harvey Nichols, olhando impacientemente 
para seu caro relgio Patek Phillippe. Quem quer que ela estivesse esperando estava, evidentemente, atrasado. Irritada, ela estendeu a mo para chamar um txi, depois 
pensou melhor, entrando de novo na loja.
  Gabe correu atrs dela. O motorista de um Jaguar buzinou com vontade para ele enquanto atravessava cegamente o trnsito.
  - Seu idiota! Est querendo morrer?
  Mas Gabe no escutou. Atravessando as portas duplas da Harvey Nichols, alcanou a mulher quando ela estava entrando no elevador.
  - Quanta pressa. - Ela riu enquanto as portas do elevador se fechavam. Gabe percebeu que estava ofegante, correra muito rpido. - Com sede?
  - Como?
  - Eu disse que deve estar com sede. Ester elevador vai direto para o bar do quinto andar.  isso que voc quer?
  Gabe sorriu. De perto, ela parecia mais velha, talvez uns 45, mas tinha belas pernas e um sorriso travesso que se encaixava bem com o que ele tinha em mente.
  - Exatamente.
  O nome dela era Claire, e Gabe morou com ela - foi sustentado por ela - por um ms, at que ela finalmente decidiu que bastava.
  - Voc  um encanto, querido, voc Sab disso. Mas no posso passar o resto da minha vida com um garoto que tem idade para ser meu filho.
  - Por que no?
  - Porque  exaustivo. Esta manh, cochilei no meio de um depoimento. Sou scia de uma firma de advogados, Gabe, no sou Maggie May. Alm disso, est na hora de 
voc encontrar alguma coisa para fazer.
  Gabe encontrou alguma coisa para fazer na manh seguinte. O nome dela era Angela.
  Depois de Angela veio Caitlin, Naomi, Fiona e Therese. No primeiro ano, a vida foi boa. Ainda no tinha a menor segurana. Nenhuma poupana. Mas se mudava de um 
luxuoso apartamento em West End para outro, usava roupas que no eram de polister e no pinicavam, jantava nos melhores restaurantes de Londres, curtia o sexo regular 
com uma srie de mulheres mais velhas, bem preservadas e que lhe eram gratas, e tinha acesso a mais cocana de primeira do que poderia consumir.
  No incio, a cocana estava sob controle. Gabe curtia uma ou outra carteirinha nas festas e era s. Mas quando o tdio e o vazio de seus dias comeavam a incomodar 
(h um limite para as quantidade de vezes que d para ir  academia ou fazer compras enquanto sua namorada vai trabalhar), a coca virou um hbito na hora do almoo 
tambm. Em pouco tempo, estava se drogando no caf da manh. Foi quando os problemas comearam.
  Fiona, uma empresria no ramo da internet divorciada com uma casa maravilhosa em Chelsea, deu o fora em Gabe quando chegou mais cedo do trabalho e o encontrou 
cheirando cocana em sua mesa de centro de imbuia Conran junto a sua filha de 14 anos.
  Therese pediu as contas no dia em que comeou a dar falta de dinheiro em sua bolsa.
  - Engraado. Tenho certeza de que tinha cem libras na minha carteira. No parei no caixa eletrnico ontem  noite?
  - Sei l, doura. No sou sua bab.
  Foi a raiva de Gabe que despertou sua desconfiana. Convencida de que estava sendo paranica, mas com medo de se queimar de novo, Therese esperou at um final 
de semana em que Gabe foi para Saint-Tropez, e mandou instalar cmeras escondidas em seu quarto.
  Duas semanas depois, Gabe estava na rua.
  No fundo, ele no era um rapaz mau. Mas as drogas tiraram toda a decncia de seu carter - o humor, a cordialidade, a lealdade - e a devoraram. S sobrou uma casca 
fsica. Logo at esta comeou a desmoronar. Gabe perdeu peso. Comearam a aparecer manchas em seus dentes. Sem saber como ido parar l, acordava em portas e comeou 
a furtar de lojas para poder comprar comida.
  Sempre tivera uma imaginao ativa, brilhante. Agora, conforme sua realidade ia ficando cada vez mais amarga, ele se fechava no mundo de fantasia que criara para 
si. Era um banqueiro, um advogado, um sucesso. Era rico e respeitado. Sua me estava orgulhosa.
  Vivia em uma manso vitoriana. Walthamstow era uma rea perigosa, mas as boas aes de transporte para o centro econmico significam que ruas boas estavam sendo 
reformadas. Algumas famlias jovens e bem-sucedidas estavam se mudando para c, depois da supervalorizao de West London pelos rabes e russos. Conseguia uma casa 
melhor com o dinheiro que tinha, mas tambm arranjava vizinhos desagradveis.
  Gabe estava ficando em um abrigo para sem-teto a poucas quadras dali. No tinha quase nenhuma lembrana daquela noite. Poucas imagens, sonhos pela metade. Sua 
mo estava sangrando. O som de sirenes. Todo o resto a polcia lhe contou na manh seguinte.
  O arrombamento foi por volta de 1 hora, e Gabe estava to alto quanto o Monte Kilimanjaro. A polcia presumiu que a inteno dele fosse roubar, mas talvez s estivesse 
confuso e procurando abrigo. De qualquer forma, no conseguiu roubar nada. O dono da casa, um homem de 30 e poucos anos com trs filhos, escutou um barulho no andar 
de baixo e enfrentou Gabe, atacando-o com um abajur. Gabe pegou um atiador na lareira e comeou a "se defender", batendo no homem repetidas vezes na cabea e no 
trax.
  Bateu tanto nele que quando a esposa desceu, achou que o marido estivesse morto.
  Gabe foi preso na cena do crime. No tentou fugir, principalmente porque no sabia onde estava nem o que supostamente tinha feito.
  - O ru pode se levantar.
  Gabe fitava o nada, perdido em pensamentos. Estava em uma caixa de plstico blindada, no canto do tribunal. Michael Wilmott, seu advogado, tinha lhe dito que era 
 prova de balas. S rus considerados uma ameaa aos juzes ou aos oficiais de justia eram colocados ali.
  Eles acham que sou perigoso. Um criminoso perigoso.
  - De p, por favor, Sr. McGregor.
  Gabe se levantou.
  - Devido  natureza sria de seu crime, pelo qual sabiamente confessou sua culpa, sou obrigado a entregar seu caso para o tribunal superior dar a sentena.
  Entregar? Gabe olhou para o advogado cheio de esperana. Isso significa que vo me soltar? No cheirava nada havia trs dias e estava comeando a ficar desesperado. 
A caixa plstica estava deixando-o claustrofbico.
  - Seu pedido de fiana foi negado. Continuar sob custdia at o dia da sua prxima audincia, que est marcada provisoriamente para o dia 4 de outubro. Quaisquer 
relatrios de instruo ao processo...
  Gabe no estava escutando.
  Continuar sob custdia.
  Seus olhos cinza imploravam para a juza. Afinal, ela era mulher. Mas fitou-o de forma impassvel, virou-se e saiu da sala. Seu advogado estava com a mo em seu 
brao.
  - Mantenha a cabea baixa - murmurou Michael Wilmott. - Entrarei em contato.
  Ento, ele tambm foi embora. Dois policiais armados escoltaram Gabe at as celas. Depois, seria transferido para uma cadeia.
  Cadeia! No! No posso! Preciso sair daqui!
  Ningum escutava as vozes. Estavam na sua cabea.

  Captulo 12

  - Mas por que precisamos ir? - Max Webster balanava as pernas, impaciente, chutando o encosto do motorista. - Odiamos os Templeton.
  - No fale besteiras, Max - disse Keith Webster com firmeza. - No odiamos ningum. Muito menos nossa famlia.
  Max estava atravessando a cidade com seus pais para visitar sua prima Lexi no hospital. Trs semanas depois do dramtico resgate, ela finalmente obtivera permisso 
para receber visitas. Keith Webster insistira com Eve que eles deviam ser os primeiros.
  A esta altura, os pas inteiro j sabia do seqestro de Lexi. Por milagre, o agente Edwards convencera a imprensa no publicar nada enquanto Lexi estivesse desaparecida. 
Qualquer cobertura da imprensa poderia ter colocado a vida dela em risco, e nem Rupert Murdoch nem Ted Turner queriam sangue Blackwell em suas mos. Mas depois do 
desastre na fbrica em Nova Jersey, a temporada para a histria mais suculenta estava aberta:
  HERDEIRA DE 8 ANOS FICA SURDA EM RESGATE DESAJEITADO
  MENINA DA KRUGER-BRENT FICA SURDA APS TRAUMA
  HERI DO FBI LUTA PELA PRPRIA VIDA
  SEQUESTRADORES DA MENINA BLACKWELL AINDA ESTO FORAGIDOS
  Boatos de que Lexi sofrera abusos, ou at mesmo fora estuprada, reverberaram por toda a alta sociedade de Manhattan acrescentando um delicioso frisson de excitao 
no circuito das festas de vero.
  Peter no escutou nenhum dos boatos e no leu nenhuma das manchetes. No sara do hospital desde o dia em que Lexi fora internada.  noite, mantinha uma viglia 
constante em sua cabeceira. Durante o dia, segurava a mo dela durante a bateria de exames, tratamentos e sesses de terapia que tinham se tornado uma nova rotina 
para os dois. Ele no perguntou aos mdicos quando achavam que ela poderia ir para casa. A idia o aterrorizava. Morria de medo do momento em que o confortvel cotidiano 
do Mount Sinai acabaria e ele seria obrigado a cuidar de Lexi sozinho.
  E se ele no conseguisse? E se fracasse de novo?
  A idia deixava seus olhos marejados de lgrimas.

  Em nova Orleans, Robbie assistia s reportagens sobre o progresso da irm na televiso. Estava no apartamento de um homem que conhecer em um piano-bar na noite 
em que chegara  cidade: Tony. Tony tinha uns 30 e poucos anos, era escritor e, embora no fosse particularmente atraente nem enrgico, era gentil e confivel. Tony 
morava em um apartamento barato de dois quartos situado em cima de um restaurante que s vendia frango. O cheiro de leo, sal e gordura de frango estava impregnado 
em tudo, das cortinas aos carpetes, sofs e lenis.
  Dom Dellal se acovardara no ltimo momento e decidira ficar em Nova York, mas Robbie no se arrependera. Precisava de um recomeo. Tony lhe dera isso.
  - O que voc est assistindo?
  A voz de Tony vinha da cozinha, mas Robbie no respondeu. Seus olhos estavam grudados na tela e no reprter asitico que estava do lado de fora do Mount Sinai 
Hospital.
  - Alexandra Templeton, de 8 anos, foi internada hoje cedo, junto a um adulto supostamente em estado crtico.
 Cortaram para cenas dos bombeiros lutando contra paredes de chamas de trinta metros no que parecia uma fbrica antiga.
  - Esta  uma das histrias mais dramticas, se no a mais dramtica, envolvendo a clebre famlia Blackwell. Parece que a menina Alexandra, conhecida como Lexi, 
foi seqestrada de sua casa mais de duas semanas atrs por pessoas desconhecidas que pediram um resgate de dez milhes de dlares. Ontem  noite, aconteceu uma operao 
de resgate ultra-secreta envolvendo o FBI e fuzileiros. No momento, s sabemos que a menina, Alexandra Templeton, est viva. Relatos dizem que vrias pessoas que 
participaram da operao de ontem  noite morreram no incndio. Mais desta histria incrvel assim que recebermos mais...
  - Rob, qual  o problema? Parece que viu um fantasma.
  Tony Terrell sentou-se no sof ao lado do lindo rapaz louro que, miraculosamente, entrara na sua vida duas semanas atrs. No sabia nada sobre o rapaz, a no ser 
que era lindo. To lindo que era at surpreendente o fato de ter falado com Tony, e ainda mais ter ido para a sua casa e ter feito amor com uma paixo comovida e 
desesperada por cinco horas seguidas.  claro que no podia durar. Rapazes bonitos como Rob no ficavam muito tempo com poetas sensveis, neurticos e prematuramente 
carecas como Tony. Mas Tony guardaria essas duas semanas que passaram juntos pelo resto de sua vida.
  -  minha irm. - Robbie ainda estava olhando para a TV.
  Tony riu.
  - T bom. S em sonhos, cara. Aquela menina  uma Blackwell. - Ento, ele notou a palidez de Robbie. - Ah, meu Deus. Voc est falando srio. Ela realmente  sua 
irm.
  - Preciso volta para casa.

  Eve olhou pela janela da escurecida da limusine. Fazia mais de um ano que no colocava o p para fora do apartamento. As ruas de Nova York tinham uma vida to 
intensa que faziam com que seus olhos doessem. Vendedores de sorvete e cachorro-quente em cada esquina, dois velhos discutindo por causa de um taxi, executivos de 
Wall Street em seus elegantes ternos olhando para as meninas bonitas que passavam fazendo jogging.
  Sinto saudades da vida. Sinto saudades do mundo. Foi isso que Keith roubou de mim.
  Olhou para o filho, que olhava tristemente pela janela do outro lado do carro. Assim como ela, Max no queria estar aqui. Eve o ensinara a detestar os primos Templeton, 
o alimentou com gotas intravenosas de dio desde antes de ele aprender a engatinhar.
  "No odiamos ningum, Max. Muito menos nossa famlia."
  Por baixo de seu vu, um sorriso brincou nos lbios de Eve.

  Lexi estava rindo. Sentada no cho com as pernas cruzadas junto a Peter e Rachel, sua intrprete, estava jogando pega-varetas.
  Na linguagem de sinais, ela disse para rache:
  - Estou ganhando.
  A intrprete, uma bonita moa ruiva que no devia ter mais de 20 ou 21 anos, sorriu e respondeu com outro sinal.
  - Eu sei.
  O progresso de Lexi era surpreendente. Em uma semana, ela j aprendera a base da linguagem de sinais e sua leitura labial era rpida e precisa. Quando os mdicos 
disseram a Peter que a surdez dela era total e irreversvel, ele se desfez em lgrimas. Mas Lexi estava confiante e destemida como apenas uma menina de 8 anos podia 
ser. Alm do episdio isolado dos gritos no primeiro dia, ela no mostrara mais nenhum sinal de trauma ou sofrimento.
  - No  raro crianas terem reaes atrasadas a esse tipo de coisa - explicou para Peter do departamento de psicoterapia. Usando bonecas e desenhos, Lexi mostrara 
para a polcia e para os mdicos exatamente o que acontecera com ela - o abuso sexual e fsico -, mas fizera isso com tanta alegria que era quase perturbador.
  - O que estamos vendo agora  uma estratgia de autodefesa. Mas ela no vai conseguir bloquear isso para sempre.
  Como parte da reabilitao de Lexi, levaram-na  unidade de queimados para visitar o agente Edwards, o homem que arriscara a prpria vida para salv-la. Contrariando 
todas as probabilidades, sobrevivera, mas as queimaduras em seu torso e rosto o desfiguravam permanentemente.
  -  possvel que ela tenha um ataque - avisaram os psiclogos a Peter. Mas Lexi no teve nenhum ataque. Encaminhou-se calmamente at a cabeceira do agente Edwards, 
pegou a mo dele e sorriu.
  Depois, o agente Edwards disse para Peter:
  - Que menina incrvel voc tem.
  - Eu sei. E ela s est viva graas a voc.
  Naquela tarde, Peter depositou trs milhes de dlares na conta bancria do agente Edwards. No podia devolver o rosto do pobre homem, mas podia garantir que tivesse 
uma vida confortvel. Era o mnimo que podia fazer.
  Uma enfermeira bateu na porta.
  - Voc tem visita.
  Keith Webster avisara Peter que ele, Eve e Max estavam a caminho. A visita era uma surpresa. As duas famlias nunca foram prximas . Peter no confiava nem um 
pouco em Eve, Keith sempre lhe parecera estranho. Mas Max parecia um bom menino. Seria bom se ele e Lexi se tornassem bons amigos.
  - Pode deix-los entrar.
  A porta se abriu. Os olhos de Lexi se acenderam como velas em um bolo de aniversrio.
  - Ei, menina. Senti saudades de voc.
  Robbie pegou a irmzinha no colo. Os dois deram um abrao muito forte.
  Peter ficou parado no lugar, congelado. Era terrvel admitir, mas no pensara nenhuma vez em Robbie nas ltimas trs semanas. O seqestro de Lexi afastara todos 
os outros pensamentos de sua mente. Robbie e seus problemas pareciam pertencer a outra vida. Mas aqui estava ele. Fazia trs semanas que no se viam, mas seu filho 
parecia diferente.
  - Parei de beber, pai. E de usar drogas. Para sempre.
  Lexi estava grudada ao pescoo do irmo enquanto ele falava.
  - Fiz um acordo com Deus. Se ele salvasse Lexi, se permitisse que ela ficasse boa, eu juntaria os meus cacos. Vou fazer alguma coisa da minha vida, pai. Prometo.
  - Espero que sim, Robert.
  Peter, um pouco sem jeito, passou o brao em volta dos ombros do filho. Lembrou-se do menino bonito e gentil que Robbie era. Ser que aquela pessoa ainda estava 
guardada em algum lugar l dentro?
  Eu poderia ter atirado nele. Poderia ter matado o meu prprio filho.
  Ainda abraada a Robbie, Lexi passou o brao em volta do pescoo do pai, juntando pai e filho. Com relutncia, o olhar de Peter encontrou o de Robbie. A velha 
raiva no estava mais ali. Mais ainda havia tristeza. Talvez sempre fosse estar.
  Que linda famlia, pensou a intrprete, Rachel. J passaram por tanta coisa. No  de se admirar que sejam to unidos, coitados.
  - Espero que no estejamos interrompendo. Podemos voltar depois, se preferirem.
  Keith Webster estava sorrindo na porta. Atrs dele, estavam Eve e Max de mos dadas.
  - No, no. - Peter se afastou dos filhos, feliz por ter uma desculpa para quebrar a unio. - Que bom que vocs vieram. Lembram de Robert?
  - Claro. - Keith sorriu. - Meu Deus, como voc cresceu. Da ltima vez que o vimos, era pequenininho, no era, Eve?
  - Hum, hum. - Eve assentiu.
  Cale a boca, seu cretino servil! Que diabos Robert est fazendo aqui? Ele deveria estar se dopando, jogado em uma sarjeta qualquer. Lionel Neuman me contou que 
ele abriu mo da herana. Ser que voltou para recuperar suas aes da Kruger-Brent.
  Desde a morte de Alex, Eve e Keith encontraram Peter e as crianas algumas poucas vezes, em eventos de famlia, mas no eram chegados. Anos atrs, Peter prevenira 
Alex sobre a personalidade psictica da irm, um ato que Eve nunca esqueceu nem perdoou.
  - Max. Cumprimente a sua prima. - Keith empurrou o menino para frente. - Por que no entrega o presente de Lexi?
  As duas crianas se encararam cuidadosamente.
  Max pensou: eu odeio voc. Voc e seu irmo. Vocs querem roubar a Kruger-Brent de mim.
  Lexi pensou: ele me odeia. Por que ser?
  Ela abriu o presente. Era a ltima Barbie edio limitada. A patinadora que passara o vero todo pedindo. Antes de aquilo acontecer. Antes do terror. Antes do 
porco.
  Os psiquiatras achavam que Lexi estava bloqueando o que acontecera com ela. Ela conseguia ler os lbios deles: sndrome da memria reprimida. Respostas ps- traumticas 
clssicas. Mas eles estavam errados. Todos estava errados.
  Lexi se lembrava de tudo. Cada pelo no brao dele, cada marca na pele, a cadncia de sua voz, cada gemido, o cheiro podre de seu bafo.
   possvel que ela tenha pesadelos. Medo profundo de que os homens maus voltem.
  Lexi no estava com medo. Estava determinada. Sabia que seus seqestradores tinham fugido e sabia por qu. Porque era o destino dela encontr-los, dar-lhes o troco 
pelo que fizeram. No disse nada para a polcia. Fingiu no se lembrar de nenhum detalhe. Mas lembra-se de tudo.
  Um dia, porco, eu vou encontr-lo.
  Um dia...
  - Lexi. - Rachel estava fazendo sinais para ela. - No vai agradecer?
  Lexi olhou para a boneca. Tocou nos lbios com os dedos da frente da mo direita, depois afastou a mo do rosto com a palma virada para cima, sorrindo.
  - Este  o sinal para "obrigada" - explicou Rachel.
  Max disse:
  - De nada.
  O lbio dele correspondeu ao sorriso da prima. Mas seus olhos pretos e brilhosos eram to frios quanto um tmulo.

  Captulo 13

  A frica do Sul era linda.
  Sem dvidas. Aqui havia beleza em grande escala. Beleza pica. Beleza impressionante. O tipo de beleza que o Homem, ao longo dos sculos, tentou imitar com suas 
catedrais, templos e pirmides, sem esforos humanos em busca de grandeza. Keith Webster era um homem viajado. J fora ao templo de Karnak no Egito,  Grande Muralha 
da China,  catedral de Notre Dame, em Paris. Subira ao alto do Empire State Building, maravilhara-se com o Coliseu em Roma, e fitara embevecido o Taj Mahal, na 
ndia. Agora, de p sobre a Table Moutain com o vento em seus cabelos e a Cidade do Cabo esparramada aos seus ps, pensou em todos esses lugares e riu. Assim como 
Deus deve ter rido:
  Vocs chamam aquilo de beleza? Chamam aquilo de grandeza?  realmente o melhor que podem fazer?

  Keith Webster estava no pas havia trs semanas. Voltaria para os Estados Unidos no dia seguinte e, embora estivesse ansioso para ver Eve - nunca ficara tanto 
tempo longe dela desde que se casaram -, percebeu que lamentaria deixar a Cidade do Cabo. No apenas por causa da beleza. A Cidade do Cabo fora uma experincia mgica 
que Keith nunca tivera antes. Mas porque aqui, na frica do Sul, finalmente conseguiu criar um lao com o filho. Para Keith Webster, a Cidade do Cabo sempre seria 
a cidade que o aproximou de Max. A cidade da esperana, da alegria, do renascimento.

  Foi ideia de Eve.
  - Voc e Max poderiam ir a algum lugar juntos, sozinhos. Um acampamento s para meninos. Imagine como seria divertido!
  Keith pensou em como seria divertido: Max ignorando-o, zombando de todas as suas sugestes de atividades, com a expresso de ptrea impassibilidade em resposta 
a suas piadas. Rindo enquanto ele no conseguia montar a barraca. Implorando para voltar para a me.
  - No sei se  uma boa ideia. No acho que Max seja o tipo de menino que goste de acampar.
  Fazia dois anos desde o seqestro de Lexi Templeton; dois anos desde que Max admitira ao pai, sentado na limusine da famlia, que odiava seus primos.
  No fale besteiras, Max. No odiamos ningum.
  Foi o que Keith Webster dissera ao filho. Mas mesmo ao pronunciar essas palavras, pensou: ele tambm me odeia. Sempre me odiou. At aquele dia, Keith nunca admitira 
essa triste verdade, nem para si mesmo. Era mais fcil inventar desculpas para o comportamento de Max.
  Ele  supreprotetor em relao  me porque ela  to vulnervel.
  Porque ele  filho nico.
  Porque...
  Porque...
  O que a professora de Max disse? Sim, era isso. seu filho  extremamente talentoso, Dr. Webster. Crianas talentosas tm mais dificuldades em criar vnculos. Com 
o tempo, isso vai mudar.
  Mas, bem no fundo, Keith Webster sabia a verdade.
  Max o odiava.
  A nica coisa que no sabia era o porqu.
  Max no falou mais sobre "odiar" Lexi Templeton. De fato, nos anos que se seguiram  primeira visita que ele fez ao hospital, o menino parecia ter desenvolvido 
um tipo de afinidade com a pobre menina surda. Amizade seria uma exagero. Mas havia alguma coisa entre as duas crianas, alguma compreenso, um brilho no olhar sempre 
que se encontravam, que dera esperana a Keith Webster.
  Se ele puder aprender a amar Lexi, talvez um dia possa aprender a me amar tambm?
  Keith no quisera vir a essa viagem de acampamento, mas graas a Deus viera. Graas a Eve! As frias tinham mudado tudo.
  Com 10 anos, quase 11. Max ainda era pequeno para a idade. Facilmente, passava por uma criana de 8 ou 9 anos, embora os adultos que o conheciam bem - seus professores, 
treinador de beisebol, at o tio Peter - percebessem um jeito maduro dissonante com o exterior infantil. Uma alma velha, era assim que as pessoas se referiam a ele. 
Quando Keith estava por perto, Max costumava ficar mal-humorado e quieto. Mas com os outros ele era altamente articulado.
  Keith esperou que o filho desdenhasse da ideia do acampamento para os "meninos", certo de que Max a trataria com o mesmo desprezo que dispensava a todos os esforos 
de Keith de preencher a lacuna emocional entre eles. Mas, por incrvel que parea, Max ficou entusiasmado.
  - Podemos, papai? Nunca fui  frica do Sul. Lexi e Robert vo para l a toda hora, deve ser incrvel. Por favooooor?
  - Voc sabe que a mame no vai. - Keith tentou esconder sua surpresa. - Seramos s ns dois.
  - Eu sei, mas mame j foi l, um monte de vezes, ento acho que ela no vai se importar. Por favor?
  Keith teve vontade de chorar. Max queria ir. Com ele.
  At o chamara de "papai".
  Ser que estava acontecendo? Depois de dez longos anos, este poderia ser o momento da virada?.

  - Vamos, pai, venha aqui. Olhe como estamos no alto!
  Keith virou-se para olhar para Max, bem na beirada do canyon, pulando de pedra em pedra como uma cabra montesa. Ele  destemido. No  como eu. As nuvens cercavam-no 
como fumaa de cigarro. Em alguns momentos, uma nuvem maior descia e encobria completamente o menino. Toda vez que isso acontecia, Keith sentia o corao parar.
  - Amigo, j disse para se afastar da beirada. Pare de pular assim, no  seguro.
  A Cidade do Cabo foi a ltima parada na grande aventura deles na frica do Sul, e o nico lugar em que se hospedaram em um hotel em vez de acampar. At agora, 
tinham viajado de uma reserva a outra e de um acampamento a outro por toda a regio de Karoo junto ao guia deles, Katele, um nativo Bantu com 1,80m de altura, um 
sorriso constante nos lbios e um abdmen definindo de uma forma que Keith s vira em comerciais de equipamento de ginstica. Ele parecia um figurante de um filme 
de Tarzan. Keith se sentia fraco e inadequado na presena dele, mas no tentava demonstrar.
  Katele contou para um impressionado Max:
  - O Grande Karoo  o maior ecossistema natural da frica do Sul e uma das grandes maravilhas cientificas do mundo. Suas rochas contem fsseis de mais de 310 milhes 
de anos. Voc pode fazer de tudo l. Voar de balo, andar a cavalo, observar as estrelas. Aqui ficam as melhores rochas para se escalar do pas.
  - E os animais?
  Katele riu.
  - Voc no vai se decepcionar. Temos animais dos quais nunca ouviu falar, meu amigo. Cudo, rix, protelo, gnu. E muitos que voc j conhece: guias, babunos, 
rinocerontes, zebras.
  - Podemos caar?
  Keith ficou chocado.
  - Estamos aqui para observar a beleza, Max, no para mat-lo. Sinto muito, Katele.
  Mas o guia ficou do lado de Max.
  - No tem problema, senhor.  claro que o garoto pode caar se quiser. Eu levarei vocs para a reserva Sanbona em Klein Karoo. A caa de animais por l  excepcional.
  - Podemos, pai? Por favoor?
  - Veremos - disse Keith.
  Ele no achava certo que garotos de 10 anos pegassem em armas. Na verdade, repreendera Eve poucos dias antes de partirem, quando ela finalmente admitiu que dera 
a arma de seu av para Max.
  - Ele nunca a usou, querido - garantiu ela. - Nunca nem saiu do cofre. Alm disso,  antiga, duvido que ainda funcione.
  - Eu no apostaria nisso. - Keith virou a Glock primitiva em suas mos.  sua prpria maneira, tinha beleza.
  - Dei a ele como um smbolo - disse Eve. - Uma coisa da herana da famlia para que ele se sentisse um adulto. No seja um estraga-prazer.
  Max implorou para levar a arma para a frica do Sul.
  - Mame providenciou a documentao.  permitido lev-la porque  uma velha lana de famlia.
  - Herana de famlia -, Eve abriu um sorriso indulgente e virou os olhos para Keith como se dissesse: viu como ele  inocente?
  - No tenho certeza, Max. Arma no  brinquedo.
  Mas no fim, Keith ficou to contente por estar bem com Max que deixou a felicidade afetar seu raciocnio. A arma foi colocada na bagagem, mas com a estrita condio 
de que no seria usada, sob nenhuma circunstncia.
  - Quer saber? - Keith colocou a mo no ombro do filho. - Por que no esquecemos a caa por enquanto e damos um passeio de balo? Parece divertido, no?
  - Claro, pai. O que voc quiser.
 
  Max estava ansioso.
  Queria usar a arma. Um acidente de caa, esse era o plano. Sua me lhe dissera para seguir o plano. Max nunca deixara de seguir uma instruo de Eve antes.
  Mas um passeio de balo? Era um presente.
  Imaginou a cena.
  No consegui impedi-lo! Disse para ele se abaixar, mas queria conseguir uma foto melhor. Ele escorregou e... ah, Katele, foi horrvel. Eu o vi cair, ficando cada 
vez menor, e ento desapareceu, e eu fiquei l em cima sozinho...
  Droga. Esse era o problema.
  Se Keith sofresse um acidente a muitos metros de alturas sobre a represa Gariep e morresse em uma queda, Max ficaria preso no balo sozinho. Como desceria?
   melhor eu descobrir como bales funcionam.
 
  Katele falou para Keith:
  - Voc tem um filho brilhante, senhor. Incrivelmente curioso.
  - Obrigado. Parece que a frica despertou o que estava escondido dentro dele.
  O guia deu de ombros.
  - Naturalmente. Est no sangue dele. Sabia que ele passou a tarde inteira com a nossa equipe de balonagem, aprendendo a usar cordas?
  - Que bom. - Keith forou um sorriso. - Ele vai poder me ajudar quando estivermos l em cima e eu entrar em pnico e esquecer tudo o que me ensinaram...
  - Se preferir levar um piloto...
  Keith balanou a cabea.
  - No, no. J voei antes, muitas vezes. Mas no recentemente. Tenho certeza de que, na hora, vou me lembrar de tudo.
  Keith decidira que o passeio de balo seria uma excelente oportunidade para estreitar laos com o filho. Queria que Max o visse fazendo algo em que ele fosse bom. 
Alm de cirurgia, Keith Webster tinha poucos talentos, e no seria possvel levar seu filho para assistir a uma rinoplastia. Aprendera a pilotar balo na faculdade, 
em um raro momento de ousadia, e curtiu a novidade por mais ou menos um ano, at que se cansou.
  Talvez isso ajudasse Max a v-lo sob um ponto de vista mais herico? No era fcil parecer herico ao lado de Katele.
  - Estaremos em contato pelo rdio o tempo todo. - Katele deu um sorriso tranqilizador. - Se tiverem algum problema,  s avisar.
  - No se preocupe - disse Keith. - Ficaremos bem.
  
  Eles levantaram vo ao pr do sol. Era uma noite perfeita para voar.
  - Tem algumas nuvens para o leste, mas os ventos esto a favor. Kurt, o tcnico, verificou os tanques de propano e o pirmetro, que media o calor na parte superior 
do balo, pela ltima vez. Um africnder enrugado de 60 e poucos anos com uma barba grisalha desgrenhada que parecia as usadas pelos viles nos contos de fadas, 
Kurt Bleeker era na realidade, um homem muito gentil e bondoso.
  - Os ventos tm tido uma mdia de 8 quilmetros por hora, ento vocs no devem percorrer mais que alguns quilmetros. Como  o seu primeiro vo solo em muito 
tempo, tente ficar apenas quarenta minutos, mas no entre em pnico se ultrapassar o tempo. Voc tm combustvel para o dobro disso. Qualquer problema - Kurt deu 
um tapinha no walkie-talkie -, entre em contato, certo?
  Keith Webster sorriu.
  - Pode deixar.
  Agora que estava realmente acontecendo, no estava mais nervoso.
  Vai ser o mximo. Sobrevoar o Karoo com meu filho, como sultes em nosso reino particular. S faltava Eve estar aqui para ver como estamos nos dando bem.

  Logo estavam no ar, flutuando serenamente sobre as montanhas, pequenos picos rochosos que brotavam da plancie rida aberta, como furnculos na pele de um homem 
velho. Olhando para o lado esquerdo da gndola, a cesta do balo, tudo parecia rido e morto. Mas uma olhadela para a direita revelava um mgico mundo aqutico, 
tremeluzindo como uma miragem no calor do incio da noite. Os rios Orange e Caledon entalharam um caminho pela terra poeirenta, criando uma mirade de pequenas baas, 
ilhas e pennsulas. Bem abaixo, Keith Webster podia ver pessoas velejando e praticando windsurfe perto do litoral recortado. Por perto, um rebanho de gnus se juntara 
para beber gua, tirando o mximo proveito do clima mais frio e mido do inverno. Mas as paisagens abaixo no era nada em comparao com o cu que os cercava. Era 
como se um Deus, aps tomar LSD, tivesse pegado um pincel e borrado uma tela psicodlica com tons de laranja e rosa sobre o crepsculo.
  - O que voc acha, Max? Incrvel, no ?
  - Hum, hum.
  Max estava segurando a estrutura de alumnio da gndola. Eles mal parecia notar o cenrio impressionante abaixo deles. Seus olhos estavam grudados no painel de 
instrumentos. Toda vez que a agulha do altmetro vacilava, ele ficava visivelmente tenso.
  Nervoso, pensou Keith. Isso  normal no primeiro vo de balo. Vai relaxar assim que se acostumar.
  Max estava nervoso. Isso seria mais complicado do que pensou. Teria de esperar at que j tivessem se afastado o suficiente para no serem vistos do acampamento. 
Mas se esperasse muito, Keith se ocuparia com a descida e no se interessaria em tirar fotografias.
  - Olhe l embaixo, pai.
  Max apontou para um rebanho de zebras galopando pela plancie. A poeira levantava atrs dele como a fumaa de um carro de corrida.
  - Quero tirar uma foto.
  Keith virou e gritou. Seu filho, de alguma forma, subira nas cordas do balo. Estava precariamente empoleirado na borda da cesta de vime, agarrando as cordas com 
uma das mos enquanto se debruava para fora da gndola com a cmera na mo.
   - Meu Deus, Max. Desa da! Est querendo morrer?
  Ainda segurando a cmera. Max pulou para dentro. Lanou um olhar de desdm para Keith.
  - O qu? Eu s estava tirando uma fotografia.
  - Voc nunca deve subir dessa forma, amigo.  muito perigoso.
  - No, no . - Max fez uma cara feia. Bem baixinho disse: - Katele faz isso toda hora. Ele no tem medo.
  Keith ficou tenso. timo. Maravilhoso. Passo por tudo isso para impressionar Max e ele continua falando de Katele.
  - Se voc realmente quer uma foto, amigo, pea para mim. Assim que o vo estabilizar, eu tiro.
  - Mesmo? - Os olhos de Max brilharam. - Tudo bem, pai, obrigado! Seria timo!
  Vinte minutos depois, eles finalmente j estavam afastados o suficiente para Max entrar em ao. Estavam a 200 metros de altura agora, sobrevoando a represa Gariep. 
A enorme estrutura de concreto parecia comicamente pequena abaixo deles, como uma pea de Lego do Max.
  - Aquela cachoeira  incrvel. Pode tirar uma foto?
  - Claro.
  No havia a menor necessidade de subir na borda da gndola. Era possvel tirar uma excelente foto da represa de dentro da cesta. Mas Max o desafiara ao fazer o 
comentrio sobre Katele.
  Ele quer coragem? Vou mostrar a ele.
  Colocando a corda da cmera de Max em volta do pescoo, Keith tentou apoiar o p na estrutura de alumnio.
  - Agora, lembre-se, filho, nunca deve fazer isso.  perigoso,  coisa para adulto. OK?
  - Claro, pai.
  Mais um passo. Keith se esticou para pegar a corda que estava acima de sua cabea, mas era difcil agarr-la. A palma de sua mo estava molhada e grudenta de suor. 
Jesus Cristo estamos muito alto. O vento balanava seu fino cabelo, e ele sentiu a bile comear a subir pela sua garganta. Puxou-se para cima at que estivesse empoleirado 
na borda, da mesma forma que Max fizera, exceto que Keith estava com os dois ps na gndola e as duas mos agarradas  corda para se segurar. Um terror fsico invadiu 
seu corpo. Sentiu-se tonto e comeou a suar. Devo ter perdido a cabea.
  - Assim est perfeito, pai. Agora tire a foto!
  Para tirar a foto, Keith teria de soltar uma das mos da corda. Comeou a afrouxar os dedos e, imediatamente, sentiu que perdia o equilbrio. Meu Deus.
  - Vamos, pai! O que voc est esperando?
  - Eu... s um segundo, amigo, OK?
  A mente de Max estava a mil por hora. Estimava que Keith pesasse uns setenta quilos. Por volta de 45 quilos a mais que ele. Se seu pai no soltasse uma das cordas, 
ser que Max teria fora para empurr-lo? E se tentasse e no conseguisse?
  - Estamos indo rpido, pai. Logo vamos passar. Vai perder a chance.
  Keith tentou se lembrar a ltima vez em que sentira tanto medo. No dia em que Eve ameaara deix-lo para ficar com aquele ator com quem ela estava saindo, Rory. 
Naquele dia, juntou toda a sua coragem. Fizera o que precisava fazer.
  Apenas faa! Tire a maldita foto e desa da.
 Keith soltou a segunda corda. De repente, o vento comeou a soprar mais forte, fazendo com que a velocidade do balo aumentasse assustadoramente. Tateou para pegar 
a cmera, mas sua mo tremia tanto que mal conseguia mirar.
  Silenciosamente. Max comeou a subir atrs dele.
  Keith se debruou. Achou que a represa estava na mira, mas no tinha certeza. Tudo comeou a ficar escuro.
  - Controle de terra para Balo Webster. Dr. Webster, cmbio?
   O estalido do rdio o assustou tanto que Keith soltou a cmera. Observou horrorizado enquanto ela caa silenciosamente no abismo.
  - Dr. Webster. - Havia uma urgncia na voz de Kut. - Cmbio? A velocidade do vento est aumentando. Vocs precisam descer.
  Graas a Deus.
  Max quase no conseguiu descer da borda da gndola antes que seu pai virasse.
  - Responda, diga a eles que entendemos. Vamos descer agora.

  Naquela noite, na barraca, Keith tentou alegrar Max.
  - No fique to desapontado. Compro outra cmera para voc.
  No quero outra cmera, seu filho da puta. Quero a sua cabea em um prato para oferecer para a mame quando eu voltar para casa.

  Katele disse:
  - Seu filho atira muito bem, Dr. Webster. Tem certeza de que nunca praticou?
  - Certeza absoluta.
  Eve jurou para Keith que Max nunca tinha usado sua preciosa arma. Keith no tinha razo alguma para duvidar dela. Mas tinha de concordar com Katele. O talento 
do filho na primeira caada fora extraordinrio.
  - Aqui, pai. Tente.
  Max entregou a arma para Keith. Estavam deitados sobre o mato, espreitando uma jovem gazela.
  Keith hesitou.
  - Eu? Ah, bem... No serei um bom atirador.
  - Vamos.  fcil. - Os pequenos dedos de menino de Max envolveram a mo adulta de cirurgio. - Segure firme. Isso mesmo. Agora, alinhe aquela ranhura em cima do 
cano com a mancha branca entre os olhos dela.
  Keith obedeceu nervoso.
  - Bom, agora aperte.
  Keith puxou o gatilho. Houve um estrondo alto. A jovem gazela empinou as patas traseiras e foi procurar a segurana das rvores prximas.
  - Que azar - disse Katele. -  mais difcil que parece, no?
  - Parece que sim.
  Max lanou um olhar fulminante para o pai.
  - Da prxima vez, tente ficar com os olhos abertos.

  Caaram quase todos os dias. Mas Katele sempre insistia em ir com eles.
  - No podemos ir sozinhos? - implorou Max para Keith. -  to mais legal quando estamos s ns dois.
  Keith ficou extasiado. Tinha comeado a sentir um pouco de cimes de Katele. Max parecia idolatr-lo, e no era difcil entender por qu. Para um garoto, o nativo 
devia parecer um deus. O fato de Keith Webster ser um cirurgio de renome internacional e respeitado por ter vencido graas ao prprio esforo, e o de que Katele 
estivesse apenas um degrau acima dos selvagens, vivendo precariamente em uma reserva natural da frica, no significava nada para um menino de 10 anos. Katele sabia 
usar arco e flecha, voar em planadores, tirar a pele de coelhos e fazer fogo usando pedaos de pedra. Era um heri.
  - Que bom que acha isso, amigo. Eu tambm. Mas estamos na frica, Max. No  seguro entrarmos na floresta sozinhos sem um guia.
  Keith viu o rosto do filho se apagar.
  - No se preocupe. - Ele riu. - Quando chegarmos  Cidade do Cabo, seremos ns dois.
  Mas Max estava preocupado.
  No sairiam para caar na Cidade do Cabo. No teria chance de colocar em prtica o plano da me.
  Preciso fazer isso. Prometi para a mame. Preciso encontrar um jeito.

  O hotel era agradvel. Uma casa de fazenda branca e simples na periferia de Camps Bay, no era o tipo de acomodao cinco estrela a que Max estava acostumado. 
Mas depois de 18 dias acampando, dormir em uma cama era a ltima palavra em luxo. O chuveiro quente, principalmente, foi a glria.
  No caf da manh, Keith perguntou:
  - O que voc gostaria de fazer hoje?
  Eu odeio voc. Eu detesto voc. Por que ainda est vivo?
  - Podemos subir pela costa, seguindo a rota do vinho? Ou fazer um piquenique na praia? Ou, quer saber, podemos fazer compras. Comprar a sua nova cmera. O que 
acha?
  Mas no perdia uma oportunidade.
  - Eu queria subir a Table Moutain. A dona do hotel me disse que tem uma trilha. Dizem que  a vista mais bonita de toda a frica do Sul.
  Keith abriu um sorriso.
  - Combinado. Vamos para Table Mountain.

  - Estou falando srio, Max. Saia j da.
  O vento levou as palavras de Keith, transformando seu grito em um sussurro. Max estava danando em cima de uma das pedras na beirada do penhasco. Longos cachos 
pretos cobriam seu rosto e seus membros morenos e finos se mexiam no ritmo de alguma msica interior. Era um menino to bonito. Quase to bonito quanto a me.
  No tem nada meu ali. Exceto meu amor.
  - Max!
  Com relutncia, Keith Webster comeou a ir na direo do filho. Abaixo deles, havia uma queda de quase mil metros. A pequena faanha no balo assustara mais Keith 
do que se dera conta. Toda noite, desde o incidente, ele acordava com pesadelos. Imaginava-se caindo, como a cmera girando, girando no vazio, acordando poucos segundos 
antes de seu corpo bater na terra. Podia imaginar a dor, os ossos estraalhando-se dentro do corpo como vidro quebrado, seu crnio afundando como uma fruta podre, 
os miolos se espalhando pelo cho.
  Se algo acontecesse com Max...
  Cristo. Onde ele est?
  Max tinha sumido. Mas no podia ter sumido. Estava logo ali, fazendo piruetas sobre a pedra, e ento... Keith sentiu um n no estmago, e seus joelhos ficaram 
bambos.
  - MAX! - Era um grito, meio soluo. - MAX!
 Keith estava correndo, cada vez mais rpido na direo da beirada do penhasco, movido por algo maior do que ele prprio, alguma fora irresistvel. Amor. Subindo 
na pedra, todo o medo desapareceu e ele se inclinou para fora, debruando o corpo inteiro no vazio.
  - Max! Est me escutando? MAX!
  Abaixo dele, as nuvens eram densas, obscurecendo tudo. A imagem que uma criana faz do paraso.
  - Estou escutando, Keith.
  Keith olhou para baixo. Embaixo da pedra, havia uma minscula moita grama, agarrada  montanha como uma concha. Era to pequena que no agentaria o peso de um 
adulto. Mas, Max agachado como um duende, parecia confortvel ali. Levantando a mo, ele agarrou o tornozelo de Keith.
 - Max, graas a Deus! Achei que tivesse perdido voc!
  - Perdido? - Max soltou uma gargalhada terrvel, um som manaco que fez o sangue de Keith gelar. - Voc nunca me possuiu. Fracassado.
  Keith sentiu um puxo nos seus ps. Instintivamente, levantou os braos, em busca de apoio mas no tinha nada. Outro puxo, agora mais forte. Keith olhou para 
baixo. Max o estava encarando, um sorriso torto no rosto.
  O sorriso dele  igual ao de Eve.
  Keith olhou dentro dos olhos do filho e viu um profundo poo de dio. A ltima emoo de Keith Webster no foi medo, nem mesmo tristeza. Foi surpresa.
  No entendo. Agora que estvamos nos dando to bem.
  As nuvens envolveram-no, de forma suave, clara, tranqilizadora.
  Ento, nada.

  Era a noite aps o enterro de Keith Webster. Max estava deitado na cama da me no apartamento deles em Nova York, os braos de Eve envolvendo-o. A janela do quarto 
estava um pouco aberta, permitindo que os familiares rudos de Manhattan entrassem: trnsito, msica, gritos, gargalhadas.
  A frica era linda. Mas, aqui era sua casa.
  - Voc foi maravilhoso, querido - sussurrou Eve no ouvido do filho. - Ningum desconfiou de nada. Estou to orgulhosa de voc, meu menino grande.
  Eve j estava enlouquecendo de tanta preocupao, esperando em casa a notcia de um "acidente". Ensaiara tudo com Max infinitas vezes. Realmente acreditava que 
ele estava pronto. Mas conforme os dias foram se transformando em semanas e anda acontecia, ela comeou a temer que o menino tivesse perdido a coragem. Ou pior. 
E se Max tentou e fracassou? E se Keith agora soubesse de tudo e tivesse voltando para casa para se vingar.
  Mas Max no tinha perdido a coragem. Conseguira na ltima hora, encenando uma queda to natural que nem houve inqurito. Turistas caam da Table Moutain quase 
todo ano, idiotas brincando perto da beirada. Keith era apenas mais uma estatstica. Um nmero. Um ningum.
  - J sabe que agora voc  o homem da casa? - disse Eve. - Nunca mais vai precisar me dividir com ningum.
  Max fechou os olhos. Sentiu a maciez do robe de seda da Eve acariciando as suas costas.
  - Posso dormir na sua cama, hoje, me?
  Eve bocejou.
  - Tudo bem, querido. S desta vez.
  Amanh, voltariam ao trabalho os dois. Agora que Keith se fora, estava na hora de comear a segunda parte do plano de Eve: recuperar o controle da Kruger-Brent. 
Max seria a pea principal dessa estratgia tambm. Mas por hoje, pelo menos, ele conquistara seu prmio.
  Max esperou at que a me tivesse dormindo profundamente. Ento, ficou acordado, sorrindo, lembrando-se da expresso de surpresa no rosto do pai enquanto caa.
  Agora voc  o homem da casa.
  Nunca mais vai precisar me dividir com ningum.

  Captulo 14

  Paolo Cozmici gritou irritado com seu namorado.
  - Ento, vai me contar o que diz?
  O maestro mundialmente famoso estava tomando caf da manh na mesa de sempre em Le Vaudeville, na Rue Vivienne em Paris. Um agradvel restaurante art dco popular 
entre nativo quanto entre turistas, Le Vaudeville era quase um segundo lugar onde ele vinha para relaxar. Henri, o maltre, sabia onde Paolo Cozmici gostava de se 
sentar. Sabia que Paolo gostava de leite morno em seu caf com leite, no quente; que o croissant de chocolate de Paolo devia ter pouco croissant e muito chocolate; 
e que Paolo no esperava ter de mudar de mesa para fumar seus adorados cigarros Gauloise.
  Todo mundo que conhecia Paolo Cozmici sabia que seu ritual das manhs de domingo era sagrado e imutvel. Seu namorado sabia melhor que ningum. E mesmo assim, 
o incompreensvel rapaz chegara atrasado para o caf da manh, distrado usando calas de moletom (Paolo odiava calas de moletom) e falando sobre uma carta ridcula 
que recebera de sua irm mais nova.
  Suponho que seja bem-feito para mim por me apaixonar por um norte-americano, pensou Paolo filosoficamente. Brbaros, todos eles, de uma costa fedida  outra.
  - Ela quer que eu v ao aniversrio de 16 anos dela no ms que vem. Parece que meu pai vai dar uma festana em Cedar Hill House.
  Com desdm, Paolo soltou um anel de fumaa na direo do namorado.
  - O?
  -  uma propriedade da famlia. Fica no Maine, em uma pequena ilha chamada Dark Habor. Voc nunca deve ter ouvido falar, mas  um lugar mgico. No vou l desde 
que minha me era viva.
  - Voc no est pensando realmente em ir, est? - Paolo Cozmici parecia incrdulo. - Robert, meu doce, voc tem concertos marcados para todos os finais de semana 
de julho. Paris, Munique, Londres. Voc no pode simplesmente desistir.
  - Venha comigo?
  Paolo quase engasgou com seu croissant.
  - Ir com voc? Claro que no. Agora, tenho provas incontestveis, mon amour. Voc perdeu a cabea.
  - Talvez. - Robbie Templeton sorriu, e Paolo Cozmici sentiu sua determinao derreter como uma barra de chocolate sob a luz do sol. - Mas voc sabia que eu era 
louco quando se apaixonou por mim. No sabia?
  Pegando a mo de Paolo e levando-a at seus lbios, Robbie beijou-a suavemente.
  - Hummm - murmurou Paolo. - Oui, je suppose.

  O romance entre Robbie Templeton, o prodgio pianista norte-americano e homem mais bonito do mundo da msica clssica, e Paolo Cozmici italiano gordo e careca 
que era famoso pelo gnio difcil, era um mistrio para todos que os conheciam e para os milhes que no conheciam.
  Comeara seis anos antes. Robbie, ento com quase vinte anos, tinha chegado a Paris havia pouco tempo e estava vivendo com o pouco de dinheiro que ganhava como 
pianista free-lancer, indo de bar em bar, de jazz club em jazz em club, para onde quer que o mundo o levasse.
  - Voc est sendo teimoso, Robert. J disse que posso lhe dar uma mesada.
  Peter Templeton estava dividido com relao  Grande Aventura Europeia do filho. Ele e Robbie tinham se reconciliado havia menos de um ano. Agora, Peter estava 
sentado na frente do filho em uma mesa no Harvard Club, recebendo a notcia de que iria perd-lo de novo.
  - No quero o seu dinheiro, pai. Preciso fazer isso sozinho.
  - Voc no faz ideia de como  o mundo real, Robert.
  Voc ficaria surpreso com o quanto conheo do mundo real, pai.
  - Voc nem sabe falar francs.
  - Vou aprender.
  - Pelo menos, deixe-me abrir uma conta para voc no Societ Generale. Uma espcie de dinheiro para emergncias. Um salva-vidas, caso voc precise.
  Robbie fitou o pai e sentiu uma pontada de pena. O seqestro de Lexi tivera um efeito permanente em sua aparncia. A realidade de cuidar de uma criana surda, 
mesmo to determinada e independente como Lexi, tambm cobrara a sua parte. Todo o tempo que Peter passava longe da filha era um purgatrio de ansiedade e culpa: 
no estivera l quando Lexi mais precisou dele. O mnimon que podia fazer agora era ficar ao seu lado, protegendo-a, amando-a, ajudando-a a lidar com sua deficincia.
  A ironia era que Lexi estava lidando bem com a situao. Era Peter quem estava perdido.
  A imagem mental e fixa que Robbie tinha do pai era de um homem jovem, forte e bonito, um atleta e um acadmico. Mas a verdade era que esse homem morrera anos atrs. 
O rosto que Robbie encarava agora estava acabado e cansado, marcado com as rugas do tempo e com olheiras escuras embaixo dos olhos. Era tudo como um mapa rodovirio 
de sofrimento, uma vida de perdas. E tudo comeara porque ele se casou com uma Blackwell.
  A Kruger-Brent fez isso com ele. A maldio da famlia Blackwell. No v isso, pai? No posso ficar. No posso me permitir ser destrudo como aconteceu com voc.
  - Honestamente, pai, agradeo a oferta. Mas no quero dinheiro. S estou limpo h 11 meses, lembra? Uma conta bancria gorda na Frana poderia ser uma tentao 
maior do que eu poderia agentar.
  Foi esse ltimo argumento que finalmente convenceu Peter. Sabia que se Robert voltasse a beber ou a se drogar, ele morreria. Era simples assim.
  - Certo. Faa como quiser. Mas me prometa que quando se cansar de toda essa histria de "msico morrendo de fome em um sto", no vai deixar de voltar para casa 
por causa do orgulho. Eu... eu amo voc, Robert. Espero que saiba disso.
  Os olhos de Robert se encheram de lgrimas.
  Eu sei, pai. Eu tambm amo voc. Mas preciso ir.

  Os primeiros meses foram um inferno na terra.
  Papai estava certo. Em nome de Deus, em que foi que eu me meti?
  No tendo condies de alugar nem uma caixa de sapatos no centro da cidade, Robbie finalmente alugara um quarto em Ogrement, uma parte desvalorizada do subrbio 
de pinay-sur-Seine. Era o lugar mais deprimente que j vira. Prdios horrveis dos anos 1960 com janelas quebradas, escadarias cobertas por grafites e fedendo a 
mijo, eram a casa de um bando de criminosos insignificantes e gangues. Estas pareciam se dividir por raa e religio. Ogrement, certamente, no era o melhor lugar 
do mundo para ser judeu. Mas tambm no era nem um pouco acolhedor para norte-americanos louro recm-sados do colgio, cujas seis palavras que sabiam de francs 
incluam gras e clavier (teclado do piano), mas no percer (esfaquear) ou filou (batedor de carteira).
  Uma lngua que Robbie conhecia eram as drogas. O combustvel de Ogrement era a herona, da mesma forma que o da China era o arroz. Estava em todos os lugares, 
chamando-o instigando-o, como uma sereia no mar.
   como alugar um quarto em cima de um jardim de infncia para um pedfilo que acabou de sair da priso. Que Deus me ajude.
  Robbie estava determinado a continuar limpo. Sabia que sua vida dependia disso. Mas era difcil. A solido era opressiva, destrua a alma e estava sempre presente. 
No conseguir se comunicar era a pior parte.
  Por que eu tinha de "me encontrar" na Frana? Por que no fui para Londres ou Sydney ou qualquer outro lugar onde se fala ingls?
   Claro, Robbie sabia a resposta. Paris era a Meca da msica. O Paris Conservatoire, onde Bizet e Debussy estudaram, tinham um significado mtico para Robbie. O 
recm-inaugurado Cit de la Musique, o comemorado anfiteatro, sala de concerto, museu da msica e escola do arquiteto Christian de Portzamparc, em La Villette, o 
antigo distrito criminal, estava atraindo uma nova gerao de msicos e compositores para a cidade.
  Os maiores talentos musicais do mundo vinham para paris. Era o centro, o foco, o comeo e o fim de tudo para um aspirante a pianista como Robbie.
  Infelizmente, aspirante se tornou a palavra influente. Sem treinamento formal e qualificaes, o conservatrio no aceitou sequer receb-lo, quanto mais escut-lo 
tocando. A simples tarefa de encontrar um bar para tocar era mais difcil do que Robbie imaginara. O problema de se mudar para a cidade mais emocionante do mundo 
da msica clssica eram que todas as outras pessoas faziam a mesma coisa. Paris estava cheia de pianistas muito talentosos, e a maioria deles tinha anos de experincia. 
Robbie era um ianque desconhecido que ningum conseguia compreender, e cuja nica experincia foi tocar blues em um bar gay em Nova Orleans durante o tenso perodo 
de trs semanas.
  Robbie, porm, tinha trs coisas a seu favor: talento, determinao e beleza. Sendo a ltima a melhor de todas.
  - Pagamos cinqenta francos a hora, mais as gorjetas.  pegar ou largar.
  Madame Aubrieau ("por favor, me chame de Martine") era uma ex-prostituta de 52 anos que usava uma peruca loura para cobrir suas escassas mechas, pesava aproximadamente 
a mesma coisa que um beb hipoptamo e tinha um bafo que era uma mistura de alho, cigarros de mentol e licor Benedictine que fazia com que Robbie tivesse vontade 
de vomitar. Ela usava uma blusa vermelha curta de tecido barato com um decote que deixava  mostra um pedao trmulo de carne branca, e, quando falava com Robbie 
encarava sem nenhuma vergonha a braguilha de sua cala.
  Alm desses atributos, madame Aubrieau era dona do Le Club Canard, um boteco no 12 Arrondissement cujo pianista pedira demisso na semana anterior por causa de 
salrios atrasados. Madame Aubrieau gostou da aparncia tmida do jovem norte-americano. Se ele aceitasse o emprego, ela o comeria no caf da manh. Depois, deixara 
que ele a comesse. Era bom ser a patroa.
  Robbie olhou para o corpo de Madame Aubrieau, que parecia o do Jabba the Hut, e sentiu nojo. Cinquenta francos por hora no era nem o salrio mnimo. Por outro 
lado, seu salrio de zero franco por hora estava comeando a irritar Marcel, seu senhorio em Ogrement. Marcel no era o tipo de homem que Robbie gostaria de irritar.
  - Eu aceito. Quando comeo?
  Madame Aubrieau bateu com sua mo gorda com unhas sujas na coxa de Robbie e abriu um sorriso desdentado.
  - Maintenant, mon chou. Suivez moi.

  A primeira vez que Robbie colocou os olhos em Paolo Cozmici foi na sala de concertos de Salle Pleyel na Rue Faubourg St. Honor. Cozmic estava conduzindo a Orcheste 
de Paris. E ele estava magnfico.
  Como qualquer outro msico em Paris, Robbie conhecia a reputao de Paolo Cozmici. Filho mais novo de uma famlia muito pobre de Npole, Cozmici era um compositor, 
pianista e, agora, maestro autodidata. Apelidado de Le Bouledogue (o buldogue) pela classe musical francesa, Paolo Cozmici conquistara seu lugar como maestro da 
Filarmnica de Paris aparecendo sem ser convidado em ensaios para a Sinfonia n 5 em mi menor de Tchaikovsky, tirando a batuta das mos de um confuso Antoine Dechamel 
e exibindo o tipo de genialidade instintiva que o tornou um dos maestros mais disputados do mundo.
  Na fila da frente da gloriosa sala de concerto art dco, Robbie Templeton ficou hipnotizado. Mais tarde, no conseguia se lembrar qual pea Paolo conduzira. S 
se lembrava da beleza e da graa de seus movimentos, sintonizados com a msica, tomado pela mesma paixo que Robbie sentia sempre que se sentava no piano. Robbie 
s conseguiu ver as costas de Paolo - um palet de smoking apertado, mal cabendo sobre ombros largos como os de um operrio - mas no se importava. S de assistir 
Cozmici trabalhando, sentira uma excitao sexual to forte que teve de se segurar para no pular no palco.
  Depois, esperou na porta do palco durante horas. Quando Cozmici finalmente saiu, cansado, irritado e mais do que um pouco bbado, Robbie percebeu, horrorizado, 
que no conseguia falar. Olhando para ele, mudo, como um idiota, observou seu dolo ir embora.
  - Arretez! Monsieur Cozmici. Je vous en prie...
  - No dou autgrafos - gritou Cozmici. - Por favor, me deixe em paz.
  - Mas eu...
  - Voc o qu?
  - Eu amo voc.
  Paolo Cozmici s olhou apropriadamente para o rapaz agora. Mesmo com seu olhar embaado pela bebida, podia perceber que Robbie possua uma beleza extraordinariamente 
atraente. Por outro lado, era, sem dvida, um luntico. Um luntico sensual no era exatamente o que Paolo Cozmici precisava em sua vida.
  - Afaste-se de mim. Entendeu? Deixe-me em paz, ou serei forado a chamar a polcia.

  Na manh seguinte, Paolo encontrou um bilhete escrito a mo em sua caixa de correio.
  "Vou tocar piano esta noite no Le Club Canard. Comeo s 20 horas. Vou entender se no puder ir, mas espero que possa." Estava assinado: "Le garon de la nuit 
passe. RT."
  Paolo Cozmici sorriu. Tinha de admirar o rapaz por sua ousadia. Era famoso pelo mesmo motivo.
  Mas no, no iria. Essa histria toda era uma loucura.
  O luntico sensual teria de encontrar outra pessoa para atormentar.

  Robbie olhava para o salo mal iluminado do bar, procurando o rosto de Paolo Cozmici.
  Ele no vem. Eu o assustei. Cara,  claro que o assustei. Que tipo louco grita "Eu amo voc" na rua para um homem que nunca viu antes? A solido deve estar me 
afetando.
  Madame Aubrieau estava ficando impaciente. Era hora de Robbie comear a tocar. Comeando com a profunda Waltz for Debbie, de Bill Evans, seguida por uma apaixonada 
execuo de My Foolish Heart, ele ficou constrangido ao ver que tentava lutar contra as lgrimas. Jazz no era o gnero musical preferido dele, mas ningum podia 
negar a genialidade de Bill Evans. O fato de que ele fora um viciado em herona, como Robbie, perseguido pelo vicio e pela insegurana durante grande parte de sua 
vida, fortalecida ainda mais a conexo emocional entre eles. Robbie fechou os olhos e deixou-se levar pela msica. Pensou em Lexi e em sua me. Pensou no lar. Perguntou-se 
quanto tempo ainda conseguiria suportar sua meia-vida em Paris, sem amigos, sem famlia, sem esperana.
  No incio, escutou os aplausos ao longe, como se despertando de um sonho. No fazia ideia de quanto tempo passara tocando. Como era muito comum com Robbie, a msica 
o transportara para um estado de transe em que tempo e espao se dissolviam. Mas conforme os aplausos e vivas ficavam mais alto, ele percebeu que os freqentadores 
geralmente sonolentos do Le Canard estavam de p, gritando sua aprovao, implorando para que tocasse mais. Robbie sorriu, assentindo tmido. Assim que se levantou, 
percebeu um mar de estranhos apertando-lhe a mo e dando-lhe tapinhas nas costas, homens e mulheres. Alguns colocavam bilhetes em sua mo.
  - Incroyable.
  - Absolument superbe!
  - Vinte por cento dessas gorjetas para a casa! - lembrou Madame Aubrieau, sendo sucinta. Considerava Robbie uma propriedade e no gostava de v-lo cercado por 
outras mulheres mais atraentes.
  - Boa noite.
  Paolo Cozmici parecia ainda mais baixo e atarracado do que na noite anterior, quando sara apressado pela porta do palco de La Salle Pleyel. Com terno amarrotado 
e gravata, uma barriga incipiente sobressaindo sobre a cintura de sua cala, ele parecia facilmente uma dcada mais velho do que seus 30 anos. Mas nada disso importava 
para Robbie. Estava to espantado que mal conseguia falar.
  - Achei que voc no viria.
  - Eu tambm. Voc toca lindamente.
  - Eu... obrigado.
  - Voc tem noo de que est desperdiando seu talento neste chiqueiro?
  Paolo lanou-lhe um olhar agressivo, como se o acusasse de algum crime. Robbie podia ver por que era chamado de Le Bouledogue.
  - Preciso de dinheiro. Eu adoraria tocar msica clssica, mas no tenho nenhum treinamento formal. Pelo menos, nada que seja reconhecido na Frana.
  - a ne fait rien. - Paolo balanou a mo sem interesse. - Voc vai tocar para mim. Vai tocar na minha orquestra. Onde mora?
  - Ogrement.
  Paolo fitou-o diretamente.
  - pinay. Fica no subrbio...
  Pela segunda vez, Paolo estreitou os olhos, a desaprovao clara em seu rosto.
  - Pessoas com o seu talento no moram no subrbio. Non. Voc vai morar comigo.
  Paolo virou-se e foi pegar o seu casaco.
  - Qu'est CE qu'il y a? Tu viens, ou quoi?
  - Oui. - Robbie riu alto. Isso estava realmente acontecendo? - Sim, eu estou indo.

  Na manh seguinte, Paolo apresentou Robbie  Orchestre de Paris.
  - Este  Robert Templeton. Ele  o melhor pianista de Paris. Ele vai tocar conosco amanh.
  Um mar de rostos confusos fitaram Robbie questionadoramente.
  - Mas, Maestro. - Pierre Fremeaux, o pianista solista, interrompeu-o educadamente. - Eu deveria tocar amanh.
  Paolo balanou a cabea.
  - Non.
  - Mas... mas...
  - No  nada pessoal, Pierre. Escute Robert tocar. Depois me diga quem deve estar no palco amanh. a va?
  Quinze minutos depois, Pierre Fremeaux estava arrumando as suas coisas.
  Ele era bom. Mas Robert Templeton era algo de outro mundo.

  - J disse, Paolo, no tenho tempo para isso. No vou encontrar um pianista de jazz z-ningum que voc conheceu em um bar s porque est a fim dele.
  Chuck Bamber era representante da Sony Records. Era responsvel pela lista de msica clssica europia do selo, e sua funo era descobrir e contratar novos talentos. 
Um texano gordo que falava alto e era apaixonado por T-bone steaks e corridas de dragster, ele parecia to estranho ao meio da elite musical de Paris quanto uma 
prostitua em uma creche. Todos no mundo da msica clssica sabiam que Chuck Bamber no tinha alma. Tambm sabiam que ningum tinha um ouvido e um instinto comercial 
como o dele. Chuck Bamber podia comear ou acabar com a carreira de um pianista com um simples toque em seu chapu.
  Paolo Cozmici estava determinado a convenc-lo a conhecer Robbie.
  - Ou voc o conhece ou vou rescindir o meu contrato.
  Chuck Bamber riu.
  - Certo, Paolo. Como voc quiser.

  Dois dias depois, Don Williams, chefe do departamento jurdico da diviso de msica clssica da Sony, ligou para Chuck Bamber em pnico.
  - O agente Paolo Cozmici acabou de me mandar um fax. Ele vai sair da gravadora.
  - Relaxe, Don. Ele est blefando. J pagamos a ele trezentos mil dlares de adiantamento. Ele no pode sair sem nos devolver esse dinheiro.  quebra de contrato.
  Don Williams disse:
  - Eu sei. Eles transferiram o dinheiro ontem.

  - Cozmici? Que diabos est acontecendo?
  - Eu disse, Chuck. Quero que escute Robert tocar. Se voc se recusar...
  - J sei, j sei, vai rescindir o contrato. Voc  um desgraado mimado, sabia, Paolo?
  - Ento, vai ver Robert?
  - Vou. Mas j estou avisando, Paolo,  melhor que ele seja realmente bom. Bumbum durinho e abdome sarado no vo me impressionar como impressionaram voc. Se este 
rapaz no for um Nigel Kennedy do piano...
  - Ele , Chuck. Ele .

  Robert assinou um contrato para gravar dois discos com a Sony.
  A combinao de talento, beleza de artista de cinema e nome famoso era o sonho de qualquer departamento de marketing. A nica questo era: em que direo lev-lo?
  - Gostaria que considerasse um disco de jazz - disse Chuck Bamber, enquanto tomavam champanhe em seu escritrio que mais parecia um palcio com vista para a catedral 
de Notre Dame. -  mais sexy do que msica clssica. Com o seu rosto, seria fcil lan-lo como o novo Harry Connick Junior.
  - Non. - Paolo Cozmici balanou a cabea. - No ser jazz. - Ele praticamente cuspiu a palavra, como se fosse carne estragada.
  - Nossa, Paolo. Pode deixar que Robert fale por si.
  - Tudo bem. - disse Robbie. - Agradeo a sua oferta, Sr. Bamber, de verdade. Mas confio na opinio de Paolo. Prefiro ficar no clssico, se no houver problema 
para o senhor.
  - Oitenta por cento do tempo de Robert ser dedicado a apresentaes ao vivo.
  - Paolo! - Chuck Bamber perdeu a pacincia. - D um tempo aqui, OK? Preciso que ele passe pelo menos seis meses no estdio. Ele deve voltar para os Estados Unidos.
  - Fora de questo.
  - Que droga, Cozmici. O que voc , o empresrio dele?
  - No - disse Paolo simplesmente. - Eu sou a vida dele.
  Era verdade.
  Nos cinco anos seguintes, conforme a carreira de Robbie decolava e ele se transformava em verdadeiro "astro", seu elo com Paolo s se fortaleceu. Eles montavam 
suas agendas de concertos de forma a poderem viajar juntos sempre que possvel. Quando estava separados, eram totalmente fiis, falando pelo telefone um com outro 
pelo menos seis ou sete vezes por dia. Paolo era o melhor amigo que Robbie j tivera, o pai constante e forte que perdera. Robbie era o sopro de vida no corpo cansado 
e nico de meia-idade de Paolo. Seu elixir da juventude. Eles se adoravam.

  - Voc est falando srio? Quer mesmo ir para o Manne para a festa de aniversrio de uma adolescente?
  Paolo tomou um gole de seu caf e cuspiu na mesma hora. Froid. Dgeulasse.
  - No  "uma adolescente".  a minha irm. Eu a amo. E, voc sabe, no a vejo h anos.
  - Eu sei, querido. E tambm sei o porqu. Sei o que seu pai pensa do seu estilo de vida. O que pensa sobre mim.
  Peter Templeton tinha orgulho do sucesso do filho. Mas, nunca aceitara sua opo sexual. Agora que Robbie era famoso e dava entrevistas nas quais falava abertamente 
sobre seu amor por Paolo, a desaprovao de Peter se intensificara.
  -  a sua vida - dizia ele a Robbie, rancorosamente, durante os cada vez mais raros telefonemas. - No sei por que precisa ser to escancarado sobre isso,  s.
  - Eu o amo, pai. Da mesma forma         que voc amava a mame. Voc tambm era bem escancarado em relao a esse amor, no era?
  Peter ficava furioso:
  - O seu envolvimento com esse homem nem se compara ao meu amor pela sua me. O fato de voc achar que se compara s mostra o quanto os seus conceitos morais esto 
distorcidos. Eu sabia que era um erro permitir que voc fosse para Paris.
  Paolo nunca tentou se intrometer entre Robert e sua famlia. No precisava. A atitude de Peter aliada  agitada vida de Robbie na Europa tornava a distncia entre 
eles inevitvel.
  - Eu no iria pelo meu pai. Fao isso por Lexi.
  - Mas Lexi passa todos os veres conosco. Voc no pode oferecer uma segunda festa para ela em Paris, depois da turn?
  Robbie balanou a cabea. No esperava que Paolo compreendesse sobre Dark Habor e Cedar Hill House. Sobre o que esses lugares significavam para ele e para sua 
irm. Como poderia? Mas estava na hora. Tinha de voltar. O aniversrio de 16 anos de Lexi era uma boa desculpa.
  - Tem certeza de que no quer vir comigo?
  Paolo deu de ombros.
  - Certeza absoluta. Je t'aime, Robert, tu sais a. Mas uma reunio da famlia Blackwell em uma ilha remota nos Estados Unidos, batendo papo com seu pai homofbico? 
Non, merci. Voc vai sozinho.

  Captulo 15

  Gabe McGregor atravessou os portes da cadeia Wormwood Scrubs para a rua. Eram 6h30 de uma manh fria de novembro. Ainda estava escuro. Uma leve chuva de gelo 
estava comeando a penetrar pelo fino casaco de l cinza de Gabe.
  Sem a menor sombra de dvida, era o momento mais feliz de sua vida.
  - Tem algum lugar para ir?
  O guarda no porto sorriu. Wormwood Scrubs era um lugar de merda para trabalhar. Os guardas odiavam o lugar quase tanto os presidirios. Mas observar homens como 
Gabe McGregor saborearem o gosto de liberdade depois de oito longos anos - jovens reabilitados com suas vidas pela frente - era uma alegria da qual nunca se cansavam.
  Gabe correspondeu o sorriso.
  - Tenho sim. Tenho um lugar para ir.
  Graas a Marshall Gresham. Devo a minha vida a esse homem.
  
  Na primeira noite depois de sua condenao, Gabriel McGregor tentou se matar.
  Michael Wilmott, seu advogado, dissera para no entrar em pnico. Que a sentena de 16 anos que lhe deram provavelmente seria reduzida se entrassem com um recurso.
  - Se reduzir para 12, voc provavelmente vai sair em sete ou oito anos.
  Sete ou oito anos? anos?
  O mximo de tempo que Gabe ficara sem herona eram sete dias. Os piores sete dias da sua vida. Foi na sua primeira semana preso, e ele ainda no tinha aprendido 
como comprar drogas l dentro. Uma vez que se conhecia o sistema, era fcil conseguir herona. Todos os grandes traficantes tinham caras trabalhando para eles dentro 
das cadeias em um sistema de comisso. Herona e crack eram vendidos com trinta por cento de acrscimo. Tendo dinheiro e um amigo do lado de fora para fazer pagamentos 
regulares s gangues, voc conseguia. Mas aqueles primeiros dias! Gabe nunca se esqueceria do sofrimento. Noites gritando, convulses to fortes que ele sentia como 
se estivesse sendo enforcado, arrastado e esquartejado. Os suores, os vmitos, as alucinaes.
  Uma pessoa em um cavalo branco estava vindo peg-lo. Jamie McGregor! Havia machado na sua mo. Enquanto galopava, balanava-o para a esquerda e para a direita, 
cortando os braas das mulheres que estavam  sua volta, gritando. Gabe conhecia as mulheres. Era Fiona, Angela. L estava Cailtin, implorando pela vida enquanto 
o homem a cavalo ria como um manaco, decepando sua cabea com um nico golpe. Todas as mulheres que Gabe usara para sustentar seu vicio sofreram o mesmo destino. 
Ento, viu o rosto de sua me, contorcido de medo. Ela estava chorando e gritando:
  - Gabriel, me salve!  Jamie McGregor! Ele est me matando, ele est matando a todos ns!
  Gabe concordou. O lenol encharcado de suor. Queria gritar, mas sua garganta estava to seca e ardida que parecia que ele tinha engolido laminas de barbear.
  No dia seguinte, um companheiro da priso lhe deu uma amostra. Do lado de fora, por mais desesperado que estivesse Gabe, ele nunca, compartilhara agulhas. Aqui, 
quase arrancou a seringa da mo do cara.
  Na vspera de voltar ao tribunal para ouvir a sua sentena, escutou dois prisioneiros conversando.
  - Se eles me mandarem para Scrubs, estou ferrado. Mike disse que aquilo l  um maldito deserto.
  - Ouvi falar a mesma coisa. O novo carcereiro trabalhava para o czar das drogas. Aquele lugar  mais limpo que a bunda de uma freira.
  Gabe pensou:  isso. se eles me mandarem para algum lugar onde eu no consiga drogas, vou me enforcar.

  Como todas as prises britnicas, Wormwood Scrubs estava superlotada. As celas quatro por dois e meio foram construdas pelos vitorianos para abrigar um nico 
prisioneiro. Agora, o mesmo espao apertado era dividido por trs, at quatro homens, usando o mesmo vaso sanitrio sem tampo.
  Os dois companheiros de cela de Gabe no levantaram a cabea para olhar quando ele entrou. Ambos eram negros, com 20 e poucos anos e corpo forte como o de Gabe.
  Pelo menos, eles no parecem gays, pensou Gabe. Depois lembrou-se que isso no se importava mesmo.
  A esta hora amanh, j estaria morto.
  Subindo silenciosamente no beliche, deitou e fitou o teto. Seu plano original era se enforcar com os lenis, mas agora viu que isso no ia dar certo.
  Esses caras podem no ser o que chamamos de "socivel", mas no vo ficar parados sem fazer nada enquanto eu sufoco at morrer.
  Gabe olhou para a cela. No tinha nada. Nenhuma foto, nenhum gancho, nenhuma cortina, nenhum abajur. Comeou a entrar em pnico.
  Que diabos eu posso usar?
  Foi quando viu.
  Perfeito. Vai doer, mas pelo menos posso fazer rapidamente, enquanto eles dormem.
  Gabe estava com medo. No queria morrer. Mas qualquer coisa era melhor que crise de abstinncia.
  "Mike disse que aquilo l um maldito deserto".
  Farei esta noite.

  Nelson Bradley, o maior dos dois companheiros de cela de Gabe, acordou ao som dos gemidos.
  - Fique quieto, escocs. A gente quer dormir.
  Alguns segundos depois, Gabe vomitou no cho. Ele comeou a tremer, depois comearam as convulses.
  Nelson Bradley sentou.
  - Duane. Acorde, cara. Tem alguma coisa errada.
  Duane Wright acendeu seu abajur de leitura, apontando para Gabe, depois para a poa de vmito. S que no era vmito. Era sangue. No cho ao lado do beliche de 
Gabe, havia uma garrafa vazia de gua sanitria. Os guardas devem ter esquecido ao lado do vaso depois de limpar.
  - Ah, merda. Ele virou toda a maldita gua sanitria! - Duane Wright bateu na porta da cela. - Algum venha aqui. Agora!

 Quando Gabe acordou na enfermaria da priso, a primeira coisa que pensou foi: Meu Deus, meu estmago est pegando fogo. A segunda foi: Ainda estou vivo. Fracassei. 
A depresso tomou conta dele.
  - Voc teve muita sorte - disse o mdico. - Mais alguns minutos antes da lavagem estomacal, e voc teria morrido.
  Ah, sim, tenho muita sorte mesmo.
  Os psiquiatras perguntaram a ele por que tinha feito isso, e Gabe disse a verdade. No tinha motivo para mentir.
  - Seu imbecil. - O chefe da psiquiatria prescreveu metadona para Gabe. - Voc acha que  o primeiro viciado a entrar por essas portas? podemos ajud-lo. Existem 
programas...
  Mas Gabe no queria programas, e no queria metadona. Queria herona o suficiente para acabar com seu sofrimento.
  Quando estava melhor, foi transferido para uma ala diferente da priso. Desta vez, tinha apenas um companheiro de cela, um ex-drogado condenado  priso perptua 
chamado Billy McGuire. Billy era irlands, ex-jquei cuja vida descarrilou espetacularmente depois que ele se envolveu com drogas. O que comeou com algumas "inocentes" 
corridas arranjadas e esquemas de aposta acabou com uma perigosa guerra entre gangues nas ruas de Belfast. Um pai de famlia inocente morreu e Billy foi condenado 
a um mnimo de vinte anos de deteno.
  - O IRA no  mais como antes - disse Billy para Gabe.
  - Estou confuso. O que eles eram? No foram sempre um bando de terroristas assassinos?
  - Ah, bem, com certeza eles eram. Mas certo ou errado, eles tinham uma causa. Agora s se importam com dinheiro. Dinheiro e drogas. - Billy balanou a cabea, 
enojado. -  isso que a herona faz com a gente, meu chapa. Faz com que se esquea quem .
  Gabe no tinha argumentos contra isso. O nico problema era que Gabe queria se esquecer de quem ele era: um fracassado sem qualificao, sem talento e com uma 
ficha criminal sria, sem futuro.
  Eu achava meu pai pattico, desperdiando a vida nas docas.
  Ele era duas vezes mais homem do que eu.

  Captulo 16

  Lexi estava esparramada no sof Ralph Lauren com listras azuis e brancas de Cedar Hill House, examinando a lista de convidados para sua festa.
  Aos 16 anos, Lexi Templeton j superara totalmente os dias de menina desajeitada do incio da adolescncia. No usava mais o odiado aparelho nos dentes, nem passava 
mais as manhs em frente do espelho, tentando fazer seus seios crescerem por pura fora de vontade. Deitada no sof como Clepatra, vestindo uma bermuda jeans apertada, 
com as longas pernas bronzeadas esticadas, Lexi, finalmente, era uma garota sexy totalmente desabrochada. A barriga morena era lisa como uma plancie, apesar das 
trs tigelas de cereais que devorava no caf da manh. Um simples suti de biquni branco cobria os seios to perfeitos, cheios e redondos como pequenos meles.
  Para ser mais exato, a lista de convidados que estava examinando no era para a festa dela. Para seu desgosto, a festa da semana seguinte em Cedar Hill House era, 
oficialmente, a comemorao dos 16 anos dela e de Max.
  Por que tenho que de dividir o meu aniversrio com ele? No posso ter a minha prpria vida?
  O que quer que Lexi fizesse ultimamente, seu primo parecia aparecer do nada.
  O pai de Lexi tinha pena dele.
  - Acho que ele se sente solitrio, docinho. Trancado naquele apartamento com a me durante todas as frias. Ele provavelmente no tem amigos.
  Isso no me surpreende. Ele  to arrogante e esnobe.
  Peter sempre culpava a timidez pelos silncios de Max. No decorrer de sua infncia, Lexi formara outra opinio. Mas no era tmido. Era distante. Ela costumava 
dizer que era o complexo de superioridade dele, o que a irritava sobremaneira.
  Olhando pelo lado positivo, pelo menos a falta de habilidade social de Max significava que oitenta por cento dos convidados da festa eram amigos de Lexi de Exeter, 
e no um bando de mauricinhos de Choate, o prestigiado colgio interno em Connecticut em que Max estudava.
  Lexi examinou a lista de novo:
  Donna Mastroni, Lisa Babbington, Jamie Summerfield... ah, droga. Lisa no pode ficar ao lado de Jamie. Eles transaram nas frias de primavera quando Jamie ainda 
estava namorando Anna Massey. Onde posso colocar Lisa?
  A resposta era bvia: Lisa Babbington deveria ficar na mesa de Max. Deus sabia que no faltavam lugares. Lexi hesitou. De alguma forma, a ideia de colocar uma 
de suas amigas mais atraentes ao lado de seu primo no a agradava.
  A verdade era que, embora preferisse morrer a admitir isso, Lexi Templeton tinha sentimentos confusos em relao a Max Webster. Trs quatros do tempo, o odiava. 
Ele a seguia como um cheiro desagradvel. Lexi nunca conhecera um garoto to grosseiro, estranho e arrogante como ele. Durante o estgio que fizeram juntos na Kruger-Brent 
no ltimo Natal (no consigo nem ter um emprego por mim mesma), Max deixava perfeitamente claro que se achava superior a Lexi, intelectualmente e em todos os outros 
aspectos. Mesmo ele tendo apenas 15 anos, os funcionrios da empresa j o respeitavam da mesma forma que um dia respeitaram Robbie. Por causa da surdez de Lexi, 
as pessoas simplesmente supunham que Max herdaria a empresa um dia. Essa suposio, estimulada pela ideia do prprio Max de que tinha direito, deixava Lexi furiosa. 
Na Kruger-Brent, Max fazia questo de deixar clara a deficincia de Lexi tratando-a com muita delicadeza, como se ela fosse uma flor frgil. Ele nunca me trata assim 
quando estamos sozinhos.
  Lexi podia ser surda, mas no era cega. Sabia o que Max estava pretendendo fazer, e isso a deixava irada. Tambm via, por menos que gostasse de admitir, que ele 
se tornara um rapaz incrivelmente bonito. Com cabelo preto e olhos ainda mais escuros. Max tinha um irresistvel ar de perigo e rebeldia, como Heathcliff ou um jovem 
Lord Bryon. A maioria dos garotos da idade de Lexi eram imaturos e desajeitados. At os escoceses de Exeter pareciam abobalhados na presena de garotas atraentes 
como Lexi. Mas Max Webster era diferente.
  O olhar de Max passava por Lexi como se ela no existisse.
  Ento, por que ele anda atrs de mim o tempo todo? Se sou to invisvel assim, se estou to abaixo do ponto de vista de sua alteza, por que ele no vive a prpria 
vida?
  Lexi comeou a rabiscar nomes com a caneta, reorganizando as mesas.
  Lisa Babbington podia se sentar ao lado de Grady Jones.
  Se Max no tinha amigos suficientes para encher suas mesas, o problema era dele.

  - Voc gostou? Sei que ainda no  oficialmente seu aniversrio, mas Rachel achou que talvez voc quisesse usar na sua festa.
  A intrprete de Lexi, Rachel, era mais ou menos sua companheira constante. Peter Templeton contara com o conselho de Rachel para comprar o presente de aniversrio 
da filha. Ao ver o rosto de Lexi se iluminando, ficou feliz por ter escutado o conselho.
  - Pai, eu amei. Meu Deus!
  - Mesmo? - Ele abriu um sorriso de prazer.
  - Mesmo.
  Maravilhada, Lexi passou a ponta dos dedos pelo vestido de seda bordado. Era um Chanel, da coleo da nova estao. O delicado tecido era exatamente do mesmo tom 
do cabelo louro champanhe de Lexi. O corte era perfeito, justo e decotado onde tinha de ser, uma obra de arte que ficava longe de ser vulgar. Era, sem dvida, o 
item de vesturio mais lindo que existia.
  - Um lindo vestido para a minha linda menina. Vai ficar igual a minha princesa, meu anjo.
  Lexi sorriu.
  - Obrigada, papai. - Ele ainda acha que eu tenho 6 anos. -  um presente incrvel.
  E vai me ajudar a conseguir o presente de aniversrio que eu realmente quero:
  Christian Harle.

  Lexi logo aprendeu que sua surdez era uma faca de dois gumes quando se tratava de namoros.
  Ir para a escola com uma intrprete que raramente saa de seu lado definitivamente era um ponto negativo. Lexi saiba ler lbios perfeitamente e sua fala no deixava 
a desejar, mas ficava constrangida ao se imaginar arrastando as palavras, ento preferia fazer sinais sempre que possvel e deixar Rachel falar por ela.
  Tinha sorte por estar com a mesma intrprete h quase oito anos, desde que estivera internada no hospital. Peter sabia que especialistas consistente seriam cruciais 
para a recuperao da filha. Consequentemente, dera dinheiro e benefcios a Rachel, ento com 20 anos, aumentando o valor todos os anos para garantir que ela nunca 
sentisse vontade de ir embora. Agora, com 28 anos, Rachel estava bem mais gordinha, mas trabalhando to bem e era to bem-humorada quanto antes. H muito tempo, 
Lexi passara do tempo de se notar conscientemente a presena de sua intrprete. Para ela, Rachel era como sua sombra: sempre presente, mas, de alguma forma, quase 
invisvel.
  Infelizmente, os garotos no pensavam assim.
  - Voc no pode se livrar da gordinha por meia hora depois da aula?
  Peter Harris, um rebelde com cabelos louros despenteados, tatuagens de skatista no peito e a reputao de ser o maior pegador do primeiro ano, debruou-se sobre 
a mesa na aula de matemtica e sussurrou no ouvido de Lexi.
  A respirao quente em seu ouvido causava uma sensao boa. Lexi conseguia captar a essncia das intenes dele apenas pelos feromnios. Mas, claro, sem conseguir 
ver os lbios dele, as palavras no tinham nenhum significado.
  Por sinais, disse a Rachel:
  - Pea para ele repetir e para olhar para mim quando falar.
  Prontamente, Rachel fez o que ela pediu. De repente, a sala inteiras se virou para encarar Peter Harris. Ele no se sentiu mais legal.
  - Harris seu burro! Voc no sabe que ela precisa ver os seus lbios para poder l-los?
  - , Peter, vamos l. Compartilhe com a gente, cara. O que voc disse?
  - Vocs dois deveriam mesmo namorar. Um burro e uma surda, que casal!
  - Des... desculpe - disse Peter, corando at a raiz do cabelo louro. - Voc  bonita, mas... no posso fazer isso.
  Lexi era filosfica a respeito de Peter Harris. Ele era um gato, mas era meio que burro. Alm disso, ela s tinha olhos para um peixe maior: Christian Harle.

  Lexi comeou a Operao Christian no oitavo ano. Com 14 anos, ela ainda era um peixinho muito pequeno no lago da Exeter School para um cara como Christian Harle 
not-la. Dois anos mais velho que ela, com o corpo de um atleta olmpico e um rosto que faria Brad Pit chorar de inveja. Christian Harle s namorava lderes de torcida 
e modelos. O fato de ele estar astronomicamente fora do alcance de Lexi no a intimidava nem um pouco. Pelo contrrio, fazia com que esse fosse o momento perfeito 
para construir a base.
  Seu plano era simples. Descobriria o que Christian procurava em uma mulher. (Peitos grandes, rosto bonito, jeito avoado, QI de um besouro). Ento, se transformaria 
na namorada ideal para ele.
  Lexi verificou um a um os itens da lista de desejos de Christian.
  No tenho peitos ainda, mas eles vo crescer.
  Meu rosto j  bonito, ou vai ficar quando tirar o aparelho.
  Sou inteligente o bastante para me fingir de burra. O que mais?
  Ah, sim. Avoada e indefesa.
  Se o fato de Rachel estar sempre por perto era um ponto negativo para namorar, a surdez de Lexi tambm oferecia alguns pontos positivos singulares. Por causa de 
sua deficincia, os garotos tendiam a v-la como doce e vulnervel: a pobre herdeira surda que precisava da proteo deles. Lexi logo aprendeu como usar essa concepo 
errada a seu favor. No nono ano, j interpretava a donzela em perigo com louvor.
  - Rachel! Poderia pedir para Johnny me ajudar com os livros? Estou to cansada esta manh. No consigo dar mais nem um passo.
  - Desculpe, Sr. Thomas, mas no consegui terminar o meu trabalho esta semana. Tenho tido pesadelos horrveis. Flashbacks do meu trauma.
  Os enormes olhos cinza de Lexi se enchiam de lgrimas. Rachel pensava: que tima atriz  esta menina. Ela faz todo mundo de bobo.
Christian gostava de garotas avoadas? Lexi daria isso a ele.
  Junto com a minha maldita virgindade que queima na minha calcinha.
  Lexi estava convencida de que era a garota mais velha ainda virgem em Exeter, se no de todos os Estados Unidos. Era concebvel que fosse a mais velha virgem do 
mundo. Alm das freiras, claro. E pessoas muito feias como a Tia Eve.
  Bem no fundo, tinha medo de que o lhe acontecera quando era criana a tivesse "estragado" para o sexo. Ainda tinha pesadelos com o porco. Ser que essa  a razo 
para eu estar me guardando para Christian? Escolhi algum to inacessvel porque tenho medo de "fazer aquilo"
  Independentemente das suas razes, a espera tinha oficialmente acabado. Esta era a noite.
  Conforme ia se aproximando a hora da festa, Lexi ia ficando mais e mais nervosa.
  s vezes Lexi achava que fingia tanto que se esquecera de quem realmente era por dentro.
  Talvez eu quisesse esquecer?

  - AH, MAX, MAX! No pare! Por favor, no pare! Estou quase l!
  Max Webster olhou para a garota gemendo embaixo dele e se sentiu indescritivelmente entediado. O nome dela era Sasha Harvey-Newton. Seu pai dono de estaleiros. 
A me do pai tinha campos petrolferos. Ela tinha 18 anos, era incrivelmente bonita e podre de rica. Era considerada uma das herdeiras mais cobiadas de Nova York.
  Tambm era ninfomanaca.
  - Com mais fora, gato! Mais fora!
  Sasha Harvey-Newton arqueou seu cobiado corpo de vinte milhes de dlares para Max e soltou um gemido xtase.
  - Cale a boca. - Max colocou a mo sobre a boca de Sasha. Ela comeou a chupar seus dedos, e ele resistiu  forte vontade de enfi-los pela maldita garganta dela. 
Em vez disso, empurrou a cabea da moa, silenciando seus gemidos.
  - Ei. Por que voc fez isso?
  Ela olhou para ele, o rosto em um tom nem um pouco atraente de vermelho, igual a um morango.
  - Voc estava fazendo muito barulho. E se a sua me nos escutar?
  - E da? Voc sabe quantas vezes j tive de ficar ouvindo ela e o professor de tnis mandando ver? Minha me  uma piranha.
  Max observou Sasha se vestir, puxando a cala jeans justa sem colocar uma calcinha por baixo, e sem se incomodar em se lavar primeiro.
  Tal me, tal filha.
  Sasha sorriu.
  - Ento? Isso significa que vou ser o seu "par" na sua festa de aniversrio na semana que vem. Sempre quis conhecer Cedar Hill House.
  Max enrugou o nariz.
  - No.
  - Como assim "no"? - O sorriso tinha desaparecido.
  - No. Entendo que seja uma palavra que voc no escute com muita freqncia. Mas no posso chamar mais ningum para a festa, infelizmente. O pessoal da segurana 
insistiu, mais nenhum convidado.
  - O pessoal da segurana? - Sasha bufou. - Quem voc pensa que ? O presidente?  uma festa de aniversrio de 16 anos, e no uma reunio de cpula da ONU. Tire 
algum da lista se precisar.
  - Ah, mas eu no preciso - disse Max. - Voc j teve o que queria, Sasha. No precisa me acompanhar at a porta.

  Voltando para a Park Avenue, Max refletiu sobre o que fizera naquela tarde. No gostara de fazer sexo com Sasha Harvey-Newton, e se perguntou por que tinha aceitado 
ir para a cama com ela. Para que pudesse se gabar? Todos a consideravam uma "boa conquista", afinal. Mas para que se gabar? No tinha um crculo de amigos aos quais 
ele tentava impressionar. Max Webster s precisava da aprovao de uma nica pessoa. Sua me no daria a mnima se tinha passado metade do seu dia transando com 
uma piranha rica e burra quem nem mesmo o excitava.
  Esse  o problema. Nenhuma delas me excita. Nenhuma delas chega nem aos ps de Eve.
  Max detestava festas. S concordara em dividir a festa de aniversrio com Lexi porque sua me havia pedido.
  - Fique perto dos amigos, e ainda mais perto dos inimigos, meu querido. - Esse era o lema de Eve, pelo menos quando se tratava de Lexi. Eve estava sempre tentando 
uni-los. - Haver muita gente importante em Cedar Hill House no final de semana. Os membros do conselho da Kruger-Brent, todos os principais acionistas e executivos. 
No pode deixar Lexi ser a estrela do show.
  No havia muito risco disso. Ningum na Kruger-Brent levava Lexi a srio. Mesmo assim, levando em considerao o testamentode Kate Blackwell, ainda existia a chance 
de ela ser nomeada presidente quando completasse 25 anos. At que ele, Max estivesse sentado na cadeira de presidente, no podia se dar ao luxo de ser complacente.
  O antigo e familiar dio que Max sentia pela prima sofrera uma reviravolta perturbante recentemente. Quase do dia para a noite, Lexi se transformara em uma mulher 
sensual e desejvel. O que tornava as coisas piores e mais confusas era o fato de Lexi estar cada dia mais parecida com uma jovem Eve. Afinal, a me de Lexi, Alexandra, 
era irm gmea de Eve, ento talvez a semelhana excepcional fosse inevitvel. Ainda assim, Max no gostava dessa ironia gentica. Na verdade, no gostava de nada 
que dissesse respeito  sua prima Lexi.
  Os paparazzi sempre a adoraram: a menina Blackwell corajosa e linda que sobrevivera ao terrvel seqestro. Uma vez, desdenhosamente, Eve descrevera a sobrinha 
como a aleijada favorita dos Estados Unidos, e no estava longe da verdade. Agora, graas ao desabrochar de Lexi em um garota linda, o interesse da imprensa por 
ela parecia ter quintuplicado. Ela no era mais o Beb Blackwell, mas a Beldade Blackwell. Todo mundo queria saber mais sobre ela.
  Ela ama cada segundo disso tambm, pensou Max, amargurado. No Natal passado, quando os dois trabalharam juntos por um curto perodo de tempo na Kruger-Brent, percebera 
Lexi fitando-o silenciosamente. Como se estivesse tentando ver se ele tambm a desejava, como o resto do mundo.
  Esquea. Eu no.
  Por que voc no pode simplesmente desaparecer? Ir para uma escola de surdos, casar com algum deficiente e sumir da minha vida?
  Sasha Harvey-Newton no sabia a sorte que tinha de no ter sido convidada para a festa de Max. Ele mesmo desejava no precisar ir.

  - Bem grande, no ?
  Tristram Harwood, chefe do departamento de petrleo e gs da Kruger-Brent, estava conversando com Logan Marshall, que chefiava os negcios relacionados s minas.
  - Eu no esperava menos.
  Nenhum dos dois vinha  propriedade dos Blackwell em Dark Habor desde o funeral de Kate Blackwell, quase 17 anos antes. Era maravilhoso ver a antiga casa fervilhando 
de vida e vitalidade de novo. Para todos os lados que se virava, era possvel ver a utopicamente bela e privilegiada juventude norte-americana rindo e conversando 
e danando uns com os outros sob os olhares dos pais. As mes carregadas de diamantes, e os pais resmungando sobre a ltima queda no ndice Dow Jones e as novas 
fortunas que seriam feitas com a Internet.
  Cedar Hill House continuava praticamente a mesma desde a poca de Kate. O mesmo quadro floral Vlamink estava pendurado sobre a lareira da sala de estar. At o 
tecido rosa e verde dos sofs permanecia o mesmo, emprestando um persistente toque feminino ao que agora era o lar de um homem. Peter Templeton herdou a propriedade 
com a morte de Alexandra, mas durante anos achou que a casa estava muito cheia de recordaes dolorosas e raramente visitava. Depois do seqestro de Lexi, porm, 
ele a trouxe para o Manie para se recuperar. Lentamente, vero aps vero, Cedar Hill House foi ganhando vida de novo.
  - Ah, l est ele. O aniversariante. Melhor irmos l puxar o saco dele de uma vez?
  Logan Marshall seguiu o olhar de Tristram Harwood. Max estava na varanda, cercado por um rebanho de admiradores adolescentes. Usando um terno Ralph Lauren e gravata 
Choate, por fora ele parecia o eptome de um jovem cavalheiro. Mas nem as roupas nem a riqueza tradicional e o ambiente estilista conseguiam esconder a natureza 
selvagem, ferina de Max. Tristram Harwood se lembrava de uma criatura das selvas que algum antropologista desencaminhado "resgatara" e arrastara, chutando e gritando, 
para o mundo civilizado. Como se a qualquer momento ele fosse rasgar a camisa Brooks Brothers com os prprios dentes.
  - Feliz aniversrio, jovem. Acredito que esteja gostando da festa?
  Max virou-se. Tirou a expresso entediada do rosto e cumprimentou calorosamente os dois membros do conselho da Kruger-Brent. Sabia que sua me estaria observando.
  - Claro. Meu tio se esforou muito. E vocs, esto bem?
  Tristram Harwood assentiu.
  - Muito bem. Os negcios vo de vento em popa.
  Para um rapaz de 16 anos, ele sabia se expressar como um adulto. Tanta maturidade. Tanto equilbrio. Todo mundo sabia que o testamento de Kate Blackwell favorecia 
os descendentes de Alexandra em detrimento dos de Eve. Mas quando chegasse a hora de votar quem seria o novo presidente, todos os membros do conselho seriam consultados. 
Se Max ganhasse por unanimidade, seria difcil a famlia ignorar a deciso deles. E, falando srio, como uma mulher surda poderia administrar uma das maiores multinacionais 
do mundo? A ideia era ridcula.
  
  Eve observou seu filho conversar com Harwood e Marshall e sorriu, satisfeita. Ela estava sentada em um canto da sala de estar, perto das portas francesas que davam 
para a varanda. Usando um vestido longo preto, com uma linda mscara pintada a mo em Veneza cobrindo seu rosto destrudo, ficou sentada to quieta sem chamar ateno 
quanto uma aranha viva-negra enquanto a festa flua ao seu redor.
  Bom menino. Enrole-os.
  Tristram Harwood sempre fora um oportunista sem-vergonha. Anos atrs, ele tentara seduzir Eve praticamente no mesmo lugar onde estava agora, paparicando o filho 
dela. Eve brincara um pouco com ele at que sua av intercedera.
  - Ele  um homem casado, Eve, e de vital importncia para a empresa. Deixe-o em paz!
  Vadia velha estpida. Como se ela, Eve Blackwell, fosse se interessar por um zango sem importncia Tristram Harwood!
  Foi quando Lexi apareceu na varanda. Viera correndo do jardim, seguida por um rapaz encantador. Seu rosto perfeito estava corado por causa do riso e do esforo. 
Eve sentiu seu corao se apertar e o dio tomou conta de seu peito. Era como se olhar em um espelho de 25 anos.
  Ela  igualzinha a mim. Ela roubou a minha beleza. Minha juventude. Meu poder. Tudo que me roubaram foi dado quela aleijada. Cria de Alex.
  - Meu Deus! - Logan Marshall sussurrou para Tristram Harwood. - Algum cresceu rpido.
  Max olhou quando os dois homens se viraram para admirar sua prima. Lexi realmente estava maravilhosa. O vestido que seu tio Peter comprara para ela se ajustava 
em seu corpo com perfeio. O cabelo, penteado para cima e preso frouxamente com um pente de diamantes que pertencera a Kate Blackwell, caa em mechas sensuais em 
volta de seu lindo rosto. Max sentiu o incio de uma ereo.
  Eu a odeio.
  Foi quando um estrondo vindo da casa de barcos chamou a ateno de todo mundo.
  - Que diabo foi isso?
  Um homem magro, louro, com pernas incrivelmente longas e uma cmera com zoom pendurada no pescoo estava mancando em direo ao cais. A julgar pelo buraco no telhado 
da casa de barcos e pelos escombros espalhados pela grama, ele devia estar escondido em cima de alguma rvore e, de alguma forma, perdeu o equilbrio.
  - Chamem a segurana! - Um Peter Templeton com expresso sombria saiu. - Algum vai atrs daquele homem.
  - No se preocupe, papai - disse Lexi, enquanto Danny Corretti se enfiava dentro de uma lancha e se afastava no meio da noite. -  s um paparazzo. Estou acostumada.
  - Certo. Mas voc no deveria estar acostumada a isso - disse Peter. Virando-se para Tristram Harwood, acrescentou: - Esses desclassificados seguem a minha filha 
como um bando de hienas.  uma desgraa.
  Os olhos de Max estavam grudados em Lexi.
  Uma desgraa? Besteira. Ela adora cada segundo.
  Um garom uniformizado saiu da sala de jantar.
  - Senhoras e senhores. O jantar est servido.

 Robbie sentou-se ao lado de seu padrinho, Barney Hunt.
  - Ento, vai tocar para ns esta noite? - perguntou Barney. - Um recital ao vivo com o grande Robert Templeton?
  Robbie colocou na boca mais uma colher de um delicioso pedao de torta Floresta Negra e balanou a cabea com firmeza.
  - No. De forma alguma. Estou de folga. De qualquer forma, papai no me pediu. A noite inteira est planejada nos mnimos detalhes. No quero aborrec-lo mais 
do que j fao normalmente. Voc sabe, s por existir.
  Ele falou em tom de piada, mas Barney Hunt captou a tristeza escondida por trs da brincadeira.
  - Que isso! Seu pai ama voc. Ele s...
  - ... gostaria que eu no fosse gay. Eu sei.
  Lisa Babbington, uma das amigas mais bonitas de Lexi, conseguiu chamar a ateno de Robbie e piscou para ele de forma lasciva duas mesas  frente. Claramente, 
Grody Jones no estava sendo capaz de interess-la.
  - Parece que seu pai no  o nico. - Barney riu. - J conseguiu ficar um pouco sozinho com a sua irm?
  Robbie pareceu frustrado.
  - No. Toda vez que chego perto, algum a arrasta para ir danar ou tirar uma foto. Tenho de voltar para Paris amanh de amanh, mas no consigo fazer com que 
ela pare no lugar.
 Barney olhou para a mesa principal. O lugar de Lexi estava vazio.
  - Hmmm. Entendo o que quer dizer.

  No cho da casa de barcos, Lexi estava deitada embaixo de Christian Harle tentando no se sentir decepcionada.
  s isso? Foi isso que esperei por dois anos inteiros?
 Ela tinha esperado... o que ela tinha esperado exatamente? Dor. Era o que todos os livros diziam. Uma dor aguda, seguida por algo grandioso, que mudaria a sua vida, 
uma sensao da qual se lembraria para sempre. Afinal, este seria Christian Harle. Christian Harle! O maior gato de Exeter, o garoto que enchia os dias de Lexi e 
o consumia suas noites desde que tinha 14 anos.
  Depois do seqestro de Lexi, os psiquiatras disseram para Peter que o trauma do abuso sexual a acompanharia para sempre.
  - Ela pode se casar. Pode ter filhos. Mas  irrealista acreditar que seus relacionamentos sexuais vo se desenvolver normalmente. - Mais uma vez, entretanto, subestimaram 
a fora de vontade de Lexi.
  Ela ia gostar de sexo.
  Precisava.
  No deixaria o porco vencer mais uma.
  Ento por que transar com Christian fora uma terrvel decepo?
  Ainda dentro dela, Christian se apoiou nos braos para que Lexi lesse seus lbios. Suor pingava da testa dele. Suas bochechas estavam da cor de beterraba. No 
estava com a sua melhor aparncia.
  - Est bom, doura?
  Meu Deus. Ele est falando comigo? O que  isso, um interrogatrio? Por que a terra no estava tremendo?
  Lexi assentiu, puxando-o para cima dela de novo. Rebolou, do jeito que vira Pamela Anderson fazer com Tommy Lee na internet, e tentou fingir uma respirao ofegante. 
Era bvio que Christian aprendera sua tcnica em algum outro filme porn. Ele comeou a fazer um estranho movimento circular dentro dela, como algum passando aspirador 
dentro de um carro e garantindo que o bocal entrou em cada cantinho.
  Pelo menos, ele  perfeccionista. O perfeccionismo  um atributo subestimado pelos homens. Ningum  perfeccionista demais, costumava dizer a minha antiga bab. 
Como ser que ser que anda a Sra. Carter?
  Acima da cabea de Christian estava o buraco onde o paparazzo cara mais cedo.
  Coitado. Espero que ele esteja bem.
  Lexi fitou as estrelas. Sentiu os msculos do bumbum e do abdmen de Christian contrarem, depois relaxarem. A umidade quente no meio de suas pernas lhe causaram 
uma breve sensao de triunfo. Adeus, virgindade! No vou sentir saudades de voc. Poucos segundos depois, a sensao gostosa sumiu. Lexi comeou a tremer.
  - Qual  o problema? - perguntou Christian, ofegante. - Ei, voc est bem?
  Ele estava olhando para ela, falando com ela. Mas Lexi no conseguia ler seus lbios nem ver a preocupao em seu rosto. S conseguia ver uma mscara de porco.
  Uma palavra e corto sua garganta.
  Ela gritou.
  Christian Harle comeou a entrar em pnico. Os gritos de Lexi eram horrveis e estavam ficando cada vez mais altos. Ela no parava de gritar.
  O que h de errado com ela? Em um momento, ela est me dando a maior bola, se contorcendo como um peixe no anzol. No seguinte, age como se a tivesse estuprado.
  - Pare, Lexi. Por favor! Algum vai escutar.
  Sem saber mais o que fazer, ele deu um tapa no rosto dela.
  Por milagre, funcionou. Os gritos pararam Lexi ficou olhando, confusa, enquanto a mscara de porco desaparecia. Percebeu que estava fitando bem dentro dos olhos 
aterrorizados de Christian Harle.
  Voc  s um garoto. Um menino. Est to perdido e assustado quanto eu.
  O que foi que eu vi em voc?
  Ela ficou de p, silenciosamente endireitou seu vestido e voltou para casa.

  Peter parecia preocupado.
  - Onde voc estava? Rachel disse que voc foi ao banheiro e no voltou.
  Lexi sinalizou furiosamente.
  - Fui dar uma caminhada. Precisava de ar puro, s isso, Rachel se preocupa demais.
  - Certo. A pista de dana j vai se aberta. Achei que voc e Max poderiam inaugur-la.
  Lexi fitou-o incrdula.
  - Eu e Max?
  - Vocs so os anfitries, afinal.
  - Ele  um esquisito.
  - Lexi, por favor. Ele  seu primo.
  - No. De jeito nenhum. Por que no posso danar com Robbie? Ele  meu irmo.
  No era a primeira vez que Peter ficava satisfeito por poucas pessoas conhecerem a linguagem de sinais. Lexi sabia ser incrivelmente grosseira quando queria, alm 
de teimosa. Ele tentava inventar desculpas para ela. Sua surdez deve ser terrivelmente frustrante. Mesmo assim, ficava constrangido s vezes.
  - Robbie est tocando piano. Tio Barney quase o obrigou. Olhe, Max est vindo. Estou avisando, Lexi, no faa uma cena.
  Tantos corpos espremidos em um espao limitado fizeram da casa um ambiente sufocante e quente. Max tirara a gravata e o palet e dobrara as mangas da camisa. Com 
a pele bronzeada e o cabelo negro, fez com que Lexi se lembrasse de um pirata.
  S falta a faca entre os dentes.
  - Gostaria de danar? - Ele falou deliberadamente devagar, como se Lexi fosse incapaz de interpretar uma fala normal. Deliberadamente demais. Ele sabia o quanto 
isso a irritava e adorou ver a fasca de raiva nos olhos dela enquanto a conduzia para a pista de dana. Quando Peter acenou, Robbie comeou a tocar a valsa Danbio 
Azul, de Strauss.
  Lexi tinha plena conscincia de que centenas de olhos os observavam enquanto Max a conduzia habilmente pelo salo. Ela no gostava de danar. Deixar que um homem 
a conduzisse j ia contra a sua natureza. O fato de ser surda e incapaz de escutar a msica significava que precisava confiar ainda mais em seu parceiro do que as 
outras garotas. Lexi no confiava nem um pouco em Max Webster.
  - Apenas relaxe. Apoie-se em mim.
  Ele articulou cada palavra bem devagar.
  Lexi pensou: Eu odeio voc. Com o corpo grudado ao dele, ela podia sentir o cheiro de seu corpo: suor e loo ps-barba. Ela ficou horrorizada ao perceber que 
estava ficando excitada. Por que Christian Harle no me deixou assim? Qual  o meu problema?
  A primeira valsa terminou. Robbie comeou a tocar outra, e os outros casais comearam a entrar na pista de dana. Lexi fez meno de sair, mas Max a puxou.
  - Mais uma dana.
  No era um pedido. Era um ordem. Lexi pensou em sair correndo da pista, mas eles j estava se movendo no ritmo da valsa. Max virou-a para que pudesse ler seus 
lbios.
  - Eu sei que voc estava fazendo.
  Lexi ignorou-o.
  - Voc fede a sexo.
  As palavras foram to inesperadas que, primeiro, ela achou que tivesse lido errado os lbios dele.
  - O qu?
  - Ento quem era? Algum que eu conheo?
  Desta vez, no tinha erro. O desdm no rosto de Max falava mais que mil palavras.
  - Por que no tento adivinhar? Christian Harle. Acertei? Todo mundo sabe que voc  doida por aquele troglodita desde o stimo ano.
  Lexi corou, furiosa. Todo mundo sabia? Como?
  - Talvez eu esteja tirando concluses precipitadas. Suponho que pode ser qualquer um, certo? Voc provavelmente  uma piranha que nem a sua me.
  Como ele ousa falar da minha me! Lexi se sentiu enjoada. Violada. Tentou se soltar, mas as garras de Max pareciam de ferro. Podia sentir seus pulsos queimarem 
com a frico.
 - Abaixou a crista, no foi? - Max provocou. - O que pode fazer com que eu no conte para seu querido papai o que a princesa dele andou fazendo essa noite? ou devo 
dizer com quem ela andou fazendo? Que tal irmos para um lugar tranqilo para voc chupar o meu pau como uma boa menina, e eu q
Esqueo de tudo que eu sei?
  Max riu, girando Lexi at que ela ficasse tonta. Algum bateu nas suas costas. Era sua amiga, Donna Mastroni.
  Graas a Deus!
  - Lexi, tem um cara que quer falar com voc. Ele disse que  importante. Os seguranas no deixaram que passasse do porto, mas ele no quer ir embora.
  Com Donna parada ali, Max no teve alternativa a no ser soltar Lexi.
  Com um olhar do mais puro dio, Lexi seguiu Donna.

  O homem era baixo e plido. Devia ter uns 50 e poucos anos e estava usando um terno azul barato. Seus sapatos estavam velhos e gastos com o uso. Apresentou-se 
como Tommy King e entregou para Lexi um carto de visitas sujo coberto de marcas de impresses digitais.

King & Associados
Investigaes
(212) 965 1165

   Olhando em volta para se certificar de que estava sozinha Lexi sussurrou:
  - No podemos conversar aqui.  muito perigoso.
  Tommy King seguiu-a at um canto afastado do terreno, longe dos olhos dos seguranas.
  - Pode fazer o servio?
  Tommy King sorriu, revelando os dentes tortos, com mais ouro do que esmalte.
  - Posso fazer o servio, princesa. Mas pode levar um tempo. Voc no me deu muita coisa para me basear.
  Lexi foi direto ao assunto.
  - Quanto?
  - Cem pratas por dia. Cobramos por ms. Voc recebe um relatrio sobre o progresso das investigaes no final da cada ms, fotografias e qualquer outro material 
que conseguirmos descobrir. As despesas so  parte.
  Lexi assentiu.
  - Preciso de um depsito para comear: setecentos dlares mais quinhentos para as despesas.
  - Posso dar quinhentos hoje. S isso. pago o restante quando receber o primeiro relatrio.
  Tommy King olhou-a com cara feia. Por que os clientes mais ricos eram sempre os mais mesquinhos com dinheiro? O vestido que Lexi estava usando parecia custar mais 
que o apartamento dele. Ainda assim, no devo ser ganancioso, pensou ele. Se jogasse as cartas certas e se entendesse bastante, a menina Blackwell poderia se tornar 
uma mina de ouro.
  - Certo, quinhentos dlares. Esta a com voc?
  Lexi abaixou um pouco a frente de seu vestido e tirou um rolo de notas do suti. Olhando em volta de novo, ela colocou na mo suada e ansiosa de Tommy.
  Depois que ele foi embora, ela pensou:
  O que eu fiz? E se ele desaparecer com aquele dinheiro e eu nunca mais o vir?
  Era um risco que valia a pena correr. Depois de anos economizando e juntando suas mesadas e presentes de Natal e de aniversrio em uma conta secreta, Lexi agora 
tinha mais de trinta mil dlares no seu nome. No era uma fortuna. Mas era um comeo.
  Tinha chegado a hora.
  Prepare-se porco para morrer.

  Captulo 17

  Um encontro casual na biblioteca da priso mudou a vida de Gabe McGregor.
  Graas a Billy e aos cuidados zelosos do jovem mdico da priso que chefiava o programa de drogas em Wormwood Scrubs, Gabe estava limpo pela primeira vez em trs 
anos. Mas a tentao estava por toda a parte. A ironia era que aqueles presos estavam falando pelos cotovelos. Gabe tentara se matar, corroendo as prprias tripas 
com gua sanitria, porque achou que no conseguiria drogas aqui. A verdade era que havia muita herona disponvel, era s conhecer as pessoas certas.
  Gabe responde bem  metadona. Billy disse para ele:
  - No pode voltar atrs agora, filho.  a estrada para o inferno, voc deve saber disso to bem quanto eu.
  - No vou voltar atrs.
  Gabe se escutou dizendo as palavras. Percebeu que desejava que fossem verdade. Mas toda vez que pensava nos anos de solido e tdio  sua frente, em como decepcionara 
sua me, na montanha que teria de escalar se algum dia ele chegasse a sair daqui, a impotncia e o desespero se tornavam insuportveis.
  Era apenas uma questo de tempo at voltar para a herona e ele sabia disso.
  O mdico da cadeia gostava de Gabe. Pressentindo a deciso de seu paciente se enfraquecendo, arranjou um emprego para ele catalogando livros na biblioteca da priso.
  -  um dos melhores lugares para se trabalhar neste lugar imundo. Tranqilo, pessoal decente, nenhum caso pesado. Voc vai ganhar dinheiro e se ocupar.
  Gabe ficou grato. O mdico deve ter mexido alguns pauzinhos para conseguir um emprego to bom para ele. Mas ainda achava o trabalho montono e deprimente arrumando 
livros em ordem alfabtica por autor, ttulo e assunto.
  - Esse  o problema com vocs, malditos escoceses. No tem imaginao.
  Gabe se virou. Atrs dele, sentado a uma das mesas de frmica cercado por grossos livros de direito, estava um homem pequeno de meia-idade. Ele era totalmente 
careca e tinha um bigode preto espesso, estilo Charlie Chaplin, como se fosse de outro sculo, como um danarino, ou mgico de um circo vitoriano.
  - Desculpe. Est falando comigo?
  - Sim, escocs, estou falando com voc. - O sotaque cockney que o homem tinha era comicamente forte. Uma mistura de Michael Caine Vinnie Jones. - Voc passa os 
dias aqui e eu nunca o vi lendo sequer uma pgina.  como uma criana olhando as prateleiras de uma loja de balas sem nunca esticar a mo para pegar uma.
  - No gosto muito de ler.
  O homem riu.
  - Sente-se, escocs. Vamos. Puxe uma cadeira.
  Gabe olhou em volta. Os dois bibliotecrios estavam entretidos em seus computadores. Ele no deveria parar seus trabalhos para bater papo. Na verdade, ningum 
deveria conversar na biblioteca. Teria de ser rpido.
  - Marshall Gresham. - O homem careca estendeu a mo quando Gabe se sentou.
  - Gabe McGregor.
  - Deixe-me fazer uma pergunta, Gabe McGregor. Voc sempre me v aqui, certo? Quase todo dia?
  Gabe assentiu.
  - J se perguntou o que estou fazendo? Com todos esses livros de aspecto entediante?
  - No, nunca - admitiu Gabe.
  Os olhos cinza de Gabe encontraram os azuis de Marshall Gresham. Ele tinha olhos surpreendentes. Literalmente brilhavam, como o sol refletindo no mar, e pareciam 
convidar confidncias.
   - Vou lhe dizer, que tal? - disse Marshall. - Estou trabalhando no meu recurso. Sabe, Gabe McGregor, no gosto muito de advogados em geral, e em particular do 
meu. Um dia me toquei que, enquanto estou enjaulado aqui, fugindo de enrabadores pelos prximos dez anos, o meu maldito advogado arrogante volta para casa toda noite, 
janta um bom fil, depois come a esposa. Agora, me diga, qual de ns dois tem mais motivao para me ver saindo por aqueles portes rumo  liberdade?
  Gabe riu.
  - Ah, mas motivao no  tudo, certo, Sr. Gresham? Seu advogado  um profissional. Sabe como funciona o sistema de recursos. Voc no.
  - Eu no sabia. - Marshall Gresham aponto para os livros  sua volta. - Mas agora com certeza sei. Gabe McGregor, me diga. Como est indo o seu recurso? No tem 
tido muitas notcias do seu advogado, no ?
  Michael Wilmott. Cristo. Gabe quase tinha esquecido que o homem existia. Estiver to preocupado com seu vicio e a luta diria para se manter limpo que deixara 
todo o resto de sua vida pendente. Permanentemente.
  Marshall Gresham levantou uma volumosa sobrancelha preta.
  - Aposto que a esposa dele faz um timo fil.

  A primeira coisa que Gabe fez foi demitir Michael Wilmott. A segunda coisa foi engolir o orgulho e escrever para todo mundo que poderia ajudar a arranjar dinheiro 
para pagar um novo advogado. Escreveu um bilhete simples, que o mdico da priso tambm assinou, dizendo para as pessoas que estava limpo e determinado a recomear. 
Marshall Gresham o ajudou a soletrar ("Esquea essa dislexia. Voc tem de dar mais duro do que as outras pessoas s isso.") Gabe mandou cartas para todo mundo que 
conhecia que no era usurio nem criminoso, com poucas expectativas. Ficou surpreso com a resposta.
  Therese, a ltima "namorada" dele, que o colocou para fora depois que ele roubou dinheiro dela, mandou mil libras.
  - Voc pode ser o que quiser, Gabriel. D-me motivos para me orgulhar de voc.
  Quando recebeu o cheque, Gabe comeou a chorar.
  Recebeu mais dinheiro depois desse, presentes de centenas de libras vindos de amigos (quase sempre amigas) bacanas de Londres, pequenas doaes de algumas libras 
de velhos amigos de Esccia que, mais uma vez, deixaram seus olhos cheios de lgrimas. Essa gente no tem nada. No podem se dar ao luxo de me ajudar. Mas aqui esto 
eles, tentando. Sua me, Anne, que no tinha notcias de Gabe havia quase dois anos, mandou cinqenta libras e um bilhete que dizia simplesmente: "Eu amo voc." 
Nem mencionou o fato de ele estar preso. Nenhuma palavra de censura.
  Eu tambm amo voc, me. Um dia, vou recompensar a f que tem em mim.
  Dia aps dia, conforme o dinheiro ia entrando em sua vida e as drogas saindo (j estava quase livro da metadona), seu otimismo natural e a f na natureza humana 
ressuscitaram. Claire sua primeira amante em Londres, era advogada. "Conheo um excelente advogado criminalista, Angus Frazer. Ele me deve uns favores. Vou ver o 
que posso fazer por voc."
  Marshall Gresham estava impressionado.
  - Vou lhe dizer uma coisa, rapaz. Ou voc tem o maior pinto da Esccia ou  um maldito sedutor. Voc depenou cada um desses pssaros, e agora esto todos aqui 
dispostos a ajudar voc.

  Angus Frazer no era um advogado to brilhante quanto Claire tinha feito parecer.
  Era, pelo menos, cinco vezes melhor.
  Um homem bonito, que estudara em Eton, com nariz aquilino e postura real, Angus Frazer sabia "manipular" juzes da mesma forma que Gabe McGregor sabia manipular 
mulheres. Quando Angus Frazer terminou sua concluso, o juiz do tribunal de apelao estava comeando a se perguntar se Gabe deveria mesmo estar preso. Talvez o 
dono do estabelecimento em Walthamstow cujo crnio fora esmagado  quem devia ter ido para a cadeia. Afinal, fora ele quem arbitrariamente descarrilara a vida desse 
brilhante jovem promissor e determinado. Um jovem cuja elegantes amigas encheram a galeria pblica do tribunal como esperanosas atrizes em um teste em Hollywood.
  A sentena de Gabe foi reduzida para dez anos, o mnimo possvel para o crime dele. Angus Frazer lhe disse:
  - Voc j cumpriu quatro. Com bom comportamento, sai em trs.
  Trs anos! S mais trs anos! Para o novo Gabe, isso no era nada. Trinta e seis meses.
  - No sei nem como lhe agradecer, Sr. Frazer. O senhor sabe que hoje s tenho dinheiro para pagar metade dos seus honorrios.
  Angus Frazer sorriu. Era um homem rico, que no costumava fazer favores a ex-viciados. Mas, no caso de Gabe, estava contente por Claire McCormack ter lhe convencido. 
Tinha alguma coisa nesse rapaz... era difcil explicar. Mas Gabe McGregor fez com que Angus Frazer se sentisse feliz por estar vivo.
  - No se preocupe com isso, Gabe. Um dia, voc vai me pagar, tenho certeza.
  Vou sim, senhor. Juro sobre o tmulo do meu pai que vou pagar dez vezes o que lhe devo. Um dia.

  Marshal Gresham estava preso por fraude.
  - Ento, quanto voc roubou? 
  Era o tipo de pergunta que Marshall s tolerava de Gabe McGregor. Os dois homens tinham se tornado grandes amigos.
  - No roubei nenhum dinheiro, Gabriel.  por isso que estou entrando com um recurso contra a minha sentena. Eu reorganizei bastante.
  - Quanto? 
  Marshall permitiu-se abrir um pequeno sorriso de orgulho.
  - Duzentos e sessenta milhes.
  Gabe ficou em silncio por um minuto inteiro.
  - Em que ramo voc trabalhava, Marshall?
  - Imobilirio.
  Mais um minuto de silncio.
  - Marshall?
  - Hummm?
  - Acho que quero aprender sobre o mercado imobilirio. Voc me ensina?
  - Ora, Gabriel. - Os brilhantes olhos azuis de Marshall Gresham faiscaram mais do que o norma. - Eu adoraria.

  De repente, 36 minutos, pareceram 36 minutos.
  Havia tanto para aprender e to pouco tempo. ndices, taxas de juros, preos por metro quadrado, custos de construo, leis de planejamento. E havia mais e mais, 
e para Gabe era como aprender no apenas uma nova lngua, mais uma forma totalmente nova de pensar.
  - Muita coisa mudou no mercado nesses ltimos anos - disse Marshall Gresham. - Todo esse dinheiro novo feito na internet. - Ele balanou a cabea com desgosto. 
- As pessoas perderam a cabea. No acredite em ningum que lhe diga que as foras fundamentais do mercado so diferentes do que sempre foram.
  Gabe assentiu silenciosamente, absorvendo o conselho de Marshall. Era sua nova droga. No se cansava de escutar a voz do homem mais velho. Cada palavra que saa 
da boca de Marshall Gresham soava como dinheiro, como esperana. O futuro de Gabe em carne e osso.
  - Localizao. Essa  a chave. Se eu fosse comear nesse jogo, hoje, sairia de Londres.
  Gabe ficou em silncio, mas havia um ponto de interrogao em seu rosto.
  - Muito inflacionado. Muitos plos. E os russos. Muitas barreiras para conseguir entrar. Para ser honesto, eu esqueceria o Reino Unido. E os Estados Unidos. Voc 
precisa de um mercado que ainda esteja crescendo. Comece de baixo, como eu comecei.
  Comece de baixo.
  , claro. Mas onde?  E com o qu? 
  Marshall Gresham fazia com que parecesse to simples.

  Marshall estava certo sobre a biblioteca de Wormwood Scrubs. Olhe alm do piso de linleo e das mesas baratas de frmica, dos livros j gastos de Dick Francis 
e das autobiografias de modelos famosas (Minha vida: a histria que nunca foi contada, de Misty Holland. Quem lia essa porcaria?), e um mundo de infinitas possibilidades 
estava ali ao seu alcance.
  Muitos prisioneiros seguiam o mesmo caminho de Marshall Gresham e iam direto para os livros de direito. Alguns at conseguiram seus diplomas na Open University 
enquanto estavam presos. Outros se perdiam na fico, uma espcie de fuga da realidade difcil que era a vida na priso. J Gabe, sempre que no estava envolvido 
com livros sobre mercado imobilirio e negcios, procurava os de histria. Principalmente, sobre a histria do seu famoso ancestral, Jamie McGregor.
  Era impressionante o quanto tinha sido escrito sobre o irmo do tatarav de Gabe e a ilustre empresa que fundou. Gabe descobriu que, nos Estados Unidos, professores 
universitrios dedicaram suas vidas a estudar a Kruger-Brent. Como se fosse um pas ou uma guerra, um grande rei ou uma epidemia.
  No  de admirar que meu pai e meu av fossem to obcecados. Aparentemente, no foram os nicos.
  Gabe sempre soube que Jamie McGregor morrera um homem muito rico e que seus descendentes diretos - a famlia Blackwell - se tornara ainda mais rica. Mas as quantias 
de dinheiro das quais lia eram to altas que, s de pensar, sua cabea doa. Era como tentar imaginar a distncia at a lua com polegadas, ou quantos gros de areia 
existiam em uma praia.
  Mas no era o dinheiro que despertava o interesse de Gabe. Nem a empresa cujo poder se espalhava pelo mundo e, agora, chegava at o espao, graas a uma aquisio, 
na dcada de 1980, de uma empresa que fabricava satlites. Era o homem em si, o prprio Jamie McGregor que fascinava Gabe.
  Gabe leu sobre a Esccia da dcada de 1860, a vida de misria da qual Jamie fugira. Fazia com que a sua infncia parecesse luxuosa em comparao. Aprendeu sobre 
o mar traioeiro que ligava Londres  Cidade do Cabo. Milhares de homens como Jamie McGregor morreram na jornada, sucumbindo  fome, exausto ou doena enquanto 
perseguiam o sonho de encontrar riquezas nos campos de diamante da Nambia. Menos de um em milho conseguiu. Jamie McGregor foi esse homem que superou obstculos 
inimaginveis.
  Anos depois, poucos meses antes de um derrame deix-lo incapacitado pelos ltimos anos de sua vida, um reprter de um jornal sul-africano perguntou a Jamie McGregor 
o que ele considerava o segredo de seu sucesso.
  - Perseverana - respondeu ele. - E coragem. Fui a lugares que a maioria das pessoas considerava perigosos demais. No confie em ningum alm de voc mesmo.
  Gabe pensou nisso. Confio em Marshall Gresham. Na minha me. Em Claire. E em Angus Frazer. Talvez, se eu seguir as regras um e trs, conseguirei dois teros da 
fortuna que Jamie McGregor conseguiu?
  Ento, do nada, outro pensamento o dominou.
  O que Marshall dissera? Encontre um mercado que ainda esteja crescendo. Comece de baixo.
  E Jamie McGregor? Fui a lugares que a maioria das pessoas considerava perigosos demais.
  De repente, a resposta era bvia.
  
  Um pouco de pesquisa confirmou a animao de Gabe. O rande sul-africano desmoronara em relao ao dlar americano desde o fim do Apartheid. Propriedades na Cidade 
do Cabo estavam sendo vendidas a preo de banana enquanto as famlias brancas ia embora, temendo uma nova exploso de violncia negra. Temendo uma revoluo.
  Se vier uma revoluo, perderei tudo. Mas se no vier...
  Finalmente, Gabe McGregor tinha um plano. Iria para a frica antes da sua fortuna.
  Exatamente como Jamie McGregor fizera antes dele.

  s 7h30 Gabe estava em um metr no centro de Londres.
  s 9h30, estava esperando do lado de fora das portas de vidro do exclusivo Coutts Private Banking, no nmero 100 da Strand.
  - Posso ajud-lo?
  O guarda lanou um olhar para Gabe que deixou claro que a ltima coisa que queria era ajud-lo. Gabe no culpava o homem. Fizera a barba e se arrumara da melhor 
forma que conseguiu, mas com seu surrado palet cinza e a velha cala jeans molhada de chuva, no se parecia nem um pouco com um dos clientes do banco.
  Deixei alguma coisa para voc no Coutts. S para voc comear.
  Era tpico da generosidade de Marshall Gresham. J fizera tanto, dando o pontap inicial no recurso de Gabe, ensinando-o sobre mercado imobilirio. Billy e o mdico 
da priso conseguiram deixar Gabe limpo, mas foi Marshall Gresham que o manteve assim. Marshall lhe dera esperana, algo pelo que viver alm da fortuna. No salvara 
a sua vida; ele lhe dera uma nova em folha.
  E agora ele quer garantir que eu tenha dinheiro para pagar um lugar para dormir e algo para comer esta noite.
  Era comovente e muito necessrio. Gabe sara de Wormwood Scrubs com apenas cinco libras no bolso, que j acabara com a passagem do metr e um sanduche de bacon 
na Kings Cross. Esta tarde, comearia a procurar trabalho em construo civil. Alguns amigos da priso tinham lhe dado alguns contatos. Mas era bom saber que no 
teria de dormir ao relento no primeiro dia.
  - Vim falar com Robin Hampton-Gore. - Gabe falou baixo, mas com autoconfiana. - Acredito que Marshall Gresham avisou-lhe que eu viria.
  E a expresso do guarda agora dizia: e eu acredito que voc  um charlato que veio tentar a sorte com uma histria triste. Bom, se  isso, boa sorte para voc 
companheiro. No vai conseguir nada com o Sr, HG.
  Em voz alta, ele disse:
  - Espere aqui, por favor, senhor.
  Gabe esperou. Cinco minutos depois, quase to surpreso quanto o guarda, ele foi levado ao escritrio por um homem simptico com terno risca de giz feito em Savile 
Row e os patos mais brilhantes que Gabe j vira.
  - Sr. McGregor, suponho?
  O homem se sentou atrs de uma confortvel mesa de mogno macio. Fez sinal para Gabe se sentar na cadeira estofada  sua frente.
  - Robin Hampton-Gore. Marshall me disse que voc viria. Na verdade, ele fez toda uma profecia. Garantiu que voc ser o prximo Donald Trump.
  Gabe riu, pouco  vontade. Para um banqueiro elegante, Robin Hampton-Gore estava sendo simptico demais com um ex-viciado em herona que acabara de sair da priso 
depois de cumprir pena por arrombamento e agresso, cujas nicas recomendaes vinham de um homem condenado por fraude.
  - Marshall  um velho amigo - explicou Robin, como se pudesse ler os pensamentos de Gabe. - Foi ele que me colocou neste ramo. Ele foi o meu primeiro grande amigo 
e continuou comigo, mesmo quando ficou muito rico e podia ter insistido que algum mais velho e experiente cuidasse da sua conta.
  - Eu tambm - disse Gabe.
  Robin Hampton-Gore destrancou a gaveta de sua mesa com uma chave de bronze e tirou um envelope branco.
  - Aqui tem dinheiro - explicou ele, sem necessidade, entregando-o a Gabe. - Marshall achou que fosse precisar de algum imediatamente.
  Gabe abriu o selo ficou perplexo. Dentro havia uma pequena fortuna. No mao, havia algumas notas de dez e vinte, depois, nota de cem atrs de cem, as inconfundveis 
notas vermelhas balanando em suas mos trmulas como borboletas raras enquanto ele as folheava, tentando contar.
  - A s tem dez mil.  um dinheiro de segurana. O resto est em uma conta no seu nome. Tenho todos os detalhes aqui.
  Robin Hampton-Gore entregou a Gabe um segundo envelope. Esse j estava aberto, com um mao de papis timbrados do Coutts visveis.
  Gabe gaguejou.
  - Eu... eu no estou entendendo. Como assim, "o resto"? Acho que deve haver algum engano. S preciso de umas duzentas libras.
  Robin Hampton-Gore riu.
  - Bem, voc tem umas duzentas mil libras. - Entregando a Gabe um terceiro carto de visitas, ele se levantou para sair. -  uma carta de Marshall. Acredito que 
ela explique tudo, mas se tiver mais alguma pergunta, no hesite em me ligar.
  As mos de Gabe ainda estava tremendo. Como sempre quando se tratava de Marshall Gresham, a carta era curta e direta.
  "Querido Gabriel,
  Isto no  um emprstimo.  um investimento. Somos scios imobilirios.
  Abraos, M.
  Ps: No se esquea de escrever da cidade do Cabo."
  Gabe sentiu um n na garganta e engoliu seco. Agora no era hora de ficar emocionado. Tinha muito o que fazer. Estava em dbito com tantas pessoas. Marshall Gresham, 
Angus Frazer, Claire, sua me. No podia decepcion-los.
  Pagarei a vocs. Cada centavo.
  Vou para a frica ganhar a minha fortuna.
  No voltarei at ser to rico quanto Jamie McGregor.

  Captulo 18

  August Sandford segurou no assento de sua cadeira e rangeu os dentes perfeitos e brancos, frustrado.
  A reunio de equipe do novo Departamento de Internet da Kruger-Brent j excedera em quase uma hora. Max Webster, o bisneto de 21 anos de Kate Blackwell e provvel 
futuro presidente da Kruger-Brent, estava de p, falando arrogantemente.
  August pensou: No passei oito anos na Goldman Sachs para ficar sentado aqui, escutando um calouro de alguma faculdade de administrao. Ou passei?
  A namorada de August, Miranda, o avisara quando resolveu entrar na Kruger-Brent.
  -  uma empresa familiar, amor. Por mais que voc seja enorme e global, no final, os Blackwell sempre daro as ordens. Voc vai detestar.
  August ignorara os conselhos dela por trs razes. O headhunter da Spencer Stuart prometera triplicar seu bnus; acreditava que logo faria parte da diretoria da 
Kruger-Brent; e no costumava aceitar conselhos de suas namoradas quando se tratava de sua carreira. August Sandford escolhia suas namoradas de acordo com um conjunto 
restrito de critrios relacionados a tamanho de seios e a abdomens sarados. Queria uma leoa na cama, no uma orientadora para a vida.
  - No se preocupe boneca - disse August para Miranda com condescendncia. - Sei o que estou fazendo.
  Mas ele no sabia de nada. Miranda estava certa. Em dias como hoje, August Sandford desejava seu emprego antigo na Goldman como um nufrago deseja encontrar terra 
firme. Nenhum salrio valia isso.
  - O seu ponto de vista  limitado. - Os olhos negros de Max Webster brilhavam com paixo. - A Kruger-Brent deveria investir mais dinheiro em seus negcios de internet, 
no menos.
  O discurso dele (mais parecido com um sermo, pensou August amargamente) era direcionado inteiramente  sua prima, Lexi Templeton. Como se os dois herdeiros Blackwell 
fosse as nicas pessoas na sala. Ambos estavam de licena da Harvard Business School por seis meses. Quando se formassem, os dois iriam trabalhar na Kruger-Brent. 
Mas, no final, apenas um usaria o manto de presidente, uma posio que apenas membros da famlia podiam ocupar.
  O consenso geral era de que essa pessoa seria Max. Alm da desvantagem bvia da surdez, todos viam Lexi como uma garota muito festeira para ser levada a srio. 
Ela apareceu para o seu primeiro dia de estgio no banco de trs de um Ducatti, suas longas pernas enroscadas nas do dono do carro, Ricky Hales, e sua marca registrada 
cabelos louros, ao vento. Ricky Hales era o baterista da mais famosa banda de rock da atualidade, The Flames. Com mais tatuagens do que pele e um consumo de herona 
que fazia Courtney Love parecer Madre Tereza. Ricky era to cobiado pelos paparazzi quanto Lexi. Lexi deu um beijo demorado em Ricky nos degraus do prdio da Kruger-Brent, 
uma foto que apareceu na capa de todas as revistas de fofoca dos Estados Unidos na manh seguinte.
  Lexi Templeton era um enigma. Meio criana vulnervel, meio megera, ela deixava a imprensa imaginando histrias e o pblico obcecado pela famlia Blackwell cada 
vez mais intrigado. Mas August Sandford tinha o pressentimento de que o pequeno show de Lexi com Ricky Hales no tinha como objetivo a imprensa. Era, sim, uma tentativa 
deliberada de atingir seu primo, o sinistro Max Webster.
  A rivalidade entre os dois herdeiros Blackwell era intensa.
  Fazia com que August se lembrasse das irms Williams quando declararam no primeiro Torneio de Wimbledon de que participaram que se consideravam as nicas rivais 
uma da outra, isolando-se instantaneamente de todas as outras jogadoras do circuito internacional. Ao contrrio das irms Williams, Lexi e Max alimentavam essa competio 
com uma tenso sexual to forte que era possvel sentir no ar. No que algum deles admitisse esse fato, nem para si prprios.
  A voz de Miranda soava nos ouvidos de August:  uma empresa de famlia, amor. No final, os Blackwell sempre daro as ordens.
  August olhou em volta da mesa. Alm dele, Max e Lexi, havia trs outros executivos da Kruger-Brent na reunio. Harry Wilder, um ex-acadmico com cabelo grisalho 
e sobrancelhas de cientista maluco, era obviamente o mais velho. Membro do conselho havia uma dcada, Harry Wilder jogava golfe com Peter Templeton, o atual presidente 
da Kruger-Brent. Alm de ser um adversrio decente e uma pessoa de comportamento afvel, era difcil ver que valor Harry acrescentava  empresa. Ningum o levava 
srio, August Sandford menos ainda. O fato de Harry Wilder ser o membro do conselho escolhido para chefiar o departamento de internet no era considerado um bom 
pressgio para nenhum deles.
  Ao lado de Wilder, estava Jim Bruton, um executivo em ascenso na Kruger-Brent. Uma cpia fiel de Frank Sinatra quando jovem, o relacionamento pessoal mais significativo 
de Jim era com o espelho. Em segundo, vinha sua assistente pessoal peituda, Anna. E em um terceiro lugar distante, vinha sua leal esposa Sally, me das trs filhas 
legitimas de Jim - Corinna, Polly e Tiffany -, a quem ele sempre se referia pretensiosamente como "as herdeiras". (Seus dois filhos ilegtimos, Ronnie e Carlton, 
moravam com a me em Los Angeles, e Sally e as meninas no sabiam de nada.)
  Dizer que August Sandford desprezava Jim Bruton seria eufenismo. Mas at mesmo August tinha de admitir que Jim era esperto. Ele triplicara os lucros do departamento 
de biotecnologia durante sua gesto no incio da dcada de 1990. Jim no escondia de ningum o fato de que sua inteno era tornar a Kruger-Brent Internet seu prximo 
feudo lucrativo.
  Sobre o meu cadver, pensou August.
  Ao lado de Jim Bruton, estava uma jovem chamada Tabitha Crewe. Recentemente contratada da escola de direito de Stanford, Tabitha era atraente com seus traos regulares 
e cabelo preso em uma espcie de rabo de cavalo. Aparentemente, ela criara e vendera uma pequena empresa pontocom enquanto ainda estava na faculdade e fizera seu 
p-de-meia, e por isso fora contratada a faze parte da equipe. August fitou o rosto impassvel e sem maquiagem de Tabitha e achou difcil imagin-la tendo disposio 
para ligar uma mquina de lavar, muito menos iniciar um negcio. Ela parecia to... apagada. Ainda mais sentada ao lado de Lexi Templeton.
  Essa sim tem fogo no meio das pernas. Se ela no estivesse to obcecada em seu primo cafajeste... como eu gostaria de arrancar toda essa insolncia dela. Sexy, 
teimosa, orgulhosa...
  - Sr. Sandford, ns o estamos entediando?
  Jim Bruton estava encarando August, um sorriso irnico nos lbios.
  Sim, vocs esto me entediando. Vocs esto enchendo meu saco.
  - Desculpe. - August retribuiu o sorriso. - Qual foi a pergunta?
  - O Sr. Webster est sugerindo que faamos uma proposta formal para encaminhar para o conselho, pedindo um oramento maior com o qual poderamos fazer novas aquisies. 
A Srta. Templeton no concorda. Eu e Harry gostaramos de saber qual  a sua opinio.
  August abriu a boca para responder, mais foi interrompido por Lexi. Sua surdez fazia com que ela falasse de forma mais lenta e deliberada. Tambm tinha o hbito 
de mexer as mos enquanto falava, inconscientemente usando a linguagem de sinais. August observou seus dedos longos e finos executarem uma delicada dana e imaginou 
a sensao de t-los segurando seu pau. Comeou a ter uma ereo, o que o deixou ainda mais irritado.
  - Eu sou totalmente a favor de expandirmos nosso alcance on-line. No sou a favor  de jogar dinheiro aleatoriamente em cima de um bando de iniciantes, antes de 
termos feito um planejamento detalhado. Meu primo parece achar que os fundamentos da economia no se aplicam s empresas de internet. Eu discordo.
  - Eu tambm - disse August.
  Max fitou-o furiosamente. Jim Bruton e Harry Wilder fizeram o mesmo. Era claro que ambos j tinham decidido que as chances de uma mulher assumir a Kruger-Brent 
era escassa ou nenhuma, independentemente do que dissesse o testamento de Kate Blackwell, e estavam apostando todas as suas fichas em Max.
  Se eu tivesse um mnimo de bom-senso, faria o mesmo, pensou August. Eu nem gosto da garota, ento s Deus sabe por que estou do seu lado. Mas o fato era que Lexi 
estava certa. Max estava falando demais, apostando cega e gananciosamente no trem da internet como todo o pessoal da Harvard.
  - Qualquer aposta de aquisio que enviamos ao conselho precisa ser especfica e baseada e dados consistentes. - August se levantou para sair. - Agora, se me do 
licena, tenho uma reunio de almoo importante.

  Naquela noite na banheira, Lexi Templeton pensou em August Sandford.
  Ele no  o homem mais feio do mundo, reconheceu ela de m vontade, formando uma imagem mental de seu espesso cabelo castanho, maxilar forte e olhos amendoados, 
contrabalanados pelo bronzeado que, sem dvida, adquirira nas praias de East Hampton no vero. Levando em considerao a aparncia, ele era o oposto de Max. Brad 
Pitt contra o Johnny Deep de Max. Pelo menos, era assim que ele provavelmente pensava.
  Ele  quase to bonito quanto acha que . Max nem um pouco to inteligente.
  Lexi conhecia a fama de August Sandford em Harvard. Porco chauvinista bonito, rico, bem-educado. Pegue um ego inflamado, refogue com riqueza e privilgios, cubra 
com um carto de visitas de uma empresa poderosa e vil! August-j-falei-que-trabalhei-na-empresa-Tal?-Sandford. P no saco.
  Os jovens brilhantes de Harvard entediavam Lexi, mas serviam ao seu propsito. Ela transara com todos eles. Desde a festa de seu aniversrio de 16 anos, quando 
perdeu a virgindade para Christian Harle, era assombrada pela ideia de que o abuso sexual na infncia tinha "arruinado" a sua vida sexual para o resto de seus dias. 
Depois de batalhar tanto para superar a surdez, era terrvel imaginar que o porco teria vencido afinal. Que ele a teria transformado em algum tipo de deficiente 
sexual. Determinada a no deixar isso acontecer, Lexi se lanou ao sexo na faculdade com todo o fervor obcecado de um marinheiro ao desembarcar em um porto. Harvard 
estava lhe oferecendo educao em todos os sentidos: algoritmos durante o dia, orgias  noite. Mnage  trois, relacionamentos bissexuais, brinquedos sexuais, fantasias 
- Lexi queria descobrir tudo. Para provar ao mundo e a si mesma que no era uma vtima, que o porco no a derrotara. Era um segredo conhecido de todos que Lexi Templeton 
era a melhor transa de Harvard. Mas um cdigo oculto de lealdade evitava que seus colegas espalhassem boatos para a imprensa. Harvard era um mundo fechado, um lugar 
seguro para explorar o lado devasso das pessoas. Fora os muros da faculdade, a histria era outra.
  Na Kruger-Brent, terei de ser mais cuidadosa.
  Lexi pensou de novo em August Sandford. Pelo menos, ele ficara do seu lado contra Max hoje, que era mais do que os outros engomadinhos tinham feio. Lexi tinha 
plena conscincia de que noventa por cento dos executivos seniores da Kruger-Brent a desconsideravam. O testamento de Kate Blackwell a favorecia em detrimento de 
Max para a presidncia, mas Kate Blackwell no sabia que Lexi era surda. De qualquer forma, uma deciso unnime do conselho permitiria que Max usurpasse seu lugar. 
A maioria das pessoas na empresa, incluindo Max, sem mencionar o prprio pai de Lexi, parecia ver isso como inevitvel. Isso deixava Lexi enlouquecida de raiva.
  Como eles ousam me descartar? As minhas notas sempre foram mais altas do que as de Max. Sou mais inteligente que ele, tenho mais tino para os negcios OK, no 
consigo escutar. Mas Max no sabe ouvir. Essa  a verdadeira deficincia. Ele ama demais o som da prpria voz.
  Lexi passou a esponja com sabonete embaixo dos braos e nos seios. Os homens eram todos iguais. Impressionados demais consigo mesmos, batendo no peito como babunos. 
August Sandford, Jim Bruton, Max... eram todos verses adultas de Christian Harle e dos outros maches da poca do colgio. Eles tratavam Lexi com a mesma condescendncia 
que dedicavam a todas as mulheres, s que no caso dela a surdez parecia piorar ainda mais as coisas. Isso e o fato de ela ser linda, rica, famosa e mais inteligente 
que todos eles juntos.
  August Sandford pode ter achado que conseguiu ocultar seus pensamentos de todos hoje. Mas Lexi podia ver a inveja em seus olhos.
  Ele me odeia porque sou melhor do que ele. Ele me odeia porque quer transar comigo e no pode. Ele me odeia porque...
  Uma luz na tela do seu computador que estava na sala chamou sua ateno.
  Nova mensagem.
  Pegando uma toalha, Lexi saiu da banheira correndo, pingando pelo cho de imbuia de seu apartamento. Diferente de Max, "filhinho de mame" que ainda morava com 
Eve, Lexi tinha sua prpria casa em Upper East Side e curtia sua independncia. Seu bonito e moderno apartamento de dois quartos em um prdio elegante na 77th, entre 
a Park Avenue e a Madison, era decorado com cores neutras e tons de branco, com enormes janelas que iam do cho ao teto, oferecendo uma vista da cidade. Um delicado 
lustre Christopher Wray de vidro e ao inoxidvel pendia do teto acima de um tapete de pele de pnei cor de creme. No outro canto, em uma moderna escrivaninha dinamarquesa, 
estava o Apple Mac branco de Lexi: seu portal com o mundo que escutava. Costumava se perguntar como os surdos tinham conseguido viver antes do advento da internet 
e agradecia a Deus por ter nascido na era do texto.
  Descendo com o cursor e passando por e-mails de Robbie, de seu pai,de seu professor em Harvard, Dr. Fairford, e inmeros namorados, Lexi fez uma orao silenciosa.
  Por favor, seja dele.
  Finalmente, chegou  nova mensagem. Clicando para abrir, o corao dela deu um pulo de empolgao. No assunto dizia:
  Eu o encontrei.
  
  Tommy King no gostava da Tailndia.
   H um limite para o nmero de xoxotas asiticas que um homem pode apreciar. Uma vez que se via as primeiras cem garotas atirando bolas de pingue-pongue do nus, 
fumando charutos com as xoxotas e esgotarem seus repertrios de truques sexuais bizarros, ficava cansativo. E depois o que sobrava? Insetos fritos, ar fedido e quente 
e disenteria, s isso.
  Tommy King queria comer um Big Mac, assistir a uma partida de futebol americano na televiso nas noites de segunda-feira, noticirios da Fox, e fazer sexo com 
uma mulher branca com mais de 30 anos que considerasse o nus uma via de sada, no de entrada. Aps cinco longos anos, queria acabar com essa misso miservel. 
Obviamente, o cara estava morto, como os outros dois. Por que a garota Templeton no conseguia aceitar isso?
  Quando Tommy King encontrou Lexi Templeton pela primeira vez na festa de aniversrio de 16 anos dela, pensou que estava entrando em uma bolada de dinheiro. Mal 
sabia ele que a busca pelos seqestradores da garota levaria cinco anos longos e infrutferos. Anos em que o detetive particular acumulou mais milhas areas do que 
Henry Kissinger, e para qu? Claro, conseguira fazer um bom p-de-meia. Mas j completara 62 anos de idade e estava cansado. Alm disso, para que servia o dinheiro 
em um lugar imundo como Phuket?
  O agente Edwards, o heri (babaca) do FBI que tirou Lexi da fbrica em chamas tantos anos atrs tentou avis-lo. Tommy King foi visitar o agente na casa dele em 
Long Island, uma manso comprada com o dinheiro do agradecido pai da menina. Subindo pela ladeira de entrada, Tommy King pensou: nossa, o dinheiro Blackwell vai 
longe. Ento, viu o rosto do agente Edwards coberto de cicatrizes e pensou: mas no to longe.
  - Voc no vai encontr-los. Acredite em mim, j tentamos.
  Ficaram sentados no jardim em um bonito dia de primavera. Uma empregada trouxe limonada fresca. Tommy King observou o agente Edwards tomar o suco com o que costumava 
ser a sua boca e tentou no contrair o rosto.
  - O que faz com que tenha tanta certeza?
  - O fogo destruiu tudo, todas as provas materiais. As nicas coisas que temos para nos basear so as descries de Lexi, que so bem detalhadas em alguns aspectos, 
mas no so suficientes. - O agente Edwards balanou a cabea triste. - Temos bastante certeza de que no foi nenhuma das faces criminosas mais importantes.
  - Nada de mfia?
  - Certamente no. Investigamos todo mundo que tivesse alguma desavena com a famlia Blackwell. Real ou imaginria.  uma longa lista.
  - Aposto que sim. - Tommy King tomou um gole da sua limonada. Estava deliciosa.
  - Funcionrios da Kruger-Brent, empregados da casa. At investigamos antigos pacientes do Dr. Templeton. Ele era psiquiatra antes do casamento, sabe? Achamos que 
talvez algum ex-paciente que gostasse de criancinhas...
  Tommy King estremeceu.
  - De qualquer forma, depois de dois anos e um oramento praticamente ilimitado, arquivamos o caso. Eu lhe desejo boa sorte. Mas est procurando trs agulhas em 
um palheiro do tamanho do Canad.

  Dois anos depois, Tommy King encontrou as duas primeiras agulhas: William Mensch e Federico Borromeo. Billy Mensch era um traficante insignificante da Filadlfia 
que virou matador de aluguel, e Borromeo, um criminoso do colarinho branco e jogador compulsivo sem nenhum histrico de violncia. Os dois se conheceram em 1970, 
quando cumpriam pena em um centro de deteno juvenil.
  Ambos morreram juntos em um acidente de carro em Mnaco em 1993, um ano depois do resgate de Lexi.
  Quando Tommy King contou a notcia para Lexi, ento com 18 anos, ela se recusou a acreditar. Escreveu para Tommy, exigindo fotos dos corpos. Aps quatro meses 
dolorosos paquerando a recepcionista solitria e gordinha do Instituto Mdico Legal de Mnaco, Tommy conseguiu. Com as fotos, ele mandou a conta e um bilhete perguntando 
se Lexi queria que ele continuasse a busca pelo terceiro homem.
  "Em dois anos, no descobri nenhum vestgio dele. Como sabe, o FBI tambm no conseguiu nada. Sinto-me na obrigao de dizer-lhe que, na minha  opinio, no conseguiremos 
rastrear esse indivduo e que continuar seria um desperdcio do meu tempo e de seu dinheiro."
  Uma semana depois, Tommy King recebeu um cheque de vinte mil dlares de Lexi Templeton, junto a um bilhete com uma nica palavra.
  Continue.
  Dois anos depois, ele conseguiu uma pista de um homem que se chamava Dexter Dellal, um conhecido estuprador de ladro na rea de So Francisco. Dellal fazia visitas 
regulares ao Extremo Oriente como turista sexual.
  Tommy King reservou um voo para Bangcoc.

  Na Tailndia, Dexter Dellal desaparecera de novo como um peixe nadando no esgoto. Ocasionalmente, com o passar dos meses, Tommy King o via pulando como um salmo 
para fora de um rio de sujeira. Em Bangcoc, ele era conhecido como Mick Jenner, corretor de seguros; em Pantaya, ele era Fred Greaves, fabricante de brinquedos; 
em Phuket, era Travis Kemp, motorista de txi. Tommy King s conseguiu colocar as mos nessa criatura escorregadia na sua ltima encarnao:
  John Barclay, tambm conhecido como prisioneiro 7843A.
  John Barclay levara uma prostituta de 10 anos de idade para o seu quarto de hotel cinco estrelas e foi preso por um esquadro armado tailands 15 minutos depois, 
com as calas abaixadas.
  Dez anos. Sem liberdade condicional. Sem xoxotas pr-adolescentes.
  Muito ruim, Dex. Ou quem quer que voc seja.

  Tommy King estava sentado no bar, esperando seu Blackberry tocar.
  Uma coisa podia dizer de Lexi Templeton. Ela no dormia no ponto. No com uma notcia como essa.
  Como ele esperava, sessenta segundos depois, seu telefone tocou. Abriu um sorriso cheio de dentes de ouro.
  - Obrigada. O seu servio chegou ao fim. Farei a transferncia do dinheiro para a sua conta nas Bahamas na segunda-feira de manh. Adeus, Sr. King.
  Tommy imaginou o que aconteceria agora. Lexi esperaria dez anos at o cara ser solto - se ele vivesse tanto - para se vingar? Ou ela consideraria uma dcada sendo 
estuprado em uma cadeia tailandesa castigo suficiente?
  No se importava. Isso no era mais problema seu.
  Adeus, Srta. Templeton.
  J vai tarde.

  A seis quarteires do apartamento de Lexi, Max estava jantando em casa com sua me.
  - O que houve, querido? Parece tenso.
  Um metro e oitenta de mogno lustroso separavam Eve de seu filho. A mesa estava arrumada formalmente, como sempre, com o jogo completo do faqueiro de prata. Uma 
cozinheira cordon-bleu preparava todas as refeies de Eve, cuidando para que ela ingerisse menos de 1800 calorias por dia. Keith podia ter roubado seu rosto dcadas 
atrs, mas mesmo hoje, aos 55 anos, Eve ainda era vaidosa o suficiente para obcecar-se quanto a manter o seu corpo em forma. Como no podia ir a restaurantes, pois 
temia ser fotografada, Eve tentava fazer com que suas refeies em casa fossem o mais luxuosas e agradveis possvel. Vestia-se para jantar e esperava que Max fizesse 
o mesmo. Esta noite, ela estava usando um vestido longo, verde jade, com gola alta e um profundo decote em V nas costas que ia quase at o quadril. Era um vestido 
para ser usado por uma mulher jovem, mas Eve podia us-lo sem problemas.
  - No  nada. - Max forou um sorriso.
  Eve examinou o bonito rosto do filho, os traos predatrios, sensuais, acentuados pelo smoking preto.
  Ele  de tirar o flego. No h nada do pai nele. Mas como um filho meu  podia mentir to mal?
  - No acho que no seja nada, Max. Diga-me o que houve.
  Max hesitou.
  -  Lexi. Tivemos uma reunio de equipe hoje. Ela ficava sempre tentando me derrubar.
  As plpebras repuxadas e cheias de cicatrizes de Eve se estreitaram.
  - Continue.
  - August Sandford est comendo na mo dela. Tenho certeza de que Jim Bruton tambm quer transar com ela. - Max balanou a cabea. - No incio, achei que o conselho 
s a mantinha entretida durante o estgio. Mas agora no tenho mais tanta certeza. Ela quer a presidncia tanto quanto eu. Ela  inteligente.
  - Ela  surda, Max. - A voz de Eve estava cheia de desdm. - Voc est me dizendo que no pode passar a perna em uma garota que pronuncia palavras com se fosse 
uma bbada? Como uma retardada?
  - Claro que no, me. Eu...
  - Ela  uma vadia!  uma piada! - Ressentimento saa de Eve como pus de um abscesso. - Deixando as boates todos os dias s 5h com a saia levantada.
  Isso no era exatamente verdade. Lexi podia ser promiscua, e podia gostar de festas, mas tinha plena conscincia de imagem pblica. No que Max fosse discutir. 
Odiava a prima tanto quanto Eve. O fato de desej-la sexualmente s fazia com que a odiasse ainda mais. Lexi era tudo que existia entre ele e a Kruger-Brent. Entre 
ele e o amor de sua me. Lexi estava tentando afastar Eve dele. Estava arruinando tudo.
  Eve continuou despejando sua fria.
  - Voc no  um homem.  um bichinha como seu primo Robbie. Como seu pai.
  - No! No tenho nada a ver com Keith.
  - Voc no tem colhes para dirigir aquela empresa.
  - Tenho sim, me. Eu...
  - Sobre o que exatamente foi a reunio de hoje?
  Max contou a Eve sobre sua proposta para captar mais dinheiro para o departamento de internet e sobre as objees de Lexi. Eve ficou em silncio por alguns momentos.
  - Certo - disse ela, finalmente, afastando seu prato. - Eis o que vamos fazer.

  Harry Wilder estava na terceira taa de vinho tinto no bar do Golf Club quando o garom bateu em seu ombro.
  - Telefone para o senhor.
  - Para mim?
  No estava esperando nenhuma ligao de negcios. Era sbado. Sua esposa, Kiki estava fazendo compras com as amigas e, alm disso, ela nunca ligava para o clube. 
Ser que alguma coisa terrvel aconteceu. Algum de seus netos?
  - Pode atender na biblioteca.
  Harry Wilder entrou apressado no salo deserto, com paredes forradas com carvalho, tentando no deixar sua imaginao correr solta. Kiki estava sempre dizendo 
para no se preocupar tanto. Professor Pnico era o apelido carinhoso que ela lhe dera.
  - Al?
  - Eu sei sobre Lionel.
  A voz no era conhecida. Harry nem tinha certeza se era feminina ou masculina.
  - Como?
  - Lionel Jakes. Eu sei.
  Harry Wilder sentiu a boca ficar seca. A lngua comeou a inchar.
  - Quem ?
  - No me diga que voc esqueceu, Harry? Do adorvel Lionel? Da sensao de ter o pau dele na sua boca? Do sabor do gozo dele?
  - Meu Deus! - balbuciou Harry. - Como voc...? Ns ramos meninos, pelo amor de Deus. Garotinhos. Isso foi cinqenta anos atrs. Hoje sou um homem casado e feliz.
  Gargalhada.
  - A sua esposa no sabe sobre Lionel, sabe? E sobre Mark Gannon?
  Harry Wilder sentiu um aperto doloroso no peito. Quem era essa pessoa? como podia saber sobre Mark? Ele estava morto havia vinte anos.
  - O que voc quer?
  Quando a voz disse, Harry no acreditou.
  - S isso? Voc no quer dinheiro?
  Mas a pessoa j tinha desligado.

  Olhando para sua tigela vazia, ele teve a sensao familiar da fome consumindo seu estmago.
  - Mi piang por. - No  suficiente.
  Seus quatro companheiros de cela comearam a bater com as colheres nas tigelas em protesto. A rao normal de arroz que recebiam - uma tigela cheia no caf da 
manh e outra  tarde - tinha sido cortada a dois teros sem nenhuma explicao pelo segundo dia consecutivo.
  - Gla'p maa! - Volte! O guarda tailands gritou, e os homens recuaram como cachorros, os dentes para fora, mas com as cabeas abaixadas em submisso.
  Os cinco eram brancos. A priso de Samut Prakan estava cheia de molestadores de crianas, mas os brancos recebiam o pior tratamento e precisavam ficar afastados 
dos demais prisioneiros. Isso era bom porque significavam que eram apenas cinco na cela, e no oito ou dez como os tailandeses, que fediam. Animais repugnantes. 
Por outro lado, ele desconfiava que os brancos eram os ltimos da fila de comida. Receber sopa de pior qualidade era tolervel. Mas ser privado de arroz no era.
  Fechou os olhos e pensou nos Estados Unidos. Dias mais felizes. Em outras pocas, quando era alimentado, permitia que sua mente se lembrasse das gmeas Blackwell. 
Doce Eve. Tensa Alexandra. Como elas eram perfeitas quando meninas. Como eram macias e pequenas. Pensou em Lexi, filha de Alex. Graas a Federico, aquele maldito 
mexicano, ele conseguiu estupr-la. No totalmente. Claro, houve centenas de menininhas desde ento: tailandesas, cingapurianas, todas virgens adorveis escandalosas. 
Mas, ainda assim, se sentia roubado.
  Eu desejava aquela menina. Ela foi prometida a mim. Trs milhes de dlares, e a pequena Lexi com as pernas abertas para mim. E o que eu consegui? Queimaduras 
de segundo grau e o FBI na minha cola.
  Agora, porm, s conseguia pensar em comida. Como os elefantes cor-de-rosa do filme Fantasia, as imagens danavam em seu crebro: cheesburgers pingando gordura 
e ketchup, chili, cebolas fritas, marshmallows mergulhados em chocolate e manteiga de amendoim...
  - Japas desgraados. Eles esto tentando nos matar.
  Barry, o mais cadavrico de seus companheiros de cela, tinha olhos castanhos fundos e pele que parecia papel cobrindo os ossos. Barry era britnico e se referia 
a todos os asiticos por "japas".
  - No vou agentar mais isso. QUEREMOS NOSSO MALDITO ARROZ, SEUS DESGRAADOS!
  Barry raspou a colher na barra na cela, berrando como um louco.
  Estpido. Vai acabar conseguindo uma surra para todos ns.
  O guarda voltou. Ele recuou e cobriu a cabea, esperando os inevitveis golpes. Mas, em vez disso, para sua surpresa, um caldeiro de sopa apareceu na sola. Os 
guardas foram embora, deixando-o l.
  Por um segundo, todos os cinco ficaram parados, fitando a sopa quente como se fosse uma miragem. Almndegas boiavam na superfcie junto ao macarro. Soltava um 
cheiro fraco de frango, e um mais intenso de repolho. Depois, de uma s vez, todos correram para ao caldeiro.
  - No deixem derramar - algum disse. - E dez mos avanaram sobre o lquido fervente. Lutou como um animal por sua parte, enfiando os pedaos de carne na boca 
trmula, deleitando-se com o caldo salgado que queimava seus dedos e lngua. Quando no havia mais nada alm de lquido, pegou sua tigela, os outros o imitando, 
colocando at a ltima gota em suas barrigas desprovidas de arroz.
  Em menos de um minuto, j tinha acabado. Voltou rastejando para seu canto, exausto e, por um breve momento, saciado.
  Primeiro, achou que era apenas uma espcie de clica. Era comum sentir dores depois das refeies aqui, principalmente quando as raes eram escassas. Mas, ento, 
sentiu uma fisgada to forte que gritou, como se algum estivesse enfiando uma faca no seu apndice.
  Olhou para Barry, dou outro lado da cela. Ele estava de joelhos, vomitando.
  Bam! Mais uma facada. Que diabos...? Suas costas arquearam em um espasmo com tanta violncia que era como se seu pescoo fosse quebrar. Logo seu corpo inteiro 
estava pulando, danando uma grotesca dana da morte, como se estivesse levando choques administrados por um basto eltrico invisvel.
  Eles nos envenenaram. Os malditos nos envenenaram!
  Abriu a boca para pedir ajuda, mas um vulco de sangue e vmito foi colocado para fora. Escutou gritos. Os pequenos guardas tailandeses estavam correndo para a 
cela, suas pernas curtas batendo no concreto em pnico. Ento, uma nvoa vermelha e tudo ficou quieto.

  Na cozinha da priso, o novo servente esperou at que todos os cozinheiros sassem.
  Alguma coisa terrvel est acontecendo nas celas. Voc ouviu isso? Vamos ver o que .
  Ento, ele escapou pela porta dos fundos, to quieto e despercebido quanto uma barata, e entrou na carroceria de um caminho de entrega.
  Dois minutos depois, o caminho atravessou os portes da priso, seguindo pelas tumultuadas ruas de Bangcoc. No primeiro cruzamento, o servente abriu a porta e 
pulou para fora, desaparecendo na confuso de vielas e quintais que conhecia desde a infncia.
  Quando teve certeza de que estava sozinho, enfiou a mo no bolso e pegou um telefone celular.

  Lexi fitou August Sandford incrdula.
  - No entendi. Como isso aconteceu?
  August mordeu a lngua. Que parte? O oramento do departamento de internet foi triplicado da noite para o dia? Ou eu ser afastado da equipe?
  Em voz alta disse:
  - No sei. Harry Wilder conseguiu que o oramento fosse aprovado pelo conselho. Depois pediu demisso, indicou Jim Bruton como chefe da equipe, com Tabitha como 
vice. Quando percebi, me transferiram para o departamento imobilirio.
  - Mas isso no faz sentido. Voc era a pessoa mais bem qualificada do departamento.
  Nem me diga.
  - No faz mesmo. Mas acho que faz para seu primo. Max no  meu f nmero um. Garantiram que ele ter uma vaga no departamento de internet quando vocs se formarem. 
Sabia disso?
  Lexi no sabia. S havia uma vaga no nvel de associado disponvel no departamento de internet. A vaga dela.
  - Parece que voc vai ser transferida para o setor imobilirio comigo.
  Lexi levou menos de 45 segundos para chegar ao escritrio do pai. Entrando de repente, com muita raiva para falar, ela comeou a sinalizar para Peter a cem quilmetros 
por hora.
  - Que brincadeira  essa? Voc est fazendo algum acordo com Max nas minhas costas?
  Peter se fez de desentendido.
  - Devagar, querida. Ningum est fazendo nada disso.
  - Voc aprovou um aumento para o oramento da internet.
  Peter deu de ombros.
  - Harry Wilder defendeu o projeto com veemncia.
  - O projeto no era de Harry, era de Max. Ele quer comprar um monte de empresas das quais no sabe nada a respeito.  uma loucura. Wilder e os outros s os esto 
apoiando porque acham que ele ser presidente.
  Peter ficou em silncio. No escondera de ningum o fato de que no queria que Lexi assumisse a Kruger-Brent. Se as coisas tivessem sido diferentes com Robert, 
talvez ele pudesse ter assumido a presidncia um dia. Era o que Kate Blackwell queria. Mas Robert escolhera seu prprio caminho. S de pensar que Lexi poderia assumir 
seu lugar um dia, Peter era tomado de terror. Ela j passara por tanta coisa. No fazia idia do que a Kruger-Brent era realmente: um monstro, uma maldio que engolia 
as pessoas vivas. Kate Blackwell se deixava consumir pela empresa. Seu filho, Tony, ficou louco. Os sonhos e esperanas de Peter foram sacrificados ao monstro, para 
o bem de Alex. Mas ele queria um destino melhor para Lexi. Uma vida normal, marido, filhos.
  Lexi, porm, tinha outras ideias.
  - August Sandford me disse que voc garantiu que Max ter um emprego no departamento de internet.  verdade?
  Peter parecia pouco  vontade.
  - Foi uma deciso de Jim Bruton.
  - Voc  o presidente, pai. Voc sabia que era onde eu queria trabalhar. Eles me mandaram para o setor imobilirio, um beco se sada...
  - Escute, querida...
  - No, pai. Escute voc. S porque voc no quer que eu seja presidente, acha que voc e Max podem me colocar de lado. Bem, que se danem voc e seu clube do Bolinha. 
 porque sou mulher, no ? - Lexi estava furiosa. - Isso  um absurdo. Kate Blackwell era mulher e foi a melhor presidente que a Kruger-Brent j teve.
  -  verdade - murmurou Peter. No podia negar. - Dona do jogo. Era assim que as pessoas costumavam cham-la.
  - Senhora - disse Lexi. - Senhora do jogo. Que  exatamente o que eu vou ser, no importa o que voc, Max e todos os outros machistas daqui pensam.
 Peter observou-a sair, um furaco de indignao justa, batendo a porta da sala dele ao sair.
  Ela se parece tanto com Kate, pensou ele.
  Teve um mau pressentimento.

  No corredor, Lexi se forou a respirar fundo para se acalmar.
  Departamento imobilirio? Por que no contabilidade? Por que no a maldita portaria?
  Todos sabiam que o departamento imobilirio da Kruger-Brent era um dos mais fracos. Se a empresa tinha um centro que pegava fogo, o setor imobilirio estava o 
mais afastado dele possvel.
  Max acha que pode me enterrar viva com August. O que os olhos no vem, o corao sente.
  Veremos.
  O telefone celular de Lexi vibrou em seu bolso. Mensagem nova, nmero desconhecido. Ela leu as quatro palavras da tela. De repente, nada mais importava. Nem Max, 
nem Kruger-Brent, nada.
  Correu para o banheiro, entrando direto em um cubculo e trancando a porta. S quando sabia que estava sozinha, leu o texto de novo, permitindo que seus olhos 
saboreassem a frase mais bonita que j lera:
  O porco est morto.
  Os joelhos de Lexi ficaram fracos e ela caiu sentada no vaso sanitrio, lgrimas escorrendo pelo seu rosto. Durante anos, permitiu-se acreditar que se esqueceria 
dos fantasmas de sua infncia e das coisas terrveis que lhe aconteceram. Agora ela viu que era apenas uma fantasia. A dor sempre estaria ali. Sempre.
  Nunca teria fim. No nesta vida.
  S vingana.
  Lexi saboreou o gosto doce por alguns preciosos momentos. Depois, enxugou as lgrimas, apagou a mensagem de seu telefone e voltou para sua sala como se nada tivesse 
acontecido.

  Captulo 19

  FRICA DO SUL, CINCO ANOS ANTES (2000)

  A Cidade do Cabo era totalmente diferente de tudo que Gabe McGregor j vira.
  Depois de um vo de 12 horas na classe econmica da South Airways que era um circo (uma famlia de 11 pessoas tentou embarcar com uma caixa cheia de galinhas vivas 
como bagagem de mo, e vrios homens adultos dormiram nos corredores), gabe chegou com os olhos turvos na rea de desembarque do Aeroporto Internacional da Cidade 
do Cabo para comear o novo milnio no apenas em um novo continente, mas em um novo mundo. Pessoas de todas as raas e religies se misturavam no saguo de mrmore 
como formigas multicoloridas. Homens usando as tnicas tradicionais africanas e mulheres equilibrando cobertores de l ou cermicas em cima de suas cabeas cruzavam 
com executivos asiticos usando ternos feitos sob medida. Crianas de rua seminuas cercavam a esteira que levava as malas ao lado de crianas norte-americanas vestidas 
do p  cabea de Ralph Lauren, visitando a Cidade do Cabo com os pais para as ostentosas festas do novo milnio. Cheiros desagradveis e azedos de suor e viagem 
eram sobrepujados pela fragncia doce de coco da manteiga de Shea, loes ps-barba caras e o cheiro delicioso de Boerewors, as tradicionais salsichas holandesas 
que os ambulantes vendiam do lado de fora. Todos os sentidos de gabe foram tomados por alguma coisa nova.
  Ser que foi assim que Jamie McGregor se sentiu tantos anos atrs? Ao sair de seu barco, The Walmer Castle, e entrar em um cais de sons e vises desconhecidas.
  Como Jamie, gabe nunca viajara para outro pas antes. A no ser que uma caravana de frias para a ilha de Mull com a famlia quando tinha 8 anos de idade contasse 
(para gabe no contava). Ambos vieram para a frica do Sul para fazer fortuna, determinados a amar o pas e transform-lo em seu lar.
  Logo todos esses cheiros, sons e vises sero normais para mim. Tenho a frica em meu sangue, afinal.

  - Eu odeio a maldita frica. Quero voltar para casa.
  Gabe estava sentado em um banco de bar em um pub irlands em Camps Bay. Ser que j existem pubs irlandeses na lua? Provavelmente. Pelo menos um McGinty's. J 
estava na Cidade do Cabo h uma semana, tempo durante o qual sofrera um assalto a mo armada, em que levaram sua carteira e seu passaporte, desenvolvera uma misteriosa 
doena estomacal que o fazia ficar ajoelhado na frente do vaso sanitrio todas as noites e no conseguira arranjar um lugar para morar. Ah, e cada milmetro de sua 
pele branca escocesa tinha sido mordido por mosquitos do tamanho de morcegos.
  - Por que voc no volta, ento?
  A garota era norte-americana. Uma morena com alegres olhos verdes e um corpo feminino do qual gabe no conseguia tirar os olhos. Aps oito anos na priso, aprendera 
a apreciar ainda mais as formas femininas, e as dessa garota eram maravilhosas.
  Ela se apresentou como Ruby.
  - Por que voc no volta para casa?
  - No posso. - Gabe esperava no estar com o rosto corado. Deus, ela era linda. - Acabei de chegar aqui. No posso voltar para casa at que esteja rico o suficiente 
para pagar todo mundo que devo.
  - Ento voc no  rico?
  - Ainda no.
  - Por que voc odeia a frica?
  - Quanto tempo voc tem? - Gabe fixou seus olhos cinza nos verdes de Ruby e decidiu que odiava a frica um pouco menos agora do que dois minutos antes. - Deixe-me 
pagar um drinque para voc e conto tudo.
  Eles conversaram por mais de uma hora. Ruby era de Wisconsin. Veio para Cidade do Cabo dez anos antes para trabalhar como modelo.
  - Dez anos atrs? Quantos anos voc tinha na poca? Seis?
  Ruby sorriu.
  - Treze. Desisti de ser modelo aos 17.
  - Por qu?
  - Velha demais.
  Gabe caiu na gargalhada.
  - E muito baixa. Com 17 anos, no se cresce mais.
  Gabe fitou as pernas sem fim da moa.
  - Voc sabia que tem jogadores profissionais de basquete mais baixos que voc? Caramba, devem ter prdios mais que voc.
   Ruby riu, um riso rouco e baixo que fez Gabe ter vontade de arrancar as suas roupas ali mesmo. Contou a ela a sua histria, deixando de lado a parte de ser sustentado 
por mulheres mais velhas. No havia necessidade de dar um tiro em cheio no prprio p. Mas todo o resto era verdade: o vcio, a priso, Marshall Gresham, a ligao 
da sua famlia com a frica do Sul.
  - Voc  parente do Jamie McGregor? Da Kruger-Brent? No est brincando comigo?
  - Juro pela minha me. Mas no fique com a idia errada. No sou do lado Blackwell da famlia. O meu lado no ficou com nada.  por isso que estou aqui, para ganhar 
a minha prpria fortuna.
  Gabe contou a Ruby suas ambies no setor imobilirio.
  - Talvez eu possa lhe ajudar nisso. Tenho um amigo, um cara chamado Lister, que  incorporador em Franchoek. Ele ainda  relativamente pequeno, mas sei que est 
procurando um scio.
  Os olhos de Gabe faiscaram de animao. Finalmente! Um contato. Um comeo.
  A mo de Ruby estava na perna dele. Os olhos, na braguilha de seu jeans.
  Gabe corou.
  - Desculpe.  que faz tanto tempo.
  Ruby sorriu. Ele ficava ainda mais bonito quando ficava encabulado.
  - No precisa se desculpar. - Ela tomou o que restava de seu drinque. - Vamos para a cama.
  
   Gabe morou com Ruby por seis meses, os mais felizes de sua vida. Ruby apresentou-o ao seu amigo. Damian Lister, um arquiteto local que se tornara incorporador, 
e os dois se entenderam na mesma hora. Damian era alto e muito magro, com nariz e pomo de ado proeminentes. Fazia Gabe pensar em uma encarnao do Dr. Seuss. Por 
sorte de Gabe era um f de futebol, o que ajudou a quebrar o gelo. Conversaram sobre o desempenho medocre de Celtic naquela temporada, e se Ashley Cole merecia 
um lugar no time do Arsenal, e de repente eram velhos amigos. O irmo de Damian, Paul, cumprira pena de cinco anos peculato, ento Damian no se importava com a 
ficha criminal de Gabe.
  - Todos cometemos erros. O importante  aprender com eles. Voc claramente aprendeu a sua lio.
  Damian Lister estava construindo um novo condomnio residencial em Franchoek, uma famosa rota do vinho e destino turstico a uma hora da Cidade do Cabo. Ele se 
dera bem em investimentos parecidos em Stellenbosch e Bellville, ambas cidades-dormitrios.
  - O meu problema so os bancos, sabe? O rande est em alta, mas eles ainda esto sendo muito cautelosos, at para pessoas com um histrico como o meu.
  - Por que no tenta um emprstimo em um banco estrangeiro? - perguntou Gabe. - Tenho certeza de que os norte-americanos o financiariam.
  - Eu poderia - concordou. - Mas prefiro ter um scio. Algum que eu conhea e confie. Algum que no vai puxar o meu tapete assim que os negros comearem a colocar 
manguinhas de fora de novo, fazendo a economia parecer instvel.
  A nica caracterstica negativa em Damian era seu discurso racista. Gabe atribua isso  cultura e  educao. No era possvel apagar sculos de preconceito da 
noite para o dia.
  Alm disso, tive muita sorte de ele me querer como scio. Com seus conhecimentos e seus contatos aqui, o dinheiro de Marshall render muito mais do que se estivesse 
sozinho.

  Gabe passava os dias no canteiro de obras em Franchoek, supervisionando os operrios, enquanto Damian ficava no escritrio na Cidade do Cabo, cuidando das finanas. 
Gabe adorava observar o condomnio ganhar forma, passar a mo carinhosamente nas paredes de tijolo e cimento que fariam sua fortuna. Marshall lhe ensinara tanto, 
mas era tudo teoria. Aqui era real. Isso excitava Gabe quase tanto quanto herona.
   noite, Gabe ia para casa ficar com Ruby. Ela cozinhava algo simples para eles, bife com salada ou peixe assado com batatas, eles comiam na varanda do apartamento 
bem-iluminado dela com vista para o oceano. Aps uma ou duas taas de vinho do Cabo, geralmente Stellenbosch, eles passavam horas conversando sobre suas vidas, esperanas 
e sonhos. Ruby contava um pouco sobre seu passado. Era vaga quando falava da famlia, apenas com pinceladas gerais. Aps algumas semanas, Gabe percebeu que, apesar 
de todas as conversas, no sabia quase nada sobre o dia dela quando no estavam juntos. Ela trabalhava com arte e falava que um dia queria abrir uma galeria na Espanha. 
Mas Gabe nunca via nenhum quadro nem a escutava em telefonemas de negcios. Quando ele pressionava, pedindo mais detalhes, Ruby ria e perguntava:
  - O que isso importa? Eu vivo o momento. O agora. Quando estou com voc, s o que importa somos ns dois. Esse  o segredo para a felicidade.
  Fazendo amor com ela na praia sob as estrelas, Gabe comeou a acreditar. E da que no sabia quais galerias ela representava ou o nome do seu primeiro cachorro? 
Ruby era a mulher mais sensual, carinhosa e incrvel que j conhecera. Ela fizera com que a frica do Sul deixasse de ser um pesadelo e se transformasse em um sonho. 
Devia estar grato, e no ficar importunando-a com perguntas.

  A viagem de uma hora da Cidade do Cabo para Franschoek de manh era a melhor parte do dia de Gabe. Passando pelas montanhas e pelos vinhedos em seu Fiat Punto 
velho (determinado a no desperdiar nenhum centavo do dinheiro de Marshall, Gabe comprou o carro mais barato que conseguiu encontrar) nunca deixava de ficar encantado 
com a paisagem. Franschoek significa Canto Francs, por causa dos huguenotes franceses que colonizaram a regio montanhosa mais de trezentos anos atrs. Eles trouxeram 
consigo uma cultura e culinria pelas quais a cidade ainda era famosa hoje em dia. Seno escocs, Gabe sabia pouco sobre a cultura e a culinria dos huguenotes, 
mas ainda assim, sentia uma afinidade com eles. Assim, como ele, eram prias em seus pases e vieram para este pas distante e estranho recomear suas vidas. Geralmente, 
na hora do almoo, Gabe se sentava para comer seu sanduche perto do monumento huguenote no topo da aldeia. Na Main Street, havia vrios cafs e restaurantes charmosos, 
oferecendo a melhor comida do pas, mas Gabe sempre trazia o prprio almoo. At que pagasse suas dividas com todo mundo - Marshall, Claire, Angus Frazer -, no 
tinha direito a desfrutar de luxos.
  Como de costume, naquela manh, Gabe estacionou seu Punto no final da Main Street e caminhou seis quadras at o condomnio que ele e Damian estavam construindo. 
Era oito "casas executivas", confortveis, no estilo rancho, com piscina e jardim. O tipo de casa no qual eu gostaria de ter crescido. Gabe sabia que era tolice 
sentir uma ligao emocional com sem empreendimento. Mas agora que estava comeando a tomar forma, estava orgulhoso das casas que ele e Lister estavam criando. Podia 
visualizar as familiar que viveriam aqui, protegidas pelas magnficas montanhas por todos os lados, seguras nas paredes solidas que Gabe construra.
  Espero que sejam felizes.
  Ao virar a esquina para entrar no canteiro de obras, Gabe parou. Por um momento, ficou ali parado, piscando, como se seus olhos o estivessem enganando. O lugar 
estava deserto. O que deveria ser uma colmia em atividade - homens, trabalhando, misturadores de cimento, caminhes cheios de pedras rolando pela lama de vero 
- fora transformado em um deserto abandonado. No era o simples fato de no haver ningum trabalhando. Todo o equipamento tinha sumido. As pilhas de areia e tijolos. 
S o que restavam eram oito esqueletos de casas inacabadas sob o cu azul da frica.
  O primeiro pensamento que ocorreu a Gabe foi: fomos roubados.
  Pegou seu telefone celular, depois lembrou que estava sem bateria. Precisava ligar para Damian. E para a polcia. Aproximando-se da casa mais prxima, Gabe bateu 
na porta, afobado, o corao acelerado. Uma mulher vestida com um penhoar atendeu.
  - Desculpe incomod-la to cedo. Mas ser que podia usar seu telefone?  uma emergncia.
  A mulher de meia-idade tinha cabelo curto e descolorido, e um rosto que j fora bonito, mas que hoje mostravam o cansao da maternidade. Fitou o Adonis desesperado 
de p na sua varanda e lamentou no ter tido tempo de se maquiar naquela manh. Endireitando o cabelo a barriga, ela fez um gesto para Gabe entrar.
  - Eu o conheo, no? Quer dizer, j o vi por aqui. Era o gerente da obra dessas casas Lister.
  Gabe assentiu, distrado, procurando o telefone.
  - Acho que fomos roubados. Levaram tudo do canteiro de obras.
  A mulher o fitou de forma curiosa.
  - Mas era o seu pessoa - disse ela. - Achei estranho eles aparecerem para trabalhar em um domingo.
  - O meu pessoal esteve aqui ontem?
  - Estava, chegaram bem cedo, com vrios caminhes. Meu marido saiu para reclamar por causa do barulho, sabe? O mestre de obras disse que voc e seu scio tinham 
pedido falncia e ido embora da cidade. Tambm disse que estavam com o salrio atrasado havia seis semanas, ento pegaram tudo que puderam carregar e foram embora 
- Ela disse "embora".
  Gabe sentiu seus joelhos ficarem bambos. Afundou em uma poltrona e tentou pensar.
  Por que eles achariam que estvamos falidos? E por que Jonas, o mestre de obras, no me ligou?
  Ento, se lembrou do telefone desligado. Passara o fim de semana sem poder ser localizado. Ruby o convencera a fazerem uma viagem de barco e deixar o telefone 
em casa. Seriam apenas os dois, vivendo o momento. o agora, como Ruby gostava de chamar com aquele jeito norte-americano engraadinho, nova era dela. Nadaram, pescaram, 
fizeram amor. Foi um final de semana mgico.
  Gabe discou o nmero do escritrio de Damian. Certamente, acontecera algum mal-entendido terrvel.
  Aps seis toques, uma voz automtica anunciou: "O nmero de telefone que voc discou est desligado."
  Com o pnico crescendo no peito, Gabe ligou para o telefone de Damian. Um nico bipe longo indicativo de que aquele nmero no existia soou em seu ouvido. Ligou 
para o apartamento, na esperana de encontrar Ruby, mas ela no estava em casa. Imaginou o telefone sem fio branco sobre a mesinha de centro tocando sem parar na 
sala de estar vazia e, de repente, sentiu uma tristeza indescritvel. O celular de Ruby tambm estava desligado. Sem saber mais o que fazer, Gabe ligou para a polcia.
  - Estou falando com Gabriel McGregor,  isso mesmo? - O sargento de planto parecia quase empolgado, incrdulo, como se Gabe fosse algum tipo de celebridade.
  - Isso mesmo, eu j disse. Estou ligando de uma casa do outro lado da rua. A minha propriedade foi roubada, no consigo encontrar meu scio...
  - Fique onde est, Sr. McGregor. Mandarei algum encontr-lo logo, prometo.
  Enquanto Gabe estava ao telefone, a dona da casa passou um pouco de batom e vestiu uma bermuda jeans desbotado e uma camiseta cor-de-rosa que marcava seus mamilos 
proeminentes. Gabe nem percebeu. Ela preparou uma xcara de ch quente e doce, que ele tomou, a cabea a mil por hora. Aps o que pareceu uma eternidade, a campainha 
tocou.
  - Deve ser a polcia - disse a mulher.
  - Graas a Deus. - Gabe ficou de p. Quatro oficiais uniformizados entraram na sala de estar. Ele estendeu a mo para cumprimentar. - Cara, estou feliz em ver 
vocs.
  - O sentimento  recproco - disse o oficial mais velho.
  Colocou algemas nos pulsos de Gabe.

  S uma srie de milagres evitou que Gabe fosse preso pela segunda vez.
  Hunter Richards, o detetive responsvel pelo caso, viu alguma coisa nos olhos cinza e tristes de Gabriel McGregor que achou que era digno de confiana. O rapaz 
fora um tolo. Perdera milhes de randes, que foram para diretamente nas mos de Damian Lister. Mas o detetive Richards no acreditava que ele tivesse a inteno 
de enganar algum, mesmo sendo um ex-presidirio. O pessoal de Franschoek falava muito bem do carter de Gabe. Conforme a investigao seguiu, e mais e mais vitimas 
dos charlates Ruby Frayne e Damian Lister comearam a aparecer, o caso contra Gabe, gradualmente comeou a se resolver.
  Ruby e Damian eram amantes e scios havia mais de uma dcada. No havia nenhuma galeria de arte, nenhum irmo preso, nenhuma famlia em uma pequena cidade de Wisconsin. 
Cada pedacinho da felicidade de Gabe nos ltimos seis meses tinha sido construdo em cima de mentiras. Foi a primeira vez que sentiu o gosto da traio que suas 
namoradas de Londres devem ter sentido quando descobriram que ele as estava usando para conseguir dinheiro. Gabe no deixou de perceber a ironia.
  Nem todo mundo acreditava na inocncia de Gabe. Durante alguns meses terrveis, ele viveu com a ameaa de um processo. Mas qualquer caso que mandassem para o tribunal 
seria longo e caro. No final, a polcia decidiu que valeria mais a pena se concentrar em Lister e Frayne. No fim das contas, foram eles que ficaram com o dinheiro. 
Gabe no tinha nada.
  No dia em que o caso contra ele foi formalmente encerrado, Gabe voltou ao bar em que conhecera Ruby e bebeu at ficar inconsciente. Mesmo depois de tudo que tinha 
acontecido, ainda sentia saudades dela. No conseguia evitar. Quando acordou na manh seguinte, estava deitado na rua, perto de latas de lixo como se fosse lixo 
humano. Algum tinha roubado seus sapatos. No havia mais nada para levar.
   isso. Fim do poo. Posso voltar para as drogas, para as ruas. Ou posso dar a volta por cima.
  No era uma escolha bvia. Gabe estava cansado de lutar, exausto. Culpava-se inteiramente pelo que tinha acontecido.
  No posso ser como meu pai e culpar os outros pelas minhas infelicidades. Foi a minha prpria estupidez que me trouxe at aqui.
  Mas no final, Gabe disse para si mesmo que no tinha escolha. Muitas pessoas acreditaram nele, principalmente Marshall Gresham. Que direito tinha de desistir antes 
de pagar suas dvidas? At l, pensou Gabe, no podia jogar sua vida fora, pois ela no lhe pertencia.
  Vou pagar Marshall. Depois eu decido se me restou algum motivo para viver.

  O primeiro ano foi um inferno. Generosamente, Marshall Gresham garantiu a Gabe que no estava com pressa de receber seu dinheiro de volta, mas o orgulho de Gabe 
o impulsionava. Precisava comear a ganhar alguma coisa. Com seu histrico, ningum ia lhe oferecer emprego de colarinho-branco em alguma imobiliria. Sua nica 
opo era pegar no pesado e trabalhar nos canteiros de obra at que tivesse dinheiro para voltar a investir.
  J fiz isso antes e posso fazer de novo. No tenho medo do trabalho pesado.
  Mas isso aqui no era Londres. Gabe no estava preparado para o trabalho extenuante, puxando tijolos e misturando cimento sob um calor de quarenta graus, sendo 
mordido at no poder mais por mosquitos. Ele frequentemente observava que era o nico homem branco da equipe, o que o deixava mais solitrio e desanimado. Os negros 
falavam suali entre eles, rindo e brincando enquanto levantavam enormes pedras como fosse uma me levantando seu beb. Gabe sempre se considerara forte e em boa 
forma fsica. Mas aos 30 anos, com o tnus muscular de um homem branco, no podia se comparar aos rapazes locais de 19 anos. Toda noite, voltava quase rastejando 
para seu quarto alugado imundo em Kennedy Road e caa na cama, o corpo latejando de dor. Nos primeiros seis meses, antes de a pele de Gabe ficar calejada, suas mos 
ficavam cobertas de bolhas e sangravam tanto que parecia estigmatizado. O pior de tudo era a solido. Ela o seguia para todos os lugares, como um caador  espreita, 
at nos seus sonhos durante as noites. s vezes, uma semana inteira sem conversar com ningum alm do mestre de obras que pagava seu salrio. Gabe precisava fazer 
um esforo enorme para no se deixar levar pela depresso e pelo desespero.
  Eu sobrevivi  herona. Sobrevivi  priso. Posso sobreviver a isto.
  E devagar, conforme os meses se transformavam em anos, ele sobreviveu. Parar de beber foi o primeiro passo, no tanto por escolha, mas por necessidade fsica. 
O corpo de Gabe j estava em seu limite. No podia trabalhar de ressaca. Sem o lcool em seu sangue, comeou a dormir melhor. Seu humor e seu nvel de energia comearam, 
imperceptivelmente, a melhorar. Em uma ocasio quando levantou a cabea e sorriu para os negros que trabalhavam ao seu lado, percebeu que eles no eram to distantes 
quanto acreditava. Foi quando pensou que talvez fosse ele quem se mantivera to isolado, no eles.
  Fez amizade com um homem chamado Dia Ghalli. Dia era um brincalho, bem-humorado, que soltava gargalhadas graves com uma intensidade e freqncia que pareciam 
incongruentes com seu corpo magro. Dia era uns trinta centmetros mais baixo que Gabe, e to negro quanto Gabe era branco. Mas Dia levava to a srio quanto Gabe 
a inteno de ser algum na vida.
  - Eu cresci em Pinetown. Sabe o que aconteceu na rua em que eu morava na semana passada? Uma nenm de 4 meses foi morta por um rato. Morta. Por um rato.
  Gabe ficou horrorizado, como no podia deixar de ficar.
  - A cidade se recusa a recolher o lixo, ento os ratos esto em todos os lugares. Eles dizem que quem mora em favela  "ilegal" e por isso no tem direito a servios 
pblicos. Como se escolhssemos viver daquele jeito. Bem, isso no vai acontecer com meu filho. De alguma forma. Vou sair de l.
  Juntando seu dinheiro com Dia, Gabe finalmente conseguiu sair do quarto em que morava. Juntos, os dois alugaram um apartamento minsculo de dois quartos no centro 
da cidade. Era uma caixa de sapato, mas para eles era o Ritz.
  - Sabe o que podamos fazer? - Gabe saiu de seu primeiro banho quente em um ano e meio e encontrou Dia assistindo crquete na televiso de segunda mo deles. - 
Deveramos comear um negcio nosso em Pinetown. Esse  o problema da frica do Sul. Existem favelas e manses, nenhum meio termo. Custo baixo, casas populares, 
meu amigo. Esse  o futuro.
  Dia assentiu sem pensar.
  - Certo. Mas saber o que precisamos fazer primeiro?
  - O qu?
  - Conseguir uma mulher para transar.

  Gabe no tinha uma mulher desde Ruby. O lcool apagara a sua libido. Desde que parara de beber, comeara, devagar a olhar para as mulheres de novo. Mas estava 
pobre e exausto para perder tempo pensando em namoro. Ao andar pelos bares de Victoria & Albert Warterfront com Dia, olhando as garotas com suas minissaias e saltos 
altos, embonecada para uma noitada, Gabe se sentiu como uma tartaruga acordando da hibernao. Suas primeiras tentativas de conversar com mulheres no foram bem-sucedidas.
  Gabe no conseguia entender. Sempre achara flertar to fcil.
  -  porque voc est comigo - disse Dia. - As mulheres no confiam em homens brancos que saem por a com um nativo.
  - Um nativo? - Gabe riu. - Que isso, Dia, o Apartheid j acabou h anos;
  Dia levantou uma sobrancelha.
  - Mesmo? Onde voc esteve nos ltimos anos, irmo? Em uma caverna?
  Ele estava certo. Ao olhar em volta, Gabe percebeu que nenhum dos grupos que passeavam por ali era inter-racial. Brancos e negros podiam as mesmas lojas e os mesmos 
bares, mas no se misturavam. Gabe pensou em seu ancestral Jamie McGregor e sua amizade duradoura com Banda, um revolucionrio nativo. Cento e cinqenta anos se 
passaram desde aquela poca. Mas o quanto realmente mudou?
  Felizmente, Dia no estava a fim de filosofar.
  - Olhe aquela belezura perto da fonte. - Ele apontou para uma garota negra e magra, vestindo uma cala jeans justa e top decorado com lantejoulas. Quando ela olhou 
e viu que ele a estava encarando, sorriu.
  Dia sorriu para Gabe.
  - Agora, voc est sozinho, irmo. No me espere acordado.

  O nome da garota era Lefu. Menos de um ano depois, Dia se casou com ela.
  - Pare de reclamar - disse Dia para Gabe enquanto lacrava a sua ltima caixa. Ele e Lefu iam morar sozinhos a poucas quadras dali. - Agora as suas mulheres brancas 
enlouquecidas podem gritar o quanto quiserem.
  Gabe sentiria falta de Dia. Mas era verdade, seria bom ter privacidade. No levara muito tempo para redescobrir seu toque mgico em relao s mulheres. Ele logo 
compreendeu que a Cidade do Cabo era uma Meca para as modelos do Leste Europeu. No paravam de chegar garotas para entrarem nas novas agncias - Faces, Infinity, 
Max, Outlaws -, que aproveitavam as perfeitas condies climticas da frica do Sul, onde fazia sol o ano inteiro. Gabe McGregor fez disto sua misso (ou melhor, 
seu dever como cristo) no deixar que as pobrezinhas sentissem muita saudade de casa.
  - Estou fornecendo um servio gratuito - disse ele a um invejoso Dia e uma crtica Lefu, quando outra linda mulher tcheca saa de seu apartamento satisfeita. - 
Algum tem de fazer com que as pobrezinhas se sintam bem-vindas.
  Agora que Gabe finalmente tinha sido promovido a mestre de obras, estava trabalhando menos horas e ganhando mais dinheiro. J pagara a Angus Frazer e todos os 
outros que lhe emprestaram dinheiro para seu recurso. No dia de seu aniversrio de 34 anos, ligou para Marshall Gresham. Marshall tinha sido solto de Wormwood Scrubs 
no Natal anterior e agora estava morando com todo o luxo em uma nova manso perto de Basildon.
  - Achei que voc tivesse fugido - disse Marshall.
  Era uma brincadeira, mas Gabe ficou horrorizado.
  - Eu nunca faria isso. Levou um pouco mais do que eu esperava para conseguir juntar o dinheiro, s isso. mas eu consegui, cada centavo. Para onde devo mandar o 
cheque?
  - Para lugar nenhum.
  Gabe ficou confuso.
  - Cinco anos atrs, eu lhe disse, no disse? - falou Marshall. - Aquele dinheiro era um investimento. O que eu quero saber  quando voc vai levantar esse traseiro 
preguioso e comear um novo negcio?
  Gabe tentou no parecer to comovido quanto estava.
  - Mesmo depois do que aconteceu? Voc ainda confia em mim?
  - Claro que confio em voc, otrio. S no faa mais sociedades com charlates.
  - Ah. Falando em scios...
  Gabe contou a Marshall sobre Dia e seus planos de construir condomnios baratos nas reas pobres de Pinetown e Kennedy Road. Marshall foi ctico.
  - O seu plano parece bom. Mas no entendo por que precisa desse camarada negro. O que ele acrescenta  sociedade?
  - Ele cresceu em Pinetown. Conhece a rea melhor do que eu. Alm disso, 98 por cento da populao desses bairros  negra. Preciso de um rosto negro na equipe para 
que os nativos confiem em mim.
  Gabe no mencionou que a amizade de Dia era mais importante para ele do que qualquer negcio. Mesmo se isso significasse que teria de devolver o investimento de 
Marshall, nunca deixaria Dia desamparado. Felizmente, no precisou.
  - Certo. Voc sabe o que est fazendo. Ligue-me quando duplicar o meu dinheiro.
  Gabe riu.
  - Pode deixar.
  Estava de volta aos negcios.

  Gabe e Dia chamaram a nova empresa de Fnix, porque surgiu das cinzas de suas vidas anteriores.
  No comeo, todo mundo achou que eles eram loucos. Outros construtores riram da cara de Gabe quando ele contou o plano de negcios da Fnix.
  - Voc perdeu a cabea. Nenhum daqueles favelados pode comprar uma casa. E ningum que possa comprar vai querer morar a trinta quilmetros dessas reas.
  Outros foram ainda mais longe.
  - Voc vai para casa  noite, os kaffirs colocam fogo no lugar. Aquela molecada no tem nada melhor para fazer. Quem voc acha que vai assegurar a obra em Pinetown?
  Realmente, o seguro foi um problema. Nenhuma das empresas conhecidas sequer recebia a Fnix. Quando Gabe j estava perdendo a esperana, Lefu ofereceu a salvao, 
apresentando Dia ao namorado de uma prima que trabalhava em uma seguradora de prdios s para negros em Johannesburgo.
  - Os valores so altos. - Dia entregou a Gabe a cotao.
  - Altos? - Gabe leu o nmero e quase desmaiou. - Esse cara devia estar alto quando chegou a esse valor. Diga a ele que pagamos metade.
  - Gabe.
  - Certo, dois teros.
  - Gabriel.
  - O qu?
  -  a nossa nica opo. Ele est fazendo um favor a Lefu. Como amigo.
  - Com amigos como ele, quem precisa de inimigos? - lamentou Gabe.
  Pagaram o valor total.

  No final do primeiro ano, a Fnix estava setecentos mil randes no vermelho. Tinham construdo trinta pequenas casas pr-fabricadas com gua encanada e eletricidade, 
e no tinham vendido nenhuma. Gabe perdeu peso e comeou a fumar. Dia, com um beb em casa e outro a caminho, continuava inexplicavelmente otimista.
  - Vamos vender. Estou trabalhando nisso. S preciso de tempo.
  Gabe desenvolvera um modelo de financiamento para posse compartilhada que sabia que vrias famlias da favela podiam pagar. O problema  que nenhuma delas acreditava.
  - Voc precisa entender - explicou Dia. - Essas pessoas escutam mentiras de homens brancos desde que nasceram. Muitos acham que foram os mdicos brancos que espalharam 
o vrus da Aids aqui.
  - Mas isso  ridculo.
  - Para eles, no . Eles acham que voc est tentando roubar o dinheiro deles. A ideia de que eles podem comprar uma casa, ainda mais uma casa com gua e com um 
telhado sem goteiras,  totalmente nova para eles.  a mesma coisa que dizer que voc descobriu uma frmula para viverem para sempre ou que sabe transformar estrume 
de cavalo em ouro.
  - Ento, o que vamos fazer?
  - Voc no vai fazer nada. Tire umas frias, afaste-se por umas semanas. Leve uma de suas adolescentes polonesas para ver alguma coisa diferente do teto do seu 
quarto.
  Gabe balanou a cabea.
  - De forma alguma. No vou de jeito nenhum. No posso me afastar dos negcios, no agora.
  - No estou pedindo, estou mandando. - disse Dia. - Saia daqui. Sei o que estou fazendo.

  Gabe passou duas semanas em Muizenberg, um balnerio local, com uma garota chamada Lenka. Famoso por ter sido palco de uma batalha entre britnicos e holandeses, 
Muizenberg agora era um balnerio para os ricos, uma verso africana dos Hamptons.
  - Lindas! - exclamava Lenka quando passavam pelas manses vitorianas.
  - Lindo! - entusiasmava-se ela com as enormes praias com gua azul-turquesa de False Bay.
  - Lindo! - repetia ela quando um cachorrinho pulou em Gabe na praia e fez xixi no seu sapato.
  Dois dias depois, Gabe estava subindo pelas paredes. Mais um lindo e ele seria forado a se enforcar com os lenis do hotel.
  Nunca mais vou viajar com uma garota com QI de bosta de cachorro. Mesmo se ela for igual a Gisele.
  Muizenberg era um tdio. Mas eles poderiam estar em uma das sete maravilhas do mundo e Gabe continuaria odiando. Sua mente estava em Pinetown.
  Na manh em que voltou para a Cidade do Cabo, correu para o escritrio. No se sentia to nervoso desde o dia em Walthamstow, esperando receber a sua sentena.
  - Ento? - perguntou ele a Dia, prendendo a respirao. Fez algum progresso?
  - Um pouco.
  A resposta deixou Gabe apertado. Um pouco? No precisavam de um pouco. Precisavam de um maldito milagre. Teria de sair de seu apartamento. Voltar para Kennedy 
Road. Ou talvez tivesse chegado a hora de voltar para casa? De admitir o fracasso e voltar para a Esccia? No havia mais trabalho nas docas, mas talvez...
  - Vendi todas as casas.
  Demorou um momento para ele digerir as palavras de Dia.
  - Mas... eu no... como... mas...
  Dia o provocou.
  - Engraado, depois de duas semanas, eu tinha esquecido como voc sabe ser articulado.
  - Voc... mas... todas elas?
  - At a ltima.
  - Como?
  - F, meu amigo. F.
  Gabe fitou-se sem entender. Dia explicou.
  - Fui ver o pastor da minha antiga igreja e pedi que deixasse que eu falasse com a comunidade. Primeiro, ele no gostou da ideia, mas eu o convenci. Os cultos 
aqui ficam bem cheios.
  - O que voc disse?
  - A mesma coisa que vinha falando, mas na voz deles. Falei sobre a minha infncia. Sobre as crianas que eu conhecia que morreram como resultado de condies de 
vida lastimveis, da falta de saneamento. Tentei mostrar para eles que eu j tinha passado pelo que esto passando, que eu era um deles. As pessoas comeara a fazer 
perguntas. Da em diante, foi fcil. Explique como funcionava o modelo de financiamento.
  "Vendi a ltima unidade trs dias atrs. Mas achei que poderia esperar para lhe contar. No queria estragar suas frias encantadoras com Lenka."
  Gabe pensou no pesadelo dos ltimos dias em Muizenberg e no sabia se ria ou chorava.
  - Voc no vai dizer nada?
  - Aproximando-se de Dia, Gabe o pegou em um enorme abrao e danou com ele de alegria.
  - Lindo! - debochou ele. - Dia Ghali, voc  lindo!

  Captulo 20

  O alvorecer de um novo milnio precedeu um perodo de muitas mudanas no mundo dos negcios. Empresas antes consideradas gigantes intocveis comearam a se desintegrar, 
sendo ultrapassadas pelas novatas minsculas pontocom. Ganncia ainda era o nome do jogo. Mas as regras do jogo tinham mudado.
  No dia 8 de abril de 1999, o ex-vendedor de artigos para o Craig Winn se tornou bilionrio... por um ou dois dias. Quando ele ofereceu na bolsa as aes da sua 
empresa de internet, de apenas 3 anos, Valeu America, o preo unitrio decolou de 23 dlares para 75, antes de se estabelecer em 55 dlares. Com 45 anos, Winn foi 
para a cama naquela noite com uma fortuna de 2,4 bilhes de dlares em papeis. Nada mal para uma empresa que nunca (nunca mesmo) deu lucro.
  Em um ano, o preo da ao caiu para dois dlares. Mais da metade dos empregados da Valeu America tinham sido demitidos, e os investidores, perdido milhes. Em 
agosto de 2000, a empresa pediu falncia.
  Em salas de reunio por todos os Estados Unidos, CEOs das agora chamadas empresas da "velha economia" - gigantes como a Kruger-Brent - assistiam a esses desdobramentos 
apavorados. Tudo estava mudando. Enquanto o boom pontocom se acabava sozinho em uma enorme bola de fogo de ignorncia e ganncia, as areias do poder mundial tambm 
estavam mudando. China e ndia estavam subindo. O dlar comeou a ficar instvel. Nos setores de banco de investimentos e farmacutico, dois setores-chave dos lucros 
da Kruger-Brent, empresas comearam a fundir-se e a comprar umas s outras mais rpido do que os analistas conseguiam acompanhar. No setor bancrio, muitos dos grandes 
nomes da dcada de 1980 - Salomon Brothers, Bankers Trust, Smith Barney - desapareceram da noite para o dia, literalmente, engolidos por rivais maiores, geralmente 
estrangeiros. Na indstria farmacutica , gigantes como Glaxo e Ciba sumiram enquanto novas marcas, como Aventis e Novartis, ascendiam. Na indstria automobilstica, 
a Ford saiu s compras - a Volvo, a Mazda e a Aston Martin -, e depois comeou a vender, primeiro a Jaleo e da terra - setor imobilirio - continuaram subindo como 
gua na enchente. Todo ano, todo ms, economistas previam uma correo que parecia nunca vir. Os bancos faziam de tudo para oferecer crdito barato, jogando gasolina 
no fogo de um mercado j superaquecido.
  Foi uma poca emocionante. E perigosa. Para Peter Templeton, foi demais. Em 2006, ele se aposentou discretamente e foi morar em Dark Habor, finalmente sozinho 
com as lembranas de sua amada Alexandra. A sada dele no causou nenhuma oscilao no mercado. Todo mundo sabia que Peter Templeton nunca tinha sido mais do que 
um presidente fantoche da Kruger-Brent. Tristam Harwood assumiu o leme e a vida corporativa continuou exatamente como antes.
  Como chefe do departamento de petrleo da Kruger-Brent, Tristam Harwood passara a ltima dcada jogando pacincia em seu computador enquanto o valor dos ativos 
de seu grupo quadriplicavam. Ele aplicou a mesma filosofia "recostar e no fazer nada"  sua presidncia. Afinal, s duraria trs anos.
  Em trs anos, os dois herdeiros Blackwell, Max Webster e Lexi Templeton, fariam 25 anos. De acordo com o testamento de Kate Blackwell, 25 era a idade na qual um 
deles assumiria o controle da Kruger-Brent.
  Todos supunham que seria Max.
  Mas na nova ordem econmica mundial, as suposies s existiam para se provar que estavam erradas.

  Faltando uma semana pra assumir seu cargo no departamento de internet, Max sabia que tinha cometido um erro. Durante o estgio de vero dele e de Lexi, parecia 
que o setor de internet estava prestes a entrar em um segundo perodo de rpido crescimento. O setor imobilirio, por outro lado, h muito tempo vinha precisando 
de mudanas. Isso, combinado ao fato de que sempre tinha sido um dos setores menos dinmicos da Kruger-Brent, foi o que o motivou a mandar Lexi para l.
  Infelizmente, quando os primos se formaram em Harvard e passaram a trabalhar em tempo integral na Kruger-Brent, o mercado dera uma de suas reviravoltas desconcertantes. 
Jim Bruton fizera o possvel para controlar as perdas. Mas quando Max chegou em seu primeiro dia de trabalho, o departamento de internet da Kruger-Brent estava perdendo 
dinheiro to rpido, que ele mergulhou em um planto de 24 horas para controle de danos.
  Enquanto isso, Lexi e August Sandford tinham animado o sonolento departamento imobilirio e estavam ganhando riso de dinheiro. Sob a direo de August, a Kruger-Brent 
estendeu seu alcance para a Europa e a sia. Enquanto Max estava trancafiado com auditores em um escritrio sem janelas em Manhattan, Lexi estava viajando o mundo, 
para Tquio, Paris, Hong Kong e Madrid, fechando acordo atrs de acordo no setor imobilirio. Ela se certificava de que a imprensa tomasse conhecimento de cada um 
de seus sucessos.
  Lexi sabia que esse interesse da mdia era uma faca de gumes. Por um lado, claro, era lisonjeiro. Quando era adolescente, os paparazzi a seguiam aonde quer que 
fosse. Era a queridinha dos Estados Unidos: corajosa, bonita e abenoada. Seu rosto aparecia na capa de inmeras revistas. Por todo o pas, cada vez mais meninas 
recebiam o nome de Alexandra. Lexi no se lembrava de no ter sido famosa. No conseguia nem imaginar como era, embora tentasse: ser annima, s mais um rosto na 
multido. s vezes lhe parecia uma ideia atraente.
 Lexi tinha plena conscincia de que a fama quase lhe custara sua herana. Max soubera usar isso bem contra ela, vendendo-a para os membros do conselho como uma 
garota vazia, ftil. Smbolo sexual. Festeira. Pareciam apelidos inofensivos no incio. Mas quando Max passou a perna nela e ficou com a vaga no departamento de 
internet, Lexi acordou e percebeu que isso poderia ser muito prejudicial.
  J tenho dois pontos negativos contra mim. Sou surda. E sou mulher. Com trs, estarei fora do pareo.
  Daquele dia em diante, Lexi trabalhou duro para redefinir seu relacionamento com a mdia. Como todas as heronas norte-americanas - todas as que duraram, claro 
- ela era soberana na arte de se reinventar. Assim como Madonna deixara de ser a ninfomanaca que usava crucifixo e se tornara a Santa Padroeira da Cabala em um 
piscar de olhos, a Festeira Lexi foi apagada da memria norte-americana e substituda por uma nova criao: a Executiva Lexi. Seu rosto continuava aparecendo nas 
capas de revistas. Mas em vez de In Style e Us Weekly, Lexi agora podia ser vista nas bancas de jornais na capa da Time e da Forbes.
  Max tentava, em vo, levantar a sua imagem, mas no adiantava. Ele no tinha sido seqestrado na infncia. No lutara bravamente aps perder a audio em uma exploso. 
Do ponto de vista norte-americano, ele era apenas outro garoto bonito e rico. De repente, toda a reputao que Max construira para si na Kruger-Brent durante a adolescncia 
no servia para nada. Lexi virara a mesa, aparentemente sem nenhum esforo. A no ser que algo drstico acontecesse logo, ela estava no caminho para se tornar a 
prxima presidente da empresa.

  Antonio Valaperti entregou uma caneta Montblanc de prata macia para Lexi e observou-a assinar o contrato. Um sorriso satisfeito se espalhou em seu rosto.
  Que garota bonita.  quase uma pena v-la assinar para perder uma fortuna...
  Quase...
  Antonio Valaperti era a figura mais importante do setor imobilirio em Roma. Maior at que a mfia. Com 50 e poucos anos, um rosto vulpino e olhos castanhos observadores 
que no deixavam passar nada, gostava de se gabar em festas que o ltimo romano a ser dono de tantas propriedades em Roma quanto ele foi Jlio Csar. Antonio Valaperti 
colocara favelas e igrejas abaixo. Cavara fundo na terra antiga da cidade para construir estacionamentos, e redefinira sua paisagem com seus prdios de apartamentos 
e escritrios. Metade de Roma o admirava, vendo-o como inovador e visionrio. A outra metade o odiava, considerando-o um vndalo. Antonio Valaperti era arrogante, 
brilhante e inescrupuloso. Era mesquinho com dinheiro, mas gostava das coisas boas da vida: boa comida, carros rpidos, mulheres bonitas. No gostava de norte-americanos. 
Mas, no caso de Lexi Templeton, estava disposto a abrir uma exceo.
  - Agora que conclumos nossos negcios, Bella, que tal pensarmos em coisas mais prazerosas?
  Ele quase a comeu com os olhos. Ela estava usando um terninho Marchesa que fazia justia ao seu lindo corpo. A blusa de seda creme revelava um pequeno pedao de 
renda de seu suti. Antonio Valaperti pensou: Ela me deseja. J vi este filme umas mil vezes. Ela  jovem, mas o poder a excita. Talvez tenha sido por isso que foi 
to inocente ao assinar este acordo. Est preocupada demais em conseguir uma boca para chupar sua boceta.
  Lexi observou o velho do outro lado da mesa e se segurou para no rir alto.
  Os velhos so os piores tolos. Ele realmente acha que me sinto atrada por ele?
  Afinal, depois de tudo que escutara de Antonio Valaperti - pela forma como August Sandford falava dele, era de esperar que tivesse poderes mgicos -, Lexi estava 
quase decepcionada com a facilidade de superar a verso romana de Donald Trump. Acabara de vender para Valaperti o que ele acreditava ser um terreno muito valioso 
ao sul de Villa Borghese Park, em uma das reas residenciais mais valorizadas da cidade. Na verdade, o terreno de quarenta acres estava prestes a no valer nada. 
Com algumas propinas pagas s pessoas certas e com a ajuda de sua confivel blusa decotada (eles realmente devem colocar uma foto desta blusa de seda creme Stella 
McCartney na capa da Forbes. Fez a Kruger-Brent poupar muito mais dinheiro nesta viagem do que eu), Lexi descobrira que todas as concesses em um raio de um quilmetro 
de The Spanish Steps estavam prestes a serem rescindidas.
   claro que nunca ocorreu a Antonio Valaperti que uma estrangeira, uma norte-americana, poderia ter mais acesso aos corredores do poder italiano do que ele. Muito 
menos esta moa linda com idade para ser sua filha. E ainda era surda, coitada. Os norte-americanos realmente tinham uma ideias estranhas sobre como administrar 
um negcio.
  - Quem me dera, Antonio. Quem me dera.
  Todos que estavam sentados no restaurante do Hotel Hassler viraram a cabea quando Lexi se levantou para sair.
  - Infelizmente, tenho assuntos urgentes para resolver em Florena amanh de manh. Preciso ir dormir cedo. Boa noite.
  Antonio Valaperti observou-a ir embora, controlando sua irritao.
  Uma pequena provocao. Ela acha que est brincando comigo. Ele chamou o garom pedindo que trouxesse a conta. Quando voc descobrir o quanto este terreno realmente 
vale, querida, vai ver quem brincou com quem.
  A voc ver qual  a sensao de ser fodida por Antonio Valaperti.

  s 10 horas da manh seguinte, Lexi fez o check-in na Villa San Michele, um antigo mosteiro idlico transformado em um hotel de luxo, que ficava no alto das colinas 
de Florena.
   Eu amo a Itlia, pensou ela ao tirar as roupas de viagem e entrar no boxe de mrmore para uma chuveirada. Escolhera San Michele por causa dos muros altos que 
impossibilitavam o acesso dos paparazzi. Pela primeira vez na vida, Lexi estava sentindo necessidade de uma pausa de todas as atenes e este era o lugar perfeito. 
Robbie lhe dissera que a Itlia era surpreendentemente linda. Mas nem o elaborado elogio dele fazia justia. Roma era espetacular, Lexi sentia como se fosse ficar 
sem flego a cada esquina que virava. Era como voltar no tempo. Mas se a Villa San Michele pudesse servir de referncia, desconfiava que ia gostar ainda mais da 
Toscana.
  Sua vitria sobre Valaperti era ainda mais doce porque August Sandford estava to certo de que ela no conseguiria. A prpria Lexi tivera suas dvidas. Achava 
muito mais difcil ler os lbios dos estrangeiros, que formam as palavras em ingls de um jeito diferente, e chegara at a considerar viajar para a Itlia com um 
intrprete.
  Graas a Deus, no fiz isso. todos aqueles jantares a dois com Valaperti foram o que garantiram o acordo.
  No ltimo ano, o relacionamento com August tinha melhorado um pouco. Ela ainda o achava arrogante e machista. Ele ainda se ressentia por ela ser bisneta de Kate 
Blackwell. Mas ambos desenvolveram um relutante respeito mtuo pelas habilidades do outros em fazer negcios. August chegara em Florena essa noite e, pela primeira 
vez, Lexi estava ansiosa para jantar com ele.
  Talvez agora ele admita que vou ser uma boa presidente. Que sou to capaz quanto ele de dirigir a Kruger-Brent.

  O restaurante na Villa San Michele se abria em uma varanda medieval, coberta por grandes videiras. De sua mesa, Lexi podia ver os jardins simtricos do mosteiro 
com suas cercas vivas e caminhos de cascalho. Alm do jardins, ela via os telhados de terracota de Florena, espalhados como um cobertor no ar noturno e quente, 
que cheirava a alecrim.
   to romntico! Como seria mais gostoso jantar aqui com um amante, e no com o meu chefe.
  Lexi sentiu um tapinha no ombro e se virou. O sorriso de satisfao sumiu de se rosto.
  - O que voc est fazendo aqui? Cad August?
  - Em Taiwan, acho. Alguma coisa de urgncia. J fez o seu pedido? Estou faminto.
  Max se sentou e chamou o garom. Sem nem olhar o cardpio, fez o pedido em um italiano perfeito. Ele estava falando rpido demais para Lexi entender o que estava 
pedindo. Mas conseguira captar que ele pedira uma garrafa de vinho tinto Antinori de duzentos dlares, e que ele resolvera fazer o pedido dela tambm.
  Lexi estreitou os olhos.
  - O que voc est fazendo aqui, Max? 
  - Estamos pensando em comprar uma empresa on-line de empregos - O tom de voz dele era casual. - Starfish. Uma verso europia da monster.com. a base deles  em 
Florena acredita? 
  Lexi no acreditava. Ele est planejando alguma coisa.
  Embora morassem na mesma cidade e at trabalhassem no mesmo prdio, j fazia meses que Lexi no via Max. Ela estava sempre viajando. Nas raras ocasies em que 
estava na Kruger-Brent, no procurava a companhia dele. Essa noite, ele estava usando uma camisa azul com o colarinho desabotoado, e uma cala social Armani preta. 
Uma leve fragrncia de uma antiquada colnia de limo exalava dele, e sua pele naturalmente morena estava ainda mais bronzeada do que de costume. Ela se esquecera 
do quanto ele era atraente, e ficou irritada com isso.
  - Como foi em Roma? Acredito que Valaperti seja osso duro de roer.
  Parte de Lexi queria ignor-lo. Mas a vontade de se gabar era forte demais.
  - Foi timo. Valaperti estava comendo nas minhas mos.
  - Mesmo? 
  - Mesmo. Vendi a ele um terreno por mais de cem milhes de dlares.
  Aproximando-se, Max finalizou.
  - Ele tentou levar voc para a cama? 
  Lexi ficou surpresa.
  - Quando voc aprendeu a linguagem de sinais? 
  Max deu de ombros.
  - S sei algumas frases, mas estou melhorando. Sabe, pensei que, como vamos trabalhar juntos por um tempo, eu deveria fazer algum esforo.
  Ele parece verdadeiro. Mas por que est sendo to legal e razovel de repente? 
  - Ento, ele tentou? 
  - O qu? 
  - Levar voc para a cama.
  - No! Bem, mais ou menos. Talvez um pouco. - Lexi percebeu que estava sorrindo, mesmo sem querer. - Nosso amigo Antonio claramente se acha um bom partido.
  - Quantos anos ele tem? 
  - Sessenta e cinco? Setenta talvez? 
  - Velho imundo.
  Lexi ficou surpresa ao perceber que estava se divertindo. Sentada neste lugar divino e romntico com seu inimigo eterno, a noite parecia estar fluindo bem.
  O vinho chegou, com duas saladas toscanas e po. Logo, Lexi estava bem alegre. Max a entreteve com histrias trgicas do departamento de internet.
  - A nica pessoa que vai receber bnus este ano  quem ganhar o bolo do divrcio de Jim Bruton. A esposa finalmente resolveu deix-lo, e o departamento inteiro 
est fazendo apostas de quanto ela vai conseguir.
  - Que horrvel! Coitado. - Lexi riu.
  - Coitado nada. Ele tem dois filhos com outra mulher e nunca pagou um centavo de penso para nenhum dos dois. Quando for presidente, deveria demiti-lo.
  Lexi ficou sbria na mesma hora. Ser que lera os lbios dele corretamente? 
  - O que voc disse? 
  - Eu disse que quando voc for a presidente, deve mandar Jim Bruton embora. Venha. - Max se levantou, estendeu a mo de forma galanteadora. - Vamos entrar e conversar. 
Est ficando frio aqui fora.
  Tanto o lounge como o bar do hotel estavam cheios, ento foram para a sute de Lexi. Com vista para os jardins, a sute tinha uma varanda privativa, alm de escritrios 
e sala de estar, completos com antigos moveis italianos e uma lareira. Max serviu usque para os dois do frigobar e se sentou no sof ao lado de Lexi.
  - Olhe. Eu no vim por causa da Starfish. Pelo menos, no s por isso.
  Observando seus lbios se moverem, Lexi sentiu um forte desejo de se aproximar dele e beij-los.
  Devo estar mais bbada do que achei. Ele largou o copo de usque.
  - Continue.
  - Quero pedir uma trgua.
  Por quase um minuto, Lexi ficou em silncio. A noite inteira estava sendo surreal. August no aparecendo, Max surgindo do nada, sua ofensiva atipicamente sedutora. 
Agora estava falando sobre trgua? Finalmente, ela disse:
  - Por qu? 
  Max sorriu.
  - No vou mentir para voc, Lexi. Quero ser presidente tanto quanto voc. Sempre quis. Mas reconheo que  improvvel que isso acontea. - Como Lexi no respondeu, 
ele continuou. - Kate Blackwell odiava a minha me. No sei por qu, mas odiava. E eu a odiava por causa disso, mesmo sabendo que ela morreu antes de eu nascer.
  - Max.
  - Deixe-me terminar. Como o testamento de Kate me deixou de fora da Kruger-Brent, sempre achei que precisava provar alguma coisa. Eu no entendia por que eu deveria 
me afastar e deixar que entregassem a empresa para voc em uma bandeja.
  - A inteno de Kate era entregar a empresa de para Robbie - lembrou Lexi. - Eu tambm precisei lutar por um lugar  mesa, sabia? 
  - Eu sei.  por isso que estou aqui. - Max pegou a mo dela. A palma de sua mo estava quente e mida. Lexi sentiu uma pulsao entre as suas pernas. Estava ficando 
difcil se concentrar. Engoliu seco.
  - No somo mais crianas, Lexi - disse Max. -  hora de pararmos de agir como tal. A Kruger-Brent  tudo para mim. Tudo. - Havia lgrimas nos olhos dele. - Se... 
quando voc assumir a presidncia da empresa, ter alguns desafios difceis pela frente. Vai precisar de pessoas  sua volta em que possa confiar.
  "Confiana" e "Max" eram duas palavras que, at aquele momento, Lexi nunca usara em uma mesma frase. Ser que era possvel? Ele realmente amadureceu? Ela queria 
acreditar. Mesmo assim...
  - No sei o que dizer. Isso ... Isso  muito generoso de sua parte. 
  - Voc sabe que nossa capitalizao de mercado caiu vinte por cento no ano passado. - Havia uma fasca de alguma coisa parecida com fria nos olhos negros de Max. 
- Tristram Harwood  um dinossauro. Ele no faz a menor ideia do que est fazendo, no tem nenhum plano de ao.
  Lexi assentiu calmamente.
  - Eu sei.
  - Ento, o que voc acha? Quer tentar jogar no mesmo time, pra variar?
  A perna de Max estava encostada na dela. Lexi podia ver o contorno definido e forte do msculo da coxa dele por baixo do fino algodo de sua cala.
  Acho que quero ver seu corpo nu.
  Acho que quero voc na minha cama agora.
  Acho que bebi vinho demais no jantar.
  - Claro. - Ela sorriu para ele. - Por que no?

  Naquela noite, Lexi ficou acordada na cama, fitando o teto. Max estava falando srio? Se algum lhe fizesse aquela pergunta 24 horas atrs, ela provavelmente teria 
rido na cara da pessoa. Ela e Max Webster, um time? Ainda assim, ele pareceu sincero. Pensou nos ltimos meses na Kruger-Brent. Max a apoiara naquela votao crucial 
do conselho sobre a nova emisso de aes. E ele no falara nada sobre o escritrio maior que ela agora ocupava. Ser que era possvel t-lo julgado errado? Ou a 
frustrao sexual no estava deixando com que pensasse direito agora?
  Tinha achado que sua libido se acalmaria quando o efeito do lcool passasse. Mas agora, horas depois, sua perna ainda queimava onde a coxa de Max encostara, e 
ainda sentia o delicioso cheiro de sua colnia de limo. Maldito seja ele. Por que tinha de vir aqui?
  Lexi nunca tivera muitos amantes na vida. Talvez centenas. Mas esta noite percebia que nenhum deles significou nada para ela. Nunca desejei nenhum deles. No de 
verdade. Bem no fundo, sempre desejei Max.
  Fechando os olhos, ela lentamente deslizou as mos pelo corpo quente e nu. Segurou os prprios seios, depois seus dedos resvalaram a maciez de sua barriga. Finalmente, 
comeou a acariciar o ponto mido, quente e macio entre suas pernas.
  Visualizou os lbios de Max se mexendo:
  A Kruger-Brent  tudo para mim... quero a presidncia... mas isso no vai acontecer.
  Seus dedos comearam a se mover mais rpido, seguindo um ritmo.
  Eu o derrotei.
  Eu venci.
  Imaginou Max em cima dela, dentro dela. Imaginou-os sendo um.
  A Kruger-Brent  minha.
  Ela estava ofegante, seu corpo estremeceu quando atingiu o orgasmo.
  Oh, Deus, Max. Eu quero voc.

  De um telefone pblico no Aeroporto Internacional de Taiwan, August Sandford gritava com a secretria.
  - No basta, Karen! Eu viajei meio mundo para essa maldita reunio, para chegar aqui e o Sr. Li me dizer que o hotel no est mais  venda.
  - Sinto muito, Sr. Sandford. No entendo o que pode ter acontecido. A secretria dele confirmou a reunio comigo ontem mesmo. Ela disse que tinha outro interessado 
e que era de extrema importncia que o senhor fosse at l imediatamente.
  August quase desligou, furioso demais para falar. Graas a essa corrida a lugar nenhum, tivera de desmarcar duas reunies importantes com clientes na Europa, sem 
mencionar seu encontro com Lexi.
  Ento percebeu uma coisa estranha...
  A secretria dele confirmou... ela disse que tinha outro interessado.
  August encontrou com o secretrio do Sr. Li uma hora atrs. Era um homem.

  Eve ligou para Max enquanto estava dirigindo.
  - Encontrou com ela? 
  - Encontrei, sim, me.
  - Fez tudo exatamente como combinamos? 
  - Fiz.
  - E? Acha que ela confia em voc? 
  Max pensou por um momento. Lembrou-se da forma como as pupilas de Lexi dilataram quando ele pegou sua mo; do calor quando suas pernas se tocaram. Havia algo novo 
entre eles, isso era certo. Mas no podia chamar, necessariamente, de confiana.
  - Acho que est comeando a confiar.
  Eve percebeu a hesitao na voz dele. Perguntou diretamente:
  - Voc no foi para a cama com ela, foi? 
  - No, me. Claro que no.
  - Bom. - Eve pareceu aliviada. - Voc acabar tendo de fazer isso, claro. Mas ainda no. Ainda no est na hora.
  Max desligou, perturbado. Imaginou a me andando de um lado para o outro no apartamento deles em Nova York, de robe de seda, uma tigresa enjaulada esperando que 
ele voltasse da caa. As coisas tinham ido melhor do que esperava com Lexi essa noite. Ainda assim... Sua discusso com Eve na semana anterior estava gravada em 
sua memria. A tenso na voz dela, a ira presa fervendo dentro do corpo dela, prestes a explodir.
  " a sua ltima chance, Max. A nossa ltima chance! Aquela vadia vai tirar a Kruger-Brent de ns. Voc precisa fazer alguma coisa!"
  Vou fazer, me. No se preocupe. Vou fazer.
  Mas ele faria?  Conseguiria fazer? 
  E se fracasse? 
  Desviando para o acostamento, ele parou o carro e abriu o porta-luvas. Tirou um potinho de plstico e uma garrafa de Jack Daniels, engoliu quatro comprimidos de 
Xanax, tomando a bebida por cima para ajudar a descer.
  No vou fracassar, me.
  Prometo.
  
  Captulo 21

  Para Lexi, pareceu que o ano seguinte passou em um piscar de olhos.
  Tinha um talento natural para imveis. Kate Blackwell sempre acreditou que instinto para o mercado valia mais do que cem MBAs. Lexi concordava. Naqo foi Harvard 
que a ensinou a fazer negcios. Estava em seu sangue. Ela vivia pela emoo dos acordos milionrios, precisava de tenso e estresse da mesma forma que outras pessoas 
precisavam de oito horas de sono e refeies regulares. O acervo imobilirio da Kruger-Brent era enorme e estava crescendo cada vez mais. Era um setor to empolgante 
que era fcil se esquecer de que era apenas um entre centenas de outros em que a empresa tinha negcios.
  Conforme o aniversrio de 25 anos de Max e Lexi se aproximava o conselho da Kruger-Brent, formado por dez homens, decidiu que ambos deveriam passar algum tempo 
aprendendo sobre todas as reas em que a empresa agia.
  -  importante que vocs conheam intimamente todos os aspectos da empresa. - Tristram Harwood dirigiu seus comentrios a Lexi e Max, mas a essa altura ambos sabia 
que era para Lexi que ele estava falando.
  - Ouso dizer que vocs devem achar que cresceram aqui dentro e que conhecem a empresa de trs para frente. Mas vo se surpreender com a vastido do imprio de 
vocs.
  - Fssil arrogante - disse Max quando saram do escritrio.
  - Ele  pattico - concordou Lexi. - Nosso imprio realmente.
  Mas Tristram Harwood estava certo. A Kruger-Brent era um imprio. E Lexi ficou surpresa. Viajando pelo mundo como um morcego desorientado, visitando os escritrios 
da empresa na ndia e na Rssia, em Praga em Hong Kong, Dublin e Dubai, ela percebeu que, para dirigir a Kruger-Brent precisava ser mais do que uma mulher de negcios. 
Muito mais. Precisava ser uma estadita. Uma diplomata. Uma general. Precisava liderar, claro, mas tambm precisava delegar. A Kruger-Brent era enorme demais para 
ser administrada por um nico ser humano. Pela primeira vez ela viu por si s como seria importante estar cercada de pessoas em que confiasse implicitamente.
  August Sandford. Ele  um chato, mas confio nele.
  E Max, claro.
  Desde que haviam voltado da Itlia, Max mudara completamente. No trabalho, era prestativo, respeitador e tranqilo. Da mesma forma que antes procurava August Sandford 
quando tinha algum problema, agora conversava com Max. Quando visitou uma fbrica de microchips subsidiria na ndia e percebeu que os gerentes no entendiam quando 
ela falava, apesar de falarem ingls fluentemente, ficou mortificada.
  - Eles olhavam para mim como se eu fosse de Marte. - Lexi abriu seu corao em um e-mail tarde da noite. - Eu me senti uma tola. Todos esses anos, as pessoas me 
dizendo que a minha voz era boa. Mas no .  bvio que, para esses caras a minha voz era a de uma pessoa surda.
  Max respondeu com calma. Ingls indiano era diferente de ingls norte-americano. Eles provavelmente teriam olhado para ele da mesma forma. Lexi deveria viajar 
com um intrprete de lngua de sinais assim como um intrprete da lngua local, para o caso de precisar. Nada demais.
  Era exatamente o que Lexi precisava escutar.
  A tenso sexual entre eles aumentava a cada dia. Max deixava Lexi irritada por oscilar continuamente. Esse era o nico elemento do carter dele que a ainda a deixava 
perplexa. Em um momento, ela tinha certeza de que ele ia fazer alguma coisa. No seguinte, ele mudava e passava a agir fraternalmente. Acostumada a ter homens se 
jogando aos seus ps, Lexi no fazia idia de como lidar com o jogo duro de Max. Saa com outros caras. (Discretamente. Agora no era o momento de reacender os boatos 
de garota festeira.) Mas no se satisfazia com o sexo. s vezes achava que podia estar apaixonada pelo primo, mas afastava a idia rapidamente.
  No tenho tempo para amor. Tem muita coisa para ser feita na Kruger-Brent.
  A viagem pelo mundo abriu os olhos de Lexi para a gravidade dos problemas que a empresa estava enfrentando. Sem a menor sombra de dvida, a maior questo era o 
tamanho. A Kruger-Brent era grande demais. Sob a liderana de Kate Blackwell, a empresa engolira todos os adversrios, sem se importar se sua rea de atuao se 
encaixava bem com os negcios do grupo. Nos dois anos que antecederam a morte de Kate Blackwell, a Kruger-Brent tornara-se a orgulhosa dona de uma mina de diamantes 
no Zaire, uma editora de livros infantis na Esccia, uma empresa de pesquisa na rea de biotecnologia em Connecticut e uma faixa da floresta tropical brasileira 
aproximadamente do tamanho da Pensilvnia, s para citar quatro das vrias aquisies de Kate.
  A bisav de Lexi era "Senhora do Jogo" dos negcios. Mas o jogo tinha mudado.
  Quando eu for presidente, vou jogar sob novas regras. Precisamos ficar mais enxutos. Mais saudveis. Mais geis. Ou no sobreviveremos.
  Lexi sabia que queria desenvolver o setor imobilirio. Petrleo tambm seria crucial. Sua mais recente viagem  frica aumentar ainda mais a confiana dela no 
continente, poderia muito bem ser a chave para o futuro da Kruger-Brent. Assim como o fora no passado.
  Fortunas podiam ser feitas em terrenos e propriedades africanos. Os preos estavam triplicando a cada ano, mas a maioria das grandes empresas norte-americanas 
estava perdendo essa chance por medo da volatilidade da poltica e da economia da regio. Enquanto isso, conglomerados locais, como The Olam Group e Africa Israel 
Investments, estavam esbaldando. Na frica do Sul, que poderia ter sido o centro de comando da Kruger-Brent, novas empresas como Edeavour e a Fnix de Gabriel McGregor 
estavam passando a frente e crescendo, audaciosamente agarrando sua parcela do mercado bem debaixo de seus narizes.
  Lexi admirava o modelo brilhantemente simples da Fnix. Fez uma anotao mental para copi-lo e depois tirar Gabriel McGregor do mercado na primeira oportunidade.
  Jamie McGregor construiu esta empresa na frica. Ele no tinha medo de arriscar. Eu tambm no tenho.
  
  Na semana antes do Natal, August Sandford convidou Lexi para almoar com ele.
  - Mal vejo voc agora. O departamento imobilirio est muito calmo sem voc.
  Lexi sorriu. Esse foi o mais perto que ele j chegou de lhe fazer um elogio. Aceitou almoar com ele no dia seguinte.
  O porteiro do Harvard Club olhou de forma reprovadora para o bando de fotgrafos que cercou Lexi quando ela saiu do carro. Com uma caxemira creme Donna Karan, 
seus famosos olhos cinza da famlia Blackwell escondidos atrs de enormes culos Oliver Peoples, ela parecia exatamente a magnata em ascenso que era.
  - Desculpe, John - Lexi sorriu. O porteiro se derreteu mais rpido que os flocos de neve na calada. - Passei algumas semanas fora da cidade. - Ela fez um gesto 
com a cabea na direo dos paparazzi. - Acho que eles esto piores do que de costume. O Sr. Sandfor j chegou? 
  - J, Srta. Templeton. Na mesa de sempre.
  August observou Lexi passar pelas outras mesas, vindo na sua direo. Por baixo do casaco, ela estava vestindo um terninho que mandar fazer em Hong Kong. Parecia 
profissional e segura de si. August pensou: ela cresce. Apesar de preferir morrer a deixar que ela soubesse, desenvolvera um afeto verdadeiro por ela nesses ltimos 
dois anos. Sua atrao inicial, motivada pela inveja, fora substituda por algo preocupante mais prximo da amizade. August Sandford nunca conseguira ser amigo de 
uma mulher. Talvez foesse por isso que sentisse to estranho? 
  August no estava ansioso por este almoo. Tinha de contar coisas para Lexi que sabia que ela no ia querer escutar. Coisas que poderiam fazer com ela o visse 
como tolo. Ou paranico. Ou ciumento. Ou os trs.
  Lexi se sentou.
  - Ento como vo as coisas? O que perdi? J fecharam o acordo Hammersman? 
  August sorriu. Adorava o jeito como ela ia direito ao assunto.
  - Fechamos. Ontem. Como foi na frica? 
  - Interessante. Quente. A comida  horrvel.
  - Sentiu saudades de Nova York? 
  - Sinto saudades do departamento imobilirio. Mas no conte a ningum.
  Fizeram o pedido. Lexi podia perceber que tinha algo preocupando August.
  - Voc queria falar comigo sobre alguma coisa?  - Ela deu uma mordida em seu sanduche de peru. Depois de duas semanas comendo pratos tpicos sul-africanos com 
ch ranoso, aquilo parecia um manjar dos deuses.
  August mordeu o lbio.
  - J viu Max depois que voltou? 
  - Ainda no. Por qu? 
  - Talvez no seja nada. - Ele fez uma pausa, -  s que... umas coisas que ele tem feito ultimamente. Voc tem certeza de que ele no tem mais nenhuma esperana 
de ser presidente? 
  Lexi colocou o sanduche no prato.
  - Claro que tenho. O que houve, August?
  - Umas semanas atrs, escutei Max no banheiro conversando Tristram Harwood, querendo levar crdito por vender um dos sites de aposta.
  - Eu fique sabendo, bobo. Ele vendeu para KKR.
  - S que no foi ele. - August tomou um gole de sua gua gelada. - No foi  Max quem fez esse acordo. Foi Jim Bruton.
  - Foi? 
  - Foi. Jim confrontou Max sobre ter-lhe passado para trs. Quatro dias depois, ele estava tirando as coisas de sua mesa.
 Lexi deu de ombros.
  - E da? Bruton foi demitido. Voc se importa? Achei que o odiasse.
  - E odeio. Mas essa no  a questo. - August tentou uma abordagem diferente. - No ms passado, Max deveria estar na Sua, conhecendo as empresas farmacuticas. 
Assim que ele soube que voc iria para a frica, cancelou a viagem. Ele ficou em Nova York esse tempo todo que voc ficou afastada, jogando golfe com Harwood e Logan 
Marshall. Ele at me convidou para jantar no Lowell, e depois para irmos ao Cindy's. estou avisando, ele est planejando alguma coisa.
  Lexi sentiu um aperto no peito, mas no pelo motivo que August Sandford queria. Cindy's era um bar de strippers famoso por ter as danarinas erticas mais bonitas 
da cidade. S de pensar em Max passando a mo em alguma deusa seminua enquanto ela estava na frica, Lexi ficou morrendo de cimes.
  - Voc foi? Ao Cindy's?
  August passou a mo no cabelo, frustrado.
  - No, Lexi. Acho que voc no est escutando o que estou dizendo. Acho que Max est tramando alguma coisa contra voc pelas suas costas. Acho que ele est tramando 
alguma coisa.
  - Voc est errado.
  - Estou? O que aconteceu na Itlia, Lexi? Daquela vez que eu deveria ter me encontrado com voc em Florena? 
 - No aconteceu nada. - Lexi estava na defensiva. - Voc desapareceu para Taiwan sem nem ao menos ligar. Max estava na Itlia cuidando de outros negcios. Jantamos 
juntos. E da?  Isso foi um ano atrs, pelo amor de Deus.
  - Taiwan foi uma armao. No havia reunio alguma. Algum ligou para Karen, minha secretria, fingindo ser a secretria do Sr. Li. Viajei meio mundo para nada. 
  Lexi riu.
  - E voc acha que foi Max? Fala srio! Isso est me parecendo Misso Impossvel.
  August ficou em silncio por alguns momentos.
  - Lexi - disse ele finalmente. - Voc e Max esto juntos?
  O rosto de Lexi ficou vermelho, tanto de raiva quanto de constrangimento.
  - O qu?
  -  uma pergunta simples. Voc est dormindo com ele?
  Lexi se levantou.
  - Em que mundo alternativo isso poderia ser da sua conta?
  Quem diabos August Sandford pensa que ? Meu pai?
  August j ia cham-la, mas ento lembrou-se que ela no o escutaria. Levantou-se e seguiu-a at a rua.
  Ainda estava nevando. Segurando Lexi pelo ombro, August a girou para encar-lo. Foi quando ele percebeu que estavam cercado de fotgrafos. A esta hora da manh, 
sem dvidas, a imprensa estaria afirmando que era o novo namorado de Lexi Templeton.
  - Acho que voc est apaixonada por Max. - uma vez que chegara at aqui, iria at o fim. - E acho que isso est atrapalhando a sua capacidade de ver as coisas 
claramente. Ele est usando voc, Lexi.
  Clique, clique, clique.
  Furiosamente, Lexi se soltou.
  - Se tem algum aqui que no est conseguindo ver as coisas claramente,  voc. Est com cimes. Est com cimes porque eu e Max...
  - O qu? Voc e Max o qu?
  Neste momento, John, o porteiro do Harvard Club, saiu correndo do clube em direo a eles. Abriu o caminho  fora entre os paparazzi, carregando o casaco de Lexi. 
Entrando na frente de August, ele envolveu-o em Lexi.
  - Pelo amor de Deus, Srta. Templeton. Como sai sem seu casaco? Vai congelar.
  - Obrigada, John.
  Com a expresso mal-humorada,  Lexi abotoou o casaco de l creme at o pescoo. Lanando um ltimo olhar furioso para August, ela entrou no banco de trs de seu 
carro. O motorista acelerou, jogando um spray de neve suja em cima dos paparazzi.
  Lexi olhou pelo vidro escuro, tentando organizar seus pensamentos.
  - Para o escritrio, senhorita?
  - Ainda no, Wilfred. Voc se importaria de apenas dirigir por a um pouco?
  Maldito August e suas suspeitas estpidas! O que ele sabe? Lembrou-se de tudo que ele tinha lhe contado. Max e Jim Bruton tinha brigado por causa de um acordo. 
E da? Isso acontecia o tempo todo. Max cancelou uma viagem a Europa. Pode ter sido por uma srie de motivos. Max jogou golfe com membros do conselho. No podia 
nem ser chamado de ofensa. De fato, a histria de Taiwan era estranha. Mas Lexi tinha certeza de que deveria haver uma explicao totalmente racional.
  S no sabia por que no conseguia afastar a sensao desagradvel que estava sentido.

  Ainda estava enjoada naquela noite quando chegou em seu apartamento. Normalmente, cozinhar e assistir reprises de Friends a ajudava a se distrair, mas esta noite 
nada estava funcionando.
  Depois de vestir seu pijama e sentar-se no sof com um enorme pote de sorvete, Lexi decidiu ligar para seu irmo. Robbie sempre a ajudava a ver as coisas sob outra 
perspectiva, e, pelo menos desta vez, ele estava no mesmo fuso horrio que ela, fazendo uma srie de concertos em Pittsburgh. Graas ao novo telefone com tela da 
Geemarc, uma inveno brilhante que permitia que ela falasse normalmente ao telefone e recebesse as palavras da outra pessoa em forma de texto a sua frente, estava 
comeando a fugir da tirania do seu e-mail. (A Kruger-Brent fez uma oferta pela Geemarc no ano anterior, mas perdeu para uma rival alem. Na manh do dia seguinte, 
Lexi mandou seu corretor na bolsa comprar o mximo de aes que conseguisse. Hoje essas aes estavam valendo trs vezes mais, e o valor ainda estava em ascenso.)
  Ningum atendeu no quarto de hotel de Robbie. Ele j deve ter sado para o Mellon Concert Hall.
  Talvez eu devesse ligar diretamente para Max?conversar com ele sobre tudo isso. Mas no tinha como fazer isso sem deixar August mal. Por mais que estivesse com 
raiva de August, a ltima coisa que queria era criar uma rixa entre ele e Max. Eles so as duas pessoas que mais confio na Kruger-Brent. Precisarei dos dois ao meu 
lado quando for presidente.
  Uma luz vermelha acendeu na parede em cima da televiso. Algum estava l embaixo. Olhando pela tela de vdeo ao lado da porta do apartamento, Lexi viu um homem 
com os ombros encurvados contra o vento. Quando viu quem era, sorriu.
  Ele nunca vem ao meu apartamento. O que ser que ele quer a esta hora da noite?
  Apertando o boto para abrir a do edifcio para ele, Lexi correu para o banheiro para passar blush. A frica estava um forno, mas ela tivera pouco tempo para pegar 
sol. As viagens sempre faziam com que parecesse esgotada. Na pressa, ela deixou cair maquiagem por todo o cho do banheiro. Ainda estava de quatro, tentando limpar, 
quando Max entrou.
  - Meu Deus, o que aconteceu aqui? Uma tempestade de areia?
  Lexi levantou-se e deu um beijo em seu rosto.
  - No estava esperando voc.
  - Eu sei. Estava voltando para casa do restaurante e pensei que poderia dar uma passadinha aqui. Mas se voc estiver muito cansada...
  - No, no. Estou tima. - Com uma suter de tric grossa e cala jeans, ele estava ainda mais bonito do que de costume. Lembrou-se das palavras de August. Acho 
que voc est apaixonada por ele.
  - Um drinque?
  - Um usque, por favor.
  Ela foi para a cozinha para servir para ele. Alguns momentos depois, levou um susto. Por trs dela, Max passou as duas mos geladas por sua cintura. Ento, com 
tanta gentileza que Lexi mal conseguiu sentir, ele deu um beijo na sua nuca.
  Ok. Ele est tentando alguma coisa. Certamente posso interpretar assim, no posso?
   Ou o beijo na nuca mostra que foi fraternal?
  Droga.
  Ela se virou. Max estava encarando-a, os olhos predatrios vagando por suas feies como se fosse a primeira vez que as visse.
  - Voc almoou com August Sandford hoje.
  Como ele sabia disso?
  - Almocei.
  - Ele tentou alguma coisa com voc?
  Lexi ficou to surpresa que caiu na gargalhada.
  - Isso  um "sim"? - perguntou Max, irritado.
  - No, isso no  um "sim"!  um "no".  claro que ele no tentou nada comigo. August no me v dessa forma.
  -  claro que ele v voc dessa forma. Todos os homens do planeta vem voc dessa assim.
  Max pegou o rosto de Lexi em suas mos e o puxou. De repente, seus lbios estavam grudados nos dela, e sua lngua, dentro da boca, ansiosa, faminta. Ento, to 
repentinamente, quanto a puxara, ele se afastou. Parecia furioso.
  - No quero que almoce com ele de novo.
  Lexi se conteve.
  - Espere um minuto. Quem voc pensa que  para dizer com quem posso no posso almoar? Mas se...
  Outro beijo. Desta vez, as mos geladas de Max deslizaram por baixo da blusa dela, agarrando seus seios com vontade. Todos os instintos famintos de Lexi diziam 
para se afastar. Mas parecia que sua virilha tinha faltado s aulas sobre Germaine Greer. Em vez de acompanh-lo at a porta, Lexi viu que estava arrancando a suter 
de Max e tentando soltar o cinto dele.
  Ah, Deus. O que foi que August disse sobre falta de capacidade para ver as coisas claramente?
  - Pensei que voc no se sentisse atrado por mim.
  - Pensou errado.
  Arrancando os botes do pijama de Lexi, Max a carregou para o quarto. Roupas de viagem para a frica ainda estavam espalhada sobre a cama, mas Max no se incomodou 
em tir-las dali. Jogando-a em cima da baguna, abriu suas pernas, abaixou a cabea e comeou a chup-la, sua lngua movendo-se como uma enguia, deslizando na umidade 
entre as coxas dela. Lexi gemeu. Sentiu seus msculos ficarem tensos suas costas se arquearem. Tentando se soltar, ela empurrava a cabea dele. No posso gozar to 
depressa. No posso deixar que ele saiba o quanto o desejava. Mas no adiantou. Lexi parecia no ter o menor controle sobre o seu corpo. Sentiu os espasmos conforme 
as ondas de prazer tomavam conta de seu ser.
  No instante que o orgasmo dela acabou, Max arrancou as prprias calas e subiu na cama de forma que pudesse encar-la. Lexi olhou dentro de seus olhos. Esperava 
ver excitao, teso, alegria. Mas encontrou-se fitando dois poos negros sem fundo de... nada. Sentiu uma pontada momentnea de medo.
  Voc no  Max.  um estranho. Quem  voc?
  Era medo misturado com teso. Mesmo na poca em que acreditava odiar Max, Lexi reconhecia que ele tinha algo animalesco e selvagem. Alguma coisa perigosa. Era 
a parte dele que, secretamente, sempre desejara possuir, revelar. Agora estava prestes a revel-la. Mal podia respirar.
  Max percebeu que ela estava tentando desvend-lo, tentando descobrir quem ele era realmente. Virou-a de costas para que no pudesse ver seu rosto. Ento, penetrou-a 
por trs, seu enorme pnis satisfazendo-a total e finalmente.
  Lexi gemia de prazer.
   isso.  assim que sexo deve ser.
  Logo, ela no tinha mais noo de nada alm das incrveis sensaes que se espalhavam por seu corpo.
  Max tambm se perdeu no momento. tentou se segurar, mas era impossvel. Os seios de Lexi pareciam os de sua me. Seu cabelo, sua pele tinham o cheiro de Eve. Estava 
fazendo isso por sua me. Tudo era por Eve. Ainda assim, se sentia infiel, sujo, penetrando sua prima por trs.
  No deveria ser to bom. No com Lexi. Max a odiava.
  Eu odeio voc.
  Max gozou, gritando o nome da me.
  Como no podia ver seu rosto, Lexi no pode escut-lo.

  O romance de Lexi com Max era como o tesouro secreto de uma criana: precioso demais para mostrar para as outras pessoas. Quando Lexi era pequena, tinha uma linda 
caixa antiga que usava para guardar suas "coisas da natureza" especiais: um ovo de pssaro que cara no gramado de Dark Harbor sem se quebrar; o crnio de um coelho, 
to branco que at brilhava no escuro. Se pudesse, teria escondido o amor de Max naquela caixa. s o tiraria de l  noite, quando estivesse sozinha, como o crnio 
do coelho, para fit-lo maravilhada. O fato de ningum no trabalho saber que estavam juntos s tornava o relacionamento ainda mais excitante.
  - Somos primos. E colegas de trabalho. As pessoas entenderiam - dizia Max.
  Lexi concordava. Um dia, em breve, seria chefe de Max. Chefe de todo mundo. Discrio na Kruger-Brent era de vital importncia.
  "As pessoas" entenderiam muito menos se fossem moscas na parede assistindo  vida amorosa de Max e Lexi. Desde que perdera a virgindade aos 16 anos, Lexi se lanou 
em uma misso sexual, determinada a no deixar que o abuso que sofrera na infncia atrapalhasse a sua libido na vida adulta. Ficara to ocupada provando sua sexualidade, 
mostrando para amante aps amante como gostava de sexo e como era senhora de si, que nunca parou para descobrir o que realmente queria.
  Max era a resposta para todas as perguntas que Lexi j fizera. No seu apetite sexual era compatvel com o dela. Mas ele transava com um desespero violento que 
a deixava sem flego e implorando por mais. Nunca tinha imaginado que poderia gostar de ser dominada na cama. Na vida, na sala de reunies, ela era a Senhora do 
Jogo. Mas Max abriu a porta para um outro lado de sua psique. Os jogos comeavam devagar:ele segurava as mos dela ou dava um tapa em seu bumbum enquanto faziam 
sexo. Mas conforme as respostas de Lexi iam se intensificando, Max ia cada vez mais longe no seu jogo de sexo e poder. Sodomia, algemas, humilhao - no havia limites. 
Lexi se sentia livre. Em casa, na cama com Max, podia tirar a armadura que usara em Harvard e com a mdia, a mesma armadura que vinha usando a vida inteira. A armadura 
que dizia: "Sim, eu sou surda e sou mulher. Mas no ache que vai me foder." Com Max, podia finalmente ser ela mesma. Real, vulnervel, desprotegida.
  Era a melhor sensao do mundo.
  O nico aspecto negativo do relacionamento era que no passava tempo suficientes juntos. Lexi, principalmente, ainda estava cumprindo uma agenda insana de viagens. 
E Max estava ocupado at o pescoo com a poltica interna da Kruger-Brent.
  - Vai ser melhor quando voc for a presidente. Ficar mais em Nova York - dizia Max. - Poderemos controlar as nossas agendas.
  Lexi mal podia esperar.

  - J encontrou alguma coisa? - perguntou Eve para Max. - Tem de haver alguma coisa que possa usar contra ela.
  - Ainda no. Estou me esforando.
  - Ento seja mais rpido. Est perdendo muito tempo transando com ela, no est?
  - No.
  - Est sim. Est se divertindo demais para se lembrar quem Lexi . Ela  sua inimiga, Max. Est tentando nos roubar. O tempo est se esgotando.
  - Eu sei. - Max detestava decepcionar a me. Tambm tinha medo de que ela estivesse certa. s vezes, quando Lexi gritava, gemia e se contorcia embaixo dele, ele 
quase chegava a acreditar que realmente a amava. Que tivesse se esquecido de por que a seduzira. Esquecido que isto era tudo um jogo. Um jogo em que o vencedor ficaria 
com o maior de todos os prmios: a Kruger-Brent.
  Eve fazia com que se lembrasse sem meias palavras.
  - Voc sabe o que fazer, Max. Transe com ela. Faa-a de boba. Acabe com ela.
  Max assentia de forma inflexvel.
  Sabia o que fazer.

  Lexi deitou e tentou controlar sua respirao.
  O Dr. Cheung disse:
  - No fique nervosa. Pense nisso como uma vacina contra a gripe.
  Certo. Uma injeo contra a gripe que poderia me devolver a audio.
  Lexi nunca imaginou que a esperana pudesse ser to dolorosa. Desde que Max lhe falara sobre o Dr. Cheung e o trabalho pioneiro que vinha desenvolvendo com terapia 
de genes, ela no conseguia dormir. Era como ir a um mdium que afirmasse que poderia entrar em contato com as pessoas amadas que morreram. Voc quer acreditar. 
Mas, para fazer isso, precisa abrir antigas feridas. Lexi j aceitar h muito tempo o fato de que nunca mais voltaria a escutar.
  Ento, um dia no caf da manh, Max lhe entregou casualmente um exemplar de The New York Scientist e seu mundo desabou.
  - Olhe isto. Um cara na China encontrou um gene que conseguiu recuperar a audio de porquinhos-da-ndia surdos.
  Lexi leu o artigo. O gene se chamava Math1. Dr. Cheung desenvolvera um adenovrus geneticamente modificado contendo Math1, e injetou-o na cclea de porquinhos-da-ndia 
surdos. Inacreditavelmente, as clulas sensitivas do ouvido interno do animal voltaram a crescer. Oitenta por cento da amostra recuperou a audio completa em questo 
de semanas.
  Ela devolveu a revista para Max.
  - Ele ainda no testou em humanos. Os cientistas esto sempre apresentando esses chamados progressos. No vai funcionar.
  - Aqui diz que ele comeou os experimentos em humanos no ms passado. Voc no tem curiosidade em conhec-lo?
  - No.
  - Ele vem sempre a Nova York.
  - J disse que no, Max, OK? No tenho tempo para conhecer esse chins.

  Lexi pressionou um curativo no brao.
  - Quanto tempo leva? Para sentir os efeitos?
  - Depende. Tive pacientes em que as clulas ciliadas voltaram a crescer quase imediatamente. Em outros, levou semanas, ou at meses. Talvez voc precise tomar 
uma segunda injeo. Pode voltar para me ver daqui a duas semanas?
  Dr. Cheung estava quase to nervoso quanto Lexi. Se a terapia fosse um sucesso com uma paciente to famosa, sua vida estaria feita. Se fracasse, teria de dar adeus 
ao financiamento, sem falar na sua reputao mdica.
  -  importante descansar o mximo que voc puder, principalmente na primeira semana.  uma mudana enorme no seu corpo.
  - Acho que isso ser impossvel. - Lexi pegou sua bolsa. - Vou assumir a presidncia daqui a um ms. Tenho muito o que fazer na Kruger-Brent.
  Dr. Cheung tentou no parecer nervoso.
  - Srta. Templeton, precisa descansar. Estamos falando da sua audio. Mesmo se formos analisar isso puramente do ponto de vista profissional, acho que vai concordar 
que  um investimento que vale a pena.
  Max disse a mesma coisa.
  - V para Dark Harbor. Fique com seu pai. Pode ser a sua ltima chance de tirar frias. Quando se tornar presidente, nunca mais vai poder se afastar.
  Lexi concordou, com relutncia. Mas com uma condio.
  - Prometa que no vai contar a ningum sobre o tratamento? No quero levantar expectativas. No at que o resultado seja certo.
  Max pegou-a nos braos e beijou-a.
  - Prometo. Agora, pelo amor de Deus, saia daqui. V descansar enquanto ainda pode.
  
  - Escutou? O Papai Noel acabou de pousar seu tren no farol de Grindle Point.
  Robbie Templeton estava em um caf em Dark Harbor, sentado em frente  sua irm.
  - Grindle Point? Nossa!
  Lexi leu os lbios de Robbie, mas seus pensamentos estavam a quilmetros dali. Dr. Cheung dissera que poderia levar semanas, para sua audio comear a voltar. 
Ele tambm disse que vinte por cento do estudo no teve nenhum reao ao Math1.
  Robbie continuou.
  - O gorducho est planejando controlar a galxia usando o farol como sua base.
  - Certo.
  - Rudolph est no comando da primeira onda de ataque. Depois disso, o show vai comear. Pode ser uma rena ou outra. Tanto faz.
  - Entendo. Brilhante.
  Robbie estendeu o brao sobre a mesa e beliscou com fora o brao da irm.
  - Ai! Por que voc fez isso?
  - Estou tentando chamar a sua ateno h 15 minutos. Voc no entendeu uma s palavra do que eu disse. Eu podia at voltar para Paris e pronto.
  - Desculpe.
  A viagem para visitar o pai foi a primeira vez que os irmos conseguiram realmente passar um tempo juntos em mais de cinco anos. Robbie agora era um astro famoso, 
enchendo salas de concertos e estdios em todo o mundo. Encontrar uma janela em sua agenda era como ganhar na loteria. Mas, por mais que Lexi adorasse a companhia 
dele, era difcil no pensar na sua audio. Ou na falta dela. Tambm estava ansiosa para voltar para a Kruger-Brent.
  Como posso descansar se a minha cabea est a mil?
  - Voc acha que o papai ia ficar muito triste se eu voltasse para Nova York?
  Robbie franziu a testa.
  - No sei. Eu ficaria. Por que a pressa?
  Ele estava preocupado com Lexi. Ela perdera peso desde a ltima vez que a vira, provavelmente por causa do estresse. Nada conseguia apagar a sua beleza, mas aos 
olhos do irmo, ela parecia abatida e mais cansado do que nunca.
  Lexi olhou para ele e se perguntou quando, exatamente, tinham se afastado tanto. Ainda amava Robbie. Mas, se antes ele a compreendia quase to bem a si mesmo, 
agora fazia perguntas sem sentido para ela.
  Qual era a pressa?
  Como poderia responder a isso? O que isso significava? Os negcios eram a pressa. A vida que corre em minhas veias. Talvez eu nunca mais escute de novo. Mas sempre 
terei a Kruger-Brent.
  Max teria compreendido.

  Tristram Harwood olhou para tela  sua frente. Com cada nova imagem, seus olhos reumosos de 70 anos se arregalavam mais. O viva voz ainda estava ligado.
  - Est vendo a escala do problema, Tris?
  O CEO da Kruger-Brent disse assustado.
  - Estou. Tem alguma forma... de conter isso?
  A voz no outro lado da linha riu.
  - Conter? Est em toda a internet? Em poucas horas, essas fotos estaro na Fox News e as nossas aes vo desabar. Voc precisa dar alguma declarao.
  Tristram Harwood desligou.
  Ele passara trs anos "cuidando da casa" na Kruger-Brent. Trs anos calmos, sem escndalos. E agora, na sua ltima semana.
  - Garota burra - murmurou ele baixinho. - Burra, burra.

  Cedar Hill House fora a casa dos sonhos de Kate Blackwell, um Oasis de tranqilidade em sua vida turbulenta. A vista era espetacular; a decorao, confortvel 
e acolhedora. Durante muito tempo, a casa despertava lembranas dolorosas em Peter Templeton. Mas, conforme foi ficando mais velho, e seus filhos se tornaram adultos, 
ele foi se sentindo cada vez mais atrado ao lugar. Kate vinha para c para fugir do mundo. Quando se aposentou, ele decidiu que faria o mesmo.
  Fez algumas mudanas cruciais. No havia mais televiso nem telefone na casa. Se era para fugir do mundo, ento precisava fazer direito. Havia apenas um computador 
velho na escrivaninha de Peter, mas no ficava nem ligado na tomada.
  Robbie gostava de se sentir afastado. Ajudava-o a relaxar. Lexi detestava.
  Graas  fobia de comunicao de Peter, Lexi s recebeu o e-mail de August Sandford s 20 horas. Estava caminhando perto do lago com Robbie quando seu Blackberry 
de repente comeou a vibrar. Continuou vibrando.
  Setenta e duas mensagens.
  A que August mandara tinha tantos de pontos de exclamao vermelhos que ela resolveu abrir primeiro.
  Robbie viu a cor sumir do rosto da irm.
  - O que foi?
  - Preciso voltar para Nova York. Agora. Preciso de um avio. - Enquanto falava, Lexi escrevia uma mensagem, seus dedos se mexendo rapidamente.
  - So 20 horas da noite, querida!  muito tarde para...
  - ARRANJE UM AVIO PARA MIM!
  - Certo. Certo. - disse Robbie. - Vou ver o que posso fazer.

  O Aeroporto Kennedy estava fervendo de reprteres.
  Esses gafanhotos vieram me comer viva.
  - Lexi, voc j viu as fotos?
  - Quando elas foram tiradas?
  - Vai renunciar ao posto na Kruger-Brent?
  - Tem idia de quem colocou as imagens na internet?
  Tenho, tenho uma idia. Sei quem foi. Sei quando.
  Mas nada disso vai me ajudar.

  A sala de reunies da Kruger-Brent era circular. Assentada como uma torre circular no topo do prdio da Park Avenue, tinha uma vista fenomenal de Manhattan, do 
Central Park e do rio East. No meio, havia uma mesa redonda de mogno, grande o suficiente para acomodar trinta pessoas. Hoje, havia vinte cadeiras ao redor: 15 para 
o conselho, incluindo Tristram Harwood. Trs para os principais advogados da Kruger-Brent. Uma para Max e uma para Lexi.
  Dezenove cadeiras estavam ocupadas. Eram 5 horas.
  - Cad ela? Depois de colocar a empresa nesta situao o mnimo que ela podia fazer era chegar na hora.
  Logan Marshall, o mais antigo membro do conselho, nem tentou esconder sua irritao. Olhando pela mesa, era bvio perceber que seus colegas no pensavam diferente. 
Quando os mercados abrissem naquela manh, podia esperar pelo menos um tero do patrimnio lquido da empresa virasse cinzas. E a culpa era de uma nica pessoa.
  - Cheguei! Cheguei. Podemos comear.
  Usando uma saia caneta cor de pssego e casaco creme Max Jacobs, com saltos to altos que pareciam punhais, Lexi estava vestida para matar. August Sandford pensou: 
ela no vai desistir sem lutar. Mas no vai conseguir vencer. No desta vez. Lanou um sorriso encorajador para ela, mas Lexi estava nervosa demais para retribuir. 
Ela comeou com o discurso que tinha preparado.
  - Primeiro gostaria de me desculpar com todos por haver colocado vocs... colocado a ns... nesta posio.
  Silncio.
  - Obviamente, nossa principal preocupao esta manh  com o preo das aes. No meu ponto de vista, antes de tomar qualquer deciso, temos de agir para limitar 
os danos e tranqilizar nossos acionistas.
  Silncio.
  Lexi continuou.
  - A primeira coisa que eu pensei ao ver essas fotos foi em renunciar imediatamente. - August escutou sussurros de "apoiado". Graas a Deus, Lexi no. - Mas todos 
sabemos que uma mudana de administrao repentina e inesperada  a ltima coisa que conseguir restaurar a confiana dos investidores. Nossas aes tm subido constantemente 
nos ltimos seis meses na expectativa da minha posse como presidente no ms que vem. No acredito que eu jogar toalha v nos ajudar.
  Logan Marshall murmurou para August.
  - Pena que ela no pensou nisso antes de se jogar nos braos de todos aqueles garotos em Harvard. E ainda se deixar filmar. Em que ela estava pensando?
  - Eu discordo.
  Max se levantou. Parecia confiante, equilibrado e descansado. Lexi pensou: como ele consegue estar to bonito s 5 horas da manh?
  - Vamos ver com o que estamos lidando, que tal - Max tirou um controle remoto do bolso. No segundo seguinte, uma tela desceu do teto. Nela, havia Lexi, nua de 
joelhos, fazendo sexo oral com um homem sem rosto enquanto outros dois assistiam.
  August Sandford se ops.
  - Isso  realmente necessrio? Todos ns j vimos essas fotos.
  -  verdade, e tivemos o final de semana inteiro para digeri-las - disse Max. - Pense nos nossos acionistas, acordando de manh e vendo isso pela primeira vez.
  Apertou o boto do controle remoto. Outra foto: Lexi cheirando cocana. E outra. E outra. Todas essas fotos tinham sido tirados na mesma festa, na primeira semana 
em Harvard. Anos atrs, Lexi (com a ajuda de um cheque bem gordo) conseguiu convencer o "amigo" que tirou essas fotos a entregar o chip da cmera digital para ela. 
Deveria t-lo destrudo na poca. Mas, por algum impulso idiota, guardou-o no cofre de seu apartamento. Uma lembrana da "Lexi Festeira" que ela deixara para trs, 
a velha e promscua Lexi de que ela se desfizera desde que se apaixonara por Max.
  Apaixonar.
  S mais uma pessoa conhecia o segredo de seu cofre.
  Max ainda estava falando. Olhou nos olhos de cada membro do conselho. Quando chegou a vez de Lexi, passou direto, como se fosse um fantasma.
  No  de se espantar que tenha insistido tanto para me mandar para Dark Harbor. Havia quanto tempo estava planejando isso, seu desgraado?
  - No so apenas os nossos acionistas. Temos de pensar nos danos que isso pode causar internamente na Kruger-Brent. J recebi e-mails dos gerentes dos escritrios 
em Dubai, Kuwait e Deli, todos ameaando se demitir se Lexi se tornar presidente. Tristram, voc j recebeu alguma ligao?
  Tristram Harwood assentiu, com raiva. Os Estados Unidos podiam estar preparados para perdoar as indiscries de juventude de sua queridinha. Mas a Kruger-Brent 
era uma multinacional, operando em todo o mundo, inclusive em pases muulmanos e hindus. Ter uma presidente mulher e surda j era ruim o suficiente. Mas esse tipo 
de mcula? Eles no perdoariam.
  Lexi ficou sentada e assistiu em silncio enquanto os homens  sua volta debatiam o seu futuro. S que no era um debate. Era um julgamento arranjado. O veredicto, 
culpada, j tinha sido decidido antes mesmo de ela entrar na sala.
  Era bvio que foi Max quem a traiu. Ele a manipulou, exatamente como August disse que faria. Imagens do sexo e da paixo pag e selvagem que tiveram nos ltimos 
seis meses passaram pela cabea de Lexi sem serem convidadas. Isso foi s um jogo para ele? Parte de um plano de batalha? Deve ter sido. Mas o desejo que ele sentia, 
o amor por ela pareciam to reais.
  Lexi avaliou suas opes.
  Eu poderia contar para eles. Poderia contar para o conselho que foi Max quem roubou essas fotos e publicou-as. Foi Max quem causou esta crise. Foi Max quem nos 
colocou nesta situao.
  Mas mesmo enquanto pensava, Lexi sabia que nunca faria isso. O mercado j tinha perdido a confiana nela. O preo das aes da Kruger-Brent despencaria naquela 
manh como resultado disso. Se o nome de Max tambm fosse maculado os investidores no teriam nada em que se segurar. A empresa sairia das mos da famlia Blackwell. 
Poderia at falir.
  A Kruger-Brent era o verdadeiro amor da vida de Lexi. No poderia permitir que ela afundasse.
  Olhou para Max. Era com isso que voc estava contando, no era? Voc sabia que eu no o acusaria. Voc sabe o quanto eu amo esta empresa.
  Ela o odiou por ter feito isso com ela. Mas o odiou ainda mais por ter feito isso  Kruger-Brent. Para garantir que assumiria a presidncia, ele arriscou a empresa 
toda.
  Lexi se levantou.
  - Basta.
  Ela levantou a mo, pedindo silncio. Todos os murmrios cessaram.
  - Est claro que todos vocs tm a mesma opinio. Portanto, para o bem da empresa, retiro meu nome da eleio para a presidncia. Renunciarei formalmente esta 
tarde.
  Os advogados ficaram visivelmente aliviados.
  Max abriu a boca para falar. Mas quando olhou nos olhos de Lexi, as palavras se apagaram em seus lbios. As coisas que queria falar e que no tinham a menor importncia: 
desculpe. Eu ainda amo voc. Teve de destru-la para ganhar a Kruger-Brent para Eve. Esse era o seu destino, o objetivo de sua vida. No teve escolha. Esperava que, 
um dia, Lexi visse isso. Ela entenderia.
  Com uma dignidade tranqila que fez August Sandford ter vontade de chorar, Lexi pegou sua pasta, virou-se e saiu da sala.
  - Boa sorte, Max.

  Lexi esperou as portas do elevador se fecharem antes de relaxar os punhos. Sangue pingava de sua mo, onde ela cravara as prprias unhas na carne.
  Boa sorte, Max.
  Boa sorte, Judas, seu traidor filho da puta.
  Lembrou-se da poca em que estudou a Bblia.
  "E Jesus disse: Em verdade, em verdade, vos digo, um de vs me h de trair. Infeliz desse homem, o traidor! Seria melhor para ele nunca ter nascido."
  Lexi ia fazer com que Max desejasse nunca ter nascido.
  Seu primo ganhara a batalha.
  Mas a guerra s estava comeando

Fim do Livro Um

Livro Dois

Captulo 22

  CINCO ANOS DEPOIS. LOS ANGELES.

  Paolo Cozmici olhou para a sala de estar lindamente decorada em Bel Air e criticou.
  - Muitas flores. Parece que algum morreu.
  Robbie Templeton deu um beijo indulgente no topo de sua cabea.
  - As flores so perfeitas. Tudo est perfeito. Relaxe, querido. Tome um drinque.
  Naquela noite seria a festa de aniversrio de 40 anos de Robbie. Com seu altrusmo tpico, decidira marcar a data com um evento de caridade que esperava angariar 
milhes para a Fundao Templeton/Cozmici contra a Aids. Celebridades do mundo da msica clssica e pop, logo estariam atravessando o porto de ferro fundido da 
casa de Robbie e Paolo, onde um bando de paparazzi ansiosos j estava esperando. A vasta propriedade em Bel Air era a casa do casal mais feliz da msica clssica 
havia trs anos. o corretor imobilirio a descrevera como "uma manso de campo francesa", expresso que levou o pobre Paolo s gargalhadas.
  - J esteve na Frrana?
  Na verdade, era uma casa grande e vulgar, que se parecia com um bolo de casamento, cercada por tantas roseiras que faria Martha Stewart estremecer. Os jardins 
eram completados por um riacho artificial - impulsionado por uma bomba eltrica escondida - e a rplica de uma ponte medieval. Era o eptome do cafona: exagerada, 
norte-americana, suburbana Disney. Mas tambm era incrivelmente confortvel, com vistas magnficas em quase todos os cmodos e, principalmente, conferia tal privacidade. 
Robbie e Paolo eram muito felizes ali.
  - Ah, Lexi, a est voc. Voc poderia dizer ao Monsieur Resmungo que a casa est maravilhosa?
  - A casa est maravilhosa.
  Era difcil acreditar que Lexi Templeton tinha 30 anos. descendo as escadas com seu vestido de noite cinza Hardy Amies, com diamantes brilhando em suas orelhas, 
pescoo e pulso, a pele ainda tinha o vio da adolescncia. O longo cabelo estava solto, outro toque adolescente que escondia a executiva fria.
  Depois que Lexi deixou a Kruger- Brent cinco antes, por causa de um srio escndalo que destruiu sua imagem, a maioria dos mais importantes comentaristas do mundo 
dos negcios a esqueceu. Do dia para a noite, sua foto parou de sair nas capas das revistas, Lexi no deu nenhum declarao, no respondeu a nenhum boato, no mandou 
nenhum recado por "amigos" ou "pessoas prximas". Parou de ir a festas de celebridades, leiles beneficentes, vernissages. Comeou-se a especular que tinha deixado 
os Estados Unidos, mas ningum tinha certeza. Conforme os meses foram passando, as pessoas parara de se importar.
  Mas aqueles que presumiram que Lexi se escondera para lamber as feridas subestimaram profundamente a fora de sua ambio, sem falar da resistncia de seu esprito.
  Dez dias depois do golpe de Max, Lexi acordou com o som das buzinas do lado de fora de seu novo apartamento alugado (a imprensa a obrigara a deixar seu antigo 
apartamento). O barulho, no comeo, era abafado, como se tudo estivesse coberto por neve. Mas no decorrer dos dias, a neve comeou a derreter lentamente. Os sons 
foram ficando mais altos e ntidos. Lexi deleitava-se com cada um deles como um beb recm-nascido. A gua caindo da pia de seu banheiro fazia com que desse gargalhadas. 
Vendedores gritando na rua abaixo lhe davam um n na garganta. O mais estranho de tudo era a sua voz. Parecia no lhe pertencer.
  Dr. Cheung ficou orgulhoso.
  - Parabns, minha querida. Lamento apenas que muito do que voc precisa escutar seja to desagradvel.
  Como qualquer outra pessoa dos Estados Unidos, Dr. Cheung vira as fotos e lera as reportagens. Tinham despido a coitadinha em praa pblica.
  Lexi, porm, parecia inabalvel.
  - No se preocupe comigo, doutor. Voltei a escutar.  s o que importa.
  E era verdade. De repente, Lexi se sentia invencvel. Levantando capital com suas aes da Kruger-Brent - apesar da queda no valor, sua parte ainda vali mais de 
cem milhes de dlares -, ela comeou discretamente sua prpria imobiliria, a Templeton Estates. Comeou a comprar terrenos baratos na frica, seguindo o mesmo 
plano de negcios que pretendia adotar como presidente da Kruger-Brent. Em dois anos, ela ultrapassou quase todos os seus concorrentes africanos. Este ano Lexi finalmente 
sentiu a imensa satisfao de ver o valor das aes da Templeton ultrapassar o da Kruger-Brent na frica.
  Apenas uma empresa se mantinha  frente dela: a Fnix de Gabriel McGregor, com base na Cidade do Cabo. Mas a Fnix comeara cinco anos antes da Templeton. Ningum 
podia negar que, para uma empresa de 5 anos, Templeton Estates tinha conseguido chegar bem longe.
  Conforme sua empresa prosperava, a autoestima de Lexi comeou a ressuscitar. Quando Max a traiu, publicando aquelas fotos horrveis e degradantes, parte dela queria 
sumir e morrer. Agora, com sua audio e sua fortuna recuperadas, estava dando seus primeiros passos de volta  vida pblica. Em um impulso momentneo, aparecera 
na inaugurao do restaurante de um amigo em Nova York. Usando um vestido vintage Bill Blass, Lexi roubou a cena por completo, surgindo com o belo e estonteante 
glamour dos velhos tempos. Logo, as comportas se abriram. Os homens voltaram a correr atrs dela. E no eram quaisquer homens. Lexi namorava msicos, executivos, 
astros de Hollywood, mudando a poucas semanas, sempre alimentando os tablides. Com o dlar em constante baixa e a economia estagnada, os Estados Unidos ansiavam 
por glamour e animao como um viciado em herona ansiava por uma seringa. Havia melhor forma de ressuscitar o moral nacional do que receber de braos abertos esta 
linda e conquistadora Blackwell de volta ao seio de seu pas?
  Ela teve uma juventude louca e desregrada. E da?Quem no teve?
  Ela voltou a escutar e se reerguer.
  Lexi era uma estrela, uma lutadora, uma vencedora. Reinventara-se mais uma vez. E, mais uma vez, os Estados Unidos estavam hipnotizados por ela.

  Paolo Cozmici no precisava ter se preocupado. A festa foi um enorme sucesso, com a dose certa de escndalos para satisfazer os viciados em fofocas em Hollywood.
  Um famoso produtor musical se trancou no banheiro com uma bela pessoa do mundo da msica que no era sua esposa.
  O nome dessa pessoa era David.
  Uma atriz estava to bbada entrando na banheira de gua quente que se esqueceu do aplique que estava usando para esconder uma parte careca de seu couro cabeludo. 
Quando seu namoradinho de 20 anos viu o que achou ser um rato morto boiando entre suas pernas, desmaiou. O coitado quase se afogou.
  Michael Schett, considerado o gal mais bonito de Hollywood pela lista da People Magazine deste ano, chegou com a capa da Playboy de setembro, mas a jogou para 
escanteio quando viu Lexi. Infelizmente para Michael Schett, Lexi no estava interessada.
  Michael cercou Robbie Templeton no bar.
  - Voc precisa me ajudar. Estou apaixonado. Voc  irmo dela, me diga o que posso fazer para impression-la.
  Com um rosto de gal, uma reputao respeitosa na cama e uma srie de filmes bem-sucedidos no currculo, Michael Schett no estava acostumado a ser rejeitado. 
Uma garota no o descartava assim desde o stimo ano.
  Robbie sorriu.
  - Lexi gosta de um desafio. Voc poderia comear me decifrando. Talvez, ela queira "mudar" voc?
  Michael Schett soltou uma gargalhada. Conhecia Robbie e Paolo h anos.
  - Bela tentativa, Liberace. Ela  linda, mas nenhuma garota  to linda assim.
  - Ei, Michael, sabe o que dizem por a, n. Ningum  homem de verdade at estar com outro homem e no gostar.

  Nas primeiras horas da manh, quando todos os convidados j tinham ido embora, Paolo foi para a cama e deixou Robbie sozinho com Lexi.
  - Sabia que Michael Schett est mesmo a fim de voc?
  Lexi virou os olhos.
  - O qu? Ele  um cara legal. A maioria das mulheres o devoraria. At eu dormiria com ele.
  - No dormiria no. Voc e Paolo esto grudados pela virilha, e voc sabe disso.
  - Na verdade, estamos grudados pelo corao. Mas entendi o que quis dizer.
  Robbie estava preocupado com Lexi. Por fora, parecia que tinha dado a volta por cima. Mas a contnua obsesso dela pela Kruger-Brent e pelo primo no era normal. 
Seu ritmo de trabalho deixaria qualquer empregado daquelas fbricas desumanas em Taiwan envergonhado.
  - Trabalho no  tudo, sabia, Lexi? Nunca pensou em se acertar com algum?
  Lexi riu.
  - Com Michael Schett? Os filmes dele so mais longos que seus relacionamentos.
  - OK, tudo bem, esquea Michael. Mas todo mundo precisa de amor na vida.
  - Eu tenho amor na minha vida. Tenho voc.
  - No estou falando disso. Voc no quer ter filhos um dia? Uma famlia?
  - No, no quero.
  Lexi suspirou. Como poderia explicar para Robbie que, depois de Max, nunca mais amaria de novo? Ele no fazia nem idia de seu romance com Max - ningum fazia 
-, muito menos que fora ele quem publicara as fotos que quase a arruinaram. Mas Lexi sabia. Sabia que amor era para os fracos. O amor a deixara cega. Por causa do 
amor, perdera a Kruger-Brent. A nica coisa que importava agora era destruir Max e recuperar sua adorada empresa. Quanto a filhos, a Kruger-Brent era sua filha. 
Confiara em Max, e ele arrancara sua filha de seus braos, tirando-a de seu seio e levando-a para longe.
  Contrariando todas as expectativas, ela reconstrura uma vida e sua reputao. A Templeton Estates era um enorme sucesso. Mas, por dentro, o desejo de ter a Kruger-Brent 
de volta corroia a vida de Lexi como um cido. Transformava cada vitria em cinzas.
  Percebendo que ela ficou chateada, Robbie mudou de assunto.
  - Voc tem ficado muito na Cidade do Cabo ultimamente. J ouviu falar do tal Gabriel McGregor?
  Agora, ele conseguira a ateno dela.
  - J sim. Mas no o conheo. Ele  dono de uma empresa chamada Fnix.  nosso concorrente.
  -  bom?
  - Infelizmente, bom demais - admitiu Lexi. - Ele  um executivo muito sagaz.
  - Mas?
  Ela fez uma pausa.
  - Eu no sei. Como eu disse, no o conheo pessoalmente. Mas tem algo nele em que no consigo confiar. Voc sabia que ele diz que  nosso parente? Que  descendente 
de Jamie McGregor.
  - E no ?
  - No fao idia. Suponho que pode ser. Como voc ficou sabendo dele?
 Indo at a mesa, Robbie pegou uma carta escrita a mo. Entregou a Lexi.
  - Ele e a esposa esto muito envolvidos nas campanhas contra a Aids por l. Ele me escreveu perguntando se eu e Paolo no estaramos interessados em ajud-lo. 
Vou para l semana que vem para conhec-lo.
  Lexi leu a carta duas vezes. Parecia genuna. Mas no conseguia afastar o mau pressentimento. Quem era Gabe McGregor realmente? Muita gente tentava provar uma 
conexo com a famlia dela. Mas esse homem era rico demais para ser um caador de fortuna. Mesmo assim...
  Quando viu, estava falando:
  - Tambm vou para l na semana que vem a negcios. Podemos ir conhec-lo juntos, se voc quiser?
  O rosto de Robbie se acendeu. Havia anos que ele vinha tentando fazer Lexi se interessar por obras de caridades.
  - Seria timo! Posso fazer reservas para irmos no mesmo vo. Seria como nos velhos tempos. Lembra de quando ramos crianas e amos a frica com o papai? Aqueles 
passeios maantes pela histria da Kruger-Brent? Nossa, o papai no parava de falar: Jamie McGregor tinha uma mina de diamante aqui, Kate Blackwell estudou aqui, 
bl bl bl bl bl. - Ele riu.
  - Claro que lembro.
  Parecia que esses passeios com seu pai tinham sido ontem.
  Lexi amava cada segundo deles.

  - Jamie! Tire o trenzinho do cereal da sua irm ou voc vai ficar de castigo.
  Gabe McGregor fitou o filho de 4 anos com o que esperava ser um olhar duro.
  Jamie disse em um tom srio.
  - Desculpe, pai. Mas no posso fazer isso. Teve um acidente e agora preciso esperar o trem de resgate vir peg-lo.
  Collette, a irm de 2 anos de Jamie, abriu um berreiro enorme.
  - No quelo o trem! Meu cereal!
  - Pare de chorar, Collette - disse Jamie, contrariado. - Voc vai deixar o maquinista com dor de cabea.
  - Jamie! - gritou Gabe.
  Dando a volta silenciosamente pela mesa de caf da manh, Tara McGregor tirou o trem causador da discrdia da tigela de cereal de Collette, secou-o com papel toalha 
e o entregou ao filho resmungo.
  - Mais uma reclamao, Jamie, e eu jogo o trenzinho no lixo. Agora coma a sua torrada e vai poder tomar o seu acholatado.
  Para surpresa de Gabe, Jamie se esqueceu na mesma hora do brinquedo e se concentrou em enfiar a torrada com manteiga de amendoim na boca. Logo, suas bochechas 
estavam estufadas com as de um hamster.
  - Acabei.
  - Tem certeza de que ele no vai engasgar? - Gabe fitou Tara, preocupado. - Ele parece uma cobra tentando engolir um coelho.
  Tara nem levantou o olhar.
  - Ele vai ficar bem.
  Como de costume, a rotina matinal de Tara McGregor era um ridculo show de malabarismo: preparar o caf da manh, alimentar e vestir as crianas, mediar a Terceira 
Guerra Mundial, ajudar Gabe a se lembrar onde colocara suas meias/laptop/telefone/sanidade.
  Gabe observou enquanto a esposa fritava bacon para seu sanduche com uma das mos enquanto verificava o e-mail em seu Blackberry com a outra. Com seu sedoso cabelo 
ruivo, cintura fina e pernas longas como de uma gazela, Tara tinha uma sensualidade antiquada que a maternidade apenas acentuara. Por trs, ela parecia Cyd Charisse. 
De frente, tinha uma aparncia mais inocente e saudvel. Combinao de camponesa da dcada de 1940 com filha de fazendeiro irlands. Pele clara. Sardas. Seios fartos 
e femininos. Um sorriso to lindo que deixou Gabe de joelhos da primeira vez em que a viu, e que ainda fazia com que tivesse vontade de lev-la para cima e transar 
com ela, mesmo seis anos depois.
  s 9 horas, Tara estaria na clnica, cuidando de bebs moribundos.
  Ela  um anjo. Uma em um milho. Como diabos uma mulher linda e inteligente como ela se apaixonou por um cara como eu?

  Tara Dinnen detestou Gabe McGregor na primeira vez em que o viu.
  - Aquele cara? Voc quer dizer aquele bobo?
  Tara e sua amiga Angela estavam no novo bar da moda em Waterfront. Angela apontara Gabe como "um gatinho". Tara discordou.
  - Qual  o problema dele? - perguntou Angela. - Ele tem o corpo de Paul Roos e o rosto de Daniel Craig. Ele  uma delcia.
  - E sabe disso - disse Tara, com ironia. - Olhe para ele, exibindo dinheiro para aquele bando de Olivia Palito.
  Como sempre, Gabe estava cercado de modelos, mimando-as com champanhe Cristal.
  - Vamos at l - disse Angela.
  - No, obrigada. Se quiser, pode ir sozinha.
  ngela traou uma linha reta at Gabe. Conversaram um pouco, mas os olhos de Gabe no conseguiam ficar muito tempo longe da ruiva que lhe balanava olhares fatais 
do outro lado do bar.
  - A sua amiga no quer se juntar a ns?
  - No - disse Angela de mau humor. Por que Tara sempre chamava a ateno de todos os homens? - Se voc quer saber, ela acha voc um bobo.
  - Acha?
  Gabe deixou seu drinque de lado. Foi at Tara e perguntou:
  - Voc sempre julga um homem antes de falar com ele?
  Olhando mais de perto, Gabe pde ver que a garota no tinha uma beleza clssica. Tinha o nariz arrebitado. Os olhos eram um pouco afastados. Era alta e forte. 
A palavra "robusta" veio  sua mente. Mesmo assim, havia algo de atraente nela, algo que a diferenciava das beldades da Vogue que ele estava acostumado a namorar.
  - Nem sempre. Mas no seu caso... bem...
  - Bem, o qu?
  -  bvio.
  - O que  bvio?
  - Voc! - Tara riu. - Por favor. O champanhe carssimo? O relgio Rolex? O seu pequeno harm? Qual  o seu carro? Nem me diga. - Ela fechou os olhos, fingindo 
estar se concentrando. - Uma Ferrari, certo? Ou... no. Um Aston Martin! Aposto que voc se v como um James Bond.
  - Para dizer a verdade, tenho um Ranger Rover bastante comum - disse Gabe, fazendo uma anotao mental para colocar seu Vanquish  venda no dia seguinte. - Por 
que no me d o seu telefone, e ele a leva para jantar?
  - No, obrigada.
  - Por que no? Sou um cara legal.
  - No faz o meu tipo.
  - Qual o seu tipo? Posso mudar.
  - Pelo amor de Deus, eu no o seu tipo. - Tara apontou para os clones de 19 anos da Heid Klum que jogavam beijos para Gabe. - Aceite um conselho de amiga. Desista 
enquanto  tempo.
  Mas Gabe no desistiu. Descobriu onde Tara trabalhava (ela era mdica da clnica da Cruz Vermelha para pacientes com Aids em uma das piores reas da cidade) e 
mandava entregar dzias de rosas para ela todos os dias. Chamou-a para sair inmeras vezes, mandou ingressos para o teatro, livros, at jias. Firme e educadamente, 
ela devolvia tudo.
  Depois de trs meses, Gabe estava a ponto de perder as esperanas quando recebeu no trabalho um e-mail inesperado de Tara. Quando o chefe dela descobriu que uma 
de suas mdicas estava sendo perseguida pelo dono da Fnix, praticamente arrastou-a at o computador.
  - Voc faz a idia de quanto vale aquela empresa? Uma doao desse McGregor e poderamos comprar antivirais para os prximos cinco anos.
  - Mas no estou interessada nele.
  - E da que "no est interessada"?! Tem gente morrendo, Tara, no preciso lhe dizer isso. Agora, pisque seus lindos olhos e traga Gabriel McGregor para c com 
seu talo de cheques, e j.
  - Ou o qu? - Tara riu. Adorava seu chefe, principalmente quando tentava dar ordens.
  - Ou vou coloc-las de castigo no quarto sem jantar, sua vaca insolente. DIGITE!

  A visita de Gabe  clinica da Cruz Vermelha na favela Joe Slovo mudou sua vida para sempre.
  Ele prprio vivera em favelas. Com Dia, vivenciara a pobreza devastadora desses lugares. Mas nada o preparara para a intensidade da misria humana em Joe Slovo.
  Meninas de at 2 anos eram trazidas diariamente por alguma parente mulher depois de serem estupradas por um tio ou pelo pai. Aparentemente, a crena popular de 
que o "tratamento" para o HIV era fazer sexo com uma virgem se transformava em uma teoria do tipo "quanto mais jovem melhor". A maioria das crianas morria por causa 
dos ferimentos internos muito antes de desenvolver a Aids, seus frgeis e minsculos corpos devastados pela fora da penetrao.
  - Com vinte randes, compramos dez desses kits para crianas estupradas - disse Tara para um Gabe visivelmente chocado. Ela entregou para ele um saco plstico com 
o Ursinho Pooh na frente. Dentro, havia um rolo de papel higinico, duas calcinhas infantis, alguns lenos esterilizados e um pirulito.
  -  isso? A menininha  estuprada e  isso que vocs do para ela?
  Tara deu de ombros.
  - Elas recebem remdios, quando ns temos. As crianas so as primeiras na fila para receberem antivirais. No podemos fazer mais nada.
  Depois de uma hora conhecendo as alas do hospital - meninas de 20 amos morrendo e implorando s enfermeiras para salvarem seus bebs, homens jovens reduzidos a 
esqueletos fitando o teto sem reao - Gabe pediu licena. Tara o encontrou sentado do lado de fora, lgrimas escorrendo pelo seu rosto. Pela primeira vez, ela se 
perguntou se no tinha sido dura demais com ele. Gabe era to bonito que era difcil no desconfiar dele. Mas seu sofrimento por causa das crianas era obviamente 
genuno.
  - Desculpe pelo choque.
  - Tudo bem. - As mos de Gabe estavam tremendo. - Eu precisava desse choque. O que eu posso fazer? De que vocs precisam?
  - De tudo. Precisamos de tudo.  s dizer, que precisamos. Remdios, camas, brinquedos, comida, seringas, camisinhas. Precisamos de um milagre.
  Gabe colocou a mo no bolso e pegou o talo de cheque. Sem pensar, rabiscou um nmero, e assinou e entregou a Tara.
  - No posso fazer milagres, infelizmente. Mas talvez isto ajude. S at que eu pense em alguma coisa para longo prazo.
  Tara olhou para o nmero e comeou a chorar.
  
  O primeiro encontro deles foi uma catstrofe. Desejando impression-la como um cidado srio, e no um playboy rico, Gabe conseguiu ingressos para a estria de 
um documentrio poltico que recebera excelentes crticas. Tara amou o filme. O que a incomodou foi a trilha sonora adicional dos roncos de Gabe.
  - Desculpe. Mas voc tem de admitir que o filme era chato.
  - Chato? Voc sabia que ganhou a Palma de Ouro em Cannes?
  - Palma da Chatice seria mais adequado - murmurou Gabe.
  - Como voc pode ter achado chato? O tratamento dispensado aos refugiados no Ocidente  um dos temas mais fascinantes e complexos na sociedade moderna.
  No to fascinantes como os seus seios nessa camiseta.
  Quando eles se sentaram para jantar - Gabe escolhera deliberadamente um restaurante reservado especializado em carnes em uma rua calma, nada muito chamativo -, 
as coisas pioraram. Tara se inclinou, seus lindos olhos danando iluminados pela luz da vela. Por um glorioso momento, Gabe achou que ela fosse beij-lo. Em vez 
disso, ela perguntou seriamente.
  - Qual  a sua posio poltica, Gabe? Como voc se definiria?
  - Eu no me definiria.
  - Por favor. Estou interessada.
  Gabe suspirou.
  - Est certo. Sou capitalista.
  Mais tarde naquela noite, sozinho na cama, Gabe ficou se perguntando se de alguma forma errara as palavras, dizendo algo com sou um nazista matador de criancinhas 
ou tenho fetiches por cavalos, e voc? S de ouvir a palavra "capitalista", Tara entrou em um estado tal que saiu do restaurante antes mesmo de terminarem a entrada.
  Ele teve de implorar por um segundo encontro. Desta vez, escolheu algo simples. Incontroverso. Levou-a para patinar no gelo.
  - Nunca patinei antes. - Hesitando sobre o gelo, usando cala jeans e polainas cor-de-rosa, Tara parecia ter 13 anos. Gabe nunca desejara tanto uma mulher.
  -  fcil. - Ele sorriu, pegando a mo dela. Puxando-a para mais perto, ele patinou atrs dela, passando seus braos pela cintura dela. - Apenas ande... e deslize. 
Ande... e deslize. Deixe-me lev-la. - Ele comeou a patinar.
  - No, no, no, est bem. No me empurre. Posso fazer sozinha.
  - Est tudo bem. Voc s precisa relaxar. No vou deixar que voc caia. - Ele comeou a acelerar, fazendo com que os dois deslizassem no gelo.
  - No, Gabe. No quero que voc... prefiro... cuidado!
  O cara que se chocou com eles devia pesar, pelo menos, uns noventa quilos, um caminho humano sem freios. Gabe precisou levar seis pontos na testa. Tara fraturou 
uma costela e quebrou o brao em dois lugares.
  - Voc fica bem de gesso - brincou Gabe no pronto-socorro, quando acabaram de colocar o gesso nela.
  - Obrigada.
  Ela no estava sorrindo. Ah, meu Deus, estraguei tudo. Ela nunca mais vai querer sair comigo. No depois disso.
  - No sou muito bom em encontros, sou?
  - No.
  - Esse provavelmente foi o pior encontro que voc j teve.
  - Sem dvida.
  - Tirando o anterior.
  -  verdade, tirando o anterior.
  - A questo  a seguinte...
  - Sim, Gabe?
  - Voc est rindo de mim.
  E estava mesmo. Tara estava chorando de tanto rir. Instintivamente, ela levantou o brao para enxugar as lgrimas e acertou o rosto com o gesso. Por alguma razo, 
isso fez com que risse ainda mais.
  - Desculpe. Mas voc fica adorvel com o rosto todo roxo. E  o pior exemplo de encontro do mundo. Quer dizer, voc  ruim em uma escala super-humana.
  - Eu sei. - Aproveitando o momento, ele se inclinou e beijou-a to apaixonado que surpreendeu os dois. Mais foi uma surpresa boa. Ento, se beijaram de novo. E 
de novo.
  - Eu amo voc.
  Tara sorriu.
  - Talvez voc fique desapontado, mas acho que tambm amo voc.
  - Sei que sou um pssimo namorado. Mas seria um timo marido.
  - Mesmo? Est me pedindo em casamento?
  - No sei. isso foi um sim?
  - Volte com uma aliana e pensarei a respeito.
  Trs meses depois, eles se casaram.

  Os escritrios da Fnix ficavam na Adderley Street, a rua principal do prspero centro financeiro da Cidade do Cabo. Robbie e Lexi foram levados ao 12 andar.
  - Por favor, esperem aqui. O Sr. McGregor j vai receb-los.
  A sala de espera era um ambiente confortvel, mobiliado com sofs macios e mesas cheias de revistas. Janelas que iam do cho at o teto ofereciam uma vista espetacular 
da Table Moutain. A impresso geral era de riqueza e tranqilidade.
  - A Kruger-Brent no tinha um escritrio satlite para rua? - perguntou Robbie.
  - Ainda tem.
  - McGregor deve estar indo muito bem para ter uma rede aqui.
  Lexi que estava pensando a mesma coisa, assentiu de mau humor. Tinha sido uma sugesto dela que o encontro fosse no escritrio da Fnix.
  - Assim poderemos nos conhecer melhor antes de seguirmos para a clnica. - Na realidade, a inteno dela era avaliar seu concorrente. Agora, desejava no ter se 
incomodado. S esses sofs Stefan Anthony devem ter custado uns vinte mil dlares. Quanto ser que a Fnix faturou no ano passado?
  - Desculpe-me por deix-los esperando. Sou Gabe. Gostariam de entrar?
  Gabe os acompanhou at seu escritrio. Por um momento, Lexi ficou sem palavras. Imaginara Gabriel McGregor como um executivo comum, careca, de meia-idade.
  Por que Robbie no me avisou que ele era to atraente?
  - Lexi Templeton. - Ela deu um aperto de mo frio.
  -  um prazer conhec-la, Lexi. Tara e eu ficamos muito animados quando seu irmo nos respondeu. Robbie e Paolo j fizeram tanto pela luta contra a Aids.
  Lexi pensou: para de puxar de o saco. O que voc realmente quer?
  - No sabia que tambm estava envolvida em obras de caridade?
  - No estou mesmo. Vim para a Cidade do Cabo a negcios.
  - Ah, claro. Templeton Estates.  a sua empresa, no ?
  Voc sabe que . No venha se fazer de bobo comigo, rapaz.
  - Engraado que trs pessoas com os mesmos ancestrais estejam na mesma cidade, envolvidos na mesma obra de caridade e trabalhem no mesmo ramo. No acham?
  Lexi assentiu categoricamente.
  Gabe pensou: gostaria de saber o que est consumindo? Ela  to agradvel e corts quanto uma ona que levou um puxo na cauda.
  No decorrer dos anos, vira inmeras fotografias de Lexi Templeton, incluindo as infames do sexo. Sabia que ela era bonita. Mas nenhuma fotografia conseguiu fazer 
jus  sua presena fsica,  forma como ela parecia encher o ambiente s de entrar. Ela j estava dominando a reunio, deixando o irmo em segundo plano.
  O silncio estava ficando constrangedor.
  - Sinto muito por Paolo no poder vir - disse Robbie - Mas a sade no  mais a mesma, infelizmente. Ele acha todas as viagens muito cansativas.
  - Eu compreendo. Quem sabe da prxima vez? Minha esposa vai ficar feliz em ver quem tambm veio, Lexi. Ela fica de saco cheio com todo o papo de homem.
  Lexi franziu a testa. Ento ele acha que eu sou uma "mulherzinha", no ? Que estou aqui para passar os prximos dois dias fazendo compras com sua esposa dondoca 
enquanto ele depena a fundao de Robbie? Bem, pode esquecer. Estou aqui para proteger os interesses do meu irmo.
  Em voz alta, ela disse.
  - Quero muito conhec-la. Podemos ir?
  Sem esperar uma resposta, Lexi se dirigiu para a porta.
  Pode passar, Vossa Majestade, pensou Gabe.
  Seria um dia interessante.

  Mais tarde naquela noite, deitados na cama na grande casa de fazenda que tinham nas colinas sobre Camps Bays, Gabe perguntou a Tara o que ela achou dos Templeton.
  - Ele  um amor. Ela  uma vadia de carteirinha.
  Gabe riu.
  - Voc  to educada, amor. Por que no me diz o que realmente acha?
  - Ah, por favor. No pode ter gostado dela. - Tara apagou o abajur da mesa de cabeceira. - E ela certamente no gostou de voc. Todas aquelas farpas?
  Era verdade. Aps um dia longo e cansativo, visitando as trs novas clnicas para pacientes com Aids que a Fnix fundara, a negatividade de Lexi j estava comeando 
a incomodar todo mundo.
  - Qualquer um teria pensado que voc estava atrs do dinheiro do irmo dela. Ali est voc, tentando ajudar aquelas pobres pessoas sofredoras, e essa mulher falando 
com voc como se tivesse passado herpes para ela.
  - Outra imagem encantadora. Obrigado, amor.
  - Tem certeza de que nunca transou com ela? - implicou Tara.
  - Absoluta.
  - Isso explicaria muita coisa. Foram tantas, Gabe. Voc pode ter se esquecido dela.
  - Ha, ha. Pode acreditar, se eu tivesse transado com ela, ela no estaria to infeliz.
  - Seu cretino arrogante! - Tara bateu na cabea dele com o livro. Graas a Deus, no era de capa dura. - Falando srio, por que voc acha que ela no gostou de 
voc?
  Gabe vinha se fazendo a mesma pergunta o dia inteiro. Percebeu o olhar de desdm que Lexi lanava toda vez que ele mencionava a conexo familiar entre eles. Talvez 
tivesse alguma coisa a ver com isso? A Fnix ganhara algumas concorrncias da Templeton recentemente, mas no podia acreditar que uma executiva to sria como Lexi 
levaria isso para o lado pessoal.
  - Ela provavelmente s est tentando proteger o irmo. No quer que ningum se aproveite dele.
  - Besteira - disse Tara com firmeza. - Robbie Templeton tem 40 anos e  muito rico. Ele sabe se cuidar sozinho. Alm disso, isto  o que a fundao dele faz ajuda 
pessoas com Aids. Eu no podia acreditar na frieza daquela mulher. Todo mundo chora quando visita clinicas como as nossas pela primeira vez, mas no aquela. Ah, 
no. Parecia que no estava se importando nem um pouco.
  Gabe no tinha tanta certeza. Lexi se mantivera reservada, certamente. Distante, at. No quisera pegar bebs no colo quando ofereceram, e parecera pouco  vontade 
no meio de tanto sofrimento e doena. Mas as pessoas reagiam  tragdia de formas diferentes. Esticando a mo, Gabe acariciou a barriga da esposa. Depois que Collette 
nasceu, o corpo de Tara perdera um pouco da firmeza. Tara se incomodava com isso, mas Gabe adorava seus novos contornos suaves. Ela lhe dera seus filhos, trouxera 
alegria e um objetivo para a sua vida que nenhuma palavra conseguiria expressar, nem nada que fizesse poderia pagar. Gabe a amava mais do que a prpria vida.
  Ele sussurrou no ouvido dela:
  - Eu amo voc.
  Tara suspirou.
  - Eu tambm amo voc, Gabe. Mas estou esgotada. Seja bonzinho e vire para o seu lado da cama, est bem?
  Ah! As delcias do casamento.

  Pela primeira vez na vida, Tara McGregor estava errada. A verdade era que Lexi ficara profundamente comovida com o que viu na clnica. Aqueles bebs minsculos, 
com braos esquelticos e juntas salientes. Quando a enfermeira perguntou se queria segurar uma nenm, Lexi foi tomada por um terror irracional de que poderia quebr-la. 
A pele era fina como papel... e se segurasse com muita fora? A idia de causar mais algum mal para aquela criana era insuportvel. O olhar suplicante da menininha 
assombraria Lexi para sempre. Estava determinada a no demonstrar nenhuma emoo ou fraqueza na frente de Gabe McGregor. Mas, assim que voltaram para a Cidade do 
Cabo, ela desabou nos braos de Robbie.
  - Como isso ainda pode acontecer? Aquelas crianas esto sendo abandonadas para morrer. E os programas de ajuda internacional?
  - Esto sobrecarregados - explicou Robbie, pacientemente. - Eles precisam de dinheiro do setor privado desesperadamente.  por isso que quero tanto me envolver 
com os projetos de Gabe McGregor. Voc no poderia ser um pouco mais simptica com ele.
  Lexi enxugou as lgrimas.
  - Vou fazer um cheque agora mesmo para aqueles bebs. Mas no confio em McGregor. Desculpe, mas no confio.

  Nos dois anos seguintes, os caminhos de Lexi Templeton e Gabe McGregor se cruzaram com mais freqncia, em eventos beneficentes e conferncias, assim como ocasionalmente 
em salas de reunio quando estavam em lados opostos de um acordo. A Templeton Estates estava investindo em mercados imobilirios emergentes por todo o mundo, da 
Gergia ao Ir e ao Tibete. Mas alguma coisa atraa Lexi na frica do Sul. Os rendimentos eram altos. Mas ia alm disso. A frica do Sul era o bero da Kruger-Brent. 
Lexi sentia uma necessidade incrvel de ser bem-sucedida ali.    
  Fnix, cujos investimentos se limitavam  frica do Sul, continuava sendo a lder do mercado. Dia Kabele sara do negcio no ano anterior, deixando Gabe McGregor 
com o homem a ser derrubado no setor imobilirio. Lexi Templeton tinha total inteno de ser a mulher que iria derrub-lo. Mas a Fnix no era o nico alvo  sua 
frente.
  Ela nunca deixava de pensar na Kruger-Brent. A Templeton no tinha negcios em Nova York, mas Lexi insistia em manter um escritrio carssimo l simplesmente porque 
podia ver bem o prdio da Kruger-Brent de sua janela. No admitia isso a ningum. Mas, bem no fundo, Lexi sempre vira a Templeton como um degrau. Algo para preencher 
seu tempo at que descobrisse o que fazer para recuperar a Kruger-Brent, destruindo Max Webster no processo.
   primeira vista, ela sabia que devia parecer louca. A Kruger-Brent era uma gigante, cem vezes maior do que a Templeton. Um monstro. Intocvel.
  Lexi via as coisas de forma diferente.
  Tamanho  a fraqueza da Kruger-Brent. Ela te muitos postos vulnerveis, muitos negcios expostos para quem quiser pagar. E eu conheo todos eles. A Kruger-Brent 
 um monstro de 12 cabeas que no se falam. Quando Max perceber que est sendo atacado, ser tarde demais.
   Os negcios eram um jogo. Ultrapassar a Kruger-Brent seria como uma partida multibiolionria de Jenga. Sim, a torre de Max era infinitamente mais alta que a de 
Lexi. Mas tirando alguns blocos estratgicos da base, o edifcio todo desabaria. A parte difcil seria controlar a exploso, quando chegasse a hora. Lexi precisava 
que a empresa ficasse fraca antes que ela desse o golpe final, mas que no quebrasse totalmente a ponto de no sobrar nada de seu legado.
  At agora, Max estava fazendo a maior parte do trabalho pesado dela. Era um poltico e articulador brilhante, mas seu desempenho como presidente no tinha nenhum 
brilho. Lexi lembrou-se de um comentrio que um professor de Harvard fez sobre um de seus alunos, que se imaginava o prximo Donald Trump.
  - Jon Dean? Por favor. Aquele cara no consegue vender um dlar por noventa centavos.
  Max Webster, pelo que parecia, no conseguia vender um dlar ponto. Ele herdara a atrao de Kate Blackwell pelo crescimento indiscriminado, uma estratgia brilhantemente 
bem-sucedida nas dcadas de 1960 e 1970, mas desastrosa no mundo atual de mercados flutuantes.
  Max podia esperar. A Kruger-Brent tambm.
  Por enquanto, Lexi precisava se concentrar na misso que tinha em mos: aniquilar Gabe McGregor.
 
  O safri foi idia de Gabe. Ele cercou Lexi em uma conveno imobiliria em Sun City, depois do discurso de encerramento de Sol Kerzner.
  - Tenho reservas de uma semana em Shishangeni Lodge para a prxima semana. Tara e as crianas iriam, mas Jamie ficou doente. Fiquei me perguntando se voc no 
estaria interessada?
  Vestido formalmente com um terno cinza-escuro que realava seu bronzeado e destacava os olhos cinza-claros - iguais aos de Lexi -, Gabe estava ainda mais bonito 
do que da ltima vez em que ela o vira. Seria isso parte do motivo para eu no gostar dele? Por ele ser to atraente? Era possvel. Mas deixara uma ferida profunda. 
A simples idia de desejar tanto algum a deixava apavorada.
  - Muita gentileza sua, mas infelizmente no posso. Vou passar o resto do ms viajando.
  - Que pena. - Gabe balanou a cabea. - Dizem que um safri  a melhor experincia no campo.
  - Tenho certeza de que voc vai se divertir muito. - Lexi olhou descaradamente para o relgio.
  - Seria a oportunidade perfeita para conversarmos sobre o Elizabeth Center tambm. Mas se a sua agenda est to cheia...
  Desgraado. Ele me tem nas mos e sabe disso.
  O Elizabeth Center seria o maior shopping do pas, construdo sobre duzentos dos melhores acres comerciais em um subrbio de luxo em Johannesburgo. Todas as imobilirias 
que se prezavam estavam tentando comprar aes, incluindo a Templeton. De alguma forma, Gabe conseguira fechar um acordo privado para a Fnix e agora tinha dez por 
cento das aes do empreendimento, tornando-o o segundo maior acionista. Uma palavra de Gabe poderia abrir as portas para a Templeton. Ou fechar.
  - Voc disse que ser na prxima semana?
  Gabe sorriu. Peguei voc.
  - Vou pedir para a minha assistente enviar os detalhes para o seu escritrio.
  Lexi assentiu laconicamente.
  - Obrigada.
  - Sabe, talvez voc at se divirta. Coisas mais estranhas que isso j aconteceram.
  Lexi no estava nem um pouco convencida.

  Shishangeni Private Lodge  a jia da coroa da Kruger-Brent. Composto de 22 chals de palha individuais, tinha piscina, biblioteca, salas de conferncias e uma 
adega melhor do que muitos restaurantes cinco estrelas. Todos os chals tinham um deque com vista para a floresta, bem como um bar, uma lareira e um chuveiro externo 
(para aqueles que desejavam se unir com a natureza sem abrir mo de ovos de codorna no caf da manh e pat de foie gras no jantar).
    - Que tal suas acomodaes?
  Gabe encontrou Lexi para um jantar  beira da piscina. Era a primeira noite no Shishangeni. Sobre eles, um avermelhado sol africano esparramava seus ltimos raios 
na terra, espalhando seu tom laranja pelo tapete de tantos tons verde. No caminho desde o aeroporto Kruger Mpumalanga, todas as resolues de Lexi de no se deixar 
impressionar foram jogadas pela janela. Ela vinha  frica do Sul desde bem pequena, mas a beleza extraordinria desse pedao do Parque Nacional deixou-a sem flego.
  - timas, obrigada.
  O chal de Lexi tinha vista para o rio Crocodile ao sul. A leste, ela podia ver quase at a fronteira com Moambique - quilmetros e quilmetros de um dos pases 
mais impressionantes do mundo.
  - A gua demorou um pouco para esquentar.
  Gabe franziu a testa.
  - Isso no  comum. Vou conversar com o gerente.
  Na verdade, o chuveiro de Lexi estava perfeito, muito quente, ducha forte, seus jatos aliviando cada ponto de tenso de seus ombros e costas cansados. S no queria 
que Gabe percebesse que estava gostando.
  Isso no so frias.  uma misso de sondagem. Estou aqui por causa do Elizabeth Center, no de uma maldita zebra.
  - Est ansiosa para o safri amanh?
  - Claro. Acho que sim.
  - Parece que temos boas chances de ver os cinco grandes: rinoceronte, elefante, bfalo, leo e leopardo.
  - timo.
  Gabe cerrou os dentes. Mais uma palavra monosslaba e vou estrangular essa mulher.
  Levar Lexi para o Shinshangeni foi sugesto de Tara. Gabe podia ouvir a voz da mulher:
  - J se passaram dois anos e voc ainda no faz a menor idia de por que essa mulher odeia voc. Pessoalmente, no sei por que se importa. Mas como sei que voc 
obviamente se importa, pelo amor de Deus, leve-a algum lugar e descubra qual  o problema dela.
  Na hora, pareceu um bom plano. Agora, sentado em frente ao rosto lindo e feroz de Lexi, enquanto as ondas de hostilidade eram lanadas sobre ele, Gabe se perguntou 
por que se importava com a opinio dela.
  Porque tinham um ancestral em comum?
  Porque Lexi era sua concorrente nos negcios?
  Porque era irm de Robbie?
  Ou seus motivos eram mais egostas que isso? A verdadeira razo para estar sentado ali seria porque ele no suportava a idia de uma mulher sensual e inteligente 
dispensando-o da forma que Lexi fazia? A ltima mulher que pareceria imune ao seu charme foi Tara, e ele acabou se casando com ela.
  Estou sendo um tolo? Eu amo Tara. Independentemente do que for esse sentimento por Lexi, no posso deixar que ameace esse amor.
  Lexi quebrou o silncio.
  - Ento, o Elizabeth Center. Parece que existem muitos interessados?
  Gabe acenou para o garom.
  - Podemos pedir? Estou um pouco cansado para falar de negcios esta noite.
  - Claro. - Lexi forou um sorriso. - Temos muito tempo.
  Ela tentou no notar como os ombros largos de Gabe esticavam tecido azul de sua camisa. Ou como as enormes mos de jogador de rugby rasgavam o po ao meio com 
tanta facilidade como se fosse um leno de papel.
  Eu no deveria ter vindo. Vou embora amanh de manh. Direi a ele que surgiu um imprevisto em Nova York.
 
  Ela no foi embora na manh seguinte. s 6 horas, estava sentada sonolenta na traseira de um jipe, se arremessando no mundo selvagem.
  - Hoje  noite, dormiremos em uma barraca de lona. - Gabe parecia descansado e feliz com sua cala cargo velha e camisa cqui. Indiana Jones sem o chicote. Lexi, 
ao contrrio, parecia exatamente o que era: uma nova-iorquina que dormira pouco e desejava voltar para cama ou, pelo menos, parar no Starbucks mais prximo e tomar 
um vanilla latte triplo. - Est empolgada?
  - Muito.
  O ronco do motor do jipe conforme passavam pelos sulcos da trilha tornavam qualquer conversa difcil. Durante meia hora, o silncio reinou entre eles. Ento, Gabe 
gritou:
  - Olhe l!
  Uma leoa saiu de trs de um espinheiro, bocejando e se espreguiando, estendendo as longas patas douradas sob o sol matinal. Gabe tirou fotos.
  - Voc viu? Inacreditvel! Este dia vai ser fantstico.
  Lexi pensou: ele parece um garoto. Ser que os negcios o empolgam tanto assim?

  Ao meio-dia, eles pararam para comer embaixo de um baob. Lexi ficou morrendo de medo quando dois nativos se aproximaram deles. Ambos estavam descalos, armados 
com lanas e usavam apenas uma espcie de tanga com penas em volta da cintura.
  - Tudo bem - disse Gabe. - So boxmanes. Eles andam por essas terras desde a Idade da Pedra.
  - O que eles querem?
  - Comida, provavelmente. - Gabe estendeu a mo, oferecendo po aos homens. Eles rejeitaram, apontando para Lexi e sorrindo. Um deles tirou uma bolsa de folhas 
secas que estava embaixo das penas e ofereceu a Gabe.
  - Ah. Eu me enganei. - Gabe sorriu. - Parece que  voc que eles querem. - Ele balanou a cabea para os boxmanes. - Sinto muito. Ela no est  venda.
  - Eles queriam me trocar por um punhado de folhas? - disse Lexi, indignada, assim que os homens se afastaram. - Eles no poderiam, pelo menos, ter oferecido um 
boi ou coisa parecida?
  - Os boxmanes no prendem animais. Mas so botnicos. Conhecem cada veneno, remdio e narctico dessa mata. Para eles, aquelas folhas podiam ser preciosas.
  - Voc deveria ter aceitado a oferta - disse Lexi, cinicamente.
  Gabe fitou-a por um longo tempo.
  - Como eu poderia? Voc no  minha para eu vender.
  Lexi sentiu seu rosto corar.
  - Por que voc me convidou para vir para c?
  - Por que voc me odeia tanto?
  O motorista gritou de dentro do jipe.
  - Hora de seguirmos, pessoal. Se quisermos chegar ao rio Crocodile ao pr do sol,  melhor nos apressarmos.

  Lexi passou o resto da tarde em silncio, fingindo interesse na vida selvagem. Por dentro, sua mente estava a mil por hora.
  Ele me deseja. Foi por isso que me trouxe aqui. Eu tambm o desejo?
  Ela tentou refletir sobre o assunto de forma imparcial. Gabe era casado. E muito feliz no casamento, segundo Robbie, e Lexi no tinha motivo para duvidar do irmo.
  Talvez essa seja parte de sua atrao? Ele  um homem ntegro de famlia. Bom marido, bom pai. Construiu o tipo de vida que eu nunca poderei ter.
  Pensou em seus amantes, desde Christian Harle, passando por todos os roqueiros e atores cafajestes. Pensou nas loucuras sexuais do tempo de faculdade. Depois, 
pensou em Max e na paixo destrutiva e animal que partilharam. Em alguns aspectos, ainda partilhamos. Sempre partilharemos. Homens como Gabriel McGregor, bons e 
honestos, nunca se apaixonavam por Lexi. Eles me observavam e me admiram de longe, como turistas em um safri encarando de forma provocante uma tigresa. Eles sabem 
que  perigoso se chegar perto.
  Conforme se aproximavam da clareira onde passariam a noite, o jipe passou por cima de uma cratera e o corpo de Gabe caiu sobre o de Lexi. o contato no durou mais 
que alguns segundos.

  Conversaram perto da fogueira at tarde da noite. Gabe falou de sua infncia. Em como assistira  obsesso de seu pai pelos Blackwell e pela Kruger-Brent consumi-lo 
como um cncer.
  - Eu sabia que no queria ser como ele. Amargurado, agarrado ao passado. Eu precisava seguir o meu caminho.
  - Ento, voc no se importa com a Kruger-Brent? No quer ser dono dela?
  Pelo seu tom de voz, estava claro que Lexi achava difcil de acreditar.
  - No, eu no quero. Por que deveria? Para mim,  apenas um nome. Alm disso, pelo que posso ver, trouxe tanto sofrimento para a sua famlia quanto riqueza.
  Ele est certo. Mas no compreende. A Kruger-Brent  uma droga. Uma vez que a experimenta, ela domina. Nada mais importa.
  Quanto mais Gabe falava, mais Lexi compreendia a ligao que ele tinha com a famlia deles. Ia alm dos olhos cinza McGregor e um ancestral comum. Gabe compartilhava 
com Lexi o desejo de viajar, a atrao magntica pela frica. Como Robbie, ele for viciado em drogas e voltara do abismo. Por baixo da superfcie de gigante gentil, 
Lexi sentia que ele possua uma forte ambio.
  Como eu e Max. Como Kate Blackwell.
  Gabe cresceu em uma famlia em guerra, destruda pela amargura e pela inveja. Quando ele falava de seu pai, Lexi pensava imediatamente em sua tia Eve, agarrada 
ao passado, escravizada por ele.
  Eu e Max tambm somos escravos desse passado. Mas Gabe no . Ele se libertou.
  Ele  como ns. Mas no  um de ns.
  De repente, como se uma luz tivesse se acendido, ela percebeu por que odiara Gabe por tanto tempo. Era to bvio que ela riu alto.
  - O que  to engraado?
  - Nada.
  Eu tenho inveja de voc.  isso que  engraado. Tenho inveja da sua liberdade, da sua bondade, do seu casamento feliz. Tenho inveja da sua capacidade de se importar 
com os outros. Com aquelas crianas com Aids. Com as famlias faveladas a quem voc e Dia deram casa. Voc tem sentimentos. Seu corao ainda est aberto.
  Meu corao est fechado desde que eu tinha 8 anos de idade.
  
  Naquela noite, Lexi ficou deitada acordada na barraca, pensando. Havia algo entre ela e Gabe. No tinha imaginado. Era real.
  Parte dela desejava se levantar, ir de fininho at a barraca de Gabe e fazer amor com ele. S para saber como era ser abraada e desejada, como era fazer amor 
com um homem bom, ntegro. Mas a maior parte dela sabia que nunca poderia fazer isso. Gabe pertencia a outra mulher. Tambm pertencia a outro mundo.

  Quando Gabe acordou na manh seguinte, Lexi tinha deixado o acampamento. Dezoito horas depois, ela estava de volta a Nova York.
  Na manh seguinte, a Templeton Estates recebeu uma proposta de cinco por cento das aes do Elizabeth Center, com termos altamente vantajosos.
  Ela recusou a oferta.

  Captulo 23

  Max Webster estava em lua de mel.
  Ele e Annabel, sua jovem esposa inglesa, estavam caminhando pela Table Mountain. Annabel estava bem  frente, seu longo cabelo com mechas cor de mel danando ao 
vento. Seus ps estavam perdidos em um tapete de flores. Sobre a cabea, o sol brilhava em um cu muito azul.
  Max gritou:
  - Cuidado! No chegue perto da beirada! - Mas o vento abafou suas palavras. Annabel continuava danando. Estava cantando uma velha cano popular que a me de 
Max costumava cantar para ele no banho quando era pequeno. Estranho. Como ela conhece essa msica? Max tentou cantarolar, ento percebeu que tinha se esquecido do 
ritmo.
  Os outros turistas tinham ido embora. O casal estava sozinho, e a distncia entre os dois estava aumentando. Annabel estava bem na beirada do precipcio.
  Max estava gritando.
  - Volte! No  seguro!
  - O que voc disse?
  Graas a Deus. Ela me escutou. Annabel parou e se virou de forma que Max pudesse ver seu rosto. S que no era seu rosto. Era o de Lexi, balanando para trs e 
para frente como uma criana afobada.
  Max correu na sua direo.
  - Lexi, volte. Eu amo voc. Sinto muito. - Estendeu a mo para pux-la para um lugar mais seguro, mas chegou tarde demais. Os dedos dela escorregaram e ela se 
desequilibrou para trs. Estava caindo.
  Max pulou atrs dela. Estavam abraados no ar, o cho se aproximando cada vez mais depressa. O rosto de Lexi comeou a mudar grotescamente, como plstico derretido. 
Estava se transformando em Eve.
  - Voc matou Keith. Matou seu pai. No acreditou mesmo que escaparia imune, acreditou?
  Mas, me eu fiz isso por voc. Tudo que fiz foi por voc. Me!
  - Max. - Annabel Webster sacudiu o marido at ele acordar. - Max! Voc est sonhando. Acorde, querido. Est tudo bem.  s um pesadelo. No  real.
  Ela o abraou, at que ele se acalmasse, como um beb. Essa era a terceira vez esta semana. Era evidente que os remdios que Dr. Barrington estava prescrevendo 
no estavam fazendo efeito. Quando ele parou de tremer, ela falou:
  - Meu amor, voc precisa falar com algum. Isso no  normal.
  Max enxugou a testa com o lenol e se jogou no travesseiro.
  - Estou bem. S um pouco estressado por causa do trabalho. Vai passar. Volte a dormir.

  O casamento tinha sido idia de Eve. Tudo era sempre idia de Eve.
  Ela repreendeu Max em um dos jantares semanais que tinham.
  - Voc precisa de um herdeiro. Algum para assumir a empresa e desfazer todos os seus erros. Algum que far a Kruger-Brent ser grande de novo.
  - Estou tentando, me - disse Max, fraco.
  - Est fracassando. Precisa se casar.
  Max sabia que era um presidente medocre. Sabia que o brilho da Kruger-Brent estava se apagando lentamente, como uma estrela morrendo. No ajudava em nada sua 
me ficar criticando todas as suas decises, obrigando-o tomar um caminho e depois culpando-o quando os lucros desejados no se materializavam.
  Foi Eve quem insistiu que vendessem tudo que tinham na Ucrnia:
  - Se houvesse petrleo naqueles campos, j teria encontrado. Energia alternativa, esse  o futuro. Voc  burro ou o qu?
  Obedientemente, Max vendeu os cinco mil acres da Kruger-Brent para Exxon, investindo dinheiro da venda em um parque elico em Israel. Seis meses depois, a Exxon 
encontrou petrleo. Um ano depois disso, o parque elico faliu. Eve culpou Max.
  - Voc no perfurou aquele terreno direito. O que espera quando se faz um trabalho mal feito? Isso so negcios, Max, no um joguinho de criana. Meu Deus, voc 
 bem filho do seu pai.
  Eve vinha falando cada vez mais de Keith ultimamente. Era quase como se estivesse transferindo o dio que sentia pelo marido para o filho. Max destrura Keith 
Webster, mas o monstro que Keith criara continuava vivo em Eve. Max tinha feito tudo o que a me quis: matou Keith. Traiu Lexi. Recuperou a Kruger-Brent. Mas todo 
trofu que ele conquistava era como gasolina nas chamas do dio de Eve. Conseguia alimentar o fogo. Mas nunca apagar.
  Enquanto isso, a estrela de Lexi continuava inexorvel ascenso. Ningum se lembrava do escndalo que a tirara da Kruger-Brent. Quando as pessoas viam Lexi Templeton 
hoje em dia, pensavam em glamour, resistncia e sucesso. Ningum na Kruger-Brent dizia isso na frente de Max. Mas os murmrios pelas suas costas era ensurdecedores.
  Cometemos um erro. Nunca deveramos ter-nos livrado dela. Lexi  a vencedora da famlia, no Max. Apostamos no cavalo errado.
  Quando conheceu Annabel, Max estava bebendo muito. Estava com 35 anos, mas parecia dez anos mais velho. Sua beleza estava apagando. Como tudo o mais em mim. Annabel 
Savary era 15 anos mais jovem que Max, bonita, e tudo que ele no era: sensata, feliz, saudvel e descomplicada. O produto de um casamento abenoado (o pai de Annabel 
era um lorde ingls, e sua me, uma socialite norte-americana), ela viera para Nova York transferida da Christie's, a casa de leiles. Max a conheceu em um leilo. 
No conseguiu comprar o quadro de Constable que queria, mas saiu de l com um prmio mais valioso.
  Annabel Savary amava Max Webster da mesma forma que um dia amara seu pnei, Trigger. Todo mundo dizia que Trigger era velho e genioso demais para ser domesticado. 
Mas a menina de 9 anos se recusava a desistir. Trigger era um pnei bonito, inteligente, forte e rpido como uma bala. Com pacincia, e depois de levar inmeras 
mordidas, coices e outros sinais de rebeldia de Trigger, Annabel o transformou em um animal doce e carinhoso. Na poca em que ele morreu, quando Annabel tinha 18 
anos, Trigger j ganhara inmeros prmios e era famoso em Derbyshire pela devoo  sua jovem dona.
  Annabel tinha tanta certeza de que Max podia mudar quanto Max tinha de que no podia. Sabia que o melhor era no continuar com ela. Ela no faz idia de como estou 
destrudo. Mas Eve no quis escutar. Aprovava Annabel inteiramente, acreditando que a moa era jovem e inocente demais para representar qualquer ameaa  sua influncia.
  - Case rpido com ela, antes que ela mude de idia. Engravide-a.
  Max obedeceu. O casamento foi um borro. Quando viu as fotografias depois, mal conseguia se lembrar de ter estado l. No caminho para a igreja, s conseguia pensar 
se Lexi aparecia (ela no foi) e se a satisfaao de sua me duraria desta vez.
  Max sabia o quanto Eve queria um neto. Por diferentes razes, Annabel tambm estava ansiosa em lhe dar um filho. Max achava a presso insuportvel. Com Lexi, ele 
soltara as rdeas de sua sexualidade. De alguma forma, em sua mente, Lexi e Eve tinham se tornado um mesmo ser, a me-amante, a satisfao de todas as suas fantasias 
mais sombrias e profundas. Lexi deixara que ele despejasse em seu corpo toda sua frustrao e fria. Ela conhecia seu lado selvagem, a perverso animal, e o desejava. 
Sodomia, violncia, algemas, no havia limites. Com Lexi, Max alimentara a fera que existia dentro dele. Mas Annabel nunca poderia conhecer aquele monstro. Ela era 
pura e adorvel. Max no podia contamin-la, a nica coisa boa em sua vida.
  Foram a teimosia e a pacincia sobre-humanas de Annabel que salvaram o casamento. Aps seis meses infelizes e sem sexo, ela tomou a iniciativa. Ignorando os protestos 
de Max, uma noite, ela pegou o pnis mole dele e comeou a acariciar. Nada aconteceu.
  - Sou sua esposa, Max. Sou sua mulher. Entre em mim.
  - Pare! - Max detestava v-la falando daquela forma.
  - No, no vou parar. Basta.
  - Meu Deus, Annabel. No consigo ter uma ereo sob ordens, OK?
  Ela colocou-a na boca. Apesar de no querer. Max comeou a ter uma ereo. Imagens odiosas e degradantes de sua me e Lexi invadiram sua mente como esgoto.
  - Por favor, pare. - Mas Annabel no parou. Montando nele, ela colocou seu pnis entre suas pernas, mexendo-se apertando at que, finalmente, Max gozou com um 
gemido. Depois, ele chorou nos braos dela durante horas.
  Foi naquela noite que Annabel percebeu que ele estava doente. E tambm foi naquela noite que ela concebeu os filhos gmeos deles.

  Max esperou at a respirao de Annabel voltar a um ritmo regular antes de sair da cama. Pegando um punhado de comprimidos controlados no armrio do banheiro, 
ele os engoliu e jogou gua no rosto. Seu reflexo no espelho era fantasmagrico.
  Preciso me recompor para a reunio do conselho de amanh. August Sandford quer me pegar. Qualquer sinal de fraqueza e ele vai acabar comigo.
  Foi Sandford quem pedira a sesso de emergncia do dia seguinte. Desde o incio, August verbalizou seu desacordo quanto  estratgia de Max de abandonar os investimentos 
imobilirios em outros pases e se concentrar apenas no mercado norte-americano. August queria que a Kruger-Brent seguisse os passos da Templeton. Eve no queria 
nem escutar falar disso.
  - Voc no  cachorrinho da Lexi, Max. A Kruger-Brent lidera, no segue ningum.
  Como resultado, centenas de milhes desapareceram dos balancetes da empresa. Agora o conselho queria repostas.
  Entrando na ponta dos ps no quarto dos bebs, Max fitou maravilhado os meninos adormecidos. George e Edward estavam com quase 3 anos agora. Eram to perfeitos 
que Max s vezes tinha medo de tocar neles. Minsculas rplicas masculinas de Annabel, louros, robustos e doces.
  - Querido, so 4 horas. - Annabel apareceu na porta, bocejando. - Pelo amor de Deus, volte para a cama.
  - J vou. Desculpe.
  Max seguiu-a para o quarto.
  Ser que o meu pai me olhava quando eu estava dormindo?
  Ser que ele me amava como eu amo esses meninos?
  Os sonhos comearam de novo.

  Tara McGregor riu para si mesma enquanto colocava a massa do bolo das crianas no forno. Que ridculo! Estou me comportando como uma garota de 16 anos. Mas no 
conseguia reprimir sua felicidade.
  Gabe viria mais cedo para casa essa tarde. Era aniversrio dele. As crianas tinham feito um bolo para ele e preparado presentes com rolos de papel higinico, 
purpurina e cola. (Jamie escolheu um magnfico foguete, enquanto Collette no surpreendeu ningum com seu presente temtico da Pequena Sereia. Gabe ia adorar.) Mas 
Tara estava guardando o melhor presente para depois. Mal podia esperar para ver a cara de Gabe quando contasse para ele.
  Ela estava grvida de novo. Um acidente. Aos 41 anos! desde que vira a linha rosa no teste ontem de manh, no conseguia parar de rir. Olhou para o relgio da 
cozinha: 15h30. Gabe deveria chegar s 16 horas.
  A campanhia tocou. Ele chegou mais cedo! Dois milagres em um dia. Tara correu para abrir antes de Mala, a empregada.
   - Feliz aniv... ah. Em que posso ajud-lo?
  Um homem negro enorme estava  sua frente. Com quase 30 anos, o rosto marcado pela acne e olhar frio, deixou Tara desconfortvel na mesma hora.
  - Seu marido est em casa?
  Era metade pergunta, metade deboche. O desconforto de Tara se transformou em medo. A adrenalina tomou conta de seu corpo.
  - Est sim. Ele est l em cima - mentiu ela. - Infelizmente, est ocupado no momento. Volte em outra hora. - Ela comeou a fechar a porta. Sorrindo, o homem forou 
entrada. Quando Tara viu, ele estava com uma chave de fenda na garganta dela.
  - Quieta, seno mato voc, sua vadia. - O hlito dele era de maconha. - Onde fica o cofre?
  Mala apareceu nas escadas. Quando viu o que estava acontecendo, gritou.
  - As crianas! - gritou Tara. - Tire-as daqui!
  A empregada se virou e correu. Tara sentiu uma dor cortante. O homem rasgara seu rosto com a chave de fenda, quase atingindo seu olho esquerdo. Sangue comeou 
a jorrar do corte.
  - Eu disse QUIETA! - gritou ele. De repente, havia vrios homens na entrada, seis, talvez sete. Todos eram negros e estavam drogados. Tara analisou seus rostos 
para ver se reconhecia algum. Deviam ser de algum distrito prximo. Se conhecesse a famlia de algum deles, se pudesse apelar a eles como pessoa...
  Tara escutou Collette gritar no andar de cima. Sentiu seu sangue gelar.
  - No a machuquem! Levem o que quiserem. Mas no machuquem meus filhos.
  Dois dos homens desceram, carregando Collette e Jamie embaixo do brao. Collette estava histrica. Quando Jamie, com 7 anos, viu o rosto de sua me sangrando, 
lutou para se soltar. Lanando-se sobre o bandido que segurava Tara, mordeu sua perna com fora.
  O homeme gritou de dor. Puxando o p, ele deu um chute na cabea do menino como fosse uma bola de futebol. Tara escutou o crnio do filho quebrar e caiu de joelhos. 
Seu filho estava cado no cho, imvel.
  - Abra o maldito cofre, sua vadia! Abra AGORA ou mato todo mundo.

  Gabe estava buzinando. Droga de trnsito. Nem estava na hora do rush, mas todas as estradas que levavam a Camps Bay estavam engarrafadas.
  No banco do carona, estava o carto que Jamie lhe dera pela manh. Era uma foto dos dois pescando, pai e filho sorridentes ao lado de um rio azul e muito calmo. 
Amo Voc, Papai estava escrito em cima com glitter vermelho.
  Eu tambm amo voc, filho, murmurou Gabe para si mesmo.
  Se essas estradas idiotas esvaziassem, ele estaria em casa em dez minutos.

  Tara estava de joelhos. Sentiu o metal frio da chave de fenda em sua tmpora, mas tentou no pensar nisso, nem em seu querido Jamie deitado inconsciente no corredor.
  Apertou os nmeros no teclado do cofre: quatro... seis... um...
  - Se digitar algum cdigo de segurana, corto a garganta de seus filhos. Se escutarmos alguma sirene, eles morrem. Entendeu?
  Tara hesitou, o dedo parado no ar. Uma srie de nmeros abriria o cofre. Outra combinao abriria o cofre e, simultaneamente, alertaria a polcia.
  Que Deus nos ajude.
  Ela apertou o ltimo dgito.
  
  Pelo menos, as estradas estavam esvaziando. Seguindo pela costa, Gabe virou  esquerda, para a rua tortuosa que levava  sua casa. Pensou em Tara. Esta manh, 
ela estava com um bom humor incrvel, pulando na cama feito o Tigro. Antes de ele sair para o trabalho, ela lhe deu um longo beijo com a promessa de uma "surpresa 
de aniversrio"  noite. Gabe sorriu. J era aquela histria de mulher perder a libido aos 40. Aos seus olhos, Tara estava mais sensual do que nunca.
  Quando pensava em como tinha chegado perto de perd-la dois anos antes naquele safri louco com Lexi Templeton, Gabe se sentia mal. Lamentava o jeito como as coisas 
terminaram com Lexi. No se falavam desde aquele dia, embora Gabe considerasse Robbie Templeton um bom amigo. Mas no podia ser diferente. Quaisquer que fossem seus 
sentimentos por Lexi, Tara era sua vida. Ao pensar nisso, sentiu uma pontada familiar de saudade.
  Apertou o p no acelerador.

  O homem estava enfiando um colar de diamante em sua mochila da Nike. Tara olhou para a entrada. Jamie no estava l. Onde ele estava? L em cima com os outros 
homens? A casa estava em total silncio. uma poa de sangue manchava o piso de madeira no lugar onde o desgraado chutara a cabea de Jamie. Que tipo de animal podia 
fazer isso com uma criana?
  - Bonito. - Ganncia brilhava nos olhos do homem enquanto acariciava as pedras inestimveis. O colar era um presente de aniversrio de casamento de Gabe. A pedra 
principal tinha seis quilates, uma pedra perfeita de Klipdrift, a cidade onde Jamie McGregor comeara sua fortuna. Era impressionante, mas Tara nunca o tinha usado. 
Colares com diamantes de seis quilates no combinavam muito com a clnica para pacientes com Aids.
   por isso que meus filhos vo morrer? Por um colar idiota?
  - Pode levar. Leve tudo. - Ela chorava. - Por favor, s me deixe ir ver meu filho. Sou mdica, ele precisa de cuidados mdicos.
  - Mais tarde. - O homem fechou a mochila. Fitou Tara como se a estivesse vendo pela primeira vez. Milhares de homens j tinham olhado para ela dessa mesma forma 
na clnica. Desconfiana. dio. Inveja. Fria mal reprimida. A maldio deste lindo pas.
  Ela sabia o que ia acontecer.
  - Vocs, sua gente, tiram tudo de ns. - As mos do homem estavam na garganta dela. - Nossa terra. Nossa comida. Nossos diamantes. Demnios brancos.
  - Eu trabalho para o seu povo, todos os dias. - Tara tentou no demonstrar seu terror, mas sabia que ele podia ver em seus olhos. - Trabalho na clnica para pacientes 
com Aids em Pinetown.
  - Aids? VOCS trouxeram a Aids para ns! Vocs, mdicos brancos. Vocs matam nossas crianas.
  - Que absurdo. - A raiva era a ltima defesa de Tara. - Vocs matam suas prprias crianas com sua ignorncia. Ns tentamos ajudar. Meu marido j doou milhes...
  Uma das mos enormes e negras cobriu a sua boca, empurrando-a para o cho. A outra rasgou sua camisa, agarrando com fora seus seios. Tara sabia que no adiantava 
lutar. O desgraado provavelmente gostaria. Em vez disso, se afastou de seu corpo, trancando-se em sua mente.
   s o meu corpo. No sou "eu". Ele no pode me tocar.
  Sentiu que ele estava em cima dela, dentro dela, o fedor e o peso dele, a fria com que ele forava seu enorme e grotescamente intumescido pnis para dentro do 
corpo dela.
  Pense nas crianas. Se ele conseguir o que quer comigo, talvez no os machuque.
  Ele no estava fodendo ela. Estava esfaqueando-a, dando golpes frenticos na carne dela, usando o prprio corpo como arma.
  A polcia vai chegar, ou Gabe. Deus, Gabe! Ela abafou um soluo. O relgio na parede marcava 16h10. Cad voc?

   Gabe estava abaixado no acostamento da estrada. As mos pretas de leo.
  Bentley estpido. Colocara pneus novos no ms passado, e um deles j furou. Estava irritado por estar atrasado de novo. Tara sempre chamava sua ateno por causa 
disso, e desta vez esforara-se de verdade para sair do escritrio na hora. Levantando o estepe da mala do carro, se tocou que no trocava um pneu desde quando era 
um adolescente na Esccia. Droga, estou ficando velho.
  Dois carros de polcia passaram por ele com as sirenes ligadas.
  Devia ser outro assalto.
  Mos  obra.

  Tara escutou as sirenes. A esperana tomou conta de seu corpo.
  O homem parou de estupr-la e levantou as calas. Havia medo em seus olhos. Gritou para os companheiros.
  - Masihambe! Amaphoyisa!
  Tara entendia zulu:
  - Vamos. Polcia.
  Ela comeou a tremer de alvio.
  Graas a Deus. Ah, graas a Deus. Acabou.
  Pela primeira vez, se perguntou se perderia o beb por causa do estupro. Havia sangue nas suas coxas.
  Cinco homens desceram as escadas correndo e pularam pelas janelas no trreo como gazelas. No eram seis antes? Ser que contara errado? Tentou olhar melhor para 
seus rostos, mas era impossvel, eles corriam muito rpido.
  Pegando sua mochila, o lder j estava indo atrs do outro. Ento parou e olhou.
  - Vadia desgraada. Voc ditou o cdigo do alarme, no foi?
  Ele foi para as escadas. O sangue de Tara congelou. As crianas.
  - No! - Ela tentou ir atrs dele, mas suas pernas cederam como gelatina.
  Ele comeou a subir.

  Os portes eletrnicos estavam fechados.
  - Nenhum sinal de arrombamento. Tem certeza de que foi aqui, cara?
  - Tenho. - O sargento de polcia assentiu. - McGregor.  o cara da Fnix. Talvez tenham entrado pelos fundos.
  - Voc sabe abrir essas coisas?
  O oficial mais velho olhou sem nimo para os portes que mais pareciam do Fort Knox. Quase todos os dias recebia chamados alertando para invases. Nove em cada 
dez eram alarmes falsos. Crianas brincando com cofre, ou alguma empregada Bantu burra levando um susto e apertando o boto de emergncia.
  - No d. No sem um cdigo. Teremos de escalar, chefe.
  O oficial mais velho suspirou. Estava ficando velho demais para isso.
  - Vamos, ento, Dax, Willoughby, vocs vo de carro pelos fundos. Tenham bom senso, OK? Esse pode ser de verdade.
  - Claro, chefe. - Todos riram.

  Cinco horas. Quarenta minutos para trocar um maldito pneu. Voc  pattico, Gabe McGregor. Pattico.
  Ao fazer a curva, Gabe viu dois carros de polcia parados do lado de fora de seus portes.
  - Sinto muito, senhor, no pode entrar.
  - Como assim, no posso entrar? Esta  a minha casa. O que aconteceu. Cad a minha esposa?
  O jovem policial ficou branco.
  - Fique aqui, senhor. Vou chamar o detetive Hamilton. - Saiu correndo ladeira acima.
  "Que se dane", pensou Gabe. Passando a primeira marcha, de seu Bentley, ele pisou fundo no acelerador, fazendo os pneus girarem e levantando poeira.
  - Senhor! Pare! - Mas era tarde demais. O carro subiu a ladeira como um raio. Em segundos, Gabe estava correndo para dentro de casa. Havia policiais por todos 
os lados.
  - Tara! - gritou Gabe. Podia ouvir o pnico na prpria voz. - Tara? Amor?
  Um policial se aproximou dele.
  - Gabriel McGregor?
  Gabe assentiu, incapaz de falar.
  - Cad minha esposa? Cad meus filhos?
  -  melhor se sentar um minuto, senhor...
  - No quero me sentar. Para onde vocs levaram meus filhos?
  Um homem apareceu no topo das escadas. Em seus braos uma bolsa de lona para cadveres.
  Tinha pouco mais de um metro de comprimento.

  Captulo 24

  A notcia do assassinato brutal da esposa e dos filhos de Gabriel McGregor no chocou apenas a frica do Sul, mas o mundo todo. Era tragdia grega: o filantropo 
branco e sua esposa mdica, atacados pelas prprias pessoas que eles passaram a vida tentando salvar.
  Algumas semanas depois dos crimes, o terrvel drama tomou um rumo novo e inesperado. Gabe McGregor saiu de seu escritrio na Fnix na hora do almoo, como de costume. 
Desde ento ningum mais o vira.
  Teorias da conspirao abundavam pela internet: estaria Gavbe envolvido nos assassinatos? Talvez Tara quisesse se divorciar dele, e ele a mataria para proteger 
sua fortuna? Descobriou que os filhos no eram seus e os matou em um acesso de fria? Teria se matado por causa do remorso? Teria assumido uma nova identidade para 
fugir da polcia?
  Claro, no havia nenhuma prova concreta para sustentar especulaes to fantsticas. Mas isso no impediu que os tablides de todo o mundo cavassem todos os segredos 
do passado de Gabe, seu vcio em drogas, sua condenao por assalto e agresso, a investigao que sofrera sob suspeita de fraude, dissecando cada uma das histriasem 
detalhes e salivando sobre as "implicaes" imaginadas. Muitas pessoas defenderam Gabe - os policiais envolvidos na investigao dos assassinatos, Robbie Templeton, 
o pianista mais famoso do mundo e dono de uma fundao que lutava contra a Aids, e Dia Kabele, ex-scio de Gabe na Fnix e heri de muitos sul-africanos negros. 
Mas suas vozes foram abafadas pelos uivos da massa.
  O relacionamento inter-racial avanava muito na nova frica do Sul. Ningum queria acreditar que essa linda mdica branca e seus filhos fotognicos tinham sido 
massacrados por uma guangue de homens negros que a polcia jamais conseguiria prender. No quando havia tantas outras possibilidades mais interessantes.
  Para aqueles que conheciam Gabe e Tara, porm, isso no era uma novela. Era uma realidade assustadora e inimaginvel.
  Lexi estava em seu escritrio em Nova York quando ficou sabendo das mortes.
  - Eles no podem estar todos mortos. As crianas no. Deve haver algum engano.
  No havia engano algum. A primeira coisa que Lexi sentiu foi pura compaixo. Coitado do Gabe. Todos eles, a famlia inteira, mortos! Pensou em ligar ou escrever 
para ele, mas logo percebeu como seria inapropriado. Ela e Gabe no se falavam h mais de dois anos. E por uma razo muito boa. Como ela gostava de falar para Robbie 
e para quem mais quisesse ouvir, Lexi odiava Gabe McGregor.
  Lexi via o mundo em preto e branco. No operava nos tons de cinza. Desde que era menina, brincando com suas bonecas, dividira as pessoas  sua volta em dois campos: 
amigos e inimigos.
  Robbie era seu amigo. Seu amor e lealdade por ele eram infinitos e continuariam assim por toda a sua vida.
  Os homens que a seqestraram eram seus inimigos. Max era seu inimigo. Agora, desde que ele a rejeitara no safri, Gabe se tornara seu inimigo. Inimigos precisavam 
ser destrudos.
  Pairando sobre esse mundo em preto e branco, havia um nico imperativo ainda mais importante: a Kruger-Brent. A Kruger-Brent era o comeo e o fim de tudo. Era 
a religio de Lexi. Seu Deus. Max a roubara dela. Isso o tornava seu maior inimigo. Mas Gabe McGregor vinha de perto em segundo. Ele no apenas era melhor do que 
Lexi nos negcios, mas tambm a humilhara. Ele a vira na sua forma mais fraca e vulnervel. E devia ser castigado por esse crime, no sendo merecedor de sua compaixo.
  Mesmo assim, Lexi sentiu compaixo. Como poderia no sentir? Quando ficou sabendo do desaparecimento de Gabe, sentiu algo ainda mais profundo. Imaginou-o sozinho 
em algum lugar, sofrendo, tentando fugir e dar um fim a sua vida de desespero e tristeza insuportveis. E, de repente, o mundo ficou cinza. Pela primeira vez na 
vida, Lexi Templeton tirou um dia de folga. Passou o dia em seu apartamento soluando sem conseguir sair da cama.
  
  David Tennant foi v-la. Um membro da diretoria da Templeton, David era advogado formado no ofcio. Para um personagem dos livros de Dickens. Usava espessas costeletas 
vitorianas, carregava um relgio de bolso e tinha um nariz longo e bulboso que sempre fazia Lexi se lembrar do Sr. Punch. Mas, por trs de sua aparncia cmica, 
David Tennant tinha um raciocnio rpido. Era um dos conselheiros em que Lexi mais confiava.
  - O que  Cedar International?
  Lexi adotou uma expresso de ignorncia fingida.
  - O qu?
  David Tennant no acreditou na expresso inocente.
  - Cedar International. O que ? Que tal DH Holdings? Faz com que se lembre de alguma coisa?
  Lexi tentou demonstrar arrogncia.
  - Claro. So dois fundos de investimentos internacionais. Por que pergunta?
  - Ah, no sei. - David Tennnant abriu um sorriso irnico. - Acho que estava s curioso quanto ao porqu de voc vir desviando ativos da Templeton para eles como 
um ditador sul-americano prestes a fugir.
  Lexi sorriu. Talvez o charme funcionasse, j que no conseguira nada com a cara de pau.
  - Relaxe, David. No vou a lugar algum. Montei essas empresas para fazer investimentos fora do portflio principal da Templeton.
  - Eles realmente no tm nada a ver com o nosso portflio! Somos um fundo imobilirio, Lexi. A Cedar International tem duas fbricas de papel, uma mina de diamante 
falida no Congo e uma rede de empresas de reciclagem na Europa. A DH holdings  dona de um banco na internet e - ele consultou suas anotaes - uma usina de beneficiamento 
de caf no Brasil. Voc ficou louca?
  Era tpico de David ser to observador. Uma caracterstica irritante.
  Esquea o charme. Vou tentar usar a imagem de chefe furiosa.
  - A Templeton Estates  minha, David. No preciso que fique me lembrando do nosso plano de negcios.
  - No? Ento se importaria em me dizer para que servem essas aquisies? E essas empresas de fachada?
  Droga. Esquecera-se que  impossvel intimidar David Tennant. Devia ser exatamente por isso que ele era seu conselheiro mais prximo e por que permitira que ele 
comprasse dez por cento das aes da empresa.
  Ele tem o direito a uma explicao. S tenho de pensar em uma acalme sem revelar a verdade.
  - Olhe, talvez eu devesse ter lhe falado. Mas nem todos esses negcios foram to bem quanto eu esperava. No queria parecer... bem, tola.
  Silncio.
  - Eu sabia que eram acordos arriscados, ento os tirei do nosso balancete.
  Mais silncio. Lexi continuou.
  - Essas empresas realmente no se encaixam no nosso portflio. Montei a Cedar muitos anos atrs, para comprar algum negcio diferente e falido que eu achasse diferente. 
Ela existe desde praticamente o incio da Templeton.
  - Eu sei. Voc a registrou nas ilhas de Cayman em 2010.
  - Verdade. - Como diabos ele sabia disso?
  Lexi garantiu que a trilha seria to complexa e enrolada que ningum conseguiria chegar at ela, muito menos fazer uma ligao com Templeton Estates.
  Devo ter sido descuidada. Isso no pode acontecer de novo.
  - Tambm percebi que duas das empresas, a mina e a usina de caf, pertenceram  Kruger-Brent.
  Na verdade, todas elas pertenceram  Kruger-Brent... um dia. Com as outras, comprei as aes, depois as revendi para as minhas empresas de fachada aps um intervalo 
adequadamente discreto. Acho que voc no chegou to longe, Sherlock Holmes.
  Lexi manteve seu tom de voz casual.
  - Verdade. Pura coincidncia.
  David Tennant parecia ctico. Lexi estava ficando cada vez mais reticente e afastada ultimamente. Ela ficou furiosa quando um artigo recente da Vanity Fair fez 
comparaes entre ela e Eve Blackwell, sua tia agorfoba. Talvez a verdade doesse?
  - Eu deveria ter lhe contado, David. Desculpe.
  Ele amoleceu um pouco.
  - Como voc disse, Lexi, esta empresa  sua. S no nos leve para o buraco, est bem? Tantas transferncias do tamanho das que tem feito recentemente, e o nosso 
fluxo de caixa. Bem, no preciso lhe falar dos riscos.
  Depois que ele saiu, Lexi ficou sentada em sua mesa pensando por muito tempo.
  Sua estratgia no estava dando certo. Achara que poderia enfraquecer a Kruger-Brent discretamente, fazendo aquisies estratgicas aqui e ali sem que ningum 
as ligasse a ela. Mas David Tennant j fizera a ligao. Mais importante, a Kruger-Brent no estava mostrando nenhum sinal de colapso iminente.
  Preciso de uma nova estratgia. Algo maior, mais ousado. Preciso pensar.
  Estava na hora de encarar os fatos. O desaparecimento de Gabe a abalara profundamente. No estava dormindo. Chorava sem nenhuma razo aparente. Pior ainda, isso 
estava comeando a afetar sua competncia no trabalho. Conseguira tranqilizar David Tennant, por enquanto. Mas conhecia David. Esse home era um rottweiler. Nunca 
esquecia. Da prxima vez...
  No. No pode haver uma prxima vez.
  Escreveu um e-mail para seu irmo:
  "Mudei de idia. Se ainda estiver valendo, gostaria de aceitar o seu convite. Tenho trabalhado muito ultimamente. Preciso de um descanso."
  Trs semanas na casa de fazenda de Robbie e Paolo na regio das vincolas n a frica do Sul poderiam ser exatamente o que o mdico prescreveu.

  Na semana em que Lexi chegou  frica do Sul, Gabe McGregor foi oficialmente dado como morto.
  -  uma formalidade legal - disse Robbie. - Ningum sabe o que aconteceu. Mas, levando em considerao o estado dele e o tempo que est desaparecido... ele no 
mexeu em nenhuma conta bancria. Deixou o passaporte no escritrio.
  Lexi assentiu. J fazia semanas que aceitara o fato de que Gabe tinha morrido. Mesmo assim, ver sua morte confirmada nos jornais era estranho e triste.
  Nunca pude pedir desculpas. Gostaria que ele tivesse conscincia do quanto significava para mim.

  Robbie Templeton abriu a carta do advogado no caf da manh.
  - Ah, meu Deus - implicou Paolo. - Importunando as sopranos peitudas de novo, ? Garoto malvado.
  -  da firma de advocacia que representa Gabe McGregor. Esto pedindo qu eu comparea  leitura do seu testamento. Segundo, esta carta eu sou um dos beneficirios.
  Lexi pediu para ver a carta.
  - No sabia que voc e Gabe eram to chegados. - Sentiu um cime inexplicvel.
  - ramos amigos. Mas eu no esperava nada desse tipo. Para ser sincero, nem preciso do dinheiro. Gabe sabia disso.
  - Todo mundo precisa de dinheiro, Robert - disse Paolo, com firmeza. - Minha inteno  me tornar vergonhasamente extravagante na minha velhice. No me force a 
trocar voc por outro mais jovem e mais rico, chri.
  Robbie riu. Lexi no conseguiu.
  "Esto pedindo que eu comparea  leitura do seu testamento."
  Seu testamento.
  Ele realmente morreu.

  Robbie odiava escritrios de advogados. Fazia com que se lembrasse do dia em que se sentara em frente a Lionel Neuman, quando ainda era adolescente, vendo o rosto 
do velho com cara de coelho se retorcendo enquanto Robbie abria mo da herana. Que tempos sombrios tinham sido aqueles. E como ele estava feliz agora. Afastar-se 
da Kruger-Brent foi a melhor deciso que tomou na vida. Mesmo assim, advogados ainda o assustavam, e Frederick Jansen no era exceo. S de olhar para o terno escuro 
e severo de Jansen e seu rosto marcado por rugas, como de uma esttua de argila que ficou muito tempo no sol, Robbie se sentia um garoto travesso de novo. No ajudou 
em nada o fato de os outros cinco homens na sala estarem de terno. Robbie, de jeans e uma camiseta da Filarmnica de Los Angeles, se sentia um tolo.
  - A maior parte dos bens do Sr. McGregor estava em um fundo familiar. - Jansen seguia seu discurso montono. Robbie nem prestava ateno aos jarges jurdicos: 
"intestado... impostos... fiducirios... herana... desejos..." Algumas palavras entravam em sua mente, como "doaes beneficentes". Quando Gabe fez seu testamento, 
esperava que seus filhos estivessem vivos quando ele morresse. No caso de isso no acontecer, a riqueza dele deveria ser dividida entre um seleto grupo de fundao 
beneficentes, entre eles a Fundao Templeton/Cozmici contra a Aids.
  - Desculpe, posso interromp-lo um momento?
  O advogado olhou para Robbie como se estivesse pedindo permisso para deflorar sua filha.
  - Quanto... quanto exatamente nossa fundao receberia?
  Frederick Jansen franziu o nariz, irritado. Este homem era um tolo? No lera o pargrafo seis, artigo d, subseo viii?
  - A porcentagem do legado dedutvel de imposto do Sr. McGregor...
  - Desculpe de novo. - Robbie levantou a mo, o corao palpitando. - No sou muito bom com porcentagem. Se pudesse me dar um nmero fechado. Sabe, uma estimativa.
  - Uma estimativa? - O maxilar de Frederick Jansen tremia de tanta irritao. No podia imaginar o que dera em seu cliente para deixar tanto dinheiro para esse 
gay norte-americano vulgar. - Sr. Templeton, como est explcito no documento  sua frente, sua fundao deve receber uma soma total na casa dos, uma estimativa, 
se prefere, de 25 milhes de dlares norte-americanos. Agora, podemos prosseguir com a leitura?
  O advogado recolocou seus culos de leitura e prosseguiu seu monologo, mas Robbie no estava mais escutando. Vinte e cinco milhes! Era uma quantia incrivelmente 
generosa, para um homem que tinha a sua prpria fundao. Se existia paraso, Gabe McGregor, sem dvidas, devia estar l.
  - Com licena, Sr. Jansen. - Uma mulher nervosa com aspecto de rato apareceu na porta. Robbie pensou: coitadinha. Eu no seria assistente desse camarada nem por 
todo o ch da China. - Tem um senhor aqui que quer v-lo.
  A expresso de irritao de Frederick Jansen ficou ainda mais explcita.
  - Sarah. Deixei perfeitamente claro que no deveria ser interrompido sob nenhuma circunstncia.
  - Eu sei, senhor. Mas...
  - Nenhuma circunstncia! Voc  surda?
  - No, senhor. Mas  que, senhor...
  Ela no conseguiu prosseguir. Um homem apareceu na porta. Frederick Jansen ficou boquiaberto. Os papis caram de suas mos, deslizando lentamente para o cho, 
como plumas.
  - Ol Fred. - Gabe sorriu. - Parece que viu fantasma.

  Frederick Jansen conhecia Gabe McGregor como cliente. Os outros homens na sala trataram com ele de negcios ou assuntos beneficentes. Robbie era o nico ali que 
era amigo de Gabe. Ficando em p em um pulo, abraou-o.
  - Voc certamente sabe como fazer uma entrada triunfal! Acho que isso quer dizer que eu no vou ganhar os meus 25 milhes de dlares?
  Robbie estava brincando para aliviar a tenso e para esconder o prprio choque. Gabe estava com a aparncia terrvel. Sempre fora to grande, forte, como um urso 
simptico. O homem parado na frente de Robbie agora encolhera visivelmente. Devia ter perdido uns vinte quilos. O rosto estava abatido e envelhecido. Mas o maior 
choque de todos era o cabelo. A densa cabeleira loura tinha sumido. O cabelo de Gabe tinha ficado completamente branco.
  - Digamos que no vai receber ainda. Escute, Robbie pode me fazer um favor?
  - Claro. Qualquer coisa.
  - Tenho certeza de que algumas pessoas no saguo me reconheceram quando cheguei.
  Robbie pensou: eu no apostaria nisso.
  - A imprensa logo estar aqui. No posso voltar para casa. Ser que posso me esconder com voc e Paolo por um tempo?
  - Claro. Contanto que... - Robbie hesitou, no sabendo falar. - Tem certeza de que no trar muitas lembranas dolorosas?
  Gabe e Tara tinham ficado na propriedade de Robbie no ltimo vero, com os filhos. Foram frias mgicas para todos eles.
  Gabe ficou comovido com a preocupao de Robbie.
  - Tudo bem. As lembranas no so dolorosas. So s o que tenho agora.
  - Tudo bem, ento. Neste caso, vamos sair daqui.
  Robbie tinha um milho de perguntas para fazer a Gabe. Eu e o resto do mundo. Mas elas podem esperar. O mais importante era lev-lo para casa e aliment-lo, longe 
dos olhos gulosos da mdia.
   Ele  da nossa famlia agora. Um de ns. Eu e Paolo vamos proteg-lo.

  Quando Robbie passou pela porta da sua casa de fazenda de braos dados com Gabe, Lexi desmaiou. Quando ela voltou a si, deitada na cama de um dos quartos de hospedes, 
estava com um galo na cabea do tamanho de um ovo de pato.
  - Sinto muito. - A voz dela estava rouca. - Acho que devo estar mais exausta do que tinha percebido. Pensei ter visto Gabe. Foi to real! Como se ele estivesse 
ao seu lado. Acha que eu preciso de um psiquiatra?
  - Sem dvidas. - Robbie sorriu. - Mas no porque esteja vendo coisas. Acontece que nosso amigo Gabriel no est to morto quanto achvamos que estava.
  - Oi, Lexi.
  Uma verso envelhecida de Gabe apareceu na cabeceira de Lexi.
  Ela desmaiou de novo.
  Demorou 24 horas para que ela aceitasse q        ue Gabe no estava apenas vivo, mas aqui, na casa de Robbie, com ela. Enquanto Lexi aceitava a realidade, Gabe 
tomou banho, comeu e dormiu pela primeira vez em semanas. Ao anoitecer, a notcia de que Gabriel McGregor tinha voltado do mundo dos mortos j havia se espalhado. 
A mdia levou cerca de um minuto e meio para descobrir seu paradeiro. Por sorte, a propriedade de Robbie e Paolo era totalmente  prova de lentes bisbilhoteiras, 
ficando atrs de uma longa via de acesso e cercada por um muro de rvores impenetrveis. Paolo convenceu a polcia a proibir vos rasantes de helicpteros. Quando 
perceberam que era impossvel conseguir uma foto, os paparazzi voltaram relutantes para Cidade do Cabo, montando acampamento em frente  sede da Fnix. Gabe no 
podia se esconder na casa de Robbie Templeton para sempre. Alguma hora teria de aparecer, e quando o fizesse, eles estariam esperando.
  Na primeira semana, Gabe passava 18 de cada 24 horas dormindo. Nas refeies, comia bem, mas em silncio, trocando alguns sorrisos de gratido com Robbie Paolo. 
Mal olhava para Lexi.
  Chamaram um mdico. Fez um exame completo em Gabe. No querendo arriscar mais vazamentos para a imprensa, Robbie entrou em contato com seu padrinho em Nova York, 
Barney Hunt, e pediu que pegasse um vo para vir examinar Gabe.
  - Eu diria que ele est bem mentalmene - disse Barney -, levando em considerao a magnitude do trauma que sofreu. Ele est se permitindo recuperar.
  - Mas ele mal fala - protestou Robbie. - Ainda no disse onde passou todo esse tempo. No falou de Tara nem das crianas nem uma vez. Quando ele fala "me passa 
o sal, por favor", est tagarelando.
  - Ele vai falar quando estiver pronto. E Lexi? Como ela est?
  Parecia uma pergunta estranha e sem propsito.
  - Lexi? Ela est bem, acho. Louca varrida com sempre obcecada pela Kruger-Brent, mas isso no  novidade. Ela veio para c relaxar, o que eu achei um bom sinal.
  - E ela est relaxando?
  - O aparecimento de Gabe foi meio um choque para ela. No sei. Ela tem ficado pouco em casa. Sai a cavalo. Acha que devo me preocupar?
  - No, no. - Barney deu um sorriso tranqilizador. - Gosto da sua irm, s isso. Eu me importo com vocs dois. Assim como o seu pai.
  Robbie ficou tenso. Fazia anos que no via Peter. Pai e filho estavam mais afastados do que nunca.
  - J tenho bastante com o que me preocupar com Gabe e Lexi - disse Robbie na defensiva.
  - Eu entendo - disse Barney. - S quero que se lembre de uma coisa: seu pai no vai viver para sempre. Gabe tem anos pela frente para recuperar o que est sentindo. 
Lexi tambm. Mas voc e Peter...
  - Obrigado, Barney. Estou bem. Ns estamos bem.
  A conversa acabou.

  Lexi estava deitada na cama, sem conseguir domir. Voltaria para Nova York em dois dias. De volta  realidade. As frias com Robbie deviam ter ajudado a clarear 
a sua mente. Mas estava ainda mais confusa do que antes.
  Gabe estava vivo. Isso era uma coisa boa. Obviamente. Ento, por que a presena dele na casa fazia com que se sentisse to... to o qu? No havia como descrever. 
Lexi e Gabe se cruzavam como navios fantasmas em um mar perdido. s vezes, Lexi sentia que ele a estava observando. Quase como se estivesse esperando que ela dissessse 
alguma coisa. Mas dizer o qu?
  Desculpe-me por no saber como conversar com voc? Sinto muito por terem cortado a garganta de sua esposa e filhos? Que bom que est vivo, mas preferia que estivesse 
bem longe da casa do meu irmo?
  Em outros momentos, sentia hostilidade no olhar dele. Ele sentiu alguma coisa por mim naquel safri anos atrs, e ambos sabemos disso. Ser que ele me culpa por 
isso? Ser que fao com que se se sinta culpado?
   Lexi no entendia a passividade de Gabe. Se estivesse no lugar dele, estaria com sede de sangue. No pensaria em nada alm de uma terrvel vingana justiceira 
contra aqueles que acabaram com sua famlia. Mas Gabe no demonstrara raiva. Nem dio. Lexi no conseguia entender.
  Olhou para o relgio da mesa de cabeceira. Eram 4 horas. Sua mente estava a mil. No tinha nenhuma chance de conseguir dormir. Forando-se a levantar da cama, 
colocou um penhoar por cima do pijama velho de Robbie que estava usando e desceu as escadas na ponta dos ps. Talvez uma xcara de leite quente ajudasse.
  - O que voc est fazendo aqui?
  Lexi deu um pulo.
  - Meu Deus, Gabe. Voc me assustou.
  Gabe estava escondido na semiescurido, com o rosto estranhamente iluminado pelos primeiros raios de sol.
  - No consegui dormir.
  - Bem-vinda ao meu mundo. Sabe, quando Collette nasceu, ficamos um ano sem dormir. Eu e Tara ficvamos fantasiando como seria bom dormir at tarde em um domingo. 
Agora, posso dormir at a hora que quiser. Mas nunca consigo ir at depois do amanhecer. Nunca.
  - Sinto muito.
  Deus, era to inadequada. Que expresso pequena, intil. Como tentar apagar um vulco com uma pistola de gua.   
  - Eu estava prestes a fazer, sabe. Eu ia me matar.
  - Gabe, de verdade. Voc no precisa me contar isso.
  - Mas, ento eu pensei: "por que eu deveria ter o direito de descansar em paz depois do que eu fiz? Eu deveria acordar todos os dias, todos os dias, e ver seus 
rostos. Escutar seus gritos.
  Gabe comeou a chorar. Lexi estava congelada no lugar, sem saber o que fazer. Ento, deixou o instinto domin-la. Ela o abraou.
  - No foi culpa sua.
  - Foi sim! - Ele soluou. - A culpa foi minha. Eu deveria estar l. Se eu no estivesse atrasado. Se eu no tivesse parado para trocar aquele maldito pneu! Ah, 
Deus, Lexi. Como eu os amava!
  Ele se agarrava a ela como um nufrago se agarrando a uma bia. Ento, de repente, estava beijando-a, eles estavam se beijando. Lexi conseguia sentir o gosto salgado 
das lgrimas em sua boca, o rosto dele contra sua face, seu pescoo, seus seios. Havia um desespero terrvel na forma como ele arrancava as roupas dela, deitando-a 
no cho gelado de cermica. Como se, fazendo amor com ela, pudesse, de alguma forma, voltar  vida.
  Quando a penetrou, ele soltou um grito angustiado, como um animal sofrendo  beira da morte. Lexi o abraou com fora. Ao fechar os olhos, sentiu a dor dele passar 
para seu prprio corpo. Est tudo bem, Gabe. Est tudo bem, meu amor.
  No incio, Max costumava fazer amor com ela da mesma forma. Com desespero. Como se Lexi pudesse salv-lo. Mas isso foi em outra vida. Gabe no era Max. Gabe era 
um homem bom, decente, ntegro. Gabe estava sofrendo porque tinha amado. Max sofria porque  no conseguia amar. Porque estava destrudo.
  Como eu.
  Quem sabe eu e Gabe possamos nos salvar?

  Quando Robbie desceu na manh seguinte, encontrou seu amigo e sua irm dormindo profundamente no sof, enroscado um nos braos do outro. Sorriu.
  Paolo serviu um pouco de caf.
  - Eu no ficaria to feliz se fosse voc. - Ele apontou para os amantes adormecidos. - Isso vai ser um problema.
  - Por qu? Voc mesmo disse que Gabe deveria encontrar algum. Que precisa de amor para voltar a viver.
  - Verdade, mas Lexi?
  Robbie levantou a cabea.
  - Por que no Lexi? Deus sabe como seria bom ela ter uma pessoa normal em sua vida. Algum para acabar com a sua obsesso pela Kruger-Brent.
  - Eu amo sua irm, Robbie. Voc sabe disso. Mas amantes no podem se "consertar".
  Robbie pensou: Voc est errado. E ns dois? Ns nos consertamos.
  - D uma chance a eles. Ela o ama, sabe? Estou convencido disso. Quando ele desapareceu, ela perdeu o rumo. Lexi  dura por fora, mas seus sentimentos so muito 
intensos.
  Paolo no disse nada.
  Tomara que estivesse errado, para o bem de todos.

  Captulo 25

  MANHATTAN. DOIS ANOS DEPOIS.

  Gabe, Lexi e Robbie estavam no apartamento de Lexi em Nova York, jogando cartas.
  Gabe estava explicando as regras.
  - O jogo se chama "Copas". O objetivo  descartar quantas cartas de copas conseguir para seu adversriol, sem ganhar nenhuma. Cada carta de copas que ganhar conta 
contra voc; por exemplo, se tem o dez de copas, perde dez pontos; o s, 25 pontos, e da por diante. A carta mais perigosa do baralho  o dama de espadas. Se ficar 
com ela, perde cinqenta pontos. Entendeu at agora?
  Robbie disse:
  - Acho que sim. Perder  bom, ganhar  ruim, certo?
  - Para mim, parece um jogo ridculo - resmungou Lexi.
  No estava de bom humor. Normalmente, adorava quando Robbie ficava hospedado em sua casa. Viam-se to raramente. Ele era uma influncia boa e calma para o relacionamento 
ardente de Lexi e Gabe; um lembrete de que o amor deles era mais profundo do que as brigas e a competitividade do dia a dia. Mas hoje, nem mesmo Robbie estava conseguindo 
melhorar seu humor.
  Lexi passara a manh assistindo, impotente, s aes da Kruger-Brent subirem quase vinte pontos. Durante anos, vinha silenciosamente colocando em prtica sua estratgia 
Jenga: comprar partes fundamentais do imprio da Kruger-Brent atravs de empresas de fachada annimas. A idia era que se conseguisse tirar a pea certa, na hora 
certa, o prdio todo desabaria. Max seria despedido. Ela, Lexi, voltaria gloriosa para levar a empresa de volta  sua grandeza.
  Mas isso no tinha acontecido. A Kruger-Brent era como uma aranha gigante. Cada vez que cortava uma das pernas dela, ela crescia de novo. Max estava ganhando o 
jogo. O cretino a estava derrotando.
  O humor dela no melhorou em nada quando perdeu as duas primeiras rodadas do jogo de cartas.
  - Isso  ridculo Gabe. Quem j ouviu falar de um jogo em que no se deve ganhar?
  Robbie riu. Adorava o olhar furioso de Lexi. era o mesmo olhar de quando ela tinha 6 anos e perdeu em um jogo de tabuleiro e exigiu que ele ou a bab aceitasse 
uma revanche.
  - Voc deve ganhar. Mas para ganhar, precisa perder.
  - Na verdade, tem outra regra - disse Gabe - No disse antes porque nunca acostuma acontecer. Mas se, de alguma forma, voc conseguir ficar com todas as cartas 
de copas e com a dama de espadas, ou seja, se conseguir ficar com todas as cartas que podem lhe prejudicar, tem a opo de diminuir pela metade seus pontos negativos 
ou de dobrar os de seus adversrios.
  Lexi ficou quieta. Em poucos minutos, como por milagre, o mau humor dela desapareceu. Sentando-se mais perto de Gabe, ela o abraou e lhe deu um beijo.
  - Vamos jogar, ento. De quem  a vez de dar as cartas?
  Robbie observou o rosto de Gabe se iluminar.
  - O que houve?
  - Nada. Eu amo vocs, s isso.

  Mais tarde naquela noite, Gabe e Lexi fizeram amor pela primeira vez em semanas. Lexi andava to preocupada com o trabalho ultimamente que negligenciara Gabe. 
Mas, naquela noite, compensou, acariciando e estimulando-o at que implorasse para penetr-la, sussurrando o quanto o amava em seu se ouvido. Depois, Gabe caiu em 
um sono profundo e satisfeito.
  Lexi ficou acordada, sua mente a mil, empolgada demais para fechar os olhos.
  Finalmente, encontrara um jeito. Foi Gabe quem lhe deu a idia.
  J sei como vou recuperar a Kruger-Brent.
  Eu estava jogando errado.

  Lisa Jenner, empregada de Eve Blackwell, penteava o longo cabelo grisalho da patroa, enquanto se perdia em devaneios. A velha estava divagando de novo.
  - Rory me amava. Ele ia se casar comigo, sabe. Mas, ento, aquele homem armou para mim. Esperou atg que eu estivesse indefesa, inconsciente e fez isso. - Eve 
passou as mos murchas, com veias aparecendo, pelo rosto, apalpando as cicatrizes com os dedos.
  - Que homem, madame? - Lisa s estava trabalhando com a Srta. Blackwell havia um ms, mas j estava acostumada com seus acessos de loucura.
  - Meu marido, claro! - respondeu Eve. - Max.
  Seu marido morreu, madame. Em um acidente muito tempo atrs. Max  seu filho, lembra?
  Eve franziu a testa. Max  meu filho. Meu filho?
  - Meu filho  um tolo. Ele est destruindo a Kruger-Brent.  fraco, como o pai.
  Lisa Jenner prendeu o cabelo de Eve em um coque alto e apertado, colocando um grampo de marfim para segurar. Depois, colocou o vu da patroa.
  - Acabamos, est pronta - disse ela, contente. - Max est esperando a senhora na sala de estar com o Dr. Marshall. Gostaria que eu a acompanhasse?
  - No! - A voz de Eve estava estridente pelo pnico. - Meu rosto! No deixe que ele toque meu rosto! Ele no  mdico.  um manaco!
  - Tudo bem, Lisa. Pode deixar que eu cuido disso.
  Annabel insistira em vir com Max hoje. Da ltima vez que visitara a me sozinho, voltou para casa arrasado, a ponto de ter um colapso nervoso. Ela no deixaria 
isso acontecer de novo.
  - Venha, Eve. O Dr. Marshall no est aqui para machuc-la.
  - Quem  voc?
  - Sou eu, Annabel, Eve. Esposa de Max. Eu e ele estamos aqui para conversar com o mdico. Trouxemos um pouco daquele queijo defumado que voc gosta.
  - Ela  uma boa procriadora, a esposa de Max. - Eve se levantou com firmeza. - Ele deveria se casar com ela logo. A Kruger-Brent precisa de um herdeiro.
  Kruger-Brent. Como Annabel passara a odiar essas duas palavras. A presso de administrar a Kruger-Brent levara Max  beira de um ataque de nervos. Sua me parecia 
querer que ele sacasse uma varinha de condo e recuperasse todas as perdas da empresa do dia para a noite. Ela no tinha a menor idia da realidade do mercado. Mas 
como poderia?
  A megera velha mal sabia o prprio nome.
  - Oi, me. Voc parece bem.
  Eve entrou na sala de estar arrastando os ps. A idade no chegou gradualmente para Eve Blackwell. Ela atacou de surpresa. Em uma questo de meses, sua coluna 
muito ereta ficou curvada. As veias em suas mos ficaram destacadas como razes de uma rvore. Manchas escuras surgiam como uma praga em sua pele que j fora perfeita. 
Mas nenhuma dessas mudanas importava para Max. A seus olhos, sua me seria eternamente bonita.
  Ele se aproximou para beij-la. Eve o empurrou.
  - Eu sei o que voc fez - disse ela baixinho. - Vou contar para todo mundo. A voc vai se arrepender.
  Annabel viu o marido encolher. Por que ele deixar que ela o oprima? Que poder ela tem sobre ele?
  - Basta, Eve - disse ela. - Voc est confusa.
  Enquanto o mdico media a presso de Eve, Max pusou Lisa Jenner para um canto.
  - Ela fica assim o tempo todo? Ou piora quando estou aqui?
  - No deve se culpar, senhor - disse a empregada, docemente. - Ela tem seus momentos de lucidez. Mas este tem sido seu estado normal. Ela tem escrito muito. Parece 
acalm-la.
  - Escrito? Escrito o qu?
  - No sei. apenas divagando, acho. Ela no me deixa ver. Todos os papis ficar trancados na gaveta da escrivaninha dela.
  Mais tarde, Max contou a Annabel o que Lisa lhe contara.
  - Acha que eu devo abrir a gaveta? Dar uma olhada?
  - No - disse Annabel com firmeza. - Ela pode estar velha e maluca, mas tem direito a privacidade.
  Na verdade, Annabel Webster no ligava a mnima para a privacidade de sua sogra. Sua nica preocupao era Max. S Deus sabe os absurdos malficos que esto nesses 
papis. Assim que ela morrer, eu mesma vou abrir a gaveta e queimar tudo.
  
  Lexi chegou tarde em casa. De novo.
  Gabe no conseguiu esconder sua decepo.
  - Preparei o jantar. Duas horas atrs. Onde diabos voc estava?
  - No trabalho. - Como sempre quando estava errada. Lexi usava um tom de voz agressivo. - S porque voc perdeu a sua ambio, no significa que eu tambm tenha 
de perder a minha.
  O rosto de Gabe se contraiu de dor. A ironia  que tinha passado a ocupar um cargo menor na Fnix para passar mais tempo com Lexi. tinha esperanas de um dia conseguir 
convenc-la a se casar e formar uma famlia. Mas sempre que tocava no assunto, ela ignorava a pergunta e vestia a mscara de "vadia".
  - Voc est mentindo. Liguei para o escritrio. Voce saiu de l h horas.
  - Ah, ento agora voc est me espionando?
  - Espionando no. Voc estava atrasada. Fiquei preocupado.
  - Sou gente grande, Gabe. Se quer saber, estava em uma reunio de negcios.
  - Com quem?
  - No  da sua conta?
  Lexi foi para o quarto, furiosa, e bateu a porta. Tirando as roupas, tentou organizar os seus pensamentos.
  Por que estou fazendo isso? Por que estou tentando afast-lo de mim?
  Lexi amava Gabe tanto quanto sempre o amara. Mais at. Mas seus nveis de estresse estava nas alturas. Ela estava se preparando para a batalha mais importante 
de sua vida - a batalha pelo controle da Kruger-Brent - e no podia contar a Gabe ou a qualquer outra pessoa o que estava fazendo. A apostsa era a mais alta possvel. 
Se fracassasse, poderia perder tudo. Sua fortuna, sua empresa, talvez at a sua liberdade.
  Na verdade, tem outra regra. No disse antes porque nunca costuma acontecer...
  Voc deve ganhar. Mas para ganhar, precisa perder.
  E se recuperasse a Kruger-Brent, mas perdesse Gabe?
  Tirou esse pensamento da cabea. Ganharia o jogo. Precisava ganhar. Quando recuperasse a Kruger-Brent e sua vingana contra Max estivesse completa, ento acertaria 
as coisas com Gabe. Ele no ia a lugar nenhum.

  A Kruger-Brent no conseguiu pagar um emprstimo em Cingapura. O banco executou a hipoteca de uma de suas propriedades. A quantia envolvida era to pequena, Max 
nem chegou a ficar sabendo. Um gerente cingapuriano foi demitido. A Kruger-Brent refinanciou. Fim da histria.
  Poucas semanas depois, um descuido parecido na Alemanha levou a oujtra execuo. Mais uma vez, a quantia era baixa.
  Leix anotou as datas.

  Karen Lomax, uma jornalista francesa do The Wall Street Journal, recebeu um telefonema. Depois que desligou, virou para seu colega Daniel Breen.
  - Ei, Dan. Voc ouviu falar alguma coisa sobre problemas de crdito na Kruger-Brent.
  Daniel Breen balanou a cabea.
  - Voc escutou?
  - Uma mulher acabou de ligar. Disse que eu deveria investigar uns emprstimos que no foram pagos na sia. Acha que tem alguma coisa nisso?
  Daniel Breen deu de ombros.
  - Acho que s tem um jeito de descobrir.
  As cartas foram lanadas.
  
  Gabe abriu a pasta  sua frente, olhando as fotos.
  - Ento, ela no est tendo um caso?
  O detetive particular balanou a cabea.
  - De acordo com as evidencias, no, senhor, ela no est tendo um caso.
  Gabe ficou visivelmente aliviado.
  - Entretanto...
  Gabe levantou o olhar.
  - Existem algumas... anomalias.
  - Que tipo de anomalias?
  - Financeiras. Se for para a pgina 12 do documento, encontrar tudo l.
  Gabe foi para a pgina 12. Lenta e metodicamente, comeou a ler.

  As primeiras semanas do romance de Gabe com Lexi foram como um sonho.
  Gabe no acreditava que seria possvel amar de novo depois do que aconteceu. Certamente no enquanto as suas feridas estivessem to abertas. Mas, como por um milagre, 
naquelas primeiras semanas no refgio africano de Robbie, Lexi levou vida ao seu corao morto. Quando Gabe acordava de madrugada suando e gritando o nome de Tara, 
Lexi o abraava at que o pesadelo passasse. Gabe sempre falava de seus filhos, lembrando uma vez aps a outra dos eventos terrveis de seu aniversrio como um cachorro 
farejando o prprio vmito. Lexi escutava. Ele jogava sua culpa nas mos dela, que a aceitava com gentileza e graa como se ele estivesse lhe dando um buqu de flores.
  Mas, inevitavelmente, a vida real acabou se intrometendo no idlio de amor deles. A cada dia que passava. Gabe ia transferindo mais seus poderes na Fnix a outras 
pessoas, satisfeito em se dedicar a Lexi e s suas obrass de caridade. Se o assassinato de Tara lhe ensinara alguma coisa, foi que amor e vida eram preciosos demais 
para serem desperdiados lendo papis em um escritrio.
  Mas Lexi no pensava assim. Para ela, trabalhar era como respirar. A sede da Templeton era em Nova York. Gabe se mudou para l para ficar com ela. Gostava da cidade, 
da energia, da animao, mas nunca deixava de se sentir um hspede no apartamento de Lexi. Como um primeiro passo para construrem uma nova vida juntos, Gabe comprou 
uma casa de veraneio em Bridgehampton. Um lugar para fugirem, para passarem um tempo juntos.
  - O que voc achou? - Ele levou Lexi a todos os cmodos com paredes de madeira, todos mobiliados com simplicidade, mas bom gosto, com sofs confortveis e roupas 
de cama de linho irlands da White Company. - Tentei criar um lugar tranqilo. Uma fuga da cidade.
  - ...  bonitinha. - Lexi tentou soar entusiasmada. Mas por dentro, pensava: no quero fugir da cidade.
  O rosto de Gabe mostrou sua decepo.
  - Voc no gostou.
  - Gostei. No  isso.  que... quando vamos vir para c?
  - Nos finais de semana.
  - Eu trabalho nos finais de semana, amor.
  Lexi no s trabalhava nos finais de semana. Comeava a trabalhar cedo e ia at tarde da noite. Trabalhava no dia de Ao de Graas e no Dia do Trabalho. Gabe 
no sabia que a decisiva viagem de Lexi fizera para visitar o irmo na frica do Sul eram suas primeiras frias em mais de cinco anos.
  No eram apenas as longas horas. Era o segredismo. Era comum Lexi falar enquanto dormia, resmungando sobre a Kruger-Brent e Max e vingana.  Ela parecia estar 
ansiosa porque o tempo estava se esgotando. Mas quando Gabe perguntava tempo para qu, Lexi fingia no saber do ele estava falando. Pouco tempo atrs, Gabe ficara 
chocado quando David Tennant, o brao direito de Lexi na Templeton, mencionou que a empresa estava com problemas.
  - Lexi est liquidando bens mais rpido do que conseguimos acompanhar. O dinheiro desaparece nas contas dessas empresas obscuras, depois, puf, no existe mais.
  Quando Gabe questionou Lexi, ela desdenhou.
  - David est preocupado  toa. Fiz algumas operaes financeiras, s isso.
  - Ele disse que voc est deixando a Templeton sem nada.
  - Ele est exagerando.
  Ponto final.
  Ultimamente, chegou ao ponto de Gabe ter a sensao de que precisaria marcar hora para falar com Lexi. quando conseguia, todos os assuntos quye ele queria discutir 
- casamento, filhos, o futuro deles - ficavam fora da pauta.
  - No posso ter filhos, Gabe. J lhe disse isso.
  - No pode ou no vai?
  Isso irritou Lexi.
  - Certo. No vou. Qual a diferena?
  - Tem muita diferena! Por que voc no vai? De que tem tanto medo?
  - No tenho medo de nada. Pare de me encher o saco. Voc quer que eu passe mais tempo com voc, mas, quando paso, voc fica me interrogando.
  Contratar um detetive particular foi um momento crtico. Mas Gabe no podia mais agentar. Precisava saber o que Lexi estava escondendo dele. Ele a amava, mas 
estava cansado de ficar em casa sozinho enquanto Lexi viajava sabe-se l para onde em uma viagem sem fim de negcios. Ele no era namorado dela. Era com quem ela 
passava o tempo entre uma viagem e outra. Foi quando se perguntou: ser que ela encontrou outra pessoa?

  - Acho que no estou entendendo bem. - Gabe devolveu a pasta para o detetive particular sentado no sof, um homem gordo com bochechas inchadas pela bebida e uma 
pana to grande que ia quase at o joelho.
  - A Srta. Templeton  fiduciria da sua fundao beneficente?
  -  sim.
  - Ela tem autorizao para fazer transaes financeiras no nome da fundao?
  - Tem. Mas  s uma formalidade. Lexi  uma celebridade, e isso  muito til para ns. Ajuda a angariar fundos. Mas ela no est envolvida com os negcios dirios 
da fundao.
  - O que torna ainda mais curioso o fato de ela ter feito vrias retiradas considerveis das contas da fundao.
  O detetive particular tirou uma caneta vermelha do bolso do palet. Circulou as datas e quantias e entregou o papel para Gabe. Gabe fitou por um longo tempo.
  - Tem certeza de que foi Lexi quem autorizou essas retiradas?
  - Sim senhor.
  Ela est roubando de mim? Das obras de caridade? No faz sentido.
  - Voc sabe o por qu?
  - No, senhor. Ainda no. Infelizmente, a sua noiva  uma ilusionista quando o assunto  dinheiro. Assim que ela coloca as mos no dinheiro, ele desaparece. O 
rastro de documentos que ela deixa  muito complexo, quase impenetrvel.
  Gabe pegou seu talo de cheques. Escreveu um nmero, destacou o cheque e entregou ao detetive. Os olhos do homem gordo cresceram.
  - Penetre.
  - Sim, senhor. Farei isso, senhor. Obrigado, senhor.

  Descendo a ladeira da casa de praia de Gabe em Bridgehampton, segurando o cheque como um talism, o detetive particular pensou nas burrices que os homens faziam 
por amor.
  J vira centenas de fotos de Lexi Templeton. Lbios perfeitos para um boquete em um rosto de anjo. Peitos e bunda maravilhosos; mas era elegante. Uma mulher como 
essa consegue ferrar o homem que quiser. Mas ela escolhera esse homem velhno, de cabea branca, um caco, mas que por acaso era cheia de dinheiro e confiava nas pessoas?
   Talvez McGregor achasse que estava a salvo porque ela tambm era rica. Se fosse isso, era ainda mais tolo.
  No sabia que as mulheres mais ricas so as mais gananciosas?

  Era sexta-feira de manh. Max estava sentado em seu escritrio na Kruger-Brent, olhando as fotografias na sua mesa. Seus meninos, George e Edward, estavam com 
5 anos. No escritrio de Max, havia inmeros porta-retratos de prata com fotos deles, de mos dadas, sorrindo para a cmera. Tambm havia fotografias de Annabel, 
e de Eve, quando era jovem, no auge de sua beleza. Mas eram seus filhos que o deixavam hipnotizado, a inocncia deles iluminando a sala como o sol.
   assim quje deve ser a infncia. Feliz. Pura.
  August Sandford entrou como um furaco.
  - J viu o preo das nossas aes? Que diabos est acontecendo?
  August Sandford no tinha envelhecido bem. Seu cabelo castanho cheio escasseara, deixando uma boa parte da cabea exposta. Os msculos de quando tinha 20 anos 
e poucos anos j tinham se tornado gordura h bastante tempo. A Kruger-Brent fizera dele um homem rico, no papel. Mas, esta manh, August vira o valor desses papis 
carem quase 15 por cento. Com esposa, trs filhos e uma amante exigente para sustentar, os nveis de estresse de August estavam sempre em "alta". Esta manh, as 
manchas de suor embaixou de seu brao estavam to grandes que pareciam prestes a pingar.
  Max abriu o Bloomberg na tela de seu computador. Meu Deus.
  August estava gritando.
  - Algum cretino est vendendo nossas aes a descoberto.
  Era verdade. Algum estava pegando emprestadas muitas aes da Kruger-Brent e vendendo com desconto. Efetivamente, estava apostando que o preo das aes iria 
cair. O problema era que, fazendo vendas descobertas nessa escala, o vendedor estava tornando sua previso uma profecia autorrealizvel.
  - Aquela matria no The Wall Street Journal, foi ali que tudo comeou. Aquela jornalista vadia, insinuando que o nosso risco de crdito  alto! Dois emprstimos 
ruins e o mercado j est se virando contra ns. Porra, como ela soube de Cingapura?  o que eu gostaria de saber.
  - No sei.
  - Bem, voc deveria saber.  o presidente desta empresa, Max. Estamos deixando vazar notcias ruins como uma camisinha rasgada, e voc fica a sentado em sua torre 
de marfim sem fazer nada!
  A cabea de Max comeou a latejar. Fechou os olhos. Quando abriu de novo, August no estava mais l. Graas a Deus. Parado  sua frente estava um homem velho. 
Estava debruado sobre sua bengala de madeira, que segurava com firmeza e cheias de manchas.
  - Posso ajud-lo?
  O velho balanou a cabea.
  - No. Infelizmente, ningum pode me ajudar.  tarde demais.
  Havia algo de familiar em sua voz. Sua tristeza tocou o corao de Max.
  - Tarde demais para qu, senhor? - perguntou gentilmente. - Talvez eu possa ajudar.
  - Tarde demais para tudo. Estou morto, sabe? Meu filho me matou.
  Limo nojento e verde comeou a escorrer das narinas do velho.
  - Por que fez isso comigo, Max? Eu o amava tanto.
  Keith?
  Um fedor forte e terrvel tomou conta do escritrio de Max. Ele comeou a sufocar, segurando na mesa para no cair.
  - Saia daqui! Voc est morto! Saia daquie e me deixe em paz!
  - Max?
  - Eu disse para SAIR!
  August Sandford estava sacudindo Max pelos ombros.
  - Max! Est me escutando? Voc est bem? Max?
  - Deus. Eu o matei!
  - Matou quem?
  Era tudo de que precisavam no meio de uma crise. Um presidente pirando.
  Lentamente, Max acordou do pesadelo. O terror comeou a desaparecer. Tudo bem. Estou no meu escritrio. August est aqui. Foi um sonho, s isso. Apenas um sonho.
  - Sinto muito. - Tentou sorrir para August Sandford. - O estresse s vezes me pega. Estou bem.
  At parece que est.
  Max forou-se a olhar para a tela na sua frente. Esse era o verdadeiro pesadelo. E no fazia a menor idia do que fazer a respeito. Percebendo a sua indeciso, 
August assumiu o controle.
  - Precisa convocar uma reunio de conselho. Imediatamente. Precisamos descobrir que est vendendo nossas aes a descoberto e por qu. Se forem os boatos sobre 
crdito, podemos lidar com isso. Mas precisamos agir rpido.
  August Sandford saiu apressado da sala. Max ficou olhando para a porta aberta, meio que esperando que o fantasma de seu pai fosse aparecer de novo. Annabel est 
certa. Preciso de ajuda.
  Ele apertou o interfone na sua mesa.
  - Diga ao conselho que estou convocando uma reunio de emergncia.
  A tela de seu computador estava piscando.
  Baixa de 15 por cento.
  Dezesseis...
  - Quero todo mundo naquela mesa em 15 minutos.

  Lexi estava arrumando sua mesa na Templeton quando David Tennant bateu na porta de seu escritrio.
  - Entre. - Ela abriu um sorriso simptico. David Tennant no retribuiu sorriso nem a simpatia.
  - Vim lhe entregar isto. - Ele passou a ela um envelope branco lacrado.
  Lexi brincou.
  - Pela sua expresso, no deve ser um carto de Natal adiantado.
  - No.  a minha carta de demisso.
  Lexi foi pega de surpresa.
  - Est falando srio?
  - Nunca falei to srio em toda a minha vida. Achei que ramos scios, Lexi. Mas scios no mentem um para o outro.
  - David! Eu no menti.
  David Tennant balanou a cabea, sem acreditar.
  - No mentiu? Voce no tem feito nada alm de mentir nos ltimos meses. Lexi, voc roubou o balancete da empresa sem misericrdia, apesar de ter me prometido solenemente 
que iria parar. As nossas reservas esto to baixas que mal podemos comprar um cachorro-quente. Voc se recusou a me dizer, a dizer a qualquer um de ns, o que voc 
est comprando.
  - No estou comprando nada - disse Lexi, sendo sincera. -  verdade que comprei algumas empresas.
  - Da Kruger-Brent.
  - Verdade - admitiu Lexi. - Mas parei de fazer isso anos atrs.
  - Mesmo? Ento, onde est o dinheiro, Lexi?
  Lexi pegou um peso de papel na sua mesa e ficou analisando. Quando falou, no olhou nos olhos de David Tennant.
  - Infelizmente, no posso lhe contar.
  David Tennant virou-se para sair.
  - Espere! Por favor, David. Confie em mim. Vou pagar todo o dinheiro que peguei emprestado da Templeton. Com juros. Esse negcio que estou fazendo pode render 
uma fortuna.
  - E se isso no acontecer?
  - Vai acontecer. Mas no pior dos casos, posso refinanciar a Templeton.
  - Como?
  Lexi fitou impetuosamente.
  - Pegando emprestadas as minhas aes da Kruger-Brent.
  - Lexi, voc j viu os mercados esta manh? As aes da Kruger-Brent esto em queda livre.
  - Como assim "queda livre"? Esto em baixa? - Ela ligou o computador, tentando esconder sua animao. Comeou.
  - No esto em baixa. Esto desmoronando. Alguma coisa est acontecendo l. As pessoas esto vendendo aes da KB como se fosse granadas ativadas. A no ser que 
Max Webster consiga mudar a mar, eles podem estar falidos na segunda de manh.
  O preo da ao apareceu na tela de Lexi. Suas mos comearam a tremer.
  Em outras circunstncias, David Tennant poderia ter sentido pena dela. Se a Kruger-Brent falisse, Lexi perderia uma fortuna. Mas, depois de v-la acabar com seus 
dez por cento da Templeton sem o menor remorso - sete anos de trabalho por gua abaixo -, ele no sentiu nem um pouco de compaixo.
  Ele saiu da sala dela sem olhar para trs.
  Depois que ele foi embora, Lexi ficou sentada  sua mesa por bastante tempo.
  "Eles podem estar falidos na segunda de manh."
  Se isso no der certo, destrui a coisa que mais amo no mundo.

  Uma hora depois, Lexi saiu do escritrio e foi dirigindo at os Hamptons. Este final de semana com Gabe estava agendado h meses. No podia cancelar. Tinha de 
se comportar normalmente. Agir como se nada tivesse acontecido.
  Gabe viu o Aston Martin DB7 de Lexi parar na entrada da casa. Observou pela janela do quarto deles enquanto ela saa do carro.
  Nosso quarto. Que piada, Lexi no deve ter passado mais de seis noites aqui no ano todo.
  Como sempre, ele ficava sem flego com a beleza dela. Estava usando um terno cinza simples com blusa de seda creme, o cabelo loro preso em um rabo de cavalo simples. 
Mas ela ainda brilhava mais que a estrela do norte. Para mim, ela sempre vai brilhar. No conseguia suportar a idia de perd-la. Talves, de alguma forma, haveria 
uma explicao para ela ter pegado o dinheiro? Para todos os segredos e mentira? Agarrando-se a uma fraca esperana, ele desceu.
  Lexi jogou a mala para o final de semana no cho e o abraou forte. Na mesma hora, Gabe viu que ela estava chorando. Lgrimas de remorso? Culpa?
  - O que houve?
  Lexi seguiu-o at a sala de estar. Ela se jogou no sof branco que apenas algumas horas antes suportara o peso do detetive particular.
  - Tem alguma coisa a perturbando? Alguma coisa que queira me dizer?
  S naquele momento, Lexi percebeu a presso sob a qual estava vivendo. A maior aposta de sua vida estava na mesa. Desejava poder desabafar com Gabe. Mas sabia 
que no podia.
  - No sei nem por onde comear.
  Gabe sentiu o poo de amor dentro dele se encher. Ela parecia to perdida e vulnervel.
  Ela est realmente arrependida. Vai confessar tudo.eu vou perdo-la. Tudo vai ficar bem.
  - A Templeton est afundando.
  Gabe escondeu sua surpresa. Ano era o que estava esperando ouvir. Foi por isso que ela roubou da sua fundao? Para injetar dinheiro na sua empresa? No ser a 
melhor das razes, mas s vezes na hora do desespero...
  - David Tennant pediu demisso hoje. Vou ter de dispensar os outros tambm.
  - Sinto muito, querida. Sei o quanto essa empresa significava para voc.
  Lexi olhou para ele realmente surpresa.
  - A Templeton? No significa tanto para mim.
  Agora Gabe estava confuso.
  - Mas... voc estava chorando.
  - No  por causa da Templeton. - Lexi fungou.
   isso.  agora que ela vai abrir o jogo sobre o dinheiro. Pedir para recomear do zero.
  - O preo das aes da Kruger-Brent despencou hoje. Afundou. Eles podem... este pode ser o fim da empresa.
  Gabe recuou como se tivesse levado um soco.
  Kruger-Brent? Ela estava chorando por causa da maldita Kruger-Brent?
  Foi a gota d'gua. Gabe no batia em outro ser humano desde que quase matara aquele coitado em Londres, trinta anos atrs. Mas sentiu seus punhos se fecharem. 
Lexi no tinha vergonha? Ela roubara dinheiro, no s dele, o homem que ela supostamente deveria amar, mas de milhares de vtimas da Aids que precisavam desesperadamente. 
Mas isso no a incomodava. Ah, no. Ela s se importava, sempre, com aquela maldita empresa. Gabe se lembrou do pai, de como ele tinha morrido sem dinheiro e amargurado, 
destrudo pela sua obsesso com a Kruger-Brent. Viajei meio mundo para evitar o mesmo destino. E aqui estou eu, apaixonado por uma mulher to envenenada, e corrompida 
pela Kruger-Brent quanto meu pai.
  Indiferente  fria dele, Lexi continuou.
  - Eles tiveram alguns problemas com crdito. Eu no tinha percebido que era to srio, mas parece que . O mercado consegue sentir a fraqueza de Max como um tubaro 
sentindo cheiro de sangue.
  - Eu no dou a mnima. - A voz de Gabe era quase um sussurro.
  - O qu?
  - Eu disse que NO ME INTERESSA!
  De repente, ele estava gritando. Berrando, Lexi nunca o vira to furioso.
  - Por mim, a Kruger-Brent pode ir para o inferno, e Max Webster tambm. Voc roubou da minha fundao.
  Lexi no disse nada. Gabe podia ver as engrenagens da cabea dela avaliando suas opes: negar? Explicar? Desculpar-se?
  Para ela, tudo  um jogo. S o que importava era ganhar, e dane-se a verdade.
  Depois de bastante tempo, ela disse:
  - Eu no roubei. Eu peguei emprestado.
  - Por qu?
  Outra pausa.
  - No posso dizer. - Ela abaixou a cabea. - Mas tive um motivo muito importante.
  - Mais importante do que comprar retrovirais para crianas em estado terminal?
  - . - Lexi respondeu sem pensar, de corao.
  Gabe lanou um olhar para ela que era uma mistura de horror e nojo. Ela tinha ido to longe que realmente achava um negcio podia ser mais importante do que salvar 
vidas? Aparentemente sim.
  Lexi no conseguiu suportar a decepo dele. Lgrimas escorreram de seus olhos.
  - Voc ter o dinheiro de volta, Gabe. Ter o dobro. Prometo.
  - No  o dinheiro. - Gabe apoiou a cabea nas mos.
  Lexi pensou: ele parece to cansado. To derrotado. Fui eu quem fiz isso com ele?
  - Acabou, Lexi. Eu amo voc. Mas no posso continuar.
  Lexi sentiu seu mundo desmoronar. Queria gritar: no! Eu amo voc. Por favor, no me abandone. No v!
  Mas sabia que no conseguiria segur-lo. Gabe era bom, honesto e verdadeiro. Merecia uma vida normal e feliz. Ela fizera o que precisava fazer. Gabe nunca entenderia, 
mesmo se ela contasse a ele. O que, claro nunca faria.
  Lexi precisou de todo seu autocontrole para se levantar, pegar sua mala e se dirigir para a porta.
  - Eu tambm amo voc, Gabe. Sinto muito. Voc ter seu dinheiro de volta.
  Gabe ficou parado na porta, observando-a se afastar no carro.
  Adeus, Lexi.
  
  Na segunda-feira de manh, quando as bolsas abriram, as aes da Kruger-Brent tinham cado quase noventa por cento.
  Em Wall Street, os boatos predominavam. Algum tinha informaes internas sobre a Kruger-Brent, e no eram boas:
  O emprstimo em Cingapura era apenas a ponta de um iceberg de dvidas.
  Uma fraude na contabilidade estava prestes a ser descoberta.
  Um dos "remdios milagrosos" da empresa seria revelado como letal.
  Desde a crise financeira de 2009, os mercados no viam uma gigante cair de joelhos da noite para o dia. Dois empresrios apareceram do nada, admitindo que tinham 
apostado alto na falncia da empresa. Carl Kolepp, dono do fundo de investimentos de lendria agresssividade CKI, foi um. The Wall Street Journal estimou que, no 
final de semana, Kolepp ganhou 620 milhes de dlares com a decadncia da Kruger-Brent.
  Lexi Templeton, com o resto de sua famosa famlia, tinha perdido tudo.
  Max Webster fez um pronunciamento na CNBC, apelando para os acionistas ficarem calmos, citando a famosa frase de Roosevelt de que "a nica coisa a temer  o prprio 
medo". Como milhes de outras pessoas, Lexi assistiu  transmisso do pronunciamento de Max ao vivo. Ficou chocada com a aparncia doente dele, como estava frgil 
e abatido. O mundo estava pegando fogo, e Max estava queimando.
  Veja isso como uma preparao para o fogo do inferno. Desgraado.
  O pronunciamento de Max no acalmou ningum. Na tera-feira estava tudo acabado. Centenas de milhares de funcionrios da Kruger-Brent em todo o mundo acordaram 
sem emprego. Dezenas de milhares viram seu dinheiro sumir como fumaa. Por todo os Estados Unidos, as manchetes eram:
  KRUGER-BRENT FALIU!
  GIGANTE NORTE-AMERICANO DESMORONA!
  No meio de toda essa comunicao, poucas pessoas notaram o pequeno comunicado  imprensa de que a Templeton Estates no estava mais no mercado.
 
  Na quinta-feira, a imprensa parou de perturbar Lexi em busca de entrevistas. Ela dera uma declarao expressando seu profundo pesar pela falncia da Kruger-Brent 
e deixando claro que no tinha mais nada a dizer.
  A famlia Blackwell inteira viu suas portas serem invadidas por fotgrafos, registrando cheios de alegria a extraordinria queda deles. Era o declnio de um tit. 
A mdia se empanturrava com a desgraa alheia como mosquitos sedentos de sangue. A cena de Peter Templeton com a aparncia velha e frgil do lado de fora de Cedar 
Hill House foi exibida em todos os grandes canais de televiso, que estavam passando uma retrospectiva com Kate Blackwell da dcada de 1960 foram tiradas dos arquivos 
e reprisadas, aumentando enormemente a audincia das redes de TV. Os Estados Unidos tinham crescido com os Blackwell e a Kruger-Brent. Como Robbie Templeton disse 
 imprensa do lado de fora do Royal Albert Hall em Londres era o fim de uma era.
  Eve Blackwell, como sempre, continuou em sua priso autoimposta em Park Avenue.
  O paradeiro de Max Webster era desconhecido.

  Duas semanas depois, o furou comeou a cessar. Uma noite, por volta das 18 horas, Lexi Templeton saiu discretamente de seu apartamento. Pegando vrios txis para 
garantir que no estava sendo seguida, chegou a um restaurante italiano barato na Queens por volta das 19 horas.
  Ele estava sentado  mesa, esperando por ela.
  Lexi se sentou.
  - J fez todas as transferncias?
  - Conforme nosso acordo. Setenta por cento para voc, trinta para mim. Um pouco injusto, j que fiz todo o trabalho - brincou ele.
  Lexi riu.
  - Verdade, e eu assumi todo o risco. Apostei cada centavo que eu tinha para conseguir pegar emprestadas as aes que precisvamos. Levei a minha empresa  falncia, 
peguei emprstimos e roubei. - Afastou o pensamento de Gabe da cabea. - Se os mercados no tivessem entrado em pnico, eu estaria arruinada.
  - Mas eles entraram, no foi? - Carl Kolepp riu. - Como voc se sente?
  Lexi retribuiu o sorriso.
  - Rica.
  - Que bom. O espaguete  por sua conta.
  Eles comeram e comemoraram. O que eles fizeram era totalmente ilegal. Venda a descoberto era uma coisa. Mas manipular o preo das aes de uma empresa atravs 
de uma campanha orquestrada de desinformao? Isso era outra coisa. Lexi usara o seu conhecimento interno da Kruger-Brent para enganar os acionistas. Se ela ou Carl 
fossem pegos, ambos teriam de cumprir uma longa sentena.
  Mas no seremos pegos.
  Desta vez, Lexi cobrira seus rastros. Todos os elos que a ligavam a Carl Kolepp tinham sido meticulosamente destrudos. A no ser que um deles confessasse, estavam 
livres.
  - Ento, o que vai fazer agora? - perguntou Carl a Lexi. - Comprar uma ilha em algum lugar bem tranqilo? Encher uma piscina de champanhe Cristal.
  Ela achou graa da idia.
  - Claro que no. Agora est na hora de colocar as mos  obra.
  - Como assim?
  - Vou reconstruir a empresa, claro. Comprar de volta todos os negcios decentes, e me livrar de todas as porcarias que Max comprou nos ltimos dez anos. Dividi 
os meus pontos. Agora vou dobrar os dos meus adversrios.
  - Como?
  Lexi riu.
  - Esqueca. Uma piada particular.
  - Deixe-me ver se entendi direito. - Carl Kolepp parecia confuso. - Voc levou a sua prpria empresa  falncia s para reconstru-la?
  - Exatamente. Perdi para poder ganhar.
  - Algum j disse que voc  um pouco maluca?
  Lexi sorriu.
  - Algumas pessoas. Parece que  comum na minha famlia.

  Captulo 26

  Felicity Tennant estava deprimida. Ao pegar as correspondncias na caixa ainda de pijama, no retribuiu os acenos felizes de seus vizinhos nessa gloriosa e ensolarada 
manh de setembro. Atrs de Felicity, estava a idlica casa branca em que ela e seu marido, David, viveram felizes e em harmonia durante os vintes anos de casamento. 
At ms passado.
  Primeira regra de um casamento. Mantenha seu Marido Fora de Casa.
  Desde que David Tennant pedira demisso da Templeton, ficava se arrastando pela casa como um urso com dor de cabea, pegando no p de Felicity. Por razes que 
a esposa no entendia, aparentemente tinham perdido muito dinheiro. David estava at falando em vender a casa e se mudar para um lugar mais modesto. Talvez at sair 
de Westchester County.
  S sobre o meu cadver.
  As correspondncias da manh no ajudaram a melhorar o humor de Felicity. Contas, contas e mais contas. S havia um envelope branco entre os marrons e vermelhos 
(contas vencidas! Que Vergonha!) que Felicity teria gostado de abrir, mas David ficava muito irritado quando ela abria suas correspondncias. Mas, tambm, David 
vinha ficando muito irritado com tudo ultimamente.
  - Aqui. - De volta  cozinha, ela entregou a ele a carta, com as contas. - Para voc.
  David Tennant abriu o envelope sem interesse. Desde que a Templeton faliu, era como se uma nuvem negra estivesse sobre sua vida. Nada mais parecia importante. 
Dentro do envelope, havia um bilhete e um cheque. David Tennant leu os dois. Duas vezes. Felicity notou que as mos do marido comearam a tremer.
  - O que foi? O que  isso?
  Ele entregou o bilhete a ela.
  "Querido David, sinto muito por ter demorado tanto. E sinto muito tambm por no ter sido franca com voc. Espero que este cheque, de alguma forma, ajude a reconstruir 
a confiana que voc tinha em mim. Sua amiga, Lexi."
  - Tolice - Felicity Tennant no ficou nem um pouco impressionada. - A conscincia pesada levou a melhor, no foi? J no era sem tempo. Sua amiga, at parece! 
Depois da forma como Sua Alteza nos tratou.
  Silenciosamente. David Tennant entregou o cheque para a esposa.
  - Meu Deus do Cu! - Felicity Tennant se agarrou na mesa da cozinha para no cair.
  O cheque era de 15 milhes de dlares.
  Afinal, aquele seria um bom dia.

  Yasmin Ross sorriu para seu patro quando ele entrou no escritrio.
  - Bom dia, Sr. M. A correspondncia est em cima da sua mesa, ao lado do leite e do muffin de amora. Passei a reunio da manh para 15 minutos depois para que 
voc tenha tempo de comer alguma coisa.
  Gabe retribuiu um sorriso agradecido.
  - Yas, voc  um anjo.
  Coitado. Yasmin observou-o entrar no escritrio, ombros cados, cabea baixa. Os sorrisos de Gabe no a enganavam nem a ningum no escritrio da fundao. Desde 
que ele terminara com Lexi Templeton, parecia que a alegria se esvara dele como ar de um pneu furado. Lexi dever ser louca, deixando-o escapar por entre os seus 
dedos. Eu no mandaria Gabe McGregor para fora da minha cama por nenhum dinheiro do mundo.
  Sentando-se  sua mesa, Gabe beliscou o muffin. Sabia que sua assistente estava preocupada com ele, o que o deixava comovido. No estava comendo bem ultimamente. 
Nem dormindo, alis. Suspirando, concentrou-se na correspondncia. Todos os dias, Gabe recebia muitas cartas, implorando, pedindo doaes de sua fundao. Dizer 
"no" era a parte que menos gostava em seu trabalho, mas era preciso fazer. Se abrissem muitas frentes, no chegariam a lugar nenhum. Ainda havia muito a ser feito.
  Recentemente, Gabe vinha dizendo "no" com mais freqncia que antes, graas ao buraco que Lexi deixara nas contas da fundao. Legalmente, Gabe tinha a obrigao 
de dar queixa do roubo na polcia. Mas ainda no conseguira se forar a fazer isso. Ainda no, pelo menos.
  Quando viu a caligrafia no envelope branco, engasgou com o caf, entornando o lquido marrom por toda a mesa. Gabe no tinha nenhuma notcia de Lexi desde o fatdico 
dia nos Hamptons.
  O que ela poderia querer? Uma reconciliao?
   isso o que eu quero tambm?
  Ele abriu a carta. Mas no havia nenhuma carta. S um cheque.
  Era de exatamente trs vezes a quantia que Lexi tinha roubado.
  
  August Sandford estava desconfiado.
  - No sei, Jim. Quem mais vai?
  Jim Barnet era o chefe - ex-chefe - do departamento de produo da Kruger-Brent. Junto um seleto grupo de outros chefes de departamentos, Jim Barnet fora chamado 
para uma reunio com os administradores de falncia da empresa. Aparentemente, surgira um potencial comprador, interessado em alguns negcios mais rentveis da Kruger-Brent.
  - Eu, Mickey, Alan Daves, eu acho. Tabitha Crewe.
  - Tabitha? Eles querem minerao?
  - Parece que sim. E imobilirio.
  - E ningum faz idia de quem  o misterioso benfeitor?
  - No. Mas fala srio, cara. At parece que est chovendo ofertas para ns. A maior parte do mercado ainda acha que somos txicos.
  August desligou o telefone.
  - Quem era, querido? - Letcia, sua amante, rolou na cama, pressionando os seios macios contra seu peitoral. Desde que a Kruger-Brent faliu, o desempenho de August 
como amante estava um fiasco. Era como se houvesse um fio invisvel ligando seu pnis ao valor de seu patrimnio. Quando um estava murcho, o outro acompanhava.
  - Jim Barnet. Parece que algum comprador cheio de grana quer conversar conosco.
  - Isso  bom, certo?
  Colocando as mos por debaixo dos lenis Frette, Letcia gentilmente acariciou as bolas de August. Ele costumava adorar isso nos velhos tempos.
  - Talvez. - August sentiu as primeiras pontadas de uma ereo. Um bom sinal? - Espero que sim.

  Mandrake & Connors era uma das maiores e mais respeitadas firmas de contabilidade de Wall Street. Nos dias de glria da Kruger-Brent, fizeram uma fortuna trabalhando 
para a empresa. Agora, em uma irnica virada do destino, estavam cuidando da sua falncia. Desenredar as contas de uma rede de negcios to vasta e complexa podia 
levar meses, at anos.
  August Sandford estava sentado junto a cinco de seus ex-colegas em uma das salas de reunio da Kruger-Brent estavam dando as cartas em reunies como essa. Hoje, 
Whit Barclay, o contador, estava no comando. Estava amando cada minuto.
  - Todos vocs sabem por que esto aqui.
  With Barclay era um homem pequeno, com queixo fraco, pouco cabelo e lbios permanentemente molhados. Um zango, que s conseguira chegar ao topo da colmia cheia 
de outros zanges pelo simples fato de estar no mesmo emprego h 32 anos.
  - No preciso nem falar que tudo que for discutido entre essas quatro paredes hoje deve permanecer estritamente confidencial.
  Os membros da Kruger-Brent murmuraram que sabiam.
  - Uma empresa chamada Cedar International nos procurou, expressando seu interesse em algumas das reas mais lucrativas da Kruger-Brent.
  - E minerao - acrescentou August Sandford. Tabitha Crewe lanou-lhe um olhar venenoso. Todo mundo sabia que o departamento de Tabitha, que era responsvel pelas 
minas de ouro e diamante da Kruger-Brent, era fraco.
  - Exatamente - With Barclay respondeu. - De qualquer forma, Cedar International...
  August Sandford interrompeu de novo.
  - Quem so esses caras? Desculpe estragar a festa de todo mundo. Mas algum j ouviu falar dessa empresa?
  - Realmente, Sr. Sandford. No h necessidade de grosserias.
  - Eu nunca ouvi falar - disse Jim Barnet.
  - Nem eu. - Mickey Robertson e Alan Daves concordaram.
  - Como podemos saber se ela pode ser levada a srio?
  With Barclay ficou vermelho de raiva. Ele deveria presidir esta reunio.
  - Posso garantir aos senhores que a Cedar International  uma empresa legtima, altamente capitalizada com...
  - , mas quem so eles? O que eles fazem? No eram ativos em nenhuma das nossas reas de atuao, ou j teramos ouvido falar deles.
  A porta da sala de reunies se abriu. Todo mundo se virou.
  With Barclay disse com rigor:
  - Deixem-me apresentar-lhes a CEO da Cedar International.
  O queixo de August Sandford quase caiu na mesa.
  - Ol, August. Todo mundo. - Lexi abriu um sorriso doce. - J faz um tempo.

  Lexi tinha feito o dever de casa. Sabia exatamente quais eram os negcios viveis da Kruger-Brent e quais escoavam perigosamente os fundos da empresa. Podia ser 
dar ao luxo de escolher, comprando a creme de la creme a preo de banana. A nica rea que deixara o corao falar mais alto que a cabea foi na minerao. Jamie 
McGregor construra a Kruger-Brent com diamantes. A Kruger-Brent sem um departamento de minerao seria como a Microsoft sem o Windows. Alm disso, estava certa 
de que poderia dar a volta por cima, assim que despedisse Tabitha Crewe e o resto dos preguiosos que Max permitira que acabassem com a empresa.
  Assim que a notcia de que Lexi Templeton tinha comprado a Kruger-Brent e estava reconstruindo a empresa se espalhou, a imprensa ficou louco com a histria.
  BELA BLACKWELL COMPRA SEUS NEGCIOS DE VOLTA.
  KRUGER-BRENT RENASCE DAS CINZAS.
  LEXI CONSEGUE UM ACORDO DE LTIMA HORA.
 O pblico norte-americano no pensou em se perguntar onde Lexi conseguira dinheiro para essa compra pica. Ela era uma Blackwell. Claro que era rica. Aqueles mais 
prximos a ela ficaram mais desconfiados.
  - O que voc fez? Roubou um banco? - perguntou Robbie.
  Lexi se manteve reservada.
  - No me faa perguntas e no lhe conto mentiras.
  August, que fazia idia de quanto dinheiro Lexi deve ter perdido com a queda das aes da Kruger-Brent, ficou ainda mais perplexo. Mas no ousou tocar no assunto. 
Lexi lhe jogara uma corda para salvar sua vida. No estava com a menor pressa para comear a cort-la.

  Uma noite de outubro, August e Lexi ficaram trabalhando at mais tarde, examinando o portflio de propriedades na Europa. A Kruger-Brent menor e mais enxuta agora 
funcionava na antiga sede da Templeton. Era muito menos majestosa, mas por metade do preo, a proposta agradou a August. Sentado no cho da sala de Lexi no meio 
de um mar de documentos - os novos mveis ainda no tinham chegado -, ambos estavam comeando a ficar cansados.
  - Certo. Itlia. - August bocejou, esfregando os olhos. - Eu diria para ficarmos com a parte comercial e acabar com a residencial.
  - Concordo. - Lexi colocou a mo na boca. - Ah, meu Deus.
  - O qu?
  Ela ficou de p, meio bamba.
  - Acho que vou vomitar.
  Ela voltou do banheiro alguns minutos depois com o rosto branco como uma vela.
  - Est bem?
  - Estou, sim. Acho que s um pouco exausta. Estressada. Sei l.
  August lembrou-se de sua conversa com Max Webster no dia em que as aes comearam a cair. Estou bem. Esses Blackwell no sabem bem o que  "estar bem". Ningum 
via Max desde que a empresa falira. Os boatos diziam que ele tinha tido um colapso nervoso. August Sandford acreditava nisso.
  - Voc deveria ir a um mdico - disse ele para Lexi.
  - Estou bem. - Ela pegou a prxima pasta cheia. - Romnia. Pegar ou largar?
  - Largar. Voc deveria ir a um mdico.
  Lexi virou os olhos.
  - Se eu continuar me sentindo na segunda, eu vou, OK?
  Lexi no tinha a menor inteno de ir ao mdico. Primeiro, porque no tinha tempo. Segundo, a cincia mdica ainda no tinha descoberto o tratamento para corao 
partido.
  Ser presidente da Kruger-Brent era tudo o que Lexi sempre quis. Arriscara tudo para acabar com Max, e conseguiu. Vencera. Mas sem Gabe para compartilhar, sua vitria 
parecia triste e vazia: um presente de aniversrio lindamente embrulhado sem nada dentro.
  Dormir,  disso que eu preciso. E de frias.
  Era o estresse. O estresse fazia pessoas passarem mal o tempo todo, no fazia? Se algum descobrisse que ela e Carl tinham manipulado deliberadamente o preo das 
aes da Kruger-Brent, os dois passariam uma dcada na cadeia.
   isso que est me dando nuseas. No o estpido Gabriel McGregor.
  
  George e Edward encontraram a me no jardim.
  - Mamae - disse George. - Papai est com dor de barriga.
  - Acho que ele precisa de um remdio rosa - acrescentou Edward.
  Annabel abaixou a tesoura. Jardinagem era a sua terapia, sua fuga. Desde o colapso da Kruger-Brent, ela se refugiava em suas roseiras com uma freqncia cada vez 
maior, incapaz de assistir Max se acabar por causa da culpa. Era a decepo de Eve que o assombrava mais. Torturado pela idei de que desapontara a me, Max ansiava 
pelo perdo dela. Mas  claro que a velha megera maluca no tinha ligado nem retornado nenhum dos telefonemas de Max.
  - O que vocs estavam fazendo no quarto do papai? J no disse para no entrarem l. Seu pai precisa descansar.
  - No entramos l - disse George, indignado.
  - Ele estava deitado no cho do corredor - explicou Edward. - Tivemos de passar por cima dele para pegar nossas botas. No foi, George?
  Annabel no estava escutando. Correndo pelo quintal da casa, com as mos e o rosto sujo de terra, ela encontrou Max encolhido em posio fetal no cho, gemendo.
  - Amor! Max. O que voc fez? Tomou alguma coisa? MAX!
  Ela o sacudiu com fora. Max murmurava coisas incoerentes em resposta. Annabel s conseguiu compreender algumas palavras. "Eve... Keith... ela me obrigou a fazer 
isso..." Freneticamente, Annabel procurou comprimidos nos bolsos de Max.
  - Por favor, meu amor, me diga o que voc tomou. - Mas no adiantou. Deixando-o no cho, apertando a barriga e gemendo no carpete, ela discou 911.

  - A boa notcia  que no h nada de errado fisicamente com ele, Sra. Webster.
  Annabel tentava se concentrar nas palavras do psiquiatra. Estava sentada em um consultrio no trreo de um sanatrio particular. Era uma sala tranqilizadora, 
pintada em um tom de azul-celeste, com uma grande janela com vista para os jardins. O psiquiatra, Dr. Granville, tinha aproximadamente a idade de Annabel, cabelos 
louros, e era bonito como um adolescente. Ele parecia ser gentil. No General Hospital, a equipe mdica estivera ocupada demais para tranqiliza-la. A ateno toda 
deles estava em Max. Compreensvel. Quando Annabel chegou com ele ao pronto-socorro, ele j tinha comeado com os espamos e a espumar pela boca como um cachorro 
raivoso. Ele precisou ser sedado antes de os mdicos poderem examin-los. Foi horrvel.
  - No houve nenhuma overdose. Nenhuma tentativa de se machucar. Isso tambm  bom.
  Certo. Tudo  bom.  tudo fabuloso.
  - Ento, o que tem de errado com ele? - Annabel contorcia as mos em desespero.
  - Tente imaginar o corpo dele como um circuito eltrico, do qual o crebro  o centro. O circuito do seu marido simplesmente superaqueceu. Todos os fusveis deram 
pane ao mesmo tempo.
  - Um colapso nervoso?
  Dr. Granville fez uma careta.
  - No gosto desse termo. Eu no descreveria os sintomas do seu marido como uma condio nervosa. Ele est em depresso profunda. Acredito que tenha vivido com 
uma esquizofrenia no tratada durante anos. Parece que existem lembranas reprimidas...
  Annabel interrompeu
  - O que podemos fazer?
  Esquizofrenia... depresso... eram apenas rtulos inteis. Queria saber que Max ia melhorar.
  Dr. Granville foi compreensivo.
  - Eu sei que  muito difcil. Voc quer respostas, e eu no as tenho. Ns vamos ter de submet-lo a um tratamento com remdios e terapia. Com a combinao certa 
de medicamentos, os sintomas podem ser efetivamente controlados.
  - Mas no curados?
  Dr. Granville fitou a mulher linda e exausta  sua frente e desejou, de todo corao, que tivesse a varinha de condo de que ela precisava.
  - Ningum pode ser curado de ser quem , Sra. Webster.

  Nas duas semanas seguintes, no houve nenhuma mudana no estado de Max.
  Annabel implorou Eve para ir visit-lo.
  - Ele sempre pergunta por voc. Pelo amor de Deus, Eve, ele  seu filho! Independentemente do que tenha feito ou deixado de fazer, independentemente do que aconteceu 
na Kruger-Brent, voc no pode perdo-lo?
  Mas o crebro da velha estava to estragado quanto o do filho. Max era seu marido, Keith. Max era o marido de sua irm, George Mellis. Mas a estuprara, a desfigurara, 
a roubara a Kruger-Brent dela.
  - No fale o nome dele comigo! - Eve gritou com Annabel pelo telefone. - Ele est morto, e espero que apodrea no inferno!

  Tirando o pijama, Max se sentia em paz. Iria ver sua me, finalmente. Tudo ficaria bem.
  Furou as mangas e as pernas da cala com uma mola solta da cama e comeou a rasg-las. Nunca deveria ter transado com Lexi. Foi quando o veneno entrou em seu sistema. 
Fora infiel  sua me. Foi por isso que tiraram a Kruger-Brent dele. No estava mais limpo.
  Calma e metodicamente, ele amarrou os pedaoes de pano, fazendo um n que seu pai lhe ensinara quando acamparam na frica do Sul quando era um menino.
  Venha aquio, Max. Deixe-me lhe mostrar.
  Precisava se lembrar de ensinar o n a Edward e George. Eles iam acampar no prximo vero. Ia ser uma delcia. Agora que no estava trabalhando, teria mais tempo 
para a famlia. Meus amados meninos.
  Na ponta dos ps, em cima da cama, Max jogou o pano sobre a viga do teto. O lao ajustouj perfeitamente em seu pescoo, acariciando a sua pele como os dedos de 
uma amante. Fechou os olhos e deixou sua mente voltar para o passado. Seu aniversrio de 8 anos. A arma.
  - O que ?
  - Abra e descubra
  O tom de voz de Eve era baixo e sensual.
  - Voc est velho demais para brinquedos. Keith no entende, mas eu entendo.
  Max sentiu seu perfume. Chanel.
  - Gostou?
  Sua cabea estava encostada nos seios macios dela, sentindo seu cheiro, adorando-a.
  Eu amei, mame. Eu amo voc.
   Com um sorriso de felicidade, Max se jogou nos braos da me.

  Captulo 27

  Lexi estava sentada sozinha na sala de espera do consultrio mdico, olhando impacientemente seu Blackberry. Quanto tempo mais a deixariam esperando? Ser que 
no sabiam que tinha uma empresa para dirigir?
  Era final de outubro, dez dias depois do chocante suicdio de Max Webster, e Nova York de repente mergulhara de cabea no inverno. Em outros anos, o humor de Lexi 
sempre melhorava quando o clima esfriava. Adorava o ar frio nas ruas da cidade, o cheiro das barracas dos vendedores de castanha na frente do seu prdio, o exuberante 
brilho da luz do sol do inverno, o cu muito azul. Despertava um entusiasmo infantil nela: a promessa de Natal, Papai Noel, embrulhos coloridos com fitas, fumaa 
da lareira, canela. Este ano, porm, o frio de Nova York parecia se infiltrar em seus ossos. Sentia-se esgotada. Fraca. A morte de Max no lhe causou nem satisfao 
nem tristeza. Estava entorpecida com um frio que vinha de dentro para fora, do corao at a ponta de seus dedos cobertos por luvas Gucci.
  - Srta. Templeton?
  A recepcionista era uma mulher negra e rechonchuda, vestida dos ps  cabea em laranja. At seus brincos de plstico barato da cor do Halloween. Ela deu um tapinha 
no ombro de Lexi.
  - Estamos chamando a senhorita. Dr. Neale vai receb-la agora.

  Dr. Perregrine Neale conhecia Lexi Templeton desde pequena. Um entusiasmado jogador de tnis com 60 e pouco anos, ele se orgulhava de seu corpo ainda enxuto. Com 
sua distinta cabeleira grisalha, voz grossa e feies masculinas e fortes, Perry Neale era particularmente popular com as pacientes de meia-idade; uma categoria 
a que Lexi pertencia agora, tecnicamente, embora, ao olhar para a pele perfeita e para o cabelo louro sem nenhum fio branco, fosse difcil de acreditar que estava 
com 40 anos.
  - Venha, Lexi. Sente-se.
  - Prefiro ficar de p, Perry, se voc no se incomode. Estou com um pouco de pressa. Se pude me dizer o resultado dos meus exames e me receitar alguma coisa, paro 
de o importunar.
  Perregrine Neale apontou para a poltrona Ralph Lauren no canto.
  - Por favor. No vai demorar. Voc parece cansada.
  Lexi se sentou.
  - Estou cansada.  por isso que estou aqui. Estou cansada de me sentir cansada.
  Perregrine riu.
  - Isso  comum. O primeiro trimestre costuma ser o mais cansativo.
  - Como?
  - Disse que  normal se sentir muito cansada nos primeiros meses de uma gravidez. Voc est grvida, Lexi.
  Agora foi a vez de Lexi cair na gargalhada.
  - Acho que no, Perry. Vocs devem ter confundido a minha amostra de sangue com a de outra pessoa. S para acabar com a dvida, no fao sexo h meses. Sem mencionar 
que tenho 40 anos e tomo plula desde a era dos dinossauros!
  - Seja como for, voc est grvida. Acredito que esteja com uns trs meses agora. Teremos de fazer uma ultrassonografia para ter certeza.
  A expresso de Perregrine Neale era sria. Lexi de repente ficou feliz por estar sentada. Gotas de suor frio comearam a escorrer por suas costas. Segurou na cadeira, 
lutando contra uma onda crescente de nusea.
  - No posso estar grvida.
  Dolorosamente, se lembrou da ltima vez em que ela e Gabe dormiram juntos. Aconteceu duas semanas antes de dar sua cartada final na Kruger-Brent. Quanto tempo 
fazia? Tinha chegado em casa tarde, estava tensa aps uma reunio secreta com Carl Kolepp. Quando Gabe tentou toc-la, Lexi o empurrou. Mas, pela primeira vez, ele 
forou um pouco a barra, acariciando-a e excitando-a de uma forma que s ele conseguia, levando-a ao orgasmo duas vezes antes do finalmente penetr-la, expulsando 
a tenso do corpo e da mente dela.
  Perregrine Neale ainda estava falando.
  - ...12 semanas ...translucncia nucal ...medida do pescoo do beb... - A voz dele parecia um eco, distante e irreal. - ...mes de primeira viagem mais velhas 
... risco elevado...
  - No.
  Lexi falou to baixinho que a princpio o mdico no a escutou.
  - O que voc disse?
  - Eu disse que NO! - Desta vez, o pnico em sua voz estava claro. - No posso estar grvida.
  - Lexi. Voc est grvida.
  - Quero dizer que eu no posso... no  posso ter um filho. No posso seguir com isso.
  Perregrine Neale fez uma pausa.
  - Voc quer um aborto?
  Lexi assentiu.
  - Posso providenciar, claro. Mas no tome nenhuma deciso precipitada. Est claro que esta gravidez foi inesperada. Talvez se voc se der um tempo para se acostumar 
com a idia...
  - No. - Lexi balanou a cabea com fervor. Sua cabea estava tomada por imagens de Gabe, seu rosto; seu corpo. Lutou para afast-las, fechando os olhos com fora. 
- No posso fazer isso, Perry. Tenho o meu trabalho. A Kruger-Brent. Estamos apenas comeando a reconstruo. A poca no podia ser pior.
  - Lexi, por favor no me interprete mal. Mas voc tem 40 anos. Pode no ter outra chance de engravidar, pelo menos no naturalmente. Sempre temos a opo de fertilizao 
in vitro, claro, mas, estaticamente, as chances no so altas.
  - No quero outra chance. - Lexi se levantou. Estava tremendo, mas seu tom de voz foi firme. - No quero filhos, Perry. Por favor, marque um aborto o mais rpido 
possvel.
  Ela saiu do escritrio, batendo a porta.

  Gabe McGregor estava sentado na varanda de seu novo apartamento na Cidade do Cabo, perdido em pensamentos. Talvez devesse ter esperado? Pesquisado mais antes de 
assinar o contrato de aluguel? Foi o primeiro lugar que o corretor lhe mostrara que atendia s suas exigncias: isolado, no muito grande, tima segurana, vista 
do mar. Gabe assinara o contrato um minuto depois de entrar. Mas agora se perguntava: o que estou fazendo aqui? Esta no  minha casa.
  O que ele esperava? Voltara para a frica do Sul porque, depois de Lexi, precisava sair de Nova York. E porque no tinha mais nenhum outro lugar para ir. A Esccia 
no era mais a sua casa. Londres era fria e cinza, no era a cidade ideal para ficar quando se queria fugir da depresso. A frica do Sul j fora a sua casa. Talvez 
pudesse ser de novo.
  Ou talvez no. A Cidade do Cabo estava to carregada de lembranas de Tara e de seus filhos, de Dia, da Fnix, da felicidade encontrada e perdida, que quando Gabe 
andava pelas ruas, at sentia o cheiro de tristeza no ar. Tivera a esperana de que este novo apartamento pudesse tir-lo da tristeza. Algo moderno e novo, sem nenhum 
toque feminino, no adiantou. Recomear no tinha nada a ver com geografia, ou utenslios domsticos cromados ou banheiros de mrmore preto. Tinha a ver com deixar 
seu corao seguir adiante. Tomando um gole de sua cerveja, olhando o pr do sol laranja, viu com uma clareza arrebatadora.
  No queria deixar seu corao seguir adiante.
  Quero Lexi de volta.
  Depois que ela mandou o cheque, Gabe pensou em procur-la. Chegou at a pegar o telefone uma duas vezes e discar os primeiros dgitos do nmero dela, mas desistiu, 
achando-se um tolo. No foi o dinheiro que nos destruiu. Foi a distncia, os segredos, as mentiras. Eu nunca "tive" a Lexi de verdade. A Kruger-Brent era a dona 
dela, e ainda .
  Gabe acompanhava as notcias sobre a ressurreio da Kruger-Brent com uma certa compulso agonizante. Cada artigo, cada reportagem na televiso era uma conexo 
com Lexi que lhe trazia prazer e dor. Nas entrevistas, ela parecia autoconfiante e equilibrada, uma mulher de negcios brilhante trilhando seu caminho de volta ao 
topo. No havia nenhum sinal de dor, nem de corao partido, por baixo da maquiagem perfeita de estdio. Quando Gabe leu as noticias sobre o suicdio de Max, teve 
expectativa (esperana?) de encontrar algumas rachaduras na fachada ivulneravel de Lexi. Mas at a reao dela a isso foi fria.
  - Meu corao sofre por sua esposa e filhos, claro. Mas, na Kruger-Brent, ot trabalho continua.
  Ningum que assistisse s suas entrevistas poderia dizer que ela um dia amara Max com todo seu corao. Eles tinham crescido juntos, dois lados da mesma pessoa, 
como Lexi costumava dizer.
  Estava esfriando, Gabe acabou sua cerveja e entrou em seu moderno e perfeito apartamento.
  Nunca se sentira to solitrio em toda a vida.

  Lexi acordou s 5 horas, suando.
  Os sonhos estavam piorando.
  Tinha 6 anos, caminhando pela rua em Dark Harbor com seu pai, empurrando um carrinho de boneca. Max, adulto e nu, corria at o carrinho e pegava a boneca. Mas 
no era uma boneca, era um beb. O beb deles. Envolvia o minsculo, frgil pescoo do beb com suas mos e comeava a estrangul-la.
  Lexi estava em trabalho de parto. Gabe estava empurrando-a em uma cadeira de rodas pelo hospital. Ele rodava a cadeira e dizia:
  - Sei que est mentindo para mim. Diga-me a verdade sobre a Kruger-Brent e eu posso salv-la.
  - Salvar-me do qu?
  Sangue comeava a jorrar entre as pernas de Lexi, rios e rios de sangue at que o cho do hospital se convertia em uma piscina de um lquido viscoso e vermelho. 
Ela estava se afogando, gritando para Gabe salv-la, mas ele no conseguia.
  - Eu amo voc. Mas no posso continuar.
   Fraca, Lexi saiu da cama se arrastando e foi para o chuveiro. Sua consulta era s de tarde. Como vou conseguir sobreviver s prximas dez horas? Passou um gel 
de banho por sua pele molhando, lavando-a no porque estava suja, mas porque era algo para fazer. Pegando seus seios nas mos, surpreendeu-se com o peso deles. O 
beb - o negcio - tinha o tamanho da cabea de uma agulha, mas os seios dela j estavam se preparando para alimentar cinco mil bebs. Perguntou-se quanto tempo 
levaria para voltarem ao normal depois. Dias? Semanas? Sua barriga, que costumava ser lisa, agora tinha uma curva suave que parecia mais da idade do que da gravidez. 
Este no era seu corpo. Era o corpo de uma estranha. Suave. Maternal. Coisas que Lexi no era. Que nunca poderia ser.
  Pensou em Gabe. Lgrimas comearam a brotar loucamente em seus olhos. Tentava no pensar no que tinha na barriga como um beb, muito menos um beb de Gabe. Mesmo 
assim, sabia que estava prestes a destruir a ltima coisa que tinham juntos...
  Lexi apoiou a cabea nas mos e soluou.
  Malditos hormnios idiotas.
  Lexi s queria que esse pesadelo acabasse.

  - Vejo que  a segunda consulta que marca conosco?
  Lexi fitou a recepcionista da clnica de aborto. Est perguntando ou afirmando?
  - Voc cancelou o primeiro procedimento cirrgico no dia... - ela desceu a tela do computador. - ...dez. Certo?
  - Sim.
  - E qual foi a razo para o cancelamento?
  Poxa, deixe-me pensar. Estou jogando fora a minha ltima chance de ser me por meios naturais? Estou matando o filho do homem, a melhor coisa que j me aconteceu, 
sem mencionar que  meu prprio filho? Estou com medo de sangrar at morrer na mesa de operaes como algum tipo de carneiro dado em sacrifcio, sendo castigada 
por todos os meus pecados que ningum sabe que cometi?
  - Tive uma reunio de negcios.
  A recepcionista levantou uma sobrancelha.
  - Uma reunio muito importante. No podia ser adiada.
  - Certo. Ento, tem certeza sobre o procedimento de hoje?
  - Absoluta. - Lexi assinou o formulrio de consentimento. - Quando posso ir para meu quarto?
  - Assim que estiver pronta, Srta. Templeton. Uma de nossas enfermeiras vai acompanh-la at a sua sute.
  A garota suspirou ao ver Lexi desaparecer pelas portas duplas. No importava se era uma adolescente em pnico ou a CEO de uma multinacional, e no importava a 
mscara de fora que usassem. O aborto sempre era triste. Parte do corao de Lexi Templeton se quebraria hoje e nunca mais se recuperaria.
  A recepcionista decidiu que na semana seguinte procuraria outro emprego.

  A voz do comandante soou pelos alto-falantes da cabine.
  - Agradeo a pacincia de todos. Pediram para que dssemos mais algumas voltas. Logo, estaremos pousando.
  Uma reclamao coletiva dos passageiros acordou Gabe. Olhou pela minscula janela de plstico e ciu Nova York abaixo. Pela centsima v, se perguntou por que diabos 
estava voltando para c.
  Voc sabe por que veio.
  Porque precisava.
  Seu corao nunca foi embora.
  
  - Estamos um pouco atrasados hoje. - A enfermeira abriu um sorriso compreensivo enquanto cuidava de algumas coisas no quarto de Lexi, fechando as cortinas e enchendo 
a jarra de gua. - Voc provavelmente vai descer para a sala de cirurgias por volta das 16 horas. Quer que eu traga alguma revista? Infelizmente, no posso oferecer 
nada para comer.
   Lexi forou um sorriso. Como se eu conseguisse comer! Talvez alguma coisa para ler ajudasse a distrair.
  - Vocs tem The Wall Street Journal de hoje?
  - Ah... nao. Acredito que nao. - A enfermeira parecia querer se desculpar. - Temos Vogue e In Style. Acho que talvez tenhamos a nova US Weekly. Quer ver uma dessas?
  - No, obrigada.
  Distrada, Lexi pegou o controle remoto e ligou a televiso na CNN. Quatro horas. Trs horas inteiras. Seria capaz de fazer um cheque de um milho de dlares para 
furar a fila e acabar logo com isso. De que adiantava ter dinheiro se no conseguia fazer o que queria?
  
  Gabe entrou em um txi. Era imundo e cheirava a taco.
  - Park Avenue, por favor. Prdio da Kruger-Brent.
  - No esto mais l. - O motorista se virou. Um mexicano que mais parecia uma balei enorme, com manchas enormes de suor embaixo do brao que pareciam dois pratos 
de jantar. Quando falou, atingiu Gabe com o bafo de taco.
  - Eles faliram, lembra? No assiste aos noticirios?
  - Certo, certo. Esqueci.
  Claro. Lexi deve ter mudado para uma nova sede. Mas onde? Gabe olhou no relgio. J eram 15 horas e ele estava exausto. Talvez no devesse ir ao escritrio de 
Lexi. Poderia ir para o hotel, dormir um pouco e visit-la no apartamento hoje  noite.
  - Quer saber? Mudei de idia. Por favor, me leve para o Plaza.
  - O senhor manda. Para o Plaza.

  Lexi sentiu a medicao pr-operatria entrar por suas veias;
  - Voc deve comear a se sentir um pouco fraca - disse a enfermeira. - Relaxe. Voltarei em meia hora para peg-la.
  Lexi jogou a cabea no travesseiro. Quando a enfermeira saiu, comeou a chorar.
  Desculpe, beb;

  Do lado de fora, as enfermeiras estavam conversando.
  - Mesmo sem maquiagem ela  bonita mesmo.
  - Eu sei. No d nem para dizer que j tem 40. Acho que ela colocou botox?
  - No mesmo. D para perceber.
  - . Mas com o dinheiro dela, poderia pagar, tipo o melhor. Invisvel.
  - O quanto ela  rica exatamente?
  - Ela comprou a Kruger-Brent  vista, ento acho que deve ser tipo Bill Gates. Sabe, se eu tivesse tanto dinheiro e a aparncia dela, acho que ia viver sorrindo. 
Ela parecia to triste.
  - Por favor, Pearl, d um tempo. Ela est aqui para fazer um aborto. Ela provavelmente no vai sair danando pelo corredor.
  - Verdade. Quem ser o pai?
  Discorreram a lista dos namorados de Lexi como se estivessem falando sobre um personagem de novela at que o mdico chegou e acabou com a fofoca.
  No importava quem era o pai. Em duas horas, no haveria pai algum

  Era uma mdica. Lexi imaginou se ela prpria j teria passado por um aborto. Como um mdico escolhe essa rea para trabalhar?
  - Assim que a anestesia for aplicada, quero que conte de vinte at um, OK?
  - OK.
  Uma picada.
  - Comece a contar.
  - Vinte, 19...
  Lexi pensou em sua me, dando-a  luz. Ela sabia que ia morrer? Que sacrificaria a prpria vida pela nova vida dentro dela?
  - ... 15, 14...
  O rosto de Max. Estava transando com ela, violenta e apaixonadamente. Ela estava gozando, gritando o nome dele.
  - ... 12, 11...
  A luz estava ficando cada vez mais fraca. Podia se sentir afundando cada vez mais na escurido.
  Gabe estava aqui. Estava falando com ela. Podia ver seu rosto, seus lbios se movendo, mas no conseguia escut-lo. Ele estava gesticulando muito, gritando. Alguma 
coisa estava errada.
  - Sinto muito - murmurou ela. - Sinto muito, Gabe.
  Ento, ele sumiu.
  
  Primeiro, ela achou que estava sonhando. S quando Gabe pegou a sua mo, ela percebeu que ele era real.
  Estava na cama de seu quarto, o mesmo quarto que ocupara antes da cirurgia. Gabe estava sentado  sua cabeceira.
  - O que houve? Acabou?
  Ele deu um beijo em sua testa.
  - Voc est falando da cirurgia? No. No deixei eles continuarem. Convenci a mdica de que voc ainda no estava certa.
  Lgrimas escorreram pelo rosto de Lexi.
  - Eu estava errado? Voc queria tanto assim se livrar do nosso beb? - Ele parecia aflito. -  o nosso beb, no ?
 Lexi assentiu, infeliz.
  - Como voc soube que eu estava aqui?
  Gabe contou a ela que saiu do avio vindo da Cidade do Cabo, desesperado para v-la.
  - Eu estava indo para o hotel, mas mudei de idia no ltimo minuto e fui at a sede da Templeton.
  - Kruger-Brent - disse Lexi, baixinho.
  - Eu sei. Tinha esperanas de encontr-la l, mas no tinha certeza. Ento, cruzei com August Sandford no elevador. Assim que ele me viu, a expresso dele mudou. 
Na mesma hora, eu percebi que alguma coisa estava errada.
  - August contou para voc?
  - No fique brava. Eu precisei arrancar dele. Vim para c o mais rpido que pude, mas me disseram que voc j estava na sala de cirurgia. Meu Deus. - Gabe balanou 
a cabea. - Se eu tivesse chegado trinta segundos depois. Por que no me contou que estava grvida?
  Lexi estendeu a mo para tocar o rosto dele.
  - Eu no queria mago-lo. J magoei o suficiente. Eu sabia que no poderia levar adiante.
  - Por que no? - A voz de Gabe saiu trmula. - De que voc tem medo, Lexi?
  Finalmente, colocou tudo para fora. Seu medo de dar  luz, sua certeza de que, mesmo se sobrevivesse, seria uma pssima me.
  - Eu no sou como voc - disse ela, soluando. - Sou diferente. Eu e Max ramos diferentes. Nascemos com essa... coisa. essa obsesso, acho que voc chamari assim. 
Max queria a Kruger-Brent tanto quanto eu. Eu o matei, Gabe. - Ela apoiou a cabea nas mos.Quando tirei a empresa dele, assinei sua sentena de morte.
  Todo o sofrimento que estava guardado foi colocado para fora como um demnio exorcizado. Lexi odiara Max por tanto tempo que estava convencida de que o amor tinha 
acabado. Mas no tinha. A morte de Max foi como se uma parte sua tivesse morrido. Agora, ela entendia isso.
  Gabe deixou que ela terminasse. Quando se acalmou, ele disse baixinho:
  - Voc no matou Max Webster. O homem estava doente. Ele se matou.
  - Mas, Gabe, voc no sabe. Voc no me conhece. Fiz coisas terrveis. Coisas imperdoveis.
  - Nada  imperdovel. - Gabe fez carinho em sua cabea. - Foi por isso que peguei aquele avio. Lexi, eu no ligo para o que voc fez. Eu amo voc. Amo voc do 
jeito que .
  - Mas, Gabe, voc no sabe. No sabe o que eu fiz.
  - No, e no ligo. Achei que quisesse a verdade, mas no quero. O passado,  passado e no podemos mud-lo. Estou interessado no futuro. - Ele esticou o brao 
e acariciou a barriga dela. - Nosso futuro. Tenha o beb, Lexi. Case comigo. Sei que a Kruger-Brent sempre vir em primeiro lugar. Mas aceito o segundo lugar se 
for esse o preo para ficar com voc.
  Ele abriu os braos. Lexi se jogou neles, agarrando-se a ele como  prpria vida. O amor que sentia por ele era to grande que at a assustava. Quanto ao beb...
  - Estou com medo, Gabe - disse ela, finalmente, se afastando. - Minha me morreu dando-me  luz. Minha av morreu dando-a  luz. No  nem de morte que tenho medo. 
 de morrer antes de ter a chance de tornar a Kruger-Brent grandiosa de novo.
  Gabe fitou-a com uma mistura de espanto e pena.
  Tragicamente ela est sendo sincera.
  - Voc no vai morrer, Lexi. Casa comigo.
  No posso. Nunca vai dar certo. Tem muitas coisas que voc no sabe sobre mim. Tantas coisas que voc nunca poder saber.
  - Sim.
  O rosto de Gabe se iluminou.
  - Srio? Vai se casar comigo?
  - Sim! - Lexi estava chorando e rindo, abraando-o e beijando-o em todos os lugares, incapaz de solt-lo. - Sim, eu vou me casar com voc. Eu o amo tanto, Gabe.
  Ela sabia que no merecia um final feliz. Mas queria tanto um.
  A Kruger-Brent. Gabe. Um beb.
  Finalmente, Lexi Templeton teria tudo.

  Eve sabia que o fim estava perto. Podia sentir a morte rondando-a, um cobertor sufocante que ela no conseguia afastar. O pnico subia por sua garganta como vmito.
  No! Ainda no! No est na minha hora. Por favor! Ainda no acabei!
  Ela era jovem e bonita, muito mais bonita do que Alex. Os homens brigavam pelo privilgio de ir para a cama com ela. Era uma deusa, rica, abenoada, inatingvel. 
Ento, vieram os fantasmas para estragar tudo.
  Kate Blackwell sua av. Voc  uma garota m, Eve. Alexandra vai herdar a Kruger-Brent. Voc no vai ficar com nada.
  Keith Webster.  s uma pequena cirurgia, para se livrar dessas ruguinhas em volta dos olhos. No precisa se preocupar, querida. Vou cuidar disso.
  Max, seu pequeno farsante, seu salvador. Estamos afundando, me! Algum est vendendo as nossas aes a descoberto. No h nada que eu possa fazer.
  Todos, todos eles. Ladres, mentirosos e tolos!
  Kate Blackwell estava pressionando o cobertor sobre o rosto de Eve. No conseguia respirar. Tomada pelo horror, Eve sentiu suas entranhas se abrindo. Sentiu o 
cheiro podre de sua prpria sujeira, sentiu a umidade pegajosa em suas pernas e costas.
  No! Agora no! No assim!
  Com a ltima fora que lhe restava, Eve empurrou sua av. Estendeu a mo at a gaveta da mesa de cabeceira, os dedos retorcidos procurando desesperadamente por 
papel e caneta. Comeou a escrever, rabiscos pouco legveis. Dobrando o papel, escreveu um nome atrs.
  Quase l...
  Keith Webster arrancou a caneta de sua mo. George Mellis a segurou. A ltima coisa que Eve viu foi Kate Blackwell se aproximando com o cobertor da morte nas mos.
  A velha maldita estava sorrindo.

  Captulo 28

  O casamento de Lexi Templeton e Gabriel McGregor era o evento social da dcada. Realizado em Cedar Hill House em Dark Harbor, teve como convidados reis e primeiros-ministros, 
magnatas bilionrios e astros de cinema. Mas a convidada mais ilustre no era nenhuma dessas personalidades famosas. Era uma beb recm-nascida: Maxine Alexandra 
a filha de Lexi j era a criana mais rica dos Estados Unidos. Uma fotografia dela, mesmo de baixa qualidade, renderia uma fortuna para o paparazo sortudo que a 
tirasse primeiro.
  Mas ningum conseguiria tirar uma foto dela no casamento. A segurana era to cerrada que nem uma mosca conseguiria entrar na propriedade sem permisso. Hoje, 
pelo menos, a pequena Maxine podia dormir sossegada, longe dos olhos curiosos do mundo.
  - Ela no  linda?
  Lexi se debruou sobre o bero da filha. O terror do nascimento de Maxine j era uma lembrana distante. Nada dera errado. Lexi se preocupara  toa.
  - Voc est linda. - Robbie Templeton beijou o rosto da irm. Como padrinho de Gabe, deveria estar tomando um drinque com o noivo antes da cerimnia. Mas no conseguia 
resistir a esses momentos finais com Lexi e sua sobrinha. A pequena Max j tinha o tio famoso na palma das mos.
  - Voc  um mentiroso. Ainda estou gorda. - Lexi bateu na barriga no existente por baixo do vestido de renda branca. - Voc acha que  ridculo eu usar branco 
na minha idade?
  - De forma algum - disse Robbie. -  a cor dos recomeos.
  Recomeos. Um novo comeo.
  Lexi ainda achava difcil aceitar sua nova felicidade. Sob a sua direo, a Kruger-Brent estava prosperando de novo. Eram menores do que na poca do auge de Kate 
Blackwell na dcada de 1980. Mas estavam voltando ao topo, e a escalada era excintante. A cada ms que passava, Lexi sentia menos medo de descobrirem o que ela e 
Carl tinham feito. A Comissao de Ttulos e Cmbio sequer olhou de relance nenhum dos dois. Ambos estavam limpos.
  Melhor ainda, tinha Gabe com quem compartilhava sua felicidade. Gabe e o milagre que era a sua filha. Era difcil dizer com quem Maxine parecia. Ainda to pequena, 
seus olhos ainda eram azuis, e seu cabelo era preto. Gabe dizia que se parecia com Lexi, mas s porque ela fechava os punhos e fazia biquinho, e gritava alto quando 
as coisas no eram do seu jeito.
  Paolo colocou o rosto enrugado e envelhecido pela porta.
  - Robbie, Gabe precisa de voc. Faltam cinco minutos para o show comear.
  Robbie olhou para Lexi.
  - Da prxima vez que nos falarmos, voc ser a Sra. Gabe McGregor.
  - Eu sei. - O sorriso dela podia iluminar todo o estado do Maine. - S espero no acordar antes de chegar a essa parte.

  Todo o jardim de Cedar Hill House, um enorme gramado que ia da casa at a gua, tinha sido coberto por um toldo de lona branca. Dentro, uma "nave" de trinta metros 
de comprimento, contornada por milhares de rosas brancas, levava a um altar sobre uma plataforma.
  Os olhos de Peter Templeton estavam cheios d'gua ao conduzir a filha at o noivo. Frgil e velho, uma sombra do homem com corpo de atleta de sua juventude, s 
vezes Peter ficava to fraco que se apoiava em Lexi para no cair. Mas sua alegria era inconfundvel. Depois de tanto sofrimento, Deus, finalmente, concedeu um final 
feliz para sua amada filha.
  - Voc aceita essa mulher...?
  - Aceito.
  - Voc aceita esse homem... na sade e na doena, at que a morte os separe?
  - Aceito! Aceito!
  Lexi sentiu seus ombros ficarem mais leves e seu peito relaxar. Olhou com amor nos olhos de Gabe e viu seu amor refletido. Nunca mais estarei sozinha.

  Nos portes de Cedar Hill House, um homem mostrou seu carto de identificao.
  - Entrega especial para a Srta. Templeton.
  - OK. Pode deixar aqui.
  - No posso. Meu patro me deu ordens estritas de entregar  Srta. Templeton pessoalmente. Aqui dentro tem um documento muito importante.
  O segurana riu.
  - No me importo se  a tbua original com os dez mandamentos. Voc no pode subir at l.
  O homem hesitou.
  - Se eu deixar com voc, me garante que a Srta. Templeton vai receber? Hoje?
  - Claro, camarada. Pode deixar comigo.
  Esperou at que o homem fosse embora, depois olhou a encomenda. Era um envelope simples, marrou, de uma firma de advocacia. Maante. Quem ia querer olhar para 
esta porcaria no dia do casamento?
  Atrs do segurana, havia uma pilha de presentes fechados e cartes, a maioria lixo, deixados por pessoas annimas e bem-intencionadas. Sem pensar, ele jogou o 
envelope na pilha.

  Gabe sentiu como se estivesse sendo sugado por um ciclone. Todos  sua volta queriam aperta a sua mo e dar um tapinha nas suas costas.
  - Linda cerimnia.
  - Lexi est maravilhosa.
  - Parabns, cara. Onde ser a lua de mel?
  O vice-presidente dos Estados Unidos, sem a menor dvida um dos homens mais chatos do mundo, segurou Gabe por dez minutos depois dos discursos. Mesmo depois de 
a maioria dos convidados comear a ir embora, Gabe ainda estava apertando a mo de uma personalidade atrs da outra, at que seu pulso doesse. Localizando Robbie 
na multido, agarrou seu brao como a um galho a um tsunami.
  - Meu Deus. Isso  uma loucura. No consegui nem respirar nas ltimas trs horas.
  Robbie sorriu.
  -  o seu casamento. Voc  famoso.
  -  assim com voc, depois dos concertos? Sendo cercado por fs?
  - Quem dera. Voc viu Lexi?
  Gabe suspirou.
  - Eu ia lhe fazer a mesma pergunta. Estamos casados h poucas horas e ela j sumiu.
  - Procure no escritrio - disse Robbie. - Ela provavelmente est no computador, verificando o preo das aes da Kruger-Brent.
  Era uma brincadeira. Mas Gabe disse:
  - Sabe de uma coisa? No  uma idia to ruim.

  O superintendente John Carey da Polcia Estadual do Maine balanou a cabea, sem acreditar.
  - Hoje  primeiro de abril e ningum me contou, certo?
  Os detetives Michael Shaw e Antonio Sanchez balanaram a cabea.
  - Vocs esto falando srio?
  - Estamos sim, senhor - disse Antonio Sanchez. - Ns s recebemos essa informao ontem  noite. Pelo jeito, confere.
  - Pelo jeito? - A presso do superintendente Carey estava subindo - Vocs tm idia do quanto essa mulher  poderosa? E vocs me vm aqui com essa histria de 
pelo jeito?
  Os detetives ficaram em silncio. Ambos estavam contentes por no serem responsveis pela deciso. Aps um tempo, o superintendente falou.
  - Tragam o outro cara, Kolepp. Vamos falar com ele primeiro.
  Os detetives Shaw e Sanchez se olharam, nervosos.
  - O qu? - indagou o superintendente Carey.
  - Ns tentamos, senhor. Mas ele foi embora.
  - Como assim, "ele foi embora"?
  - Para a Amrica do Sul.  o que achamos. Limpou todas as contas bancrias dele.
  - Merda. - John Carey era policial havia mais de trinta anos. Esse tipo de coisa - fraudes bilionrias, informaes vindas do tmulo - no eram comuns de acontecer 
no Maine. O contedo da carta escrita por Eve Blackwell para a polcia em seu leito de morte era explosivo. Explosivo e suficiente para detonar minha carreira se 
eu fizer besteira.
  - Devemos trazer a Srta. Templeton, senhor?
  O Superintendente Carey pensou por um momento.
  - No, no faam nada. No at temos certeza. No podemos nos esquecer de que Eve Blackwell era louca de pedra. Essa histria toda pode ser uma farsa.
  Precisava de tempo para pensar. Talvez esse drama fosse uma bno difarada? Talvez, aps trs dcadas ingratas na polcia, os deuses estivessem oferecendo a 
ele, John Careya, uma ltima chance de alcanar glria e fortuna?
  Se fosse uma farsa, e ele prendesse Lexi Templeton no dia do casamento dela, ele seria motivo de piada.
  Se no fosse e ele no fizesse...
  Pelo menos, ele tinha um consolo. Carl Kolepp podia conseguir desaparecer. Mas Lexi Templeton tinha um dos rostos mais reconhecidos do planeta.
  Ela no vai a lugar nenhum.
  
  Lexi estava em seu quarto no andar superior em Cedar Hill House, pensando. Todo o barulho e gritaria l embaixo eram demais. Precisou fugir.
  Eu consegui! Eu me casei com Gabe. Tenho tudo que sempre sonhei.
  Lembrou-se dos veres da sua infncia que passara nesta casa. De como o sofrimento do pai pela morte da me cobrira tudo com um vu de tristeza, fixando sobre 
a propriedade em Dark Harbor um filtro de spia de perda. Tirando Peter, que ainda morava aqui se arrastando pelos corredores vazios como um fantasma, todos da velha 
gerao estavam mortos: minha me, tio Keith, tia Eve. At Max. Coitado do Max.
  Quando meu pai morrer, vou remodelar essa casa toda. Torn-la um lar feliz para Maxine. Ela vai ter a infncia que eu no tive.
  - Desculpe, madame. Achei que no tivesse ningum aqui. - Conchita, uma das empregadas, entrou equilibrando uma enorme pilha de presentes e cartes de casamento. 
- No cabia mais nada na guarita. - Sem a menor cerimnia, ela jogou a pilha sobre a cama.
  - Todos esses presentes foram deixandos no porto?
  - Foram sim, madame. Parece que muita gente quer que voc seja feliz.
  Lexi se sentou e comeou a desembrulhar os presentes. Quando se deu conta, j tinham se passado horasx. A festa l embaixo j estava quase acabando. Alguns dos 
presentes eram caros: vasos de cristal Lalique, abajures Tiffany, primeiras edies de Hemimgway e Mark Twain. Outros eram simples, mas dados de corao. Lexi ficou 
especialmente comovida com uma caneca de cermica que uma criana local fizera para ela, com a data do casamento e as iniciais dela e de Gabe entrelaadas. Que amor. 
Quando chegou ao envelope marrom, estava comeando a ficar cansada. Este ser o ltimo, abrirei o resto depois.
  Ao pegar o envelope, reconheceu a caligrafia de sua tia Eve na mesma hora. Trinta segundos depois, Lexi j sabia que no abriria seus outros presentes de casamento. 
Seu mundo mudara para sempre.
  Pense. Voc no tem muito tempo.
  O que Kate Blackwell teria feito?

  - Senhor, d uma olhada nisso.
  O detetive Michael Shaw estava apontando para nmeros na tela de seu computador. Nmeros altos.
  - So transferncias feitas da Cedar International para a conta comercial de Carl Kolepp 48 horas antes de a Kruger-Brent falir.
  - E da?
  - E da que Kolepp usou esse dinheiro - o detetive Shaw abriu outra tela - para pegar aes da Kruger-Brent emprestadas de vrios bancos. As quais, depois, ele 
vendeu a descoberto, fazendo o preo da ao cair. Mas no foi s isso. Na segunda-feira, ele pegou mais um lote de aes emprestado. Desses caras. DH Holdings.
  - Que diabos  DH Holdings? - O superintendente Carey franziu a testa.
  - No  nada.  uma empresa de fachada. O presidente  uma tal de Jennifer Wilson. Que, por acaso, tambm  fundadora, dona e acionista da... - Outra tela.
  - Nem precisa dizer. Da Cedar Internationa?
  O detetive assentiu.
  - Jennifer Wilson  Lexi Templeton, chefe. Ela usa esse nome para fazer negcios h 14 anos. At o registrou na Comisso de Ttulos e Cmbio.
  Ento a velha Eve Blackwell estava certa. Como diabos ela soube?
  - Devemos traz-la agora, senhor?
  O superintendente Carey tomou uma deciso.
  - Devem. Mas precisamos fazer isso com discrio.  o dia do casamento dela. Metade do Congresso est naquela casa esta tarde. No quero armar um circo. Est claro?
  - Est sim, senhor. Claro como um cristal.

  Captulo 29

  Lexi observou os dois policiais  paisana se aproximarem da casa.
  O plano dela era audacioso. Calculou suas chances de sucesso em vinte por cento. Probabilidade maior do que Jamie McGregor tinha quando sobreviveu quelas minas 
terrestres no deserto da Nambia.
  Forando-se a ficar calma, Lexi dobrou a carta de Eve e colocou-a no suti. Ento, fazendo enorme esforo para acalmar sua respirao, desceu. Por algum milagre, 
a entrada estava vazia. Podia escutar as vozes de Gabe e Robbie no escritrio de seu pai. Teria de agir rpido.
  - Entrem. Eu estava mesmo os esperando.
  Ela abriu a porta da frente da casa com um sorriso. Havia dois policiais na varanda. Um era jovem, no mais do que 30 anos, bonito e hispnico. O outro eera mais 
velho, da idade de Lexi, plido e careca. Quem ser o chefe?
  Ambos pareciam constrangidos. Serem recebidos por Lexi Templeton em pessoa, ainda usando seu vestido de noiva, parecia t-los deixado desconcertados. Pessoas como 
ela no tinham mordomos para atender  porta? E como diabos ela poderia estar esperando por eles?
  - Sigam-me - disse Lexi. - Vamos a algum lugar onde possamos conversar em particular.
  O detetive Shaw olhou para o detetive Sanchez. Normalmente, eles assumiam o controle na hora de prender algum. Mas o superintendente Carey deixara bem claro que 
queria que esse assunto fosse tratado com "muito cuidado". Decidiram deixar rolar.
  - Claro, madame. Damas primeiro.
  Lexi levou-os para a biblioteca. No segundo andar da casa, ela havia sido o orgulho e a alegria de Kate Blackwell. O cmodo suntuoso e acolhedor com poltrona de 
brocado cor de vinho e paredes revestidas de madeira, que davam um toque aconchegante, transpirava uma riqueza discreta e educada. Classe. Lexi fez um gesto para 
que os dois policiais se sentassem. Trancou a porta.
  - Assim no seremos incomodados.
  O detetive Shaw comeou.
  - Sentimos muito por ter de fazer isso no dia do seu casamento, madame.
  Lexi balanou a cabea.
  - Por favor, no precisam se desculpar. Esto fazendo seu trabalho. Suponho que tenham recebido uma cpia da carta da minha tia, Eve Blackwell?
  Os detetives trocaram olhares de novo.
  -  por isso que esto aqui, no ?
  - Infelizmente, no temos liberdade para discutir isso, madame - disse o detetive Sanchez.
  - Vocs sabem que ela estava louca? No final, j nem sabia o prprio nome, coitadinha.
  - Acho que seria melhor se tivssemos esta conversa na delegacia.
  O rosto de Lexi desabou.
  - Entendo. - Ela estava to linda, parecendo to vulnervel em seu vestido de noiva, que o detetive Sanchez se sentiu pssimo. Queria fazer amor com ela, no prend-la.
  - Eu estou presa?
  - Bem... preferimos no formalizar at que estejamos na delegacia - disse ele, sendo gentil. - A senhora tem o direito a um advogado. Acho que quanto menos falar 
agora, melhor.
  Lexi assentiu com calma.
  - Compreendo. Podem me dar alguns minutos para trocar de roupa e falar com meu marido?
  O detetive Shaw pareceu desconfortvel.
  - No sei, madame.
  - Por favor. Gostaria de explicar a ele esse mal-entendido antes de sair.
  O detetive Shaw pensou: mal-entendido, at parece.
  O detetive Sanchez disse:
  - Claro. No tenha pressa.
  Quando Lexi saiu, o detetive Shaw pediu explicaes para seu parceiro.
  - Que diabos foi isso? Estamos aqui para prend-la por fraude, no para convid-la para sair.
  - Por favor, cara.  o dia do casamento dela. No tem sentimentos?
  - Ela  uma criminosa, Antonio.
  O detetive Sanchez deu de ombros.
  - Ainda assim,  o dia do casamento dela.

  Gabe encontrou Lexi sentada no topo das escadas.
  - A est voc.  Onde estava? Estou procurando-a h horas?
  - Desculpe, amor. - Ela deu um beijo nele, saboreando a sensao dos lbios dele nos seus. No posso perd-lo. No posso.
  - Voc sabia que a polcia est aqui? A segurana acabou de avisar Robbie. Disseram que tm um assunto urgente para tratar com voc.
  - Eu sei. eu abri a porta para eles. Vieram me prender.
  Gabe arregalou os olhos.
  - Prender voc? Por qu?
  Lexi pegou a mo dele e levou-o para o quarto, trancando a porta. No tinha como escapar. Teria de contar a verdade para ele. Sem ajuda de Gabe, e de Robbie, seu 
plano no daria certo.
  - Voc se lembra quando me pediu em casamento? Na clnica de aborto?
  Gabe estremeceu. Ainda tinha pesadelos com as lembranas daquele dia - de quanto estiveram perto de perder a pequena Max.
  - Claro que sim.
  - Voc se lembra do que disse para mim?
  - Alguma coisa do tipo "quer casar comigo"? Acho que sim. Por qu?
  - No. - Lexi o olhou, nervosa. - Voc se lembra das suas palavras exatas?
  - No das palavras exatas. Mas por que isso  to...?
  - Voc disse "nada  imperdovel." - Lexi segurou a mo dele. - Voc disse: "eu no ligo para o que voc fez. Eu amo voc. Amo voc do jeito que ."
  Gabe lembrava. Lembrava-se de seu desespero naquele dia. Teria feito qualquer coisa para t-la de volta.
  - Voc quis dizer isso mesmo?
  Ele pensou por um momento.
  - Quis, sim. Eu fui sincero. Qualquer que seja o problema que esteja enfrentando, Lexi, pode me contar. Enfretaremos juntos.
  Colocando a mo dentro do vestido, Lexi pegou a carta de Eve.
  - Leia isto.

  Captulo 30

  Gabe leu a carta em silncio. Depois, leu de novo. Quando levantou os olhos, Lexi j tinha trocado o vestido de noiva por cala jeans e uma suter e estava arrumando 
uma pequena mala para uma noite.
  Gabe tinha um milho de perguntas: como, por qu, quando? Mas no havia tempo para nenhuma delas. Lexi, como sempre, estava sob controle.
  - Dois detetives esto esperando na biblioteca. Quando eu chegar  delegacia, eles vo me prender. No temos muito tempo.
  - Tempo para qu? - O pobre Gabe no estava conseguindo acompanhar. Poucas horas atrs, era o homem mais feliz do mundo. Agora era um sonmbulo vagando em um pesadelo.
  Colocando o passaporte na mala, Lexi fechou-a e entregou para ele.
  - Tempo para fugir, claro. Agora, escute com ateno. Este  o plano.

  Todos os outros convidados do casamento j tinham ido embora, menos August Sandford, que ainda estava na cozinha. Envolvido em um debate com Paolo Cozmici sobre 
uma garrafa de Ychem que era boa demais para no ser saboreada com calma, perdera a noo do tempo.
  - Meu Deus! - Ele olhou para o relgio. - Preciso ir. Minha esposa vai achar que eu estava de gracinha com alguma madrinha. - Oscilando feliz, ele seguiu para 
o jardim um pouco sem equilbrio. Lexi, cercada por dois policiais, estava entrando no banco de trs de um carro de polcia. A poucos metros, Gabe estava parado 
assistindo, com o rosto plido.
  August esfregou os olhos. Devia ter bebido mais do que achou.
  - Gabe? Que diabos est acontecendo?
  - Eles esto prendendo Lexi. - A voz de Gabe era arrastada. Era claro que ainda estava em estado de choque. - Os advogados de Eve Blackwell a esto acusando de 
fraude. Alguma coisa a ver com vender aes da Kruger-Brent a descoberto. Um monte de bobagem.
  - Claro que  bobagem. - August passou o brao em volta dos ombros de Gabe de forma tranqilizadora. - Deus. Que merda. Tem alguma coisa que eu possa fazer?
  - No. S mantenha segredo. Em uma hora mais ou menos, o advogado de Lexi j vai ter resolvido tudo. - Gabe parecia perplexo. - Ns devamos estar em lua de mel.
  - Logo estaro - disse August. - Srio, no se preocupe.  bvio que isso  um engano bizarro.
  Sozinho em seu carro dois minutos depois, sbrio como um juiz, August fez uma ligao urgente para seu corretor.
  - Bill? Acho melhor vender as minhas aes da Kruger-Brent. Isso mesmo. Todas. Assim que os mercados abrirem na segunda-feira de manh. Quero que liquide com tudo.
  August Sandford no fazia a menor idia do tipo de problema em que Lexi tinha se metido dessa vez. E nem queria saber. Ela trouxera a Kruger-Brent de volta dos 
mortos uma vez. Sempre seria grato a ela por isso. Mas mais um escndalo e estariam acabados.
  Nem Lzaro ressuscitou duas vezes.

  Captulo 31

  Greta, a bab de Maxine McGregor, no viu sua patroa sendo presa. Uma sueca de 30 anos com cabelo louro e quadril largo, Greta Sorensen era bab profissional havia 
nove anos. Tempo suficiente para saber que empregos como este, trabalhar para pessoas ricas e famosas como Lexi Templeton, podia parecer glamorosos; mas, na verdade, 
eram trabalhos difceis. Com tantas pessoas na casa hoje, Greta levou horas para conseguir colocar a pequena Max para dormir. Agora, com seu fardo dormindo no bero, 
a bab estava deitada no sof da sute da beb, roncando alto em frente  TV que exibia Quem quer ser um milionrio?
  Gabe entrou e sacudiu-a pelo ombro.
  - Desculpe, senhor. - Greta deu um pulo. - Eu estava apenas descansando meus olhos. Max est dormindo no quarto dela. Eu acordaria se ela se mexesse.
  - Tudo bem, Greta.
  - Achei que o senhor e a Sra. McGregor j tivessem sado para a lua de mel. Queria se despedir da beb?
  - Na verdade, houve uma mudana nos planos. A Sra. McGregor teve uns... problemas. Ela ir nos encontrar em um ou dois dias.
  A bab parecia confusa.
  - Como assim, nos encontrar?
  - Isso mesmo. Decidimos levar Maxine na lua de mel conosco. Lexi no conseguiu suportar a idia de deix-la, ento vocs vo viajar comigo esta noite. Em quanto 
tempo voc consegue arrumar tudo?
  Greta cerrou os dentes e desligou a televiso.
  - Preciso de uma hora para arrumar todas as coisas da beb, senhor. - Por que as pessoas ricas sempre mudam de idia na ltima hora e esperavam que todo mundo 
estivesse pronto para acompanhar? Viajar com um beb era como uma operao militar. No era possvel simplesmente levantar e ir.
  - Voc tem vinte minutos. - disse Gabe. - Pea para uma das empregadas para vir ajud-la, se precisar. Tem um barco esperando no cais para nos levar para o continente. 
De l,  rpido at o aeroporto.
  - Posso perguntar para onde vamos, senhor?
  - Turcas e Caicos.
  - Ah.
  - No fique preocupada. - disse Gabe. - Vai adorar.

  O superintendente John Carey sentiu o suor escorrendo na sua nuca. Assumira um grande risco ao prender Lexi Templeton aqui em Dark Harbor e traz-la para a delegacia 
local para interrogatrio. Esse caso era enorme, maior fraude desde Bernie Madoff. Quando a notcia se espalhasse, todo mundo ia querer um pedao: O FBI, o departamento 
de frandes, a Interpol. Mas John Carey decidira deixar todos esperando.
  Por que eu deveria permitir que algum figuro do FBI assumisse o caso e roubasse toda a glria bem debaixo do meu nariz? Fizemos uma prisos sem maiores problemas. 
Agora s preciso que ela confesse sem maiores problemas.
  - Ento, Srta. Templeton. Podemos ir direto ao assunto? Levar a Kruger-Brent Limited  falncia foi sua idia? Ou do Sr. Kolepp?
  Mark Hambly, o advogado com cara de cachorro de Lexi, sussurrou em seu ouvido:
  - Voc no precisa responder a essa pergunta.
  Lexi conhecia Mark havia anos. Um homem baixo com ombros largos, com um pescoo grosso e braos curtos e musculosos, Mark Hambly parecia mais um lutador de luta 
livre do que um advogado. O que era bem apropriado, j que vrios promotores deixaram o tribunal em que estavam enfretando Mark Hambly com a sensao de que tinham 
lutado dez assaltos com o Godzilla. Outros advogados de defesa contavam com a sutileza, seduzindo jris, mostrando nuances e tons de cinza nas provas. Mas no Mark 
Hambly. Ele atropelava os jurados como um caminho de lixo. Essa era uma das coisas que Lexi amava nele.
  Graas a Deus, eu o convidei para o casamento, pensou Lexi. Se Mark estivesse em Nova York e eu contratar um advogado local... Estremeceu s de pensar.
  O superintendente Carey pressionou.
  - A senhora sabia das intenes do Sr. Kolepp de fugir para a Amrica do Sul?
  Mark Hambly balanou a cabea para Lexi. No responda.
  - Quando foi a ltima vez que falou com o Sr. Kolepp?
  Mais uma vez, o advogado balanou a cabea.
  O superintendente Carey perdeu a pacincia. Com quem esse advogado elegante de Nova York acha que est lidando?
  - Escute aqui, seu metido a besta. Estou perguntando  senhora, no a voc. Ela no est se ajudando em nada ao obstruir a lei, sabe? Voc acha que o tribunal 
vai gostar dessas fitas? Acha?
  Lexi falou.
  - Tudo bem, Mark. Fico feliz em responder s perguntas do superintendente. No tenho nada a esconder. Pode ir para casa agora.
  O queixo de Mark Hambly praticamente caiu sobre a mesa de frmica. Ela era espertinha. No podia estar falando srio sobre conversar com esse babaca sem a presena 
de um advogado. Podia?
  - Lexi, confie em mim, no  uma boa idia. No est pensando com clareza.
  - De verdade, Mark. Estou bem.
  Um sorriso de triunfo apareceu no rosto do superintendente Carey.
  - Voc escutou o que ela disse, Mark. V para casa.
  - Ser que no tem uma sala mais confortvel em que possamos ficar, superintendente? - Lexi abriu seu sorriso mais lindo para o superintendente John Carey, o mesmo 
que derretera o corao do detetive Sanchez mais cedo. - A minha impresso  que isso vai demorar um pouco. Essas cadeiras so muito duras.
  Mark Hambly implorou.
  - Lexi, por favor, isso  loucura. No fale com esse idiota sozinha.
  "Esse idiota"? John Carey precisou se conter para no agarrar Mark Hambly pelo pescoo e estrangul-lo. - Est surdo, camarada? Ela pediu para voc sair.
  Mark Hambly lanou um olhar suplicante para sua cliente, mas no adiantou. Pegou a pasta e saiu sem mais nenhuma palavra.
  O superintendente Carey concentrou-se em Lexi.
  Estou comeando a gostar dessa mulher.
  - Vamos para a sala trs, Srta. Templeton. L tem um sof. Posso pedir que tragam alguma coisa para a senhora comer, se quiser.
  - Seria muita gentileza.  Obrigada.
  O prazer  todo meu. Se falar comigo, ter o que quiser.

Greta Sorensen parecia preocupada. Estava na limusine com Gabe, seguindo para o aeroporto.
  - No sei, Sr. McGregor. Eu poderia me meter em encrenca.
  - No se confirmar a histria. A companhia area j foi informada.
  Greta franziu a testa.
  - Ainda no tenho certeza.
  Gabe pegou o talo de cheques.
  - Cinquenta mil dlares a ajudariam a se resolver?
  Greta olhou para o cheque. Depois, para Gabe. Finalmente, olhou para Maxine, sonhando feliz em sua cadeirinha, sem fazer a menor idia do jogo de apostas altas 
no qual estava prestes a tornar um peo voluntrio. Greta estendeu a mo.
  - Sabe, Sr. McGregor? Acredito que ajudaria sim.
  Gabe sorriu e entregou o cheque para ela.
  Sempre gostara das suecas.

  A nova sala de interrogatrio tinha as paredes pintadas de amarelo brilhante, com um tapete rasgado, quadros na parede e dois sofs de imitao carmua. Algum 
trouxe um sanduche e uma xcara de caf para Lexi, que pensou: esta deve ser a sala do "policial bonzinho". Perfeito. O relgio na parede marcava 20h15.
  Tinha trinta minutos.
  - Fale sobre Carl Kolepp.
  Lexi falou. Era importante que parecesse relaxada na fita. Mas, ao mesmo tempo, precisava medir cada palavra. No posso me incriminar. Preciso pisar com cuidado. 
Contou a Carey sobre a sua primeira reunio com Carl. O respeito que tinha por ele como um homem de negcios. Falou sobre a Kruger-Brent.
  -  importante que o senhor compreenda um pouco da histria da empresa, superintendente. O que aconteceu com preo das nossas aes no foi um evento undimensional. 
No foi apenas um acontecimento, mas uma complexa tela deles.
  John Carey assentiu.
  - Continue.
  Vinte minutos... Faa com que ele fale.
  Doze minutos.   
  John Carey no entendia metade do que Lexi estava falando. ndices, pedidos de cobertura, tudo isso era grego para ele. Mas no importava. O importante  que ela 
estava falando. E estava sendo gravado.
  Hava. Seria um bom lugar para se aposentar. Talvez um tempo em Kanapaaali Beach?
  Lexi olhou para o relgio. Sete minutos. Franzindo a testa, ela colocou a mo sobre a barriga.
  - Est tudo bem?
  - Est. Eu. - Lexi colocou a mo na barriga de novo. - O senhor se importaria de parar a fita por um momento superintendente?
  Carey se levantou e desligou o gravador. Era irritante ter de parar quando estavam indo to bem, mas no queria contrariar Lexi, no quando ela estava colaborando 
tanto.
  - Tem certeza de que est bem, Srta. Templeton?
  - Estou bem. Obrigada. Lexi sorriu corajosamente. - No queria que estivesse na fita. Mas acabei de descobrir que estou grvida de novo. Os enjos... o senhor 
sabe.
  - Ah claro. - Carey pareceu constrangido. No era bom com problemas femininos. - Sinto muito. Eu no sabia. Posso... tem alguma coisa que eu possa fazer?
  - Vou ficar bem. S preciso de um pouco de ar fresco.
  - Claro. Quer ir ao toalete primeiro?
  Lexi assentiu, agradecida.
  - Obrigada.
  - Venha comigo.
  Carey acompanhou-a pelo corredor at o banheiro. Normalmente, as suspeitas era escoltadas por uma oficial, mas no achava necessrio nesse caso. Esta  Lexi Templeton. 
No  provvel que tente fugir pela janela do banheiro como um criminoso.
  Como previsto, Lexi saiu do banheiro cinco minutos depois, novinha em folha. Parecia muito plida.
  - Sei que o senhor quer continuar o interrogatrio, superintendente. Mas ser que eu poderia ir l fora um pouco? No estou me sentindo muito bem.
  - Claro. Fique  vontade.
  Ele a acompanhou at um pequeno ptio nos fundos da delegacia. Havia uma mesa de metal e duas cadeiras, ambas sujas com guimbas de cigarro em cima. Um nico vaso 
de planta em um canto, com algo muito, muito morto.
  O superintendente Carey estava tagarelando.
  - No  o mais bonito dos ptios, infelizmente. Ningum do meu pessoal tem muito jeito com jardinagem... se  que me entende... Bom, estarei na sala trs quando 
estiver pronta.
  - Obrigada. No vou demorar.
  Lexi esperou ele fechar a porta. Pegando uma das cadeiras, arrastou at o fundo do ptio.  primeira vista, o muro parecia relativamente baixo. Mas quando Lexi 
subiu na cadeira, viu que faltavam uns noventa centmetros entre seus dedos esticados e a liberdade. Teria de pular.
  Dobrando os joelhos, os braos esticados para cima, ela pulou o mai alto que pde. A cadeira escorregou, no estando mais embaixo dela, e caiu no concreto, fazendo 
um barulho alto. Em pnico, Lexi olhou para a porta da delegacia.
  No abra. Por favor, no abra.
  Segundos agonizantes se passaram. Nada aconteceu.
  Segurando-se ao topo do muro com os dedos, as mos de Lexi comearam a suar. Estou escorregando. Os ps dela balanavam no ar, procurando desesperadamente algum 
apoio, um tijolo sobressalente, uma rachadura, qualquer coisa. No adianou. O muro era como gelo. Estava escorregando.
  Ah, meu Deus! Vou cair.
  A mo quente de um homem segurou a sua. Depois outra. Os dedos agarraram os pulsos de Lexi. Algum a estava puxando, com tanta fora que parecia que os ombros 
de Lexi iam se deslocar. Segundo depois, estava passando por cima do muro.
  Uma lata de lixo aliviou sua queda, mas, ainda assim, Lexi caiu com fora, machucando o quadril no cho duro do beco. Ela gritou de dor.
  - Quieta.
  Algum puxou-a como se fosse uma boneca de pano. Jogando-a no banco de trs de um carro, ele acelerou o mais rpido que pde. Lexi ficou deitada no cho do carro, 
o corao acelerado. Lembranas do seqestro da sua infncia preencheram sua mente. S que, desta vez, sabia aonde estava indo.
  Dez minutos e muitas curvas fechadas depois, o carro comeou a diminuiur a velocidade. Lexi sentiu os solavancos quando saram da estrada. Finalmente, desligaram 
o carro.
  - Voc est bem? - A voz de Robbie estava trmula.
  - Estou bem, obrigada. No sabia se voc conseguiria.
  Aliviada, Lexi caiu na gargalhada.
  - Eu no comemoraria ainda se fosse voc - disse Robbie. - Essa foi a parte fcil. Agora precisamos tir-la da ilha.

  - Passageiros do vo US Air 28 para Providenciales, podem embarcar.
  Gabe e Greta estavam no saguo de embarque da primeira classe no Bangor International Airport. Maxine dormia como um querubim de cabelos pretos nos braos da bab. 
Dois andares abaixo, no porto, um exrcito de paparazzi estava esperando, querendo tirar uma foto de Lexi a caminho da sua lua de mel.
  - Est pronta para ir?
  - Estou sim, senhor.  Pronta como sempre.
  - Bom.
  Gabe olhou para o relgio.
  Vamos, Lexi.

  O superintendente John Carey esperou cinco minutos. Depois dez.
  Devo ir l e cham-la?
  Como Lexi estava sendo to inesperadamente solcita, no queria parecer insensvel. Lembrava-se da ex-esposa quando estava grvida. Os hormnios descontrolados, 
como um hipoptamo furioso. Era possvel irritar uma mulher grvida apenas respirando. Preciso dessa confisso.
  Quinze minutos. Est comeando a ficar ridculo. Talvez eu deva levar um copo de gua para ela? . Boa idia. Aja como se estivesse preocupado com a sade dela.
  Trs minutos depois, o superintendente Carey saiu para o ptio com um copo de papel com gua. Quando o sargento de planto escutou o grito do chefe, pensou que 
estivesse tendo um infarto. Correu para fora.
  - No fique a parado! - O superintendente Carey estava apopltico. - Chame todas as unidades. A suspeita est foragida. Quero blitz nas estradas. Quero pessoal 
no aeroporto e no porto. Quero helicpteros.
  - Sim, senhor.
  - E chame Sanchez e Shaw.
  - Sim, senhor. Devo avisar algum, senhor?
  - Como quem?
  - No sei, senhor. Pensei talvez... no FBI?
  O superintendente John Carey fechou os olhos e viu sua aposentadoria na praia de Kanapaali ir por gua abaixo. Fitou o sargento.
  - No. Isso fica aqui dentro. Entendeu?
  - Sim, senhor.
  - Ela ainda deve estar na ilha.
  Eu vou encontrar aquela vadiazinha mesmo que seja a ltima que eu faa.

  A comissria de bordo sorriu para Gabe.
  - Vou acompanh-lo at sua poltrona, senhor. Por aqui. Meu nome  Catherine.
  - Obrigado, Catherine. - Ele seguiu-a at a parte da frente do avio. Max acordara havia alguns minutos e estava balbuciando feliz em seu colo. A comissria de 
bordo pensou: que lindo ver um beb no colo do pai. A maioria dos pais deixariam o beb com a bab durante o vo inteiro e abriria um jornal.
  - A propsito, parabns, senhor.
  Gabe fitou-a sem entender.
  - Foi hoje, no foi?
  - Ah! Foi sim. Obrigado. - O casamento. Parecia que j havia passado uma vida inteira.
  - A Sra. McGregor no vai viajar conosco hoje?
  - No. - Ele no se prolongou. A comissria de bordo torceu para no ter sido indiscreta, inadvertidamente.
  - Bem, de qualquer forma, desejo que sejam muito felizes.
  Gabe no sabia se ria ou se chorava.
  Eu tambm, Catherine. Eu tambm.

  Estava to escuro que Lexi mal conseguia ver as prprias mos na frente do rosto. Escutou as ondas baterem. Segurando a mo do irmo com fora, ela seguiu pel 
trilha suja at a gua.
  - Danny! - chamou Robbie baixinho na escurido. - Est a?
  - Bem aqui.
  Iluminado por um lampio a gs porttil, um rosto familiar saiu das sombras.
  - Ei, Lexi. Quanto tempo.
  - Meu Deus! Danny French? - Lexi o abraou. - No acredito.
  Lexi conhecia Danny French desde que era menininha. Eles costumavam brincar juntos nas frias em Dark Harbor. Uma vez, quando Lexi tinha 13 anos, eles at se beijaram 
embaixo da rede de pescador do pai dele. No o via havia dcadas.
   - Robbie lhe contou?
   - Ele me disse que est com problemas. Para mim,  suficiente. Suba a bordo.
  Segurando o brao de Lexi, Danny acompanhou-a at o cais apodrecido no final da trilha e a ajudou a entrar no pequeno barco pesqueiro. Havia um esconderijo improvisado 
embaixo de algumas redes e lonas. Fedia a peixe. Lexi no ficaria mais grata a ele se a estivesse acompanhando  sua sute no Ritz.
  - Obrigada. - A voz dela estava engasgada de emoo. Nunca fizera nada por Danny French para merecer este tipo de lealdade. Danny devia estar no meu casamento, 
no um bando de senadores estpidos. Quando vou aprender?
  - De nada. Pensei assim: "Se algum sabe sair de uma enrascada, esse algum  Lexi." Quando tudo estiver resolvido e voc for podre de rica de novo, pode pagar 
a minha hipoteca. Fechado?
  Lexi sorriu.
  - Fechado.
  Danny ligou o motor do barco.
  Robbie Templeton ficou olhando da areia at que a escurido envolvesse sua irm completamente. No fazia idia de quando, ou se, veria de novo.

  Captulo 32

    - Quer que eu lhe traga alguma coisa antes de aterrissarmos, senhora? Uma toalha quente, talvez? Algo para beber?
  Greta Sorensen balanou a cabea. Apontou para a trouxinha cor-de-rosa em seu colo.
  - No quero acord-la.
  - Ela foi to boazinha, no? - A comissria de bordo sorriu. - Acho que nunca vi uma nenm viajar to tranqila quanto ela.
  - Ela gosta de dormir. Puxou ao pai.
  Do outro lado do corredor, uma pilha de cobertores se meixa para cima e para baixo, seguindo um ritmo. O nico sinal de que havia um ser humano ali embaixo era 
o tufo de cabelo branco saindo por cima.
  - Que Deus o abenoe - disse a comissria.

  O superintendente Carey estava ao telefone.
  - O que voc tem para mim?
  - Eles reservaram a sute da lua de mel no Amanyara. Em Turcas e Caicos.
  O detetive Antonio Sanchez falava rpido.
  - Voos?
  - Ambos tinham passagens marcadas para o vo de 21h15 para Providenciales. Mas Gabe McGregor mudou a passagem esta tarde, lodo depois que chegamos na casa. Ele 
cancelou a reserva da esposa e comprou para a bab e para a menininha. No cancelou a dele.
  - Ele foi para a lua de mel sozinho? Deixando a esposa na cadeia?
  - Sim, senhor. Parece que sim. Ele deve estar voando neste momento.
  - Hmmm. - O superintendente Carey pensou um pouco. - Mais alguma coisa?
  - Sim, senhor. - Havia um tom de animao na voz do detetive Sanchez. - Logo depois que ele cancelou a primeira passagem, fez uma terceira reserva. Tambm para 
Providenciales, em um jatinho particular. Esse vo deve sair de Bangor  meia-noite de hoje com 12 passageiros.
  O corao do superintendente Carey estava palpitando.
  - No nome de quem?
  - Essa  a melhor parte. O nome da passageira  Wilson. Jennifer Wilson.
  O superintendente Carey fechou os olhos. O nome lhe dizia alguma coisa, mas no conseguia se lembrar bem... Finalmente caiu a ficha.
  Claro! Jennifer Wilson. Presidente da Cedar International. Presidente da DH Holdings. Pseudnimo de Lexi Templeton nos negcios.
  Ser que Lexi realmente achava que seria assim to fcil? Que poderia usar um nome falso e ir se juntar ao marido na lua de mel, como se nada tivesse acontecido? 
Talvez tenha sado impune por tanto tempo que acreditasse que era inatingvel. Bem, no desta vez, doura. Peguei voc.
  O superintendente Carey desligou e olhou para o relgio.
  Precisava ir para o aeroporto.

  A mulher loura com culos escuros enormes entregou o passaporte para o funcionrio do aeroporto.
  - Poderia, por favor, tirar os culos, madame. Preciso ver seu rosto.
  Ela fez o que ele pediu. Por alguns momenntos tensos, o homem a fitou em silncio. Depois, sorriu.
  - Tenha uma boa viagem, Srta. Wilson. Espero que goste de Turcas e Caicos.
  - Obrigadsa. Vou gostar sim.

  Gabe olhou pela janela do avio. O tapete de nuvens abaixo parecia to macio e aconchegante. Tranqilo.
  Pensou em Lexi. onde estaria ela agora? Detestava no saber. Gabe fizera a sua parte. Mas ser que Lexi fizera a dela? Estava a salvo? Mesmo se estivesse - mesmo 
se por algum milagre o plano dela desse certo -, o que fariam depois? Perguntava-se o que o futuro guardava para eles. Que tipo de vida teria a pequena Max, sendo 
criada como filha de uma criminosa foragida?
  Ou melhor, dois criminosos. Agora, j estava atolado at o pescoo.  tarde demais para voltar atrs.
  Gabe pensou em Eve Blackwell. Como o dio e a amargura dela destruram tantas vidas. Seria a dele uma dessas vidas? E a de sua filha.
  Escutou a voz de seu pai, aquele forte sotaque escocs: "Os Blackwell arruinaram esta famlia. So todos uns ladres, nada alm de ladres!"
  - O senhor est bem? Deseja alguma coisa?
  Lexi  uma ladra. Mas eu a amo. No posso evitar.
  - No, obrigado. Estou bem.

  O superintendente Carey sentiu que sua presso estava comeando a subir.
  - Que trnsito  esse? Ligue as sirenes.
  O motorista hesitou.
  - Achei que fossemos fazer isso discretamente, chefe?
  - Ligue a maldita sirene e ande logo!
  O superintendente Carey decidira ir pessoalmente ao aeroporto. Era uma misso importante demais para confiar a algum subordinado. Se a notcia de que Lexi Templeton 
tinha fugido da custdia da polcia - da custdia dele - se espalhasse, seria alvo de deboche. No podia deix-la entrar naquele avio.
  Finalmente, chegaram. O superintendente Carey saiu do carro antes que freasse.
  - Porto 62, chefe. - A voz de Sanchez soou em seu fone de ouvido.
  O superintendente Carey estava correndo. Suas bochechas queimavam, suas calas amarrotadas roavam em sua camisa e sua camisa branca estava encharcada de suor.
  Meia-noite exatamente. Ser que o avio j decolou?
  As telas ainda anunciavam: Porto 62. Fechando. Alguns passageiros noturnos vagavam pelo aeroporto. O superintendente Carey abriu espao entre eles a cotoveladas. 
Rpido!
  Acelerou o passo, descendo o corredor!
  Porto 46... 52... 58... Ofegante, fez uma curva. Ali estava. Porto 62.
  Merda.
  O porto 62 estava completamente deserto.
 
 Captulo 33

  A loura de culos escuros grandes sentiu o tremor do avio que se preparava para decolar. Agarrou as laterais da poltrona.
  - Medo de avio? - perguntou o homem sentado ao seu lado.
  - No costumo ter. S estou um pouco estressada esta noite.
  - No fique. Pense que amanh estar deitada na praia, embaixo de uma palmeira sem nenhuma preocupao.
  A loura pensou: sem nenhuma preocupao? No seria timo?

  Um comissrio de bordo apareceu atrs da mesa. O superintendente Carey mostrou seu distintivo. Estava to ofegante que mal conseguia falar.
  - Eu... Polcia... Preciso entrar naquele avio.
  - Sinto muito, senhor - comeou o comissrio. -  impossvel. A tripulao j fechou as portas.
  - No me venha com essa baboseira, Nancy Drew. Agora escute. Fale com eles pelo rdio e mande abrir as malditas portas, agora ou eu mesmo vou providenciar para 
que voc passe o resto da vida usando suas bolas como brincos.
  O comissrio adorava maches, principalmente policiais. Infelizmente, esse policial tinha idade para ser seu pai, era mais gordo que Papai Noel e fedia a queijo 
estragado. No que fosse fazer alguma diferena se fosse o irmo gmeo de George Clooney. No podia fazer nada.
  - Sinto muito, senhor. Eu realmente no posso fazer nada.
  Ele se virou e olhou pela janela. O superintendente Carey seguiu seu olhar.
  O jatinho de 12 passageiros j estava acelerando na pista. Segundos depois, suas asas estremeceram conforme decolava.

  Notcias ruins corre rpido. O superintendente Carey levou um minuto inteiro para se despedir de sua aposentadoria dos sonhos no Hava. Foi mais ou menos o mesmo 
tempo que o jato levou para desaparecer de sua vista, as luzes de sua cauda sendo engolidas pela escurido.
  Logo, estava ao telefone.
  Uma hora depois, um grupo de oficiais seniores da Interpol nas Antilhas foi acionado. Uma comitiva iria receber primeiro o vo de Gabe, depois o de Lexi no aeroporto 
de Providenciales. Ambos seriam presos assim que aterrissassem e imediatamente repatriados para os Estados Unidos. Depois disso, seriam problema do FBI.
  O superintendente Carey sentiu a amargura em seu peito.
 Feliz lua de mel, Sra. McGregor.
  Espero que joguem a chave fora.

  Captulo 34
  
  Os passageiros do vo US Air 28 saram para o saguo de desembarque do aeroporto de Providenciales em Turcas e Caicos parecendo exaustos. J eram quase 2h30, horrio 
local. Mulheres com olheiras to grandes quanto suas bagagens de mo seguravam bebs chores enquanto os maridos pegavam as malas. O oficial da Interpol analisou 
todos. Estava procurando um beb em particular.
  - L esto eles.
  Saindo pelas portas, o trio foi reconhecido na mesma hora, apesar da echarpe de seda que o homem usava cobrindo o nariz e a boca. O oficial da Interpol lembrou-se 
da ordem.
  Mulher sueca, 31 anos, loura, com um beb recm-nascido. Home de cabelo branco, 1,85m. (Alguem deve ter se enganado. Esse cara no tinha nem 1,80m.) Pouca bagagem.
  Acompanhado por trs colegas, o oficial seguiu em frente. Colocou a mo sobre o ombro de Greta Sorensen. Os dois outros oficiais cercaram o acompanhante dela, 
enquanto uma policial tentava pegar o beb.
  - Com licena, senhorita. Senhor. Poderamos conversar um minuto?
  O homem abaixou a echarpe, mostrando um rosto mais enrugado. Devia ter, no mnimo uns 70 anos. Quando ele falou, tinha um forte sotaque europeu.
  - Qual  o problema, oficial?
  - Voc no  Gabriel McGregor!
  Paolo Cozmici sorriu.
  - Realmente no sou. A companhia area no avisou?
  - Avisou o qu?
  - Que eu viajaria no lugar do Sr. McGregor. Foi tudo bem aberto, posso garantir, oficial. So os malditos paparazzi, entende? Eles seguem Gabe e Lexi para todos 
os lugares. Piorou tanto com o casamento que eles decidiram vazar informaes falsas sobre a lua de mel, para despist-los.
  - Para despistar a imprensa? - O oficial da Interpol virou os olhos. Esse cara estava falando srio?
  - Certo. A US Air foi muito solcita. - Paolo parecia satisfeito. - Greta e eu somos iscas! No  fabuloso!
 Ah, .  mesmo fabuloso.
  - Senhor. - A oficial deu um tapinha no ombro do chefe.
  - Agora, no, Linda. - Ele se virou para Paolo de novo. - Ento, est me dizendo que, se eu ligar para a sede da US Air agora mesmo, eles saberiam sobre toda essa 
encenao de vocs?
  - Exatamente. - Paolo riu. - Achei um tanto engenhoso.
  - Desculpe, senhor - disse a policial. - Mas realmente acho que devia ver isto. - Ela entregou a ele a trouxa que Greta Sorensen entregara a ela um momento atrs. 
O oficial da Interpol arregalou os olhos. Jesus Cristo.
  No tinha beb nenhum.
  Dentro dos cobertores cor-de-rosa havia uma boneca de plstico do tamanho de um beb de verdade.

  Gabe sentiu um pulo quando o avio atingiu o solo da pista. Em seu colo, a verdadeira Max estava berrando.
  - Ela logo ficar bem - disse a comissria, tentando ajudar. Catherine Blake tinha sido contratada havia pouco tempo para trabalhar no jatinho particular de Gabe 
e Lexi. Queria que o novo patro gostasse dela. - Vou preparar uma mamadeira. Quando ela comear a sugar, os ouvidos vo desentupir.
  - Vo mesmo? OK. - Gabe gritou sobre o barulho. - Vamos tentar, ento.
  Sacudindo a filha nos braos, desejou que Lexi estivesse aqui. Ela saberia o que fazer.
  - Quanto tempo at decolarmos de novo?
  - No muito, senhor. Devemos reabastecer em uns quarenta minutos. O piloto avisar nosso plano de vo.
  - OK.
  Gabe suspirou. S queria que tudo isso acabasse.

  Quando o segundo avio aterrissou em Turcas e Caicos uma hora depois o oficial da Interpol estava l para receb-lo.
  - Jennifer Wilson?
  - Sim? - A loura sorriu educadamente.
  - Poderia tirar os culos, por favor?
  - Claro.
  Ela era bonita. Definitavamente linda.
  Mas no era Lexi Templeton.
  Nem a responsvel pelo plano. Jennifer Wilson era apneas uma secretria que trabalhava na Kruger-Brent havia anos. Lexi Templeton escolhera um nome que conhecia 
para ser seu pseudnimo. Mas isso no era nenhuma surpresa. A maioria das pessoas fazia isso. A Jennifer Wilson de verdade no imaginava em que estava se metedno 
quando aceitou a oferta de Gabe para uma viagem com todas as despesas pagas. Uma recompensa pelos seus leais servios.
  - Estou com algum tipo de encrenca? - O rosto de Jennifer Wilson se contraiu, monstrando ansiedade. O policial parecia irritado.
  - No, senhora - O oficial da Interpol suspirou. - Ma algum certamente est.

  A Interpol culpava a polcia local. A polcia local culpava o FBI. Por que ningum checou com a companhia area? Todo mundo culpava John Carey, o babaca do Maine 
que deixou Lexi escapulir entre seus dedos.
  Em uma audiconferncia nas primeiras horas da manh, o agente do FBI responsvel pelo caso, pensou em voz alta.
  - Voc acabou de exeecutar uma das maiores fraudes financeiras da histria dos Estados Unidos. Voc tem um dos rostos mais reconhecidos do planeta. Est fugindo 
com seu marido igualmente reconhecvel e um beb recm-nascido. Para onde diabos voc vai?
  De algum lugar do outro lado do mundo, uma voz ecoou do telefone.
  - Para algum lugar que no tenha tratgado de extradio com os Estados Unidos.
  - De preferncia com praias de areia branca, palmeiras e um hotel cinco estrelas decente - disse outro brincalho. Todo mundo riu.
  O agente do FBI ficou em silncio por um momento. Ento, riu tambm. Estava na cara.
  Claro.
  Sei exatamente onde eles esto.

  Captulo 35

  A luz do sol invadiu o cmodo muito branco. Gabe abriu os olhos e logo fechou de novo.
  - Que horas so?
  - Quase meio-dia. Voc dormiu muitas horas.
  Lexi estava andando pelo quarto nua, abrindo as persianas de madeira. Do lado de fora, o oceano ndico batia na areia. A vila particular deles na praia tinha, 
de um lado, uma vista espetacular do mar e, do outro, a ilha paradisaca de Ilhuru. Lexi comprara a casa anos atrs por uma mixaria, quando os imveis nas Ilhas 
Maldivas despencaram. Agora, era de novo um imvel valioso.
  Valioso no. Inestimvel.
  Havia uns cinqenta pases espalhados pelo mundo que no tinha acordo de extradio com os Estados Unidos. Infelizmente para Lexi, a maioria deles era impossvel 
de entrar, principalmente sem aviso prvio, ou eram lugares horrorosos que faziam as prises federais parecerem atraentes. Lexi no tinha a menor inteno de criar 
Maxine em um campo de refugiados no Camboja, nem acabar com um item extico no cardpio da Guin Equatorial.
  E por que eu deveria, se tenho a casa perfeita para a minha lua de mel esperando por mim?
   - Onde est Max? - Gabe sentou ereto na cama. Estava suando. - O bero est vazio! Algum a pegou!
  - Relaxe. - Lexi se aproximou para beij-lo. - Ela est l embaixo com a empregada. Estamos seguros aqui, amor. Estamos juntos. No precisa se preocupar. - Puxando 
o lenol, ela deitou ao lado dele.
  - Vamos fazer amor.
  Era a primeira vez deles como marido e mulher e foi lindo. Lexi poderia estar cansada. Levara um dia e meio para chegar aqui. Trinta e seis horas em que no comeu 
nada nem dormiu mais do que alguns minutos.
  Depois que Danny French levou-a de barco a salva at o continente, ele dirigiu duas horas at a fazenda de um amigo, na regio rural do Maine. De l, Lexi pegou 
uma carona em um pequeno avio pulverizador at um aeroporto particular onde um jatinho esperava para lev-la at Le Touquet no norte da Frana. Depois para Londres, 
trocando de avio de novo para a parte mais longa da jornada.
  Gabe j estava na vila quando Lexi chegou, desmaiado na cama com um brao protetor apoiado sobre o bero de Max. Ela tocou no brao dele e ele acordou, abraando-a 
com fora, o alvio que sentia era intenso demais para ser colocado em palavras. Segundos depois, ambos estavam em um sono profundo.
  Agora, deitada nua nos braos de Gabe, depois de fazerem amor, Lexi se sentia mais acordada e viva do que jamais se sentira na vida. Tinha tanta coisa para fazer. 
Saiu da cama e abriu o armrio, procurando alguma coisa para vestir. Nenhuma das roupas lhe era familiar. No vinha a essa casa havia anos.
  - Por que a pressa? - Gabe bocejou, observando-a descartar um vestido atrs do outro. - Estamos em lua de mel, lembra?
  - Eu sei, amor. Mas tenho um almoo de negcios no Angsana Resort. No posso aparecer nua. - Escolhendo um vestido de vero marrom e simples, Lexi passou-o pela 
cabea.
  - Um almoo de negcios? Aqui? Est falando srio? Com quem, pelo amor de Deus?
  - Com meu advogado, claro. - disse Lexi. - Ele chegou ao hotel ontem  noite, exatamente como combinamos. Se algum pode provar a minha inocncia, esse algum 
 Mark Hambly.
  - Amor - disse Gabe, baixinho. - Voc no  inocente.
  Lexi fitou-o de forma repreendedora.
  - De que lado voc est?

  Mark Hambly tomou um gole deleitante de seu Chablis gelado e entregou a Lexi a ltima edio de The Wall Street Journal.
  - Parabns. Voc est na primeira pgina.
  Lexi leu rapidamente a matria. Como sempre, o jornal estava assustadoramente correto sobre os fatos. Ficou mais interessada em sua foto. Algum espertinho conseguiu 
tirar uma foto sua vestida de noiva. Estava deslumbrante. Acertei em cheio em escolher algo antiquado. Devolveu o jornal.
  - Precisa me tirar dessa, Mark.
  - Vou dar tudo de mim.
  - No posso ficar aqui, eu enlouqueceria. Preciso voltar para os Estados Unidos.
  - Devagar, OK? Voc acabou de sair dos Estados Unidos. E no foi nada fcil.
  - Quero a minha empresa de volta.
  Mark Hambly riu.
  - Uma coisa de cada vez, Lexi. Vamos nos concentrar em mant-la fora da priso, certo?
  - O que voc sugere?
  Mark explicou as vrias possibilidades para uma defesa: todo mundo sabia que Eve Blackwell era mentalmente perturbada. O superintendente Carey no seguiu os procedimentos 
apropriados.
  - Mas a nossa melhor aposta, honestamente,  jogar toda a culpa nesse Kolepp. No sei o que voc acha.
  Lexi balanou a cabea.
  - De forma alguma. No posso fazer isso com Carl.
  - Por que no? Esse cara est no Paraguai. Cheio da grana. Feliz da vida.
  - Mesmo assim...
  - Pense a respeito. Os federais no podem fazer nada contra ele. E que motivos Kolepp tem para voltar?  Nenhum. Ele no  casado. A empresa dele acabou.
  Lexi pensou. Mark tinha razo.
  - Ou... - o advogado tomou outro gole de seu vinho. - Voc poderia fazer o mesmo que Kolepp.
  Lexi franziu a testa.
  - Como assim?
  - Esquecer de voltar para casa, se estabelecer aqui, relaxar, se aposentar. Refazer sua vida. Suponho que tenha fundos em parasos fiscais que possa acessar.
  - Naturalmente.
  - Ento, por que no? Existem muitos lugares piores.
  Lexi olhou para o tranqilo mar azul. Veleiros iguais apareciam no horizonte, banhados por raios de sol amarelo-claros. Pensou em Gabe, ainda nu e dormindo na 
cama deles. E em Maxine, satisfeita e adormecida no colo da empregada. Eu os amo tanto. Por um momento, a felicidade a inundou.
  Ento, pensou em Eve Blackwell. E a felicidade se transformou em ira.
  - No. Eu preciso voltar.
  - OK. - Mark levantou uma sobrancelha. - Voc  quem sabe. Mas entenda, mesmo se eu conseguir livr-la da acusao de fraude, haver toneladas de processos civis 
contra voc. Seus negcios nos Estados Unidos no vo mais ser levados a srio. Vo declarar a sua falncia. A de Gabe tambn... No posso proteg-lo disso.
  - Eu sei.
  - Voc ficar pobre. Voc no sabe como ser pobre.
  - Eu sei. mas a Kruger-Brent...
  Mark disse bruscamente.
  - A Kruger-Brent est acabada, Lexi. sinto muito. Mas voc precisa encarar a realidade. No tem como mais sair dessa. No desta vez.
  Voc est errado. Tem um jeito. Sempre tem um jeito.

  Naquela tarde Lexi estava caminhando sozinha na praia. A gua do mar estava to quente quanto a de um banho de banheira molhando seus ps. Uma leve brisa afastou 
o cabelo de Lexi.
   to tranqilo aqui.
  Gabe e Maxi estavam na vila. Mark Hambly j estava em um avio, voltando para Nova York para enfrentar o problema de Lexi. No levaria muito tempo para se espalhar 
a notcia de que ela e Gabe estavam na ilhas Maldivas. Quando isso acontecesse, a tranquilha ilha de Ilhuru se tornaria uma zona de guerra. Os paparazzi atacariam 
por terra, ar e mar. Lexi teria de se isolar em sua vila. Era linda, mas ainda era uma priso. Precisava saborear sua liberdade enquanto durasse.
  Sentando-se na areia, ela desdobrou um papel. Ela a recebera dois dias atrs, mas a carta de Eve j estava gasta de tanto ser manuseada. Agora Lexi leu pela ltima 
vez. A bonita caligrafia de sua tia saltando da folha.
  
  425, Quinta Avenida,
  Nova York
  12 de outubro de 2025

  Querida Alexandra,
  Posso cham-la de Alexandra? Claro que posso. Se voc estiver lendo isto, eu j terei ido me encontrar com a minha querida irm, sua me, no inferno. Os mortos 
podem fazer o que quiserem.
  Todos acham que estou maluca. Mas no estou. Sou a nica da famlia que manteve a cabea no lugar. Eu deveria estar dirigindo a Kruger-Brent desde o incio. A 
nada disso teria acontecido.
  Sei o que voc fez. Sei de tudo. Voc estava certa em se livrar do meu filho. Max era um tolo, fraco como o pai. Mas voc realmente achou que fosse escapar depois 
de levar a minha empresa  falncia? Voc  uma ladra, Alexandra. Roubou dos acionistas e roubou de mim, assim como a sua me. Ladres precisam ser punidos.
  A polcia est a caminho. Mandei outra carta para eles, detalhando tudo. Voc no tem escapatria, Alexandra. No desta vez. Voc e seu amigo, o Sr. Kolepp, podero 
pensar em como a vida poderia ter sido do conforto de suas celas na priso. Priso  pior do que voc pode imaginar, Alexandra. Acredite em quem sabe.
  Que Deus amaldioe voc e seus filhos, assim como amaldioou a mim e ao meu filho.
  Adeus, Alexandra.
  Sua devota tia,
  Eve

  Com a carta ainda nas mos, voando na brisa tropical, Lexi levantou a saia e entrou no mar. Andou at que a gua cobrisse suas coxas. Ento, lentamente, deliberadamente, 
comeou a rasgar o papel em pequenos pedaos, jogando-os nas ondas como confetes.
  Adeus, tia Eve.
  J vai tarde.
  Eu posso no ter vencido o jogo. Ainda no. Mas ainda estou aqui, jogando.
  Para Eve Blackwell acabou.
  Mas para Lexi Templeton, o jogo continuava.

FIM

  AGRADECIMENTOS

  Devo sinceros agradecimentos a todos que trabalharam duro para tornar realidade este livro. Primeiramente, a toda a famlia Sheldon, por sua confiana em mim e 
sua generosidade. Tambm a Mort e Luke Janklow, sem os quais nada disso teria sido possvel - devo muito a vocs dois - e a todos da Harper Collins de Nova York 
e Londres, especialmente a meus editores Wayne Brookes e Carrie Feron. A minha famlia por seu amor e apoio, especialmente meus pais e meu marido, Robin. Finalmente, 
gostaria de agradecer ao grande Sidney Sheldon por ser uma inspirao para mime e para tantos outros.  uma honra seguir seus passos.

  Nota da autora
  Sou uma grande f dos livros de Sidney Sheldon desde que li Se houver amanh, aos 14 anos. Quando escrevi meu primeiro romance, Adorada, enviei um exemplar para 
Sidney, junto a uma carta contando como seu trabalho havia sido inspirao para mim. Ele me enviou uma resposta muito gerenosa e simptica, que agora est na parede 
do meu escritrio em Londres. Dificilmente poderia imaginar que cinco anos depois eu teria a honra de ser convidade a escrever a continuao de O reverso da medalha, 
a pica saga da famlia Blackwell.
  Sidney Sheldon sempre foi conhecido como o Mestre do Inesperado. As marcas registradas de sua escrita so suspense, emoo e, sobretudo, tramas cativantes e envolventes. 
Suas heronas so mulheres fortes e inesquecveis - eu iria mais longe e descreveria Sidney como um feminista, mais um fator que atraiu a mim e a milhes de mulheres 
para seus livros. Mas os livros de Sheldon no encantam apenas as mulheres. Durante toda a vida, ele recebeu centenas de milhares de cartas de homens e mulheres 
que sentiram a necessidade de relatar a ele a importncia que os livros tiveram em suas vidas. Seus leitores so to diversos como seus personagens: princesas e 
plebeus, chefes da mfia e prisioneiros no corredor da morte, pacientes de cncer e magnatas gregos da navegao. Todos foram seduzidos por sua narrativa. E essas 
histrias permanecem vivas.
  Escrever A senhora do jogo foi mais divertido do que qualquer trabalho pode ser. Espero sinceramente que os fs de Sheldon gostem do livro tanto como gostaram 
das histrias de Sidney, e que talvez uma nova gerao de leitores tenha a sorte de conhecer a magia do incomparvel Sidney Sheldon.
T. B., 2009

  

  
